Ela vem à Flip, Lila Azam Zanganeh (dia 5, mesa 6, às 12 horas).
Vem conversar com Francisco Bosco sobre o prazer do texto.
Roland Barthes tem um livro muito lindo com esse título, “O prazer do texto” (Perspectiva, 1987).
E o livro de Lila é sobre a euforia da leitura.
Adorei o livro que descreve o deslumbramento recíproco entre o leitor, o autor e o texto.
A literatura vive, o escritor vive no texto, o texto fala, o leitor transforma, fantasia, cria, recria, multiplica; finalmente escreve.
E outro leitor – agora eu – lê. Estamos todos na nuvem da imaginação, das palavras, das impressões.
Lila passa para o leitor seu encanto com Vladimir Nabokov, a quem ela chama, carinhosamente, às vezes, de VN.
O livro não é uma biografia, não é uma autobiografia, não é ensaio, mas é quase tudo isso.
Ao terminar, o leitor conhece, de Nabokov, só o que ele e seus textos têm de bom.
A autora fez rigorosa pesquisa e tudo o que há no livro é verdade (há precisa indicação de fontes).
Porém, como ela não se propôs a escrever uma biografia, teve a liberdade de falar só sobre a felicidade de Nabokov e sobre a sua própria felicidade ao desvendá-lo.
Sobre sua obsessão, como ela mesma assume, sem medo.
É uma escritora corajosa e generosa.
Representações de Fabíola na Pinacoteca
22 de junho de 2013As imagens do mesmo rosto estão lá, na parede vermelha (depois de escrever olhei as fotografias e percebi que a parede é azul) .
Primeiro tive a impressão de que eram todas iguais, a mesma imagem da mesma moça (Santa Fabíola).
E fui ler as explicações.

Descobri que as imagens correspondiam a retratos pintados por pessoas diferentes de uma mesma pintura, que se perdeu.
E o artista que concebeu a exposição (Francis Alÿs) recolheu essas imagens em lugares diferentes. E formou a coleção, que agora está na Pinacoteca, em São Paulo, e lá ficará até 7 de julho.
Fiquei um tempo na sala observando as muitas diferenças. Em um primeiro olhar, pareciam iguais. Depois, percebi que eram muito desiguais. Porém, cada pintor acreditou estar fazendo uma cópia, talvez até uma cópia fiel. A sua versão.
Ou, ainda, desenhou de memória.
Ou, ainda, quis representar.
Sua memória provavelmente trabalhou como a minha quando imaginei a parede vermelha da sala da exposição. Que era azul.
A grande questão é que a imagem original de Fabíola desapareceu. Perdeu-se a matriz. O parâmetro. E, assim, cada imagem ficou outra. Ainda assim, todas muito semelhantes.
Está escrito, na explicação na Pinacoteca, que o artista discute, também, autoria e originalidade. Eu, sinceramente, não sei se é só isso. Ele deve discutir, também, homogeneidade. A mesma devoção pela mesma santa. Devoções distintas.
Em um dos retratos, quase se podem ver os olhos do pintor refletindo a beleza.
É comum ouvirmos dizer que as ideias efetivamente originais, na verdade, são poucas. Nossas ideias são transformações de fragmentos de outras e, assim, tornamo-nos contemporâneos, eu acho.
Contemporâneos autênticos.
Se eu me fechasse por meses no quarto, sem assistir TV, ler jornal, ler facebook e internet em geral,
sem ler romance ou livro algum, acabaria escrevendo outro tipo de texto. Ou, quem sabe, eu não escrevesse de jeito nenhum.
Se tivesse uma caneta e cadernos, desenharia casinhas e árvores com maçãs, minhas primeiras expressões.
Diversas casas com jardins, caminhos até a porta de entrada, e muitas macieiras, infinitas macieiras.
E eu que não sei desenhar.
Romance policial (3): Grupo de leitura na Pauliceia Literária – Em defesa de Jacob, de William Landay (Record)
11 de junho de 2013Em setembro acontece, em São Paulo, a Pauliceia Literária 2013 (www.pauliceialiteraria.com.br), realização da Associação dos Advogados de São Paulo com curadoria de Christina Baum.
A programação inclui prévios grupos de leitura sobre livros de escritores que participarão de mesas e debates. Estive na AASP ontem para o primeiro grupo de leitura.
Discutimos Em defesa de Jacob, do norte-americano William Landay (http://www.williamlanday.com).
A Pauliceia Literária é realização de importante associação de advogados e é natural que, no contexto, sejam debatidos romances policiais de diversos estilos. E a conversa em torno dessa literatura interessante e especial proporciona, evidentemente, reflexão sobre sistemas jurídicos de punição.
Há várias razões para se ler um bom romance policial. Renato Mezan, em artigo publicado na coletânea Escritas do desejo: crítica literária e psicanálise, “Por que lemos romances policiais?” (Ateliê Editorial, p. 127-158), discorre longamente sobre o assunto.
O prazer de ler o romance policial está na curiosidade, na participação do leitor em um jogo que transforma o crime em problema intelectual cuja resolução lida com medo e angústia sublimados na investigação.
Renato Mezan relata conclusões da psicanalista francesa Sophie de Mijolla-Mellor relacionadas ao estudo da obra de Agatha Christie: quem gosta do gênero sabe que a história é de ficção, mas ainda assim a leitura mexe com dúvidas latentes sobre sexo, vida e morte. Ele escreve: “Talvez resida aí o apelo mais forte do gênero: por meio do que propõe em cena, ele mobiliza elementos psíquicos há muito esquecidos, mas que nem por isso perderam sua eficácia dinâmica- e a arte do escritor nos permite desfrutar deles sem risco nem culpa” (p. 158).
Ontem, no grupo de leitura, muitos temas vieram à tona: relação entre pai e filho, entre marido e mulher, dinâmica familiar, relação entre autoridade que investiga e colegas de trabalho, entre autoridades e advogados, sistemas de punição brasileiro e norte-americano, importância da defesa no processo penal, comunicação em redes sociais, adolescência, bullying.
Tudo isso está no livro e foi debatido pelo grupo formado por coordenador competente – Leonardo Sica – e leitores sensíveis e atentos.
