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Leitura digital

30 de março de 2013

machado2Em “A turma de 42”, Luiz Antônio Giron, no Mente aberta, blogue da Revista Época, conta que, em 2013, obras de Robert Musil, Bruni Schulz, Roberto Arlt e Stefan Zweig entraram em domínio público, significando isso que podem  ser publicadas sem correspondente pagamento de direitos autorais (http://colunas.revistaepoca.globo.com/menteaberta/2013/02/15/a-turma-de-1942).

Andando muito pela internet, vejo como é importante encontrar textos que podem ser lidos, baixados,  sem medo de ferir direitos. Estão lá para serem lidos, conhecidos, comentados, desfrutados, e só.

Agora tenho, em  leitor digital, a obra completa de Machado de Assis. Baixei em segundos e paguei valor praticamente simbólico. Leio Machado de Assis em minhas edições impressas, digitais e em blogues na internet. É muito legal colocar o nome de Machado no google e, aleatoriamente, encontrar um conto pra ler,  qualquer conto, a qualquer momento. Tenho uma dúvida sobre um conto de Machado e resolvo no mesmo instante.

A forma de ler interfere na interpretação do texto. Ler Uns braços na internet e ler Uns braços em casa, no sofá, em livro, são experiências totalmente diferentes. Comparo Uns braços com a Missa do galo na tela do computador e penso que D. Severina e  D. Conceição são sutilmente parecidas e diferentes. Como estou na internet, vou de um conto ao outro e penso que Machado nunca, mas nunca mesmo (será?) imaginou ser lido desse jeito tão volátil,  inconstante e ao mesmo permanente que é o jeito digital.

O texto vira imagem, compreendo visualmente o que ele diz. Um texto dialoga com outro e não mais, apenas, com o único leitor. A comunicação é ampliada. A nova leitura participa da escrita de tal forma que é como se cada leitor reescrevesse o  texto. Na interpretação, o leitor é, também, autor. Pode lê-lo como quiser e não precisa, nem mesmo, seguir sua sequência. Lê ao mesmo tempo o fim e o começo e para quando acha melhor. Não que um livro não possa ser lido do fim para o começo. Pode, mas a leitura assim é meio fora dos padrões. Na internet, dificilmente se lê algo inteiro do começo ao fim. O normal é flanar, combinar diferentes informações.

Julio Cortázar, em O jogo da Amarelinha, já fez isso. Escreveu capítulos que podem ser lidos em outra ordem, não na sequência em que publicados. Dois livros diferentes em um livro: um progride com o virar das páginas e outro em ordem diversa. Nunca li o segundo livro. O primeiro me surpreendeu do começo ao fim. Ainda é o livro que me deu vontade de escrever de verdade.

Sobre Aaron Swartz, internet, cavernas e pinturas rupestres

4 de fevereiro de 2013

rupestre2

Aaron Swartz, americano dedicado à tecnologia da comunicação por computadores, morreu 11 de janeiro, aos 26 anos. Li que ele estava sendo processado nos EUA  e tinha sido condenado a uma pena muito alta por ter aberto oportunidade para download de textos acadêmicos. Aaron Swartz ajudou a criar o Creative Commons, o sistema RSS e o Reddit. Sua morte  suscitou manifestações diversas de apoio a uma internet mais livre.

Os limites da liberdade na internet são difíceis de serem definidos porque, embora a comunicação precise ser eficiente, também não devemos nos prejudicar uns aos outros publicamente. Só que o que Aaron Swartz teria feito não tem nada a ver com ofensas pessoais, mas com divulgação de artigos científicos.

Tudo bem que a divulgação dos artigos científicos deva ser feita por quem tenha seus direitos, mas é importante saber que o conhecimento pode ser compartilhado e debatido. E ele sempre deixou isso bem claro.

Isso não tem nada a ver com Aaron Swartz –  pelo menos não diretamente-,  mas também li, no jornal, que muitas pessoas estão dando cursos em canais do Youtube. Às vezes assisto. É incrível como elas  se dispõem a gravar instruções, desde pontos de tricô e crochê até aulas de japonês, espanhol, receitas de comidas e quase tudo o mais.

Algumas pessoas ensinam de um jeito tão legal. E são super pacientes, realmente dedicadas a transmitir valiosas informações, ninguém sabe quais títulos elas têm, se os têm. Não é importante.

As aulas são detalhadas e me lembram   Cortázar, que ensina a chorar, a subir escadas, a cantar, a ter medo (Manual de instrucciones).

Eu me pergunto  se ainda há espaço para círculos fechados de conhecimento cultivados em academias. Quando falo em academia, não me refiro a uma universidade específica, mas a qualquer universidade que limite as discussões a poucos acostumados às notas de rodapé com citações de autores que ninguém conhece e não vai conhecer porque os exemplares de seus livros estão escondidos em prateleiras quase secretas ou em ambientes virtuais trancados. Ou citações de autores famosos, mas que as pessoas não leem direito, mas reproduzem porque são bacanas e situam o texto em um contexto ideológico específico e adequado à política acadêmica. Pior quando os textos efetivamente lidos não são referidos porque escritos por autores não tão adequados à política acadêmica.

Na   Campus  Party que acaba de terminar em São Paulo as contribuições de Aaron Swartz foram bem debatidas e as repercussões futuras de seu trabalho analisadas. Vale ver o que aconteceu, aqui: http://rafazanatta.blogspot.com.br/2013/01/qual-o-legado-de-aaron-swartz.html.

Independentemente de tudo isso, o que motiva este post  é o uso da internet para a democratização de formas de expressão artística,  informações e conhecimentos.

Ontem, assisti ao filme de Werner Herzog,   “A caverna dos sonhos esquecidos”.  Já vi havia visto pinturas rupestres de verdade na Chapada Diamantina. As nossas pinturas, no Brasil, são maravilhosas. Herzog chamou atenção para o movimento dos desenhos, a certa altura comparados à dança de Fred Astaire.  Fred Astaire aparece dançando no filme, é lindo, leve. A caverna na França (Chauvet) é muito escondida, é proibido entrar lá, é tudo tão escuro, e, no  entanto, pudemos ver o que ele viu com nitidez impressionante. Tecnologia em ação.

Como preservaremos a nossa arte, nosso conhecimento,  nossas impressões? Não sei se todos nós conseguiremos guardar textos e ideias que produzimos, ou nos interessam, não sei se  sabemos fazer isso. E temos cada vez menos espaço físico para livros e papéis.

E se tudo sumir, quem seremos para os outros?

A internet não pode ser uma caverna na qual as pessoas de agora ou do futuro não possam ou não saibam entrar. Não sei o que propor ou concluir porque não sei como a internet funciona, como ela acontece de verdade, tecnicamente falando. Mas os jovens como Aaron Swartz sabem. Ele sabia.

 


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