William Shakespeare na Flip

5 de julho de 2016

Estava eu pela Flip  meio chateada porque não tinha conseguido assistir ao Karl  Ove Knausgaard de perto e peguei um folheto com a programação da Casa Shakespeare.

Entrei na  Capela Nossa Senhora das Dores, de Paraty, adaptada.

Prestei atenção, antes de tudo, nos trabalhos de Dalcir Ramiro de Alcântara, ceramista. Gostei especialmente deste, Rei Zizinho de Mamanguá:

20160701_180455 (2)

Sentei-me em um banco quadrado e fiquei esperando  Irvine Welsh, Kenneth Maxwell e Martin Dowle, convidados para conversar sobre Shakespeare, global foreigner. O tema foi muito oportuno porque Shakespeare é universal e representado em todas (acho que quase todas) as línguas e culturas.  Falou-se de como Shakespeare chegou ao Brasil, de João Caetano, Machado de Assis,  Gabriel Villela e o Grupo Galpão. A mediadora, jornalista da BBC, Kirsty Lang, perguntou aos participantes como e quando tinham entrado em contato com Shakespeare pela primeira vez.

Eu também acabei me lembrando como foi.

Quando estudava na Cultura Inglesa, fiz, na aula,  uma apresentação sobre Shakespeare. Segurei para a classe um cartaz onde estava sua figura séria e ao mesmo tempo soberana e enigmática, com bigode talvez parecido com o de Dali (para mim).  O cartaz caiu da minha mão enquanto eu falava. Eu estava insegura de falar  e o cartaz caiu. Até hoje me lembro da sensação da queda do retrato de Shakespeare de minhas mãos, na frente da classe.

Foi mal, mas ao mesmo tempo essa sensação me obriga a retomar sempre o momento do conhecimento sobre ele. Procuro aperfeiçoar cada vez mais o que sei, para segurar de novo o cartaz. E me lembro de repetir o nome da cidade onde ele nasceu: Stratford- upon- Avon. Esse upon-Avon era meio estranho de falar.

Mais tarde fiquei sabendo que, na época de Shakespeare, as  peças de teatro não chegavam a ser impressas. Muitas foram publicadas em “quarto”, ou páginas dobradas, quatro delas dando origem a oito (fanzines?). Eram escritas à mão. Os atores recebiam  suas próprias falas e só elas. Foram reunidas em uma única publicação por volta de 1620. A publicação ficou conhecida como First Folio.  Fiquei sabendo também que já houve dúvidas sobre a autoria de suas peças (o que não é importante porque ser autor, na época, era diferente de ser autor, hoje). E também soube que há um tempo na vida dele em que não se tem a mínima ideia do que  fez (entre 1580 e 1590).

Li Romeu e Julieta (soube também que a história já existia antes da peça ter sido escrita, por volta de 1595), Hamlet, Macbeth. Assisti aos filmes “A megera domada” com Elizabeth Taylor e Richard Burton e Romeu e Julieta de Zefirelli. Gosto muito desses. Há muitos outros filmes baseados em Shakespeare. Na Flip falou-se de sua influência na série House of Cards. Foi dito que, hoje, ele poderia ser autor de séries ou roteirista de Hollywood. Sinceramente, não sei. Acho que hoje ele não teria todo o apoio e o alcance que seu tempo lhe proporcionou, lançando-o ao futuro.

Quando estive em Londres, visitei o Shakespeare’s Globe, que reproduz o teatro da época. Havia pessoas ensaiando e a ligação delas, no palco, com o que pode ter acontecido, ficou evidente para mim.

SONY DSC

 

SONY DSC

Na Flip também houve, de certa forma, uma tentativa de nos fazer sentir no palco.

20160701_174801 (2)

 

E a Biblioteca que criaram lá está aqui.

