Um pouco sobre “se o que eu vi”, de andré caramuru aubert

30 de agosto de 2019

Poesia é como música; não consigo explicar, tecer um discurso.

Registro aqui a de André Caramuru Aubert, cujo livro (Editora Patuá) tem esse nome lindo e a capa mais ainda: se o que eu vi.

20190830_160536

São 93 poemas.

Fotografei alguns:

20190830_162204.jpg

2019-08-30 16.20.00

2019-08-30 16.18.38

Há outros mais longos e igualmente bonitos no livro.

Já li, de André Caramuru Aubert, poeta, tradutor e autor de ficção, o romance Poesia Chinesa (Sesi-SP).

O personagem é professor e também se chama André. Ele ensina poesia chinesa e conhece muito a norte-americana. Acreditei no romance com sua aluna, Simone. E tem a Clara, da vida real.

A poesia está no livro todo, André (autor) conseguiu levar para a ficção. As aulas dele (agora falo do personagem) são muito boas e ele gosta de Bob Dylan e Charlie Haden.

Quase não falo de música, mas é porque gosto muito, e Bob Dylan está no grau máximo da minha predileção.

Charlie Haden também também é um dos preferidos.

https://youtu.be/3VkHjig6MSI

Bauhaus-100 anos

2 de junho de 2019

bauhaus, com b minúsculo, porque no âmbito da escola alemã o artista gráfico Herbert Bayer criou uma fonte tipográfica simples, sem maiúsculas. Para a língua alemã essa era uma proposta transformadora: os substantivos, em alemão, são grafados em maiúsculas.

Quando penso em Bauhaus  vejo uma cadeira larga em linhas retas: a cadeira Wassily, planejada por Marcel Breuer, de aço cromado e couro.  Li que ele teve a ideia da cadeira andando de bicicleta.

Depois vêm outras imagens, como edifícios em linhas retas, quadrados. Tel Aviv, em Israel, tem muitos deles. Até mesmo os edifícios dos Ministérios em Brasília teriam sido projetados a partir de linhas inspiradas na escola alemã (se bem que Walter Gropius teria dito que a Casa das Canoas, de Oscar Niemeyer, era bonita, mas não multiplicável).

As construções em blocos idealizadas pela Bauhaus facilitavam a reprodução e a multiplicação e Oscar Niemeyer sustentava a ideia de arquitetura autoral. Mas há semelhanças entre o trabalho de Niemeyer e as regras da Bauhaus, como explica  Viviane Vilela em texto publicado em página do Instituto Goethe na internet: “Entretanto, as diferenças manifestadas por Niemeyer em relação aos princípios da Bauhaus não impedem a identificação da presença de preceitos caros à escola alemã até mesmo em Brasília. O uso da estrutura metálica no processo construtivo, assim como a implantação serial dos prédios da Esplanada dos Ministérios, o planejamento urbano da cidade a partir de um ponto zero e a abstração da forma arquitetônica são devotos de apostilas e pranchetas gestadas a partir dos preceitos da escola alemã”
https://www.goethe.de/ins/br/pt/kul/fok/bau/21385377.html.

Walter Gropius (1883-1969) foi o fundador, em Weimar, da Bauhaus (1919-1933), escola alemã de arquitetura, design, artesanato e arte. Escola porque reunia pensadores e artistas e artesãos cujos pensamento e ação estavam direcionados a elaborar um mundo concreto, funcional e reprodutível. Paul Klee e Wassily Kandinski foram, também, professores da Bauhaus.

Gropius pretendeu criar um movimento, uma escola que privilegiasse a experiência, o processo de realização.  Quando surgiu, em Weimar, a Bauhaus apoiava o trabalho artesanal e estava fundamentada no expressionismo, valorizando individualidade. Com o tempo, já na cidade de Dessau, adotou a tecnologia e a produção em série. Hoje essa ideia parece comum, mas, em 1919, era inusitada.

Walter Gropius criou a Bauhaus em Weimar. Depois foi instalada em Dessau e, por último, em Berlim, onde terminou por perseguição nazista. O regime nazista, instalado na Alemanha a partir de 1933, associava a Bauhaus ao marxismo, aos judeus e, por isso, a escola foi fechada.

Bauhaus primava pela elegância das formas e simplicidade das linhas do design. Uma das frases sempre lembradas é “menos é mais”, ou “less is more”, atribuída ao arquiteto Ludwig Mies van de Rohe, que, na época da segunda guerra, foi para os Estados Unidos, como aliás foram Walter Gropius e Anni e Josef Albers. Anni fez trabalhos lindíssimos em tapeçaria, combinando cores com geometria e equilíbrio. O MoMa, em Nova York, 1949, mostrou seus trabalhos em uma exposição individual, novidade, na época,  para uma designer.