Há alguns anos atrás, advogados e agentes políticos da persecução penal falavam muito pouco com a sociedade. Quando o faziam, usavam conceitos técnicos complexos e nem sempre bem compreendidos. Hoje, a situação é bem diferente. As pessoas querem saber como são feitas as investigações e os julgamentos e querem dar sua opinião.
Ao realizar a Pauliceia Literária, a AASP integra literatura e direito, mundos diferentes, mas focados, ambos, na difícil arte de conviver.
Domingo à tarde no Espaço Parlapatões: Cantos Negreiros
26 de maio de 2013Domingo à tarde. Espaço Parlapatões, Praça Roosevelt. Documentário: SP-Solo Pernambucano (Wilson Freire e Leandro Goddinho): trajetória do escritor Marcelino Freire de Sertânia a São Paulo. A mãe de Marcelino. A casa. Aquela cidade com nada e tudo, tudo e nada. Voltar e recontar, descobrir o que tinha lá. Marcelino foi a Sertânia com sua mãe, fizeram o caminho com coragem. Coragem é importante para eternizar as pessoas eternas.
Depois do filme, participação poética especial de Nelson Maca e o grande show Cantos Negreiros: Marcelino Freire e Aloísio Menezes. Marcelino sempre fez o show com a cantora Fabiana Cozza. Agora em São Paulo ele fez com Aloisio Menezes, de Salvador, Salvador do mundo todo. Ele e seus músicos maravilhosos cantando e fazendo percussão. Marcelino falando seus Cantos Negreiros. Fala e canto intercalados. Sempre a música. A voz de Aloisio Menezes é linda e poderosa.
Cheguei em casa e fui procurar na internet porque queria ouvir mais. Encontrei um CD gravado com Guga Stroeter e Orquestra HB: http://www.aloisiomenezes.com/discografia.
Ouvir Marcelino falando e interpretando sua escrita é sempre surpreendente. Os textos lidos e relidos são sempre inéditos, chacoalham cada vez de um jeito.
Aí tive vontade de escrever.
Romance policial (2): algumas características, segundo P.D.James
19 de maio de 2013É claro que os romances policiais são escritos a partir de algumas fórmulas. Que não precisam ser seguidas sempre, é óbvio. Mas é divertido conhecer as regras.
Li, faz pouco tempo, Segredos do romance policial: história das histórias de detetive, de P.D.James (São Paulo, Três estrelas, 2012).
Em um dos capítulos finais, intitulado “Contar a história: canário, ponto de vista, gente”, está:
1)- O cenário torna a história crível na literatura de crime;
2)- Histórias de detetive desenrolam-se bem em comunidades fechadas;
3)- Arquitetura e casas precisam ser descritas porque as pessoas são influenciadas pelo ambiente;
4)- Descrição do encontro do corpo é uma das partes mais importantes do romance policial, o leitor precisa sentir o desconforto, o horror, o choque da morte drástica;
5)- O detetive deve estar inserido em um ambiente facilmente identificado pelo leitor;
6)- O ponto de vista é importante, o leitor não pode acompanhar pensamentos do assassino;
7)- Narrativa em primeira pessoa dá credibilidade à história;
8)- A vítima não precisa ser simpática, pois ela provocou o ódio do assassino;
9)- Gosto dessa frase: “Assassinato é o crime ao qual nenhum outro se compara, e sua investigação dilacera a privacidade tanto dos vivos como dos mortos. Esse estudo de seres humanos sob o estresse desse teste autorrevelador é que constitui para um escritor a maior atração do gênero” (p. 136).
Comecei a escrever um romance que quer ser policial. Será meu segundo romance.
O primeiro, “Viagem sentimental ao Japão”, será publicado no segundo semestre. Não é uma história de detetive.
É uma narrativa sobre as narrativas de viagens, reais e imaginárias.
É a narrativa de Anette.
Jardim Alheio na Martins Fontes: Ricardo Lísias
23 de abril de 2013Jardim Alheio é um grupo de crítica literária formado na Casa das Rosas, em São Paulo. Conheci no facebook e resolvi conferir um de seus encontros no auditório da Livraria Martins Fontes na Avenida Paulista.
O ciclo entre 22 de abril a 13 de maio é dedicado ao escritor Ricardo Lísias.
O plano é o seguinte: no primeiro encontro, o escritor fala de sua formação, de seus textos, conta sua história. No seguinte, a equipe de Jardim Alheio fala sobre o escritor, sobre sua escrita.
Na outra semana, textos críticos são produzidos pelos participantes do ciclo e mostrados ao escritor. No último encontro, ele estará outra vez no auditório, falando sobre as críticas. Imagino que, nesse dia, todos estarão bem familiarizados com a literatura de Ricardo Lísias e ele falará de uma maneira diferente, também. Falará para pessoas que terão não apenas lido, mas escrito sobre seus livros.
A ideia do ciclo de críticas é ótima. Pena que não participei do ciclo sobre Frederico Barbosa.
Ricardo Lísias é um escritor que fala muito bem, com sinceridade e simpatia, sobre sua criação. Ele chega perto do ouvinte, estabelece comunicação. Perguntado sobre seus autores preferidos, respondeu Machado, Joyce, Kafka, Graciliano, Guimarães Rosa. Ele lê muito.
Não tem medo de ler ou ouvir críticas: espera que as últimas palavras sejam sempre as penúltimas, nenhuma opinião é definitiva. Disse que comentar um livro sem ter lido é um absurdo (e é, mesmo).
Gosta de escrever textos mais curtos enquanto escreve os longos. Escreve, ou produz, ou produz e escreve, tudo junto, um jornal literário, Silva.
Espero estar nos próximos encontros, principalmente no último.
Quero ouvir o escritor falar outra vez.
Romance policial (1) Cadernos de Agatha Christie
22 de abril de 2013Hoje começo uma série de posts sobre romances policiais. Eles me interessam. Tenho lido bastante sobre. Gosto até mais de ler sobre os romances policiais do que ler os romances policiais. No fundo, todo romance tem estrutura parecida com a do romance policial. Só que ele é mais fácil de ser compreendido: o crime é o que precisa ser desvendado. O crime, aqui, é um fato preciso e determinado no tempo. Isso dá segurança ao leitor, que não tem trabalho de tentar entender o que o autor quer dizer. Mas e se, no romance policial, surge o inesperado? Outra indagação além da autoria do crime cometido? Deve ser possível fazer isso. Acho que Roberto Bolaño, em “Os detetives selvagens”, fez isso. Mas depois falo de Bolaño. Outro dia. Hoje falo de Agatha Christie. Lia muito. Tenho aqui comigo “Os diários secretos de Agatha Christie”, de John Curran (Leya, 2010). Esse livro é muito estranho. É estranho porque o autor comenta o tempo todo e é difícil separar o que ela escreveu do que ele escreve. Ela mesma não tinha muito método para as anotações.
