Bauhaus-100 anos

bauhaus, com b minúsculo, porque no âmbito da escola alemã o artista gráfico Herbert Bayer criou uma fonte tipográfica simples, sem maiúsculas. Para a língua alemã essa era uma proposta transformadora: os substantivos, em alemão, são grafados em maiúsculas.

Quando penso em Bauhaus  vejo uma cadeira larga em linhas retas: a cadeira Wassily, planejada por Marcel Breuer, de aço cromado e couro.  Li que ele teve a ideia da cadeira andando de bicicleta.

Depois vêm outras imagens, como edifícios em linhas retas, quadrados. Tel Aviv, em Israel, tem muitos deles. Até mesmo os edifícios dos Ministérios em Brasília teriam sido projetados a partir de linhas inspiradas na escola alemã (se bem que Walter Gropius teria dito que a Casa das Canoas, de Oscar Niemeyer, era bonita, mas não multiplicável).

As construções em blocos idealizadas pela Bauhaus facilitavam a reprodução e a multiplicação e Oscar Niemeyer sustentava a ideia de arquitetura autoral. Mas há semelhanças entre o trabalho de Niemeyer e as regras da Bauhaus, como explica  Viviane Vilela em texto publicado em página do Instituto Goethe na internet: “Entretanto, as diferenças manifestadas por Niemeyer em relação aos princípios da Bauhaus não impedem a identificação da presença de preceitos caros à escola alemã até mesmo em Brasília. O uso da estrutura metálica no processo construtivo, assim como a implantação serial dos prédios da Esplanada dos Ministérios, o planejamento urbano da cidade a partir de um ponto zero e a abstração da forma arquitetônica são devotos de apostilas e pranchetas gestadas a partir dos preceitos da escola alemã”
https://www.goethe.de/ins/br/pt/kul/fok/bau/21385377.html.

Walter Gropius (1883-1969) foi o fundador, em Weimar, da Bauhaus (1919-1933), escola alemã de arquitetura, design, artesanato e arte. Escola porque reunia pensadores e artistas e artesãos cujos pensamento e ação estavam direcionados a elaborar um mundo concreto, funcional e reprodutível. Paul Klee e Wassily Kandinski foram, também, professores da Bauhaus.

Gropius pretendeu criar um movimento, uma escola que privilegiasse a experiência, o processo de realização.  Quando surgiu, em Weimar, a Bauhaus apoiava o trabalho artesanal e estava fundamentada no expressionismo, valorizando individualidade. Com o tempo, já na cidade de Dessau, adotou a tecnologia e a produção em série. Hoje essa ideia parece comum, mas, em 1919, era inusitada.

Walter Gropius criou a Bauhaus em Weimar. Depois foi instalada em Dessau e, por último, em Berlim, onde terminou por perseguição nazista. O regime nazista, instalado na Alemanha a partir de 1933, associava a Bauhaus ao marxismo, aos judeus e, por isso, a escola foi fechada.

Bauhaus primava pela elegância das formas e simplicidade das linhas do design. Uma das frases sempre lembradas é “menos é mais”, ou “less is more”, atribuída ao arquiteto Ludwig Mies van de Rohe, que, na época da segunda guerra, foi para os Estados Unidos, como aliás foram Walter Gropius e Anni e Josef Albers. Anni fez trabalhos lindíssimos em tapeçaria, combinando cores com geometria e equilíbrio. O MoMa, em Nova York, 1949, mostrou seus trabalhos em uma exposição individual, novidade, na época,  para uma designer.

A Bauhaus não existiu por muitos anos (1919-1933), mas, até hoje, influencia o modo de aprender, ensinar, fazer arte, construir, combinar cores e formas. Difundiu arte para todos e multiplicação dos trabalhos.

Alunos e professores da Bauhaus  dedicavam-se a idealizar fantasias diferentes, originais e inusitadas, exibidas em bailes. Um deles chamou-se Festa do Metal, pois as vestimentas eram feitas com colheres, frigideiras, papel de alumínio.

O movimento Bauhaus associava o funcional ao lúdico e influencia  trabalhos de arte, construção e design até nossos dias. Essa influência prosseguirá, pois as ideias da Bauhaus não são estáticas, movimentam-se no tempo e transformam-se.

A complexidade da vida e da comunicação no século XXI suprime o tempo de concentração e foco. No contexto, a expressão clara e simples, o resumo, o “menos é mais”, são legados da Bauhaus que permanecem e podem ser continuados, aperfeiçoados em modos de fazer arte, desenho e  arquitetura. O importante, hoje, é que o uso da tecnologia aconteça de maneira racional e voltada para funcionalidade do que é criado, para a síntese.

O aprendizado livre, colaborativo, o pensar junto, colaboram, ainda, para que as criações, no futuro, sejam direcionadas à preservação do meio ambiente e do planeta.  A sustentabilidade seria, hoje, com certeza, um dos objetivos da Bauhaus.

A Universidade Bauhaus, em Dessau, deve, provavelmente, pesquisar caminhos para que as ideias lançadas pelo movimento continuem a repercutir e contribuir para realizações criativas, lúdicas e, ao mesmo tempo, funcionais.

É possível, também, associar o processo de aprendizagem da Bauhaus ao processo idealizado pelo educador brasileiro Paulo Freire, que, de tão reconhecido no mundo, tem uma estátua em sua homenagem em Estocolmo, Suécia, ao lado de Angela Davis e Pablo Neruda.

Desnecessária seria uma estátua para o reconhecimento de Paulo Freire. Mas, por outro lado, a escultura em sua homenagem simboliza a solidez de seu pensamento, solidez essa que deve ser continuamente refletida e reaprendida, assim como os ensinamentos da Bauhaus.

Cheguei agora ao fim deste breve ensaio unindo Bauhaus e Paulo Freire, uma escola de pensamento alemã a um professor brasileiro, confiando que sem liberdade de aprender e de ensinar não há desenvolvimento possível e, muito menos, felicidade.

 

 

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3 Respostas to “Bauhaus-100 anos”

  1. adcarrega Says:

    Republicou isso em REBLOGADOR.

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  2. izilda Bichara Says:

    Achei muito interessante essa associação do método e das ideias de Paulo Freire aos objetivos da Bauhaus, Paula!

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