A Bauhaus não existiu por muitos anos (1919-1933), mas, até hoje, influencia o modo de aprender, ensinar, fazer arte, construir, combinar cores e formas. Difundiu arte para todos e multiplicação dos trabalhos.

Alunos e professores da Bauhaus  dedicavam-se a idealizar fantasias diferentes, originais e inusitadas, exibidas em bailes. Um deles chamou-se Festa do Metal, pois as vestimentas eram feitas com colheres, frigideiras, papel de alumínio.

O movimento Bauhaus associava o funcional ao lúdico e influencia  trabalhos de arte, construção e design até nossos dias. Essa influência prosseguirá, pois as ideias da Bauhaus não são estáticas, movimentam-se no tempo e transformam-se.

A complexidade da vida e da comunicação no século XXI suprime o tempo de concentração e foco. No contexto, a expressão clara e simples, o resumo, o “menos é mais”, são legados da Bauhaus que permanecem e podem ser continuados, aperfeiçoados em modos de fazer arte, desenho e  arquitetura. O importante, hoje, é que o uso da tecnologia aconteça de maneira racional e voltada para funcionalidade do que é criado, para a síntese.

O aprendizado livre, colaborativo, o pensar junto, colaboram, ainda, para que as criações, no futuro, sejam direcionadas à preservação do meio ambiente e do planeta.  A sustentabilidade seria, hoje, com certeza, um dos objetivos da Bauhaus.

A Universidade Bauhaus, em Dessau, deve, provavelmente, pesquisar caminhos para que as ideias lançadas pelo movimento continuem a repercutir e contribuir para realizações criativas, lúdicas e, ao mesmo tempo, funcionais.

É possível, também, associar o processo de aprendizagem da Bauhaus ao processo idealizado pelo educador brasileiro Paulo Freire, que, de tão reconhecido no mundo, tem uma estátua em sua homenagem em Estocolmo, Suécia, ao lado de Angela Davis e Pablo Neruda.

Desnecessária seria uma estátua para o reconhecimento de Paulo Freire. Mas, por outro lado, a escultura em sua homenagem simboliza a solidez de seu pensamento, solidez essa que deve ser continuamente refletida e reaprendida, assim como os ensinamentos da Bauhaus.

Cheguei agora ao fim deste breve ensaio unindo Bauhaus e Paulo Freire, uma escola de pensamento alemã a um professor brasileiro, confiando que sem liberdade de aprender e de ensinar não há desenvolvimento possível e, muito menos, felicidade.

 

 

Ainda a literatura policial

8 de abril de 2019

Levei dois livros meus ao Choque Literário, espaço que reuniu editoras e autores independentes no sábado, 6 de abril: “Um enterro para Suzana”, que acaba de ser editado pela Patuá, e “Nove tiros em Chef Lidu” (Circuito). Levei para a banca da Aberst, Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror, da qual sou associada.

“Um enterro para Suzana” reúne contos, alguns já publicados. O título do livro é o título do primeiro conto, quase uma novela. Suzana é a amiga que morre. O livro tem tamanho de uma revista, parece uma revista. Mas é um livro. Outros contos do livro também são policiais, como Rosa, Na delegacia, e Sílvio, não se esqueça do cacto (adoro o nome desse conto).

Rosa foi também publicado no livro “Onda de crimes”, editado pela Avec. A publicação foi coordenada  por Cesar Alcázar, que organiza o Porto Alegre Noir, encontro de cinema e literatura policial. Uma honra pra mim participar desse livro, o Cesar inaugurou, com o Porto Alegre Noir, uma maneira nova de ver e ler filmes e romances policiais.

O Porto Alegre Noir, que já está na segunda edição, começando aliás essa semana (9 a 14 de abril), é uma oportunidade para o debate da realidade por meio de literatura que fala sobre violência e mistério. No ano passado participei de uma mesa (Desconstruindo estereótipos femininos na ficção policial). 

Olhando a programação,  vi que dia 13 de abril o tema do workshop será “Assassinato Aconchegante: O Universo dos Cozy Mysteries”, com Matheus Ferraz.

Eu nunca tinha ouvido falar na expressão cozy mysteries e fui procurar. Pelo que li na internet, cozy mysteries são histórias policiais que falam de violência com humor, têm detetives amadores, acho que é mais ou menos isso.