Algumas curiosidades: 1)-Há 73 Cadernos de Agatha Christie conhecidos; 2)- Os Cadernos são numerados de arbitrariamente. A filha de Agatha Christie determinou numeração antes dela morrer, mas isso não foi feito de maneira cronológica; 3)- As anotações eram lembretes; 4)- Ela queria ser lembrada como boa autora de histórias policiais (respondeu isso em uma entrevista).
Também achei curioso: “Parte do prazer de estudar os cadernos está no fato de não se saber o que vai ser encontrado ao virar a página. A trama do último romance de Poirot pode ser interrompida por um poema escrito para o aniversário de Rosalind; uma página em que se lê, de forma otimista, “Coisas a fazer”, está espremida entre um romance de Miss Marple e uma peça teatral inconclusa” (p.63).
Alguns escritores fazem anotações minuciosas antes de escrever o livro. Outros, não. Parece que, para os escritores de romances policiais, as anotações prévias são muito importantes. Há um raciocínio a ser observado, a história não pode ser aleatória. O autor precisa conhecer o fim? Será que ele mesmo precisa saber quem praticou o crime desde o começo? Mas e a graça de escrever?
Leitura digital
30 de março de 2013
Em “A turma de 42”, Luiz Antônio Giron, no Mente aberta, blogue da Revista Época, conta que, em 2013, obras de Robert Musil, Bruni Schulz, Roberto Arlt e Stefan Zweig entraram em domínio público, significando isso que podem ser publicadas sem correspondente pagamento de direitos autorais (http://colunas.revistaepoca.globo.com/menteaberta/2013/02/15/a-turma-de-1942).
Andando muito pela internet, vejo como é importante encontrar textos que podem ser lidos, baixados, sem medo de ferir direitos. Estão lá para serem lidos, conhecidos, comentados, desfrutados, e só.
Agora tenho, em leitor digital, a obra completa de Machado de Assis. Baixei em segundos e paguei valor praticamente simbólico. Leio Machado de Assis em minhas edições impressas, digitais e em blogues na internet. É muito legal colocar o nome de Machado no google e, aleatoriamente, encontrar um conto pra ler, qualquer conto, a qualquer momento. Tenho uma dúvida sobre um conto de Machado e resolvo no mesmo instante.
A forma de ler interfere na interpretação do texto. Ler Uns braços na internet e ler Uns braços em casa, no sofá, em livro, são experiências totalmente diferentes. Comparo Uns braços com a Missa do galo na tela do computador e penso que D. Severina e D. Conceição são sutilmente parecidas e diferentes. Como estou na internet, vou de um conto ao outro e penso que Machado nunca, mas nunca mesmo (será?) imaginou ser lido desse jeito tão volátil, inconstante e ao mesmo permanente que é o jeito digital.
O texto vira imagem, compreendo visualmente o que ele diz. Um texto dialoga com outro e não mais, apenas, com o único leitor. A comunicação é ampliada. A nova leitura participa da escrita de tal forma que é como se cada leitor reescrevesse o texto. Na interpretação, o leitor é, também, autor. Pode lê-lo como quiser e não precisa, nem mesmo, seguir sua sequência. Lê ao mesmo tempo o fim e o começo e para quando acha melhor. Não que um livro não possa ser lido do fim para o começo. Pode, mas a leitura assim é meio fora dos padrões. Na internet, dificilmente se lê algo inteiro do começo ao fim. O normal é flanar, combinar diferentes informações.
Julio Cortázar, em O jogo da Amarelinha, já fez isso. Escreveu capítulos que podem ser lidos em outra ordem, não na sequência em que publicados. Dois livros diferentes em um livro: um progride com o virar das páginas e outro em ordem diversa. Nunca li o segundo livro. O primeiro me surpreendeu do começo ao fim. Ainda é o livro que me deu vontade de escrever de verdade.
Entrevistas com escritores
13 de março de 2013Conversas entre escritores (Arte & Letra Editora, Curitiba, 2009), reúne 21 entrevistas publicadas na revista Believer. Escritores entrevistam escritores.
Sobre a conversa entre Sean Wisley e Haruki Murakami- O entrevistado é Murakami, mas é bom saber um pouco sobre Sean Wisley e fiz breve pesquisa no Google, porque nunca tinha ouvido falar dele. Descobri que escreveu um livro, Oh the glory of it all, que fala sobre sua família de certa importância em São Francisco. Parece que o livro é divertido. Segundo a Wikipedia, ele nasceu em 1970 e escreveu outro livro com Matt Weiland, chamado State by state: a panoramic view of America.
Haruki Murakami é escritor japonês que faz o maior sucesso, é muito contemporâneo. Já li, dele, Minha querida Sputnik, Do que eu falo quando falo de corrida e estou lendo, agora, Norwegian Wood. Seus personagens são jovens e todos assustados, perplexos. Vivem meio que no ar, tentando encontrar equilíbrio. Resumindo: 1)- Opiniões do escritor são diferentes das opiniões pessoais do autor sobre política ou qualquer outro assunto: é preciso ter cuidado ao emiti-las; 2)- Mulheres são condutoras de suas narrativas; 3)- A música é importante para ele; 4)- Gosta de procurar lojas de discos usados; 5)- Ele teve um bar de jazz por muito tempo; 6)- Humor é caminho para seriedade.
Recentemente, Murakami publicou, no Brasil, 1Q84. Ainda não li, mas está aqui perto e logo começo.
Murakami não diz muito, como era de se esperar. Ele é do tipo que vive nas histórias e, provavelmente, quando é ele mesmo, não gosta de falar com estranhos. Ele mesmo esclarece, no começo da entrevista, que não costuma responder às perguntas da mídia. E diz: “É assustador pensar que de muitas maneiras nós enxergamos o mundo através da mídia e nos comunicamos usando o vocabulário da mídia” (p. 160).