20160701_164507

Um livro: guia de escritoras da literatura brasileira

4 de junho de 2016

image

É de Luiza Lobo esse guia, publicado pela UERJ e pela Eduerj em 2006. Luiza Lobo é professora de literatura, escritora. No plano da obra, explica que o trabalho durou mais de 10 anos e apresenta 36 escritoras.
Entre os critérios para seleção estão: “perfil sociológico e literário, a questão do cânone e a literatura feminista no Brasil”.
As escritoras são: Adélia Prado, Ana Cristina César, Ana Eurídice Eufrosina de Barandas, Ana Maria Machado, Ana Miranda, Auta de Sousa, Carmem Dolores, Carolina Maria de Jesus, Cecília Meireles, Clarice Lispector, Cora Coralina, Diná Silveira de Queiroz, Francisca Júlia, Gilka Machado, Helena Parente Cunha, Heloísa Maranhão, Henriquieta Lisboa, Hilda Hilst, Júlia Lopes de Almeida, Lya Luft, Lygia Fagundes Telles, Maria Alice Barroso, Maria Firmina dos Reis, Marina Colasanti, Marly de Oliveira, Narcisa Amália, Nélida Piñon, Nísia Floresta, Olga Savary, Patrícia Bins, Patrícia Galvão, Rachel Jardim, Rachel de Queiroz, Sônia Coutinho, Tânia Jamardo Faillace, Zulmira Ribeiro Tavares.
O livro segue como dicionário, ou enciclopédia. Há biografia, bibliografia, bibliografia sobre as autoras.
Muitas escritoras nasceram antes de 1900 e muitas escreveram também sob pseudônimo.
Ana Cristina César e Ana Miranda, estão entre as minhas prediletas relacionadas no post anterior.
O guia é de 2006 e, depois, muitas escritoras novas surgiram no Brasil. Vale muito a pena ver como a autora colecionou informações relevantes para a caracterização de literatura escrita por mulheres no Brasil.
Antes eu não achava importante caracterizar especialmente a literatura de autoria feminina. Mas tenho pensado sobre isso sob outros pontos de vista, entre eles o da valorização da nossa presença na cena literária. Gostei de encontrar o guia de Luiza Lobo.

Escritoras e personagens

29 de maio de 2016

Aqui está uma lista afetiva de escritoras que me influenciaram. Entre parênteses estão os livros que ligaram nelas (tem um conto, também):

1)- Ana Miranda (Boca do inferno);

2)-Gertrude Stein (A autobiografia de Alice B. Toklas);

3)- Isabel Allende (Eva Luna);

4)- Patricia Cornwell (Corpo de delito);

5)- Ana Cristina Cesar (A teus pés);

6)- Simone de Beuvoir (Os mandarins);

7)-Karen Blixen (Fazenda africana);

8)- Jane Austen (Razão e sensibilidade);

9)- Marguerite Duras (O amante);

10)- Marilene Felinto (Muslim: woman)

Tem uma coisa na discussão atual sobre igualdade, sobre feminismo, sobre os espaços que nós, mulheres,  ocupamos, que me escapa. Eu não sei precisar bem o que falta, não consigo muito falar sobre isso.

Sou de uma geração intermediária, nasci em 62. Fui educada para acreditar  que o mundo tinha mudado e me surpreendi quando vi que nem tanto. Tomei um susto, um choque.

Há mais escritores publicados que escritoras publicadas. Tenho achado que publicar é muito importante, mesmo textos não tão bons ou bem avaliados sob um ponto de vista mais literário. Eu sei que há muitos livros publicados, que o mercado está saturado, que é difícil ter livros em livrarias, dizem que brasileiros leem pouco (li que as brasileiras leem muito), que encontrar uma editora é mais difícil ainda.

Mesmo assim, é importante publicar. A internet facilita, sempre se pode fazer um blog, um fanzine impresso em casa, um folhetim em xerox, um e-book em uma plataforma gratuita.

O ideal seria ter milhares de leitores,  mas ter um leitor que responda a um texto  é maravilhoso. Um leitor  que  leia com atenção, grife uma frase, ria de uma piada, que se identifique com um mistério, uma tristeza, um sentimento de inadequação da personagem.

Comecei a falar de minhas autoras preferidas e acabei falando de mim e esse foi um devaneio suscitado pela minha condição feminina.