Fiquei pensando se minhas histórias poderiam ser consideradas cozy mysteries e cheguei à conclusão de que não, já que têm humor, mas, ao mesmo tempo, alguma tristeza.

Agora me lembrei que T.S. Eliot diz que abril é o mais cruel dos meses. Mas, depois disso, ele diz, germina (tradução de Ivan Junqueira), ou criando (tradução de Caetano Galindo). Assim começa A terra devastada, The waste land

 

Aqui o link para o Porto Alegre Noir: https://portoalegrenoir.wordpress.com.

As cartas de Euclides

10 de março de 2019

Assisti à aula de Walnice Nogueira Galvão sobre cartas no Instituto Moreira Salles em 7 de fevereiro.

Walnice tinha suas fichas e a elas recorria enquanto comentava slides de imagens simples e sem texto, como por exemplo a da pedra Roseta, que eu vi em Londres, ela é tão linda, a pedra Roseta.

Hoje, quando ouço pessoas falando em público, vejo que as anotações são evitadas, ou substituídas por telas de Power point. Espera-se que o orador, o professor, aquele que se expõe, saiba tudo de cor e não leia sua fala.

Walnice não se incomodou de consultar e ler suas notas muito bem formuladas. Depois de um tempo, quando as perguntas vieram, respondia com desenvoltura e alguma ironia.

Direcionando a conversa para cartas de escritores e sua influência na interpretação de obras literárias, Walnice falou em cartas como para textos. Organizou com Nádia Battela Gotlib o livro “Prezado Senhor, prezada senhora” (Companhia das Letras), constituído de artigos sobre cartas de quem foi importante para nossa atual concepção de mundo. São comentadas cartas de Proust, Freud, Raymond Chandler, Marx, Mario de Andrade, entre outros. Ela tem neste livro um artigo intrigante: “Proust e Freud: um diálogo que não houve”. Os dois encontraram-se apenas uma vez já no fim da vida do primeiro, tomaram um mesmo táxi, nunca se leram. Walnice comenta as cartas desses escritores relacionando-as a seu estilo e modo de viver.

Ela falou também, na aula, sobre o fim do rascunho. Não sei bem se o rascunho terminou. Como escrevemos e reescrevemos criando sucessivos arquivos em computador temos muitos rascunhos. Só não sei se os estudiosos terão acesso a esses arquivos privados que provavelmente não serão dados a museus ou bibliotecas. E um dia alguém, o escritor mesmo, pode deletar tudo, formatar o hd, e adeus arquivos rascunhos. E eu fico pensando que isso pode e deve acontecer também com e-mails e mensagens, arquivos privados, secretos, virtuais, guardados em um computador como que em uma extensão de cérebro, protegidos pela consciência.

Talvez, no futuro, importe mesmo só a obra e não os para textos, porque será difícil encontrá-los e analisá-los e eles estarão fragmentados e descontextualizados. Serão muito diferentes dos manuscritos em que a letra cursiva mostrava muito do modo de ser do autor.

Encontrei também outro livro de Walnice, aquele em que é publicada a correspondência de Euclides da Cunha. Acho que agora, na Flip 2019, quando será homenageado e estudado, diversos aspectos de suas contribuições serão iluminados. Será visto como um escritor visionário e não será lembrado, apenas, pelo magistral “Os sertões”.

Li algumas cartas e me impressionou a elegância de sua comunicação, o estilo curto, porém amável, qualidades de um engenheiro escritor e de um escritor engenheiro, provando que é possível ocupar espaços e funções na vida, ser várias coisas, e que as expedições acontecem também na imaginação e nos sonhos.

Depois, procurando informações na internet, encontrei, na revista Teresa, da USP, entrevista em que Walnice fala sobre cartas e sobre as de Euclides da Cunha.

Aqui é possível baixar a revista:

https://www.revistas.usp.br/teresa/issue/view/8754

Fico muito intrigada com cartas. Quando criança eu escrevia muitas para minha avó quando ela viajava para a Europa. E recebia, também, cartas e cartões postais.

Minha mãe gostava de escrever cartas e ela o fazia em blocos especiais para isso, com papel fino, de seda talvez, para o envelope não ficar pesado. Os blocos tinham o nome Copacabana. Ela gostava de escrever bastante. E guardava as cartas que recebia em um baú pequeno, que tenho até hoje, de madeira. Está vazio.

Não sei onde estão as cartas de minha mãe, nem se ainda existem.

DEPOIMENTO | Paula Bajer, autora de Feliz aniversário, Sílvia

19 de fevereiro de 2019

Aqui eu falo um pouco da minha escrita

Crítica, eu?