Sobre conversa entre Jonathan Lethem e Paul Auster- Também não conheço o primeiro. A entrevista aconteceu em 2004. No preâmbulo, lembra-se que Paul Auster foi poeta ( A Companhia das Letras acaba de lançar livro com seus poemas). A prosa de Paul Auster é instigante e envolvente porque ele escreve sobre o ato de escrever, sobre individualidade e sobre os diversos papéis representados no contexto social, não se esquecendo da importância da fantasia e do fantástico em tudo isso.
Jonathan Lethem é romancista americano e a Wikepedia traz inúmeras informações sobre ele. Seu texto mistura ficção científica e histórias com detetives. Gostaria de desenvolver esses gêneros na minha ficção, para mim o mundo não passa de um enorme ponto de interrogação sobre acontecimentos relativamente fantásticos e, às vezes, fantasmagóricos. Talvez haja monstros por toda parte e é preciso detectá-los antes que ataquem. Mas Paul Auster conta o seguinte: 1)- Tem um escritório perto de casa; 2)- Cuida de burocracias, como pagar contas, por exemplo; 3)- Gosta de trabalhar todos os dias; 4)- Escreveu roteiro de O Mistério de Lulu para Wim Wenders, que no fim não dirigiu o filme. Paul Auster assumiu o trabalho; 5)- O que mais me interessou, na entrevista, foi: “Ao longo dos anos, tenho me interessado intensamente pela artificialidade dos livros. Quero dizer, afinal de contas, quem está brincando com quem, Sabemos que, ao abrir um livro de ficção, estamos lendo algo que é imaginário. E sempre tive interesse em explorar esse fato, usá-lo, torná-lo parte da obra. Não de uma forma seca, acadêmica, ou metaficcional, mas simplesmente como uma parte orgânica da palavra escrita Quando eu era criança, pegava um romance escrito na terceira pessoa e perguntava a mim mesmo:”Quem está falando? Quem estou ouvindo aqui? Quem está contando esta história?” Posso ver um nome na capa, que diz Ernest Hemingway ou Tolstoi, mas é de fato Tolstoi ou Hemingway que estão falando?” (p. 32).
Aqui ele toca em um ponto que para mim é essencial: quem fala na ficção? Qual a diferença entre o escritor e o narrador? Como fazer com que o narrador seja completamente outro?
Pensando nisso, por coincidência, agora há pouco, li uma entrevista do escritor Luiz Bras no blogue Estudos Lusófonos: http://etudeslusophonesparis4.blogspot.fr/2013/03/luiz-bras-entra-em-cena.html.
Autor do ótimo Sozinho no deserto extremo (Prumo, 2012), Luiz Bras é um dos escritores mais destacados da literatura brasileira contemporânea. Lendo a entrevista, só posso concluir que a questão de quem fala talvez não deva ser respondida. O essencial, talvez, seja descobrir e concretizar, no texto, a voz imaginária de uma identidade que é inominável, como disse, um dia Beckett, e não sei nem se nesse preciso contexto. De qualquer forma, o escritor é quem melhor se explica: “Luiz Bras sempre morou no terceiro planeta do sistema solar. Com os gatos aprendeu a acreditar em telepatia e universos paralelos”.
No fim, percebo que Haruki Murakami, Paul Auster e Luiz Bras, em tempos e lugares diferentes, falaram a mesma coisa. Pelo menos foi como ouvi; e outras leituras são, certamente, possíveis.
Notas breves sobre Piglia, Bach, Joyce, Dimos Goudaroulis e Antonio Torres
28 de fevereiro de 20131)- Formas breves é um livro de Ricardo Piglia em que ele reflete sobre literatura em textos curtos. Breves. Acabo de reler, do livro, “Os sujeitos trágicos (literatura e psicanálise)”.
Piglia conta um caso: Joyce visitou Jung na Suíça e mostrou escritos de sua filha Lucia, que teria morrido psicótica. Ele mostrou a Jung textos dela, comparando-os aos seus, especialmente a Finnegans Wake. Jung teria dito:”Mas onde você nada, ela se afoga” (p. 55,56).
Coincidentemente, li, na página da Revista Cult na internet, entrevista que Fábio Durão deu ali, por ocasião de um curso agora em fevereiro, no Espaço Cult.
Ele diz, sobre o fluxo de consciência como modo narrativo: “A importância foi um salto admirável na verossimilhança psicológica. Os personagens passam a se parecer muito mais com você ou comigo. Mas, no Ulysses, o Joyce faz algo surpreendente: ele não se contenta com essa conquista narrativa, que expande o horizonte do representável na literatura, mas no decorrer do livro a desmancha. A partir de certo ponto (e é difícil precisar exatamente onde) aquilo que queria ser o veículo da antropormorfização, a representação acurada do funcionamento da mente, surge como um mecanismo narrativo. Cria-se, assim, uma interessante tensão entre homem e máquina, orgânico e inorgânico” (HTTP://revistacult.uol.com.br/home/2013/02/metamorfose-literaria/ ).
2)- Cheguei a aprender um pouco de piano. Toquei sete músicas simples, todas esquecidas. Mas guardei o esforço e a alegria de tocá-las. Depois desisti. Achei que tinha alcançado meu limite. O que me deixava aflita era tocar as notas do piano até o final da música, não sabia se eu ia conseguir completar a sequência nos tempos certos. Muitas vezes parava e começava de novo. Muitas vezes. A música era imprevisível; como falar em público.Lembrei disso agora.
Como falar em público: queda livre. Aprendi a seguir a partitura: paraquedas.
3)-Outro dia ouvi Dimos Goudaroulis na Casa do Núcleo. Violoncelo. Ele tocava e explicava. Falou muito da música como discurso. Bach. Ouço o CD dele, 6 suites a violoncello solo. No texto do encarte ele diz claramente que a música de Bach é uma música falada, que obedece às leis da retórica, como um discurso. O ouvinte participa do fazer a música. Dimos Goudaroulis toca fielmente o manuscrito de Anna Magdalena Bach. Foi maravilhoso ouvi-lo na Casa do Núcleo, assim como a música do CD surpreende a cada tempo.
4)- Acabo de assistir a este filme, divulgado no facebook por Antonio Torres, ele mesmo entrevistado por Marcelo Moutinho: http://www.youtube.com/watch?v=gO49pJ31-YU.