Quando eu era pequena, estava na livraria com a minha avó, era uma livraria que frequentávamos, nós duas. Havia um livro na estante  e no título estava a palavra sexo. Eu perguntei a ela o que era sexo. Ela me respondeu que era algo como masculino e feminino, uma palavra que reunia os gêneros. A resposta não foi a mais adequada, talvez, mas não estava errada. Eu me lembro que, na hora, achei a explicação um pouco estranha, mas me identifiquei com aquele título, ele me incluía. Não sei por que me lembrei disso agora. Outro devaneio.

Pensando nas escritoras, lembrei de personagens femininas muito vivas: Macabéa, Lady Chatterley, Emma Bovary, Anna Karenina. Só uma delas criada por uma escritora: Macabéa, por Clarice Lispector.

Clarice Lispector não pode faltar em nenhuma lista. Gosto e respeito, mas não sou totalmente envolvida por ela. Sua escrita é tão forte que me incomoda e leio pouco para não me machucar. Preciso de distância na leitura e tenho a impressão de que o texto de Clarice não concorda com o afastamento.

Não sei exatamente por que as escritoras mulheres são menos publicadas que os homens (isso está mudando). O que eu sei é que as mulheres ainda não escrevem tudo. Há muitas opiniões, sentimentos, versões, ficções, invenções, não verbalizadas.

A literatura transforma as pessoas e podemos transformar sempre e cada vez mais, escrevendo uma história sem qualquer intenção de fazer a cabeça, ou politizar, ou mudar o mundo, ou tendo a intenção, tanto faz, cada uma ou cada um escreve o que quer (e pode) para quem quiser ler.

Mas cada escrita reflete seu tempo e seu contexto e se descola da pessoa que escreve e da que lê, também. Implementando diálogos diversos, representando, o romance muda o mundo. Os romances de minhas escritoras prediletas mudaram meus mundos. Até Corpo de delito. Kay Scarpetta é uma senhora personagem.

Sobre o julgamento de Zé Bebelo em Grande Sertão: Veredas

20 de abril de 2016

 

20160417_162550(0)_resized

 

Essa é a vista da sala de aula do anexo da Casa Guilherme de Almeida. O domingo estava lindo e, pelas janelas, entrava uma brisa agradável. O curso com Berthold Zilly sobre a tradução de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa,  abriu a memória e caminhos para outras leituras e reflexões.

Lembrei, na aula, de minha defesa de mestrado em processo penal, Ação penal condenatória, na década de 90. Eu estava explicando para a banca como eu via a ação penal condenatória, sempre a partir da acusação porque, sem acusação, não há defesa. Kafka, em O processo, fala justamente disso, do horror de não se conhecer a acusação.

É claro que era uma particular maneira de ver que eu aprendi, não inventei nada. Mas eu quis dar uma explicação vertida para a minha linguagem. E me ocorreu, naquele momento, falar da cena de julgamento de Zé Bebelo em Grande Serão: Veredas. Aquela cena explica o processo penal.

Guimarães Rosa mostra, ali, profundo conhecimento de como deve ser um processo público e justo. No início do julgamento, Joca Ramiro diz: “A gente pode principiar a acusação”. E Joca Ramiro deixou para opinar depois, porque iria “baixar sentença”. E quem quisesse podia “propor condena”. Hermógenes fala com raiva: “Acusação, que a gente acha, é que se devia amarrar este cujo, feito porco. O sangrante…Ou então botar atravessado no chão, a gente todos passava a cavalo por riba dele-aver se vida sobrava, para não sobrar”. Zé Bebelo quer falar e diz: “Mas, para falar, careço que não me deixem com as mãos amarradas…”. E Joca Ramiro concorda. E Zé Bebelo fala algo muito certo e racional: “Rompo embargos! Porque acusação tem de ser com sensatas palavras-não é com afrontas de ofensa de insulto…”. E Joca Ramiro pergunta para Sô Candelário, que desafia: quer resolver à faca. Ao que Joca Ramiro responde: “Resultado e condena, a gente deixa para o fim, compadre. Demore, que logo vai ver. Agora é a acusação das culpas. Que crimes o compadre indica neste homem?”. Sô Candelário não vê crime. Zé Bebelo não havia traiu ninguém, não foi ladrão de cavalos. E Zé Bebelo grita: “Sempre eu cumpro a palavra dada”. Houve conversas e debates, Riobaldo finalmente fala, “O que eu tenho é uma verdade forte para dizer, que calado não posso ficar…”. Riobaldo foi um advogado de defesa ali naquele momento. Falou com intensidade: “Por tanto, que digo, ele merece um absolvido escorreito, mesmo não merece de morrer matado à toa…”. E chega o momento de Zé Bebelo se defender: “Altas artes que agradeço, senhor chefe Joca Ramiro, este sincero julgamento, esta bizarria…” Depois ele se apresenta, agradece aos que por ele falaram e puniram. E defende-se e Joca Ramiro diz, como um juiz, porque o juiz diz o direito. Ele diz: “O julgamento é meu, sentença que dou vale em todo este norte. Meu povo me honra. Sou amigo dos meus amigos políticos, mas não sou criado deles. A sentença vale. A decisão. O senhor reconhece”. E Zé Bebelo diz: “Reconheço”. Zé Bebelo se compromete a cumprir a decisão, que acaba sendo a ida para Goiás.