Paula Bajer, 56 anos, é formada em direito pela Universidade de São Paulo (USP) e, antes de se aventurar pela literatura de ficção, publicou dois livros na área jurídica. O romance policial não foi sua primeira linha de criação. Sua primeira obra, “Viagem sentimental ao Japão” fala sobre o medo e o desejo de viajar. Paula escreve “desde sempre”. Com mais precisão: Paula escreve “desde que aprendeu a desenhar o próprio nome com a avó”. Em 2008, quando decidiu se arriscar a escrever ficção, fez cursos para aperfeiçoar seu estilo e descobriu que a prática da escrita é muito sobre aprender a ouvir. “Feliz Aniversário, Sílvia” é uma obra em que Paula Bajer decidiu apresentar duas personagens femininas fortes e em que a própria protagonista carrega muitos traços da própria autora.

Relato

Tenho 56 anos, nasci em 62. Fiz faculdade de Direito na USP, formei-me em 85, pouco tempo antes…

Ver o post original 1.160 mais palavras

Povos indígenas, povos originários

1 de fevereiro de 2019

Eduardo Viveiros de Castro diz, nessa entrevista, que difícil é saber quem não é índio no Brasil:

As conferências, palestras, aulas do antropólogo Viveiros de Castro arquivadas no youtube esclarecem muito sobre povos indígenas. Depois que as descobri não me canso de assistir.

Há, no Brasil, mais de 300 etnias, por volta de 270 línguas. Muitas estão em extinção.

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-36682290

O Projeto Vídeo nas aldeias (www.videonasaldeias.org.br) reúne muitos filmes feitos por indígenas, de várias etnias.

A terra permeia todo o contexto, faz parte da identidade indígena

Eu me sinto bem vivendo em um país com povos e pessoas que mantêm sua cultura, modificando-a, mas sustentando suas características fundamentais. Aprendi que os povos indígenas protegem as florestas e o território brasileiro. Não permitem a corrosão da natureza. Manuela Carneiro da Cunha explica isso em texto publicado na revista Piauí 148, mais além relacionada:

Sintetizo ainda aqui alguma bibliografia que tenho colecionado, propondo-me a ampliar a lista ao longo de novas leituras. A lista não segue ordem específica. Se eu for muito rigorosa na preparação, o texto me prenderá demais e, afinal, esse é um blog, o texto compartilha fontes de conhecimento que podem ser consultadas livremente.

Segue:

1)- “O perecível e o imperecível: reflexões guarani mbya sobre a existência”, de Daniel Calazans Pierri (Elefante Editora).

Transcrevo uma fala:

“Essa aldeia, a primeira que eu visitava, localiza-se na Terra indígena Jaraguá. Eu estava a apenas vinte minutos de distância da casa onde morava, na zona oeste da cidade de São Paulo, testemunhando algo que nunca imaginei existir tão perto nos vinte anos em que ali residi. Pouco naquelas cenas me parecia diferente dos relatos históricos que eu então estudava por ocasião de minha iniciação científica, nos quais o frade franciscano André Thévet descrevia com incredulidade os rituais xamânicos que acompanhou entre os Tupinambá, ainda no século XVI. Pouco, não fosse o fato de que toda a tarde que antecedeu minha entrada na opy, quando circulamos pelas casas da aldeia incrustrada na metrópole paulista puxando conversa com os moradores, constituiu-se em uma desconstrução imediata de quaisquer concepções essencialistas e estereotipadas a respeito do que seriam os índios. Pouco, não tosse o fato de que esse evento era contemporâneo e se passava a apenas alguns quilômetros de minha casa” (p. 21).

Ainda:

“Segundo a publicação Mapa guarani continental (2016)- os Guarani totalizam aproximadamente 280 mil indivíduos, dispersos entre Brasil (85 mil), Bolívia (83 mil), Paraguai (61 mil) e Argentina 54 mil). -A literatura tem classificado esse contingente populacional, a partir de Egon Schaden, em três principais subgrupos: Kaiowa (ou Pai-taviterã, Mbya e Nhandeva (ou Xiripa, ou ainda Ava Guarani), além de subgrupos “andinos” presentes na Bolívia e na Argentina” (p. 30).

“A relação com os brancos é também pensada sob uma dualidade – mas uma dualidade regida por uma diferença descontínua. Os brancos são provenientes da transformação do mbi’i, a lagarta originária (ver mais adiante), e não são, portanto, descendentes diretos dos deuses, como os Guarani. Foi recorrente em praticamente todas as reuniões de que participei a fala dos mais velhos enfatizando uma descontinuidade entre os Guarani e os brancos, mesma descontinuidade que estes se reservam em relação ao seu Deus” (p. 68).