Essa terra, que li há muitos anos e ainda releio, me impressionou e impressiona muito, de um jeito que só O jogo da amarelinha, de Cortázar, tinha feito.
Só depois li Grande Sertão: Veredas e aí fiquei com uma ideia segura da literatura que cola em mim. Li todos com deslumbramento (embora os estilos sejam completamente diferentes).
Li Essa terra sem indicação ou referências; passei na livraria, vi, comprei o livro, e li. Tudo o que o escritor conta na entrevista é sincero, absolutamente profundo e ao mesmo tempo simples, delicado. A influência da música, do jazz, no ritmo de seu texto, está declarada na entrevista. Tempos, espaços, pontos.
Como a música é importante.
Sobre oficinas de escrita criativa
16 de fevereiro de 2013Escrevia diários, desabafos, cartas, inícios de contos, reflexões. Modo de organizar ideias.
De uns dez anos pra cá, exercito o impulso de escrever ficção. Imagino cenas.
E procuro meus leitores. Amigos e parentes são leitores exigentes. Leem a pessoa e não o texto, ou a pessoa + o texto. Às vezes são generosos. Interpretam o escrito a partir do nosso contexto pessoal. Quando um amigo gosta do que a gente escreve é maravilhoso. Pode acontecer que não, e ninguém tem culpa disso. Pode acontecer que o texto precise ser melhorado, mesmo, e daí?
Quando o texto ganha o próprio espaço, quando se liberta do autor, aparece a literatura.
Acabei encontrando uma professora que passou a ler meus escritos de uma maneira mais profissional, com distanciamento: Malu Zoega. Foi uma fase legal, em que me afastei de mim e pude inventar. Lemos autores brasileiros com atenção de escritor e não só para desfrutar. Porque uma coisa é ler por puro prazer e outra é ler decifrando.
Aí criei coragem e me inscrevi em uma oficina de escrita criativa. Procurando leitores desconhecidos. Escolhi o b_arco (barco.art.br), com Marcelino Freire (autor de , “Balé ralé”, “Amar é crime”, “Contos negreiros”, “Angu de sangue”). Marcelino capta, exatamente, o que está nos textos que lemos para o grupo em voz alta – e o que não está, também. Não basta escrever. Precisamos ler os próprios escritos com atitude, como se fôssemos o outro, para os outros.
Quem lê alto? (outro dia encontrei um programa de computador que é leitor automático, robótico. A gente ilumina o texto e ele lê, com voz feminina ou masculina, dá pra escolher. Meio esquisito, sempre esqueço de pegar o CD do programa).
Acho que já fiz três módulos da oficina de Marcelino e, no último, tive o maior prazer de ter aulas, também, com Luiz Bras, cuja literatura é instigante e contemporânea. Luiz não só escreve ficção (publicou, entre outros, “Sozinho no deserto extremo”) como escreve sobre a ficção (http://rascunho.gazetadopovo.com.br/tipoautor/colunista). Escreve muito, sabe muito.
Fiz, também, um módulo na Oficina de Escrita Criativa, em um andar bem alto do Edifício Itália, em jornalismo literário, com o jornalista Ivan Marsiglia. Lemos e conversamos sobre Hunter Thompson, Matinas Suzuki, Truman Capote, Gay Talese, Norman Mailer, Christian Cruz e sobre textos do próprio Ivan, super jornalista- escritor. Escrevi o Perfil de Dylan, publicado aqui, durante o curso.
Vi que dá pra escrever sobre realidade de um jeito pessoal; aprendi a brincar com a escrita na primeira pessoa, a pular para a terceira sem perder a coerência. No livro “A luta”, de Norman Mailer (Cosac Naify), ele às vezes se coloca na história como um terceiro. Refere-se a ele mesmo como Norman. É divertido.
Agora, no início do ano, fiz outro curso no b_arco: “Autobiografia, fabulação e humor”, com Newton Cannito e Eduardo Benaim. Já sabia, mas tinha só a intuição, não a técnica, que ficção se escreve a partir da própria vida transformada, virada do avesso. É legal fazer os outros darem risada. Onde está escrito que ler é o melhor remédio?
É claro que quem escreve, escreve, e não precisa fazer oficina para escrever. Cada escritor é um escritor, não adianta. E cada leitor é um leitor, escreve mentalmente a história que lê. Imaginação é assim.
Mas, ouvindo o profissional que coordena a oficina, ouvindo o outro, dá pra perceber que há semelhantes no mundo, e fica mais fácil encontrar a persistência necessária para que o texto siga seu caminho até o ponto final. Efeitos do diálogo.
Às vezes a gente se complica nos grupos; nem sempre os ouvintes gostam do nosso texto, nem sempre compreendem, nem sempre nos fazemos entender. Mas, pelo menos, estamos em um espaço de discussão interessada. É bom estar em um grupo. Mas é bom silenciar, também. Dependendo do tempo. E da chuva.
Li e vi o Cine Bijou
8 de fevereiro de 2013Eu não diria que sou uma grande leitora: às vezes não consigo me concentrar o suficiente para ler o tanto que gostaria.
Mas sou muito amiga de muitos livros, que classifico da seguinte maneira: livros que adoro (e nunca poderia ter escrito), livros que eu gostaria de ter escrito (e também adoro), livros que respeito, livros para consulta (sociologia, história, filosofia), biografias, autobiografias, livros que ainda vou ler. É mais ou menos assim.
Entre os livros que gostaria de ter escrito está “Minhas férias”, de Marcelo Coelho, editado já faz um tempo pela Companhia das Letrinhas. Nós adoramos em casa – todo mundo gostou. É bem escrito e a gente se identifica com o narrador. Não é um livro infantil, é pra toda a família. É curto e vai além do texto, chega ao coração.
Marcelo Coelho agora lança outro livro muito bom: Cine Bijou, com ilustrações de Caco Galhardo (Cosac Naify). Fala tudo o que é importante: o que foi o Cine Bijou em São Paulo, o que significou em determinada época , que tipo de filme passava lá, o que tinha em volta do cinema, quem era o narrador, o que ele fazia e sentia. Ele teve um professor perseguido pela ditadura, o professor Mauro. Fiquei pensando que o professor deve ter ficado contente de se ver no livro, se ainda estiver vivo. Foi uma homenagem, mas não só: o Mauro representou todos os professores que deram, na época, exemplos de liberdade. E ele também tinha um guarda-chuva.