Essa cena descreve todas as fórmulas de um julgamento justo: a acusação impessoal, a defesa, a fala sem amarras, o juiz decidindo o conflito só no final, sem interferir. Há um roteiro de prestação de justiça muito adequado nessa cena.

Quando li Grande sertão e estava escrevendo minha dissertação, fiquei muito impressionada com o julgamento de Zé Bebelo. E falei na defesa, para a banca, com a mesma sinceridade com que Riobaldo fala por Zé Bebelo. Fui muito espontânea, não me lembro de ter ensaiado ou pensado nessa fala antes da defesa. Eu tinha anotações jurídicas e não literárias. Mas a literatura me socorreu, naquele momento.

Esse falar que surpreende e rompe alguma fronteira e mostra outros pontos de vista em uma conversa, um debate, um julgamento, é sempre um ponto de virada na vida da gente.

 

Nonada

16 de abril de 2016

Estou fazendo um curso surpreendente na Casa Guilherme de Almeida:

“Grande Sertão: Veredas-Suas traduções e retraduções”, por Berthold Zilly.

Eu tenho muita admiração pelos tradutores porque eles têm uma paciência que me falta.

Os tradutores pensam nos vários significados das palavras, procuram sinônimos, sabem o que é anáfora, metonímia, síncope, prestam atenção ao ritmo, comparam traduções e muito mais. E leem diversas vezes as obras que traduzem e escrevem de novo, de novo, tentando respeitar o original e ao mesmo tempo precisando inovar porque a literalidade não reproduz o que o autor disse.

Embora eu não tenha a menor intenção de traduzir – gosto de saber como os tradutores fazem –  aprendo com eles e acho que posso escrever melhor.

E Guimarães Rosa é um autor do qual gosto muito. Talvez – talvez- seja o meu preferido, ao lado de Cervantes e Lima Barreto e Cortázar (por enquanto).O jeito como ele fala me movimenta a escrever.

Berthold Zilly  é alemão e fala muito bem português e, nas aulas, gostei porque ele, sendo professor, consegue falar com simplicidade sobre assuntos muito complexos e talvez isso aconteça também porque, na cabeça dele, ele transfira, muito rapidamente,  ideias complicadas para o português e, nessa transmissão, elas ficam mais fáceis (eu acho que pode ser isso).

Eu me interesso demais pelos discursos e pela maneira de dizer as coisas. Berthold Zilly traduziu “Os sertões” de Euclides da Cunha para o alemão.

Ele contou que em “Os sertões”   a palavra nonada já foi escrita. Eu procurei na publicação digital e achei, está lá, como ele disse, na parte em que ele disse que está:  “Causava dó verem-se expostos à venda nas feiras, extraordinária quantidade de gado cavalar, vacum, caprino etc., além de outros objetos, por preços de nonada, como terrenos, casas etc”.

O curso valeu muito e amanhã ainda continua, mas só de saber isso, que nonada está em “Os sertões”, já fiquei super contente. Eu sempre pensei que fosse palavra inventada e ainda talvez ainda seja inventada (depois vi na internet que existia, mesmo). Às vezes Euclides inventou nonada também, muitas vezes as pessoas escrevem e imaginam as mesmas coisas.

Quero acreditar que nonada é inventada. Se eu fosse inventar uma palavra em alemão para nonada, de brincadeira, acho que seria “neenichts”.

 

Hitchcock, Allan Poe e Lou Reed

28 de fevereiro de 2016

 

Cary Grant e Brigitte Auber em Ladrão de Casaca, de Hitchcock

Cary Grant e Brigitte Auber em Ladrão de Casaca, de Hitchcock

 

Sou uma escritora curiosa. Agora estou fazendo dois cursos: na Casa Guilherme de Almeida com Donny Correia e Flávio Ricardo Vassoler sobre Hitchcock e Edgar Allan Poe e Ficções, com Cadão Volpato.

Na Casa Guilherme de Almeida assistimos a filmes de Hitchcock na sala Cinematographos (A tortura do silêncio, Festim diabólico e Psicose).

Eu me inscrevi no curso sobre Hitchcock e Poe para saber mais sobre o suspense na narrativa. No fim não aplico nada de maneira consciente na minha escrita, mas acho que tudo fica.

A oficina com Cadão está valendo. No primeiro dia ouvimos a canção Perfect day do Lou Reed e o exercício era um texto sobre um dia perfeito. Todos escreveram textos muito bons.

Tenho um livro com letras do Lou Reed (Pass thru fire: The collected Lyrics) que comprei uma vez na Livraria da Vila e estava meio amassado, acho que ficou anos lá e outros anos aqui na minha estante.

Todo livro tem seu dia de rei, aquele primeiro dia em que realmente diz alguma coisa importante para um certo leitor. Eu olhava sempre para o livro e pensava, preciso ver e ler direito o que tem nele. E  abro esse livro e tenho a maior surpresa. A canção Perfect day está no disco The raven, cujo tema central é Edgar Allan Poe. É uma versão nova e diferente, porque a primeira versão está em Transformer.

Não é uma coincidência que a canção que lemos e ouvimos e nos inspirou a escrever na aula esteja em um disco sobre outro autor que também estudo agora, Edgar Allan Poe, que escreveu um ensaio, A Filosofia da composição, que tenho lido e relido? E os dois cursos não estavam ligados e ficaram muito ligados de repente.

A versão de Perfect day em The raven de Lou Reed é bem diferente da que ouvimos na aula (Em The raven há a participação de Antony Hegarty). É bem mais sombria. Porque toda perfeição tem um lado meio sombrio, foi o que conversamos, foi mais ou menos o que o Cadão lembrou.

P.S.

Fui à inauguração da sala Cinematographos e passaram um filme maravilhoso que eu não conhecia, de 1929: São Paulo, sinfonia da metrópole, de Rudolf Lustig e Adalberto Kemeny. Lívio Tragtenberg fez ao vivo a trilha sonora. Que bom que eu vi. O filme poderia ter sido feito agora (na forma, porque é tudo meio fragmentado) e achei interessante filmarem a prisão em São Paulo naquela época (bem diferente das prisões de hoje). Tudo no filme faz pensar. Vi que está no youtube (uma cópia muito antiga, acho, não restaurada).

Sobre “O irmão alemão” de Chico Buarque

24 de dezembro de 2015

screenshot_normalappimage2.png

 

Faz tempo penso no último livro do Chico, “O irmão alemão” (Companhia das Letras).

Penso também no filme “Chico-artista brasileiro”, vi duas vezes. Eu gosto tanto do Chico – como se gosta de um irmão, primo, um super amigo, alguém de quem você não precisa dizer que gosta, é mais do que óbvio gostar. Ele está lá, aqui, ouço sempre que quero, leio quando quero, ele não me cobra nada, não está nem aí.