Em 57 páginas, o livro e os desenhos contam o que era ser jovem e curioso na década de 70. Insegurança, deslumbramento com o cinema, com o sonho, tudo isso e muito mais está no livro e nos lindos desenhos de Caco Galhardo.
Eu não morava em São Paulo nessa época. Morava em Santos. Mudei pra cá em 1981. Fui algumas vezes ao Cine Bijou. Mas eu vi todos – quase todos – os filmes mencionados no livro, com o mesmo encantamento. Vi no cinema ou em vídeo-cassette. Vi Os amantes de Maria, com a Natassja Kinski. Vi O Último Tango em Paris, Perdidos na Noite. Laranja Mecânica eu não quis ver, tive aflição, não queria tanta angústia. Não gosto de ficar chocada no cinema, nem Crepúsculo eu vejo. Gosto de ficar deslumbrada, de dar risada, de ver violência quando explícita, como a dos filmes de Tarantino; mas vou até aí.
Eu via todos os filmes de Ingmar Bergman, filmes com a Romy Schneider, da Lina Wertmüller (Mimi, o Metalúrgico, Pasqualino Sete Belezas). Outro dia revi O Porteiro da Noite, como é forte.
Lembrei de tudo isso ao ler e ver o livro. Gostei muito do Cine Bijou.
Sobre Aaron Swartz, internet, cavernas e pinturas rupestres
4 de fevereiro de 2013Aaron Swartz, americano dedicado à tecnologia da comunicação por computadores, morreu 11 de janeiro, aos 26 anos. Li que ele estava sendo processado nos EUA e tinha sido condenado a uma pena muito alta por ter aberto oportunidade para download de textos acadêmicos. Aaron Swartz ajudou a criar o Creative Commons, o sistema RSS e o Reddit. Sua morte suscitou manifestações diversas de apoio a uma internet mais livre.
Os limites da liberdade na internet são difíceis de serem definidos porque, embora a comunicação precise ser eficiente, também não devemos nos prejudicar uns aos outros publicamente. Só que o que Aaron Swartz teria feito não tem nada a ver com ofensas pessoais, mas com divulgação de artigos científicos.
Tudo bem que a divulgação dos artigos científicos deva ser feita por quem tenha seus direitos, mas é importante saber que o conhecimento pode ser compartilhado e debatido. E ele sempre deixou isso bem claro.
Isso não tem nada a ver com Aaron Swartz – pelo menos não diretamente-, mas também li, no jornal, que muitas pessoas estão dando cursos em canais do Youtube. Às vezes assisto. É incrível como elas se dispõem a gravar instruções, desde pontos de tricô e crochê até aulas de japonês, espanhol, receitas de comidas e quase tudo o mais.
Algumas pessoas ensinam de um jeito tão legal. E são super pacientes, realmente dedicadas a transmitir valiosas informações, ninguém sabe quais títulos elas têm, se os têm. Não é importante.
As aulas são detalhadas e me lembram Cortázar, que ensina a chorar, a subir escadas, a cantar, a ter medo (Manual de instrucciones).
Eu me pergunto se ainda há espaço para círculos fechados de conhecimento cultivados em academias. Quando falo em academia, não me refiro a uma universidade específica, mas a qualquer universidade que limite as discussões a poucos acostumados às notas de rodapé com citações de autores que ninguém conhece e não vai conhecer porque os exemplares de seus livros estão escondidos em prateleiras quase secretas ou em ambientes virtuais trancados. Ou citações de autores famosos, mas que as pessoas não leem direito, mas reproduzem porque são bacanas e situam o texto em um contexto ideológico específico e adequado à política acadêmica. Pior quando os textos efetivamente lidos não são referidos porque escritos por autores não tão adequados à política acadêmica.
Na Campus Party que acaba de terminar em São Paulo as contribuições de Aaron Swartz foram bem debatidas e as repercussões futuras de seu trabalho analisadas. Vale ver o que aconteceu, aqui: http://rafazanatta.blogspot.com.br/2013/01/qual-o-legado-de-aaron-swartz.html.
Independentemente de tudo isso, o que motiva este post é o uso da internet para a democratização de formas de expressão artística, informações e conhecimentos.
Ontem, assisti ao filme de Werner Herzog, “A caverna dos sonhos esquecidos”. Já vi havia visto pinturas rupestres de verdade na Chapada Diamantina. As nossas pinturas, no Brasil, são maravilhosas. Herzog chamou atenção para o movimento dos desenhos, a certa altura comparados à dança de Fred Astaire. Fred Astaire aparece dançando no filme, é lindo, leve. A caverna na França (Chauvet) é muito escondida, é proibido entrar lá, é tudo tão escuro, e, no entanto, pudemos ver o que ele viu com nitidez impressionante. Tecnologia em ação.
Como preservaremos a nossa arte, nosso conhecimento, nossas impressões? Não sei se todos nós conseguiremos guardar textos e ideias que produzimos, ou nos interessam, não sei se sabemos fazer isso. E temos cada vez menos espaço físico para livros e papéis.
E se tudo sumir, quem seremos para os outros?
A internet não pode ser uma caverna na qual as pessoas de agora ou do futuro não possam ou não saibam entrar. Não sei o que propor ou concluir porque não sei como a internet funciona, como ela acontece de verdade, tecnicamente falando. Mas os jovens como Aaron Swartz sabem. Ele sabia.
David Bowie em seus 66 anos: aí lembrei de Caetano
10 de janeiro de 2013
Essa semana surgiu na internet um vídeo do David Bowie, que vai lançar novo álbum. O link, da Folha de São Paulo, segue aqui: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1211591-david-bowie-lanca-single-e-anuncia-primeiro-album-em-dez-anos.shtml.
“Where are we now?” É o título da música. O clip é estranho porque começa em um lugar que é como uma oficina da memória, com objetos meio que quebrados, espalhados, desmontados, fragmentados, distribuídos. E em uma tela passam cenas de Berlim, cidade onde, segundo a matéria da Folha, ele viveu entre 76 e 79.