Agora fui ao youtube e vi “O que será que será”, “Cálice”, conversa com Tom Jobim, com Caetano, a Globo tinha um programa, “Chico e Caetano”, vi um pouco outra vez, eu sou da época desse programa. O livro sobre o irmão alemão é bem atual na forma, Chico acompanhou o tempo, soube chegar a 2015 sem deixar nada no caminho. Ou melhor, deixou muito, e se transformou, o filme mostra muito a transformação.

A história do livro se completa no filme, quando o próprio Chico surge em Berlim, uma cidade de bruscas e drásticas transformações.

O irmão alemão do Chico existiu mesmo, não é o mesmo irmão do livro, mas é o do filme, ele era artista também, na DDR, Alemanha oriental. Ficou do outro lado do muro.

No filme, a Marília Pera lê partes do livro. A voz da Marília Pera. Uma voz que fica.

Aí o Chico discutiu outro dia com alguém na rua sobre política, na verdade discutem com ele, e alguém filma, o vídeo viraliza. As pessoas ficam curiosas para ver como é o Chico discutindo na vida real. Eu não cheguei a ver. Vi só o começo do filme, fiquei sem paciência, era uma roda de homens falando, sei lá. Então é o Chico pessoa e o Chico artista e o personagem do livro que tem o irmão, o Chico que tem o irmão, de quem estou falando?, que importa, eu nem conheço pessoalmente.

No livro o Chico fala dos livros do pai dele com uma intimidade, poderiam ser os meus livros, os livros do meu pai e da minha mãe, que eram outros livros.

Ele fala em W.G. Sebald uma vez e eu vinha pensando muito em Sebald e nas imagens que ele insere entre os textos. Os espaços vazios de Sebald alargam a literatura ao infinito. O mundo ao infinito. Sebald era alemão. Por que será que Chico falou de Sebald?

No documentário mais recente Chico fala da infância e no youtube ele fala da infância, do pai dele que vivia estudando, lendo e escrevendo, quando perguntam ele fala que não participava das conversas de adulto (mas é verdade que ouvia a música de Vinícius, amigo do pai dele).

Quantas vezes um artista conta a sua infância? E se começar a contar de um jeito diferente, será que as pessoas percebem?

Em “O irmão alemão” ele faz isso, conta tudo de novo de um jeito diferente, como se fosse outro, ou como se tivesse sido.

Da primeira história do mundo aos índios no Brasil

9 de dezembro de 2015

IMG_0978
Alberto Mussa obteve o terceiro lugar no Prêmio Oceanos com seu “A primeira história do mundo”, da Record. Dedicou o prêmio a seu editor, Carlos Andreazza.

“A primeira história do mundo” é um romance policial e integra projeto de cinco novelas sobre crimes praticados no Rio de Janeiro, um em cada século. Na introdução, que ele denomina advertência, está que “O trono da rainha e “O senhor do lado esquerdo” integram esse ciclo.

O parágrafo primeiro do livro tem título: “Quando se sabe da existência de um cadáver”. Tudo começa, para a investigação policial, quando o corpo aparece. Hoje em dia essa regra foi relativizada porque, em raras hipóteses, a certeza do homicídio pode vir por outros caminhos. Mas, de qualquer forma, é  da descoberta do cadáver  que nasce, também, o romance policial. E a primeira frase do capítulo é: “Estamos na cena do crime”.

O corpo que surge é o de Francisco da Costa, serralheiro. Foi encontrado por Simão Berquó. Estava furado por sete flechadas, ou oito. As flechas eram curtas e diferentes das usadas pelos índios. Não obstante outros suspeitos, o próprio Simão Berquó foi condenado. É o que narra o autor, que, segundo a advertência inicial, assumiu a função, no romance policial, de investigador. Pesquisou o processo instaurado em 1567.

Havia então, na Guanabara, muitos índios. Havia, segundo o romance, os itaipus, ou “a mais antiga população pré-histórica do litoral carioca” (p. 131). Eram endocanibais: comiam os mortos. Havia os tupis. No inquérito sobre o homicídio, havia intérprete para traduzir a informação dada em tupi para o português (p. 75). O livro está repleto de referências e histórias indígenas.