As imagens de Berlim são lindas e a letra da música, que aliás aparece no clip, fala de Berlim. E nessa tela estão os rostos de Bowie e de uma moça, só os rostos, encaixados em corpos de bonequinhos de pelúcia sentados. Os rostos estão inseridos na tela. Os rostos aparecem em buracos como aqueles em brinquedos de festas populares, em que posamos, para fotografias, em corpos de outros seres, personagens, pessoas.
Está sendo um exercício e tanto narrar o vídeo, porque é quase indescritível. São tantas as ideias e informações e sugestões que seriam necessárias conferências para as reflexões decorrentes. Mas posso sintetizar assim: é David Bowie em seus 66 anos.
Inspirada pelo vídeo, enquanto o álbum não sai, ouvi, em vinil, Diamond Dogs e Tonight. Tenho vinis do Bowie comprados quando eram novos. Se bem que Diamond Dogs comprei já usado, em alguma feira, não me lembro bem.
Gosto demais de David Bowie, diria que ouço talvez até mais que Dylan, mas, enquanto o último é muito familiar, Bowie é sempre distante. Parece que Bob Dylan faz tudo meio de improviso e David Bowie prepara mais, e com isso se distancia do ouvinte. A beleza de David Bowie é inatingível. Não sei bem porque comparo os dois, acho que é porque gosto muito e fico tentando saber de qual gosto mais. Sei lá.
A música do clip me lembrou um pouco a música “Estou triste”, de Caetano, do Abraçaço. A canção de Caetano colou em mim e lembrei de “Where are we now?”, de Bowie. A tristeza é um sentimento bastante contemporâneo. Algumas épocas têm sentimentos que marcam.
Ouvi agora o Abraçaço de Caetano e a canção “A boca nova é foda” é foda. Todo o Abraçaço é muito bom. Como o Caetano escreve bem.
História de uma leitura (2): Dublinesca, de Vila-Matas
24 de dezembro de 2012Terminei de ler Dublinesca. É muito bom, nem precisaria dizer. Quem gosta de ler sobre literatura, gosta de Vila-Matas, pois ele faz, da literatura, também, a sua ficção.
Literatura e religião mudam a vida das pessoas. Podem mudar. Em Dublinesca, a mulher de Samuel Riba, Celia, torna-se budista e isso interfere no relacionamento deles, assim como a bebida: beber ou parar de beber. Em um casamento de anos, pequeno desvio de rumo na vida de um, aparentemente insignificante, altera tudo.
Lendo o romance, tenho vontade de levar Ulysses, de Joyce, a sério. Ou não. Ninguém deve se sentir obrigado a ler coisa alguma. Fiquei com vontade de ler Ulysses.
Fiquei com vontade de ler Beckett, também, outro autor que está dentro de Dublinesca, talvez até mais inserido que Joyce, já que o editor sonha em encontrar o grande autor, parece que essa é a expectativa de todos os editores. Mas como saber quem é o grande autor? O grande autor é Proust ou J. K. Rowling? Ou Paulo Coelho? Ou Joyce? Para um bom editor, o que é o grande autor?
Há momentos tocantes no livro, que deixam a literatura para trás, tratam de gente. Um deles é o abraço de Riba e Célia, na página 291: “Foi um abraço no centro do mundo”.
O livro é um caleidoscópio e gostaria de dizer muito mais. Mas não posso, cada leitor o lerá de um jeito, o livro é aberto e preciso respeitar outros companheiros e guardar, só para mim, as impressões fugidias da literatura. Mas encontrei um bom texto na internet, publicado no Jornal do Brasil: http://www.jb.com.br/cultura/noticias/2011/06/25/resenha-dublinesca-de-enrique-vila-matas-3/
Vladimir Nabokov e o Original de Laura
16 de dezembro de 2012Laura. Não sei por que, me lembro de contas de cristal quando falo Laura em pensamento.
O original de Laura, de Nabokov, é isso mesmo, o livro original, aquele que Nabokov escrevia quando morreu. E o filho Dmitri publicou da maneira mais honesta possível: publicou o original, as fichas manuscritas.
As fichas estão em inglês. Traduzidas para o português na página ao lado.
Incrível alguém escrever em fichas. Antigamente fichas eram guardadas em arquivos resistentes. Era fácil encontrar os apontamentos, geralmente os assuntos estavam organizados em ordem alfabética. Hoje guardamos tudo em computadores, hds, nas diversas nuvens. E se um dia a internet sumir?
Sempre tenho curiosidade de saber o que pensam os escritores e como alcançam a liberdade necessária para escrever. Os originais de Nabokov mostram essa liberdade quase plena. Não é plena porque a escrita aprisiona sempre, mesmo que um pouco. A escrita limita. E, mesmo assim, Nabokov é livre ao rabiscar, ao narrar o que a imaginação e a fantasia apresentam. Hubert H. Hubert aparece no original de Laura.
As últimas palavras anotadas são: anular, expungir, apagar, deletar, remover, eliminar, obliterar.
O processo da escrita está nas fichas. Ele não deu acabamento. E o texto não terminado, inconcluso, interrompido, ficou, finalmente, pronto. Talvez, neste caso, tenha ficado melhor do que se tivesse sido editado pelo próprio autor.
As fichas de Nabokov são quase poemas. São como as epifanias de Joyce, lançadas há pouco pela Iluminuras. Na verdade, são mais bonitas que as epifanias de Joyce, se é possível uma comparação assim.
Vale ler, além do livro, matéria da revista Bravo: http://bravonline.abril.com.br/materia/original-laura-vladimir-nabokov
História de uma leitura: Dublinesca, de Vila-Matas
4 de dezembro de 2012Quando penso na minha escritura, penso que leio pouco e meu objetivo, em 2013, é ler muito. Ler, pra mim, é escrever também, porque gosto de produzir, fazer malhas de tricô, entrar em um processo qualquer e terminar, ver o resultado. Como disse o Raduan Nassar na entrevista aos Cadernos de Literatura que menciono em post imediatamente anterior, fazer e escrever são processos semelhantes.
Então achei que seria interessante começar a ler um livro e escrever o que eu penso enquanto leio esse livro. E resolvi começar por Dublinesca, de Enrique Vila-Matas, que ganhei de aniversário de uma pessoa querida. Na página de Vila-Matas na internet estão muitas informações sobre o livro: http://www.enriquevilamatas.com/obra/l_dublinesca.html.