IMG_0998

Foi bacana ver o escritor Daniel Munduruku, de Belém do Pará, entregar o Prêmio Oceanos a Silviano Santiago por “Mil rosas roubadas”. Ele é da etnia munduruku. É, também, escritor super premiado e doutor pela USP. Antes da entrega do prêmio, falou que precisamos olhar para nosso passado indígena, mesmo que dele não gostemos.

Encontrei, na internet, carta dos Munduruku ao governo: http://migre.me/slO8n.

Há, no Brasil, registradas, 305 etnias diferentes, 817.963 indígenas, 274 línguas indígenas (Censo de 2010, segundo Funai).

A carta dos Munduruku, a fala de Daniel Munduruku na cerimônia de entrega do Oceanos, o livro de Alberto Mussa, adquirem extrema atualidade neste momento em que tramita, no Congresso Nacional, a PEC 215, que transfere, ao Poder Legislativo, a demarcação das terras indígenas, terras que já deveriam, há muito, estar demarcadas.

Há poucos dias houve, em Brasília, audiência sobre a PEC 215, na Procuradoria Geral da República. Leia aqui notícia aqui: http://migre.me/slONH.

Comecei este texto falando do livro de Alberto Mussa, de romance policial, de processo penal, de história, e terminei falando do tema mais importante, sobre o qual eu queria falar e não sabia: situação vulnerável dos índios no Brasil.

“Mil rosas roubadas” no Prêmio Oceanos: amizade

9 de dezembro de 2015

IMG_1004

 

Lucimar e Lourenço Mutarelli convidaram o Coletivo Literário Martelinho de Ouro para o Prêmio Oceanos, no Auditório Ibirapuera.

Escritores de muitos livros (os últimos: Só aos domingos, da Lucimar, e O grifo de abdera, do Lourenço), conhecem bem o valor da ideia e da palavra e conduziram a cerimônia com simpatia, sempre homenageando a literatura. Todos foram lembrados nas falas: escritores, editores, leitores, o cinema.

Silviano Santiago (Mil rosas roubadas), Elvira Vigna (Por escrito), Alberto Mussa (A primeira história do mundo) e Glauco Mattoso (Saccola de feira) foram os quatro premiados.

Coube a Silviano Santiago o primeiro lugar, e foi bonito. Ainda não li os livros vencedores. Então, para mim, é simbólico que o autor mais antigo tenha ficado em primeiro, a escritura da vida é reconhecida no prêmio.

O escritor e professor Daniel Munduruku entregou o troféu  a Silviano Santiago. Antes, falou sobre a importância de o Brasil olhar para povos indígenas que formaram e fazem parte de sua história.

Ao falar sobre a primeira frase de seu livro (Perco meu biógrafo), antes de receber o prêmio, Silviano Santiago disse, mais ou menos, que, no momento em que o narrador perde a pessoa mais querida, está perdendo a si mesmo, escrever sobre o outro é recuperar a própria história. O sobrevivente é quem narra o outro para conhecer a si mesmo.

Toda narrativa tem dois lados (ou mais), e agora já estou em uma digressão, ainda não li “Mil rosas roubadas”.

Já estou com o livro no meu leitor. E, procurando, leio a frase: “Que o bom amigo seja minha sentinela, meu espectador, meu padrinho, meu superego voluntário. Não importa. Que seja meu olheiro, como se diz na gíria de futebol”.

Sobre eventos literários e escritores que foram espiões e um pouco sobre o escritor Eduardo Halfon no Emil e também sobre Leonardo Padura

15 de novembro de 2015

escritoresespioes

Espião é o sujeito que observa secretamente para passar informações. Alguns escritores foram espiões e, de certa forma, isso não é estranho, já que escritores são bons observadores e bons observadores podem ser bons espiões.

Tenho visto e lido escritores durante muitos anos e hoje em dia eles precisam falar, também, explicar verbalmente como escrevem. Os diversos eventos literários mostram escritores nem sempre acostumados aos discursos esforçando-se para dizer. Sinceramente, não sei se hoje há escritores espiões e nem mesmo sei se há espiões como antes havia. Só o tempo para dizer isso.

Agora em São Paulo está havendo o 1º Encontro mundial de invenção literária (Emil) e eu não estava muito ligada em assistir porque o evento se pulverizou muito pela cidade e já irei à Balada Literária que começa agora quarta-feira porque nela lançaremos nosso Fancine (nós é o Coletivo Literário Martelinho de Ouro) e não quero transitar demais. Mas, por coincidência, passei pela Livraria da Vila da Fradique ontem enquanto o escritor Eduardo Halfon falava e sentei ali para ouvir porque quando um escritor fala e você por acaso passa no lugar, precisa parar. Eu não o conhecia. Comprei o livro (O boxeador polaco-Rocco) e já vou ler e conhecer, mas gostei quando ele contou que fala inglês muito bem porque mora nos Estados Unidos, mas só escreve na sua língua, espanhol.

Nabokov só escrevia em inglês. Isaac Beshevis Singer só escrevia em iídiche. Isso me faz pensar que a escrita ficcional vem de uma parte do cérebro que dá muita atenção à identidade afetiva, não sei se posso falar assim. A escrita ficcional brota e, se brota, ainda que com esforço, não pode haver outra etapa entre a ideia e o papel. Não deve haver uma tradução pelo próprio escritor no trajeto da ideia à tela, ao papel. Claro que isso não é uma regra. Eduardo Halfon diz que não traduz pessoalmente seus livros para o inglês. Não havia muitas pessoas assistindo, mas havia uma moça traduzindo tudo o que era dito para libras, a linguagem dos sinais. Imagino que essa tradução tenha sido constante no Emil, em todos os eventos.

Agora como vou juntar essas reflexões aos escritores espiões que me fizeram sentar e escrever neste domingo (e não gosto de domingos)? É um livro que eu tenho que fala sobre isso, de Fernando Martínez Laínez, da Relume Dumará, que me chamou. Faz tempo quero falar sobre esse livro. Chama-se Escritores e espiões. O autor escreve sobre muitos escritores que foram espiões: Francisco de Quevedo, Christopher Marlowe, John Le Carré, Pierre-Augustin Caron Beaumarchais, Miguel de Cervantes, Graham Greene, François Rabelais, Aphra Behn, Josep Pla, Voltaire, Daniel Defoe.

Imagine se esses escritores precisassem dar entrevistas sobre suas atividades, sua vida. Não teriam o que dizer, ou inventariam fatos e fotos, representariam personagens. Não é isso que vejo, hoje, nos eventos literários. A maioria dos escritores tenta ser sincero, leva as perguntas a sério. Há exceções, claro, mas os que tenho visto procuram ser verdadeiros. Ou tentam parecer verdadeiros.

E se o autor escreve sob pseudônimo? E se faz muito sucesso e, mesmo assim, não quer dizer quem é? Será que a identidade de um escritor é útil para a compreensão de sua obra? Fico pensando se não é melhor que a obra prevaleça sobre seu autor, que ele se desvaneça nela.

Às vezes não quero conhecer um escritor cuja obra admiro muito. Prefiro não falar com ele e nem mesmo ter o autógrafo se for ao lançamento (se não for amigo, de livro de amigo sempre gosto, e com autógrafo). Porque posso ficar confusa e o livro nunca será o mesmo se o escritor não tiver sido muito simpático, ou afetuoso, e não corresponder às minhas expectativas naquele momento. Ontem fiquei em dúvida se esperaria Eduardo Halfon para o autógrafo.

padura

Outro dia, no Colégio Santa Cruz,assisti ao escritor cubano Leonardo Padura, que tem feito muito sucesso com seus O homem que amava os cachorros e Hereges, os dois da Boitempo Editorial. Ele foi entrevistado por professores que super conheciam sua obra e ele mesmo é da academia, então a conversa foi bastante profunda. Ele estava tão compenetrado, foi tão cuidadoso nas respostas, falava em espanhol e era perguntado em português. Ele se colocou, ali, de uma maneira quase que impenetrável, embora simpática. Gostei desse jeito dele. Estou lendo O homem que amava os cachorros e não vejo o autor na leitura. O livro tem a própria identidade. Quero ler os romances policiais de Padura. Devem ser um pouco diferentes.


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 35 outros seguidores