Abro o livro. Que sorte, um sinal, já que eu também sou Paula: o livro é dedicado a Paula de Parma. Quem é Paula de Parma? Vou descobrir depois (já descobri, é casada com Vila-Matas).
Começamos em maio, nome do primeiro capítulo, ou da primeira parte. Estamos em Barcelona?
Que jeito legal de começar um livro: “Pertence à estirpe cada vez mais rara dos editores cultos, literários”. Quem pertence? Pronto, fui fisgada, estou curiosa, continuo.
É ele, o personagem, ele que pertence, Samuel Riba. Fanático por literatura. Teve uma editora que fechou. Lê a vida como um texto literário. Completará logo 60 anos e está aflito. Talvez ele se sinta um peixe fora d’água, como eu também me sinto – acabo de completar 50. Ele visita os pais. Sente-se decadente, caindo cada vez mais. Mas parou de beber. Foi a Lyon e precisa contar a viagem aos pais. Foi falar sobre dificuldades na edição de obras literárias na Europa. Como ninguém o tivesse recepcionado, resolveu se fechar no quarto e lá redigiu uma teoria geral do romance cujos elementos são: “intertextualidade; conexões com a alta poesia; consciência de uma paisagem moral em ruínas; ligeira superioridade do estilo sobre a trama; a escrita vista como um relógio que avança” (p. 15).
Depois, livrou-se da teoria e chegou à conclusão de que só a escreveu para dela se libertar. Ele não conta nada disso aos pais, que esperam o relato de uma viagem como deve ser: pessoas que encontrou, lugares que visitou. Não pode contar nada disso porque ficou na frente do computador e não viu ninguém.
Como editor, está frustrado por nunca ter encontrado aquele autor genial. Agora paro. Eu sou a autora genial à procura de um editor que me ache genial. Está na hora de escrever uma outra história, a minha história. Amanhã continuo a leitura pública de Dublinesca.
Balada Literária 2012-Raduan Nassar
26 de novembro de 2012A Balada Literária criada e coordenada por Marcelino Freire (www.marcelinofreire.wordpress.com) está chegando. Começa dia 28, quarta-feira. A programação está aqui: www.baladaliteraria.zip.net.
Neste ano, o homenageado é Raduan Nassar, que escreveu dois clássicos da nossa literatura: “Um copo de cólera” e “Lavoura arcaica”.
Depois, Raduan se afastou da cena (na verdade, publicou mais três contos). Talvez tenha parado de escrever, mas talvez não. Muitas vezes me pergunto se os escritores que param de escrever param de escrever. Não publicam, mas será que não escrevem? Nem diários? Bilhetes, cartas, anotações, e-mails? Formas breves?
Entendo perfeitamente ele ter parado de publicar. Os livros que escreveu são muito fortes. O que mais ele poderia dizer? E por que precisamos fazer a mesma coisa, a vida toda?
O Instituto Moreira Salles dedicou Cadernos de Literatura Brasileira 2, em 1996, a Raduan Nassar. Ali, há entrevista em que ele explica que, trabalhando em sua fazenda, faz, faz e faz, “o que não deixa de ser uma outra forma de escrever” (p. 39). Mas isso foi há 16 anos. E continuamos lendo “Um copo de cólera” e “Lavoura arcaica” como se escritos ontem.
Por que os livros de Raduan Nassar são tão bons?
Leyla Perrone-Moisés publicou, nos Cadernos de Literatura, o ensaio “Da cólera ao silêncio” (p. 61-77). Ela estará na Balada, no dia 29, às 11h00, na Livraria da Vila da Fradique, homenageando o escritor junto com Roniwalter Jatobá e Wladyr Nader.
As outras mesas da Balada (todas interessantes) acabam discutindo, em síntese e afinal, a liberdade que a escrita exercita com muito esforço (como é duro dizer!).
Deve ser difícil, também, a um escritor, não escrever, ou escrever e não publicar.
O silêncio de Raduan Nassar, sempre escritor, é uma forma de liberdade.
Sobre Carnebruta
23 de novembro de 2012As editoras Apicuri e Oito e meio acabam de lançar Carnebruta, de Rodrigo Novaes de Almeida. A capa é cor-de-rosa, mas o livro, de rosa, não tem nada.
Logo no início, está epígrafe de Milan Kundera: “sexo é violação”. Depois, na página seguinte, vem a dedicatória: “para Chris, com amor”.
E o livro é todo assim, a rosa misturada com dor e amor.
Começa com valete-de-espadas e termina com valete-de-espadas. Valete-de-espadas é o avatar, Joaquim Proença de Rara-Sana. Eu me identifico com a ideia do avatar. Depois, quase no fim do livro, Joaquim Proença de Rara-Santa aparece de novo. Aí, dá pra ficar sabendo mais.
Gostei muito do “Carnebruta”, que está nas páginas 38 e 39. Adorei esse conto. A linguagem, o [VOCÊ] aparecendo várias vezes, o conto na primeira pessoa do plural, é curto e leio várias vezes. Fico com a frase: “[VOCÊ] fuma um Marlboro vermelho na varanda da sala”.
“Adeus ao paraíso” remeteu-me às cidades invisíveis de Ítalo Calvino e aos lugares imaginários descritos por Alberto Manguel. Também pensei nas viagens de Gulliver. Nesse conto, as mulheres reinam. Sereias de Ulisses.
Mesmo nos contos mais violentos as mulheres prevalecem: as fantasias masculinas.
“Queima de arquivo” é muito bom, lida com o escrever do próprio conto, mostra a importância dos textos ocultos: “O leitor precisa ser informado, antes de prosseguirmos, de que a tal questão delicada não será esclarecida no decorrer desta história” (p. 57). Na vida real, também não se sabe tudo. Raramente as questões delicadas são esclarecidas.
Vale notar, por último, a edição caprichada. As ilustrações de Julia Debasse são bem bonitas e a diagramação deixa o texto aparecer.
Gostei. Gostei e vou ler outras vezes porque a cada leitura percebo o inusitado.
Rodrigo Novaes de Almeida estará na Primavera dos Livros, em São Paulo, em mesa do dia 24, sobre “Conflitos humanos e conflitos literários”. Integram a mesa, também, Juliano Garcia e Marcelo Mirisola. A programação está aqui:
http://libre.org.br/noticias.asp?ID=359