O livro faz referência a um filme no youtube, Guarani-MbYá: Bicicletas de Nhamderú. Procurei, está aqui:

2)- A Revista de Fotografia Zum traz muitas matérias sobre os povos indígenas e na de número 9 está “Os trabalhos e os dias”, matéria assinada por Eduardo Viveiros de Castro e Miguel Rio Branco. As fotografias são de Viveiros de Castro.

3)- Diários índios, de Darcy Ribeiro: Os Urubus Kaapor”(Companhia ds Letras). O livro traz diários de expedições do autor entre 1949 e 1951 às aldeias dos Urubus-Kaapr. O livro tem mais de 600 páginas. Gosto de diários. Não têm a formalidade ou o cuidado dos textos acadêmicos, aqueles escritos para serem estudados. Falam o que a gente precisa saber e compreender sem os filtros dos raciocínios elaborados.

Aqui está uma anotação:

“22/jan./50-Não tenho escrito nada esses dias. Ocupo meu tempo em remendar, para publicação, um material ofaié que trouxe e preparar a viagem. Foerthman está adoentado e ainda não pode partir, mas não demorará. Eu irei logo, também. A situação aqui é deplorável, há 32 doentes de cama com sarampo, gripe, terçol e outras atrapalhadas. Depois que chegamos já morreram cinco pessoas, o que é um recorde para tão pouco tempo e população tão pequena. Não temos remédios para ajudá-los e a Inspetoria só se lembrou de passar um telegrama me autorizando a tomar todas as medidas administrativas que julgar convenientes. Ora, bolas, dessas medidas a única boa seria demitir todos os funcionários do SPI no Pará, ele inclusive (p. 165).

4)- Por último, a biografia de José de Alencar escrita por Lira Neto:

O inimigo do rei, editora Globo. Li o romance Iracema na escola há muitos anos e nunca soube bem quem era Iracema, qual sua história. Depois li, ou ouvi, ou concluí, que Iracema era uma personagem muito romantizada e talvez inadequada a uma atmosfera de confronto cultural. Minha curiosidade por Jose de Alencar surgiu dessa primeira lembrança. Não li O guarani, a história de Peri e Ceci escrita em folhetim, 54 capítulos. Lira Neto conta que o folhetim virou mania:

“Os exemplares do Diário do Rio de Janeiro passaram a ser avidamente disputados, a circular de mão em mão. No meio da rua, de dia ou de noite, fosse à luz do sol ou dos lampiões da iluminação pública, o transeunte se deparava aqui e ali com aglomerados de pessoas, reunidas ao redor de algum assinante do Diário, que imediatamente era convocado a ler o eletrizante capítulo do dia. Nunca se assistira a tamanho fenômeno no Brasil. O guarani arrancava gritos de entusiasmo dos rapazes e suspiros dolentes das moçoilas”(p. 162).

Hoje, por coincidência,  El país publicou texto de Eliane Brum sobre O Guarani, de José de Alencar. Segue Eliane Brum:

“O indígena, habitante nativo que vivia na terra antes do domínio europeu, seria o herói genuinamente brasileiro da nação que se declara independente da metrópole. Mas com todas as qualidades atribuídas à cavalaria, na Idade Média, transplantadas para seu corpo e sua alma. A coragem, a lealdade, a generosidade, a partir de um ponto de vista que servia à manutenção do sistema feudal, e o amor cortês. Para escritores da época de José de Alencar e de Gonçalves Dias, que viviam o período pós-independência do Brasil, escrever era um ato de patriotismo. Eles teriam de dizer com sua obra o que é “ser brasileiro”. É também essa referência que o ideólogo do governo procura resgatar e enaltecer.

Os negros, corpos escravizados que moviam a economia do Brasil e serviam às suas elites, não estavam presentes como formadores de uma identidade nacional nestes romances de fundação. Se os escritores buscavam uma identidade nacional, ela era forjada dentro da matriz europeia. Como seria possível escrever em língua portuguesa, a do colonizador, sem ser colonizado na linguagem, foi uma questão crucial para a qual Alencar e outros também tentaram dar uma resposta no século 19. Mas este é um tema longo para outra conversa” (coluna de Eliane Brum em El país, 16 de janeiro de 2019).

5)- Revista Piauí de janeiro de 2019 – dois textos muito bons, que dialogam:

“Povos da megadiversidade: o que mudou na política indigenista no último meio século”- Manuela Carneiro da Cunha.

“Genocídio”- Norman Lewis

6)- Livros que examinam o aspecto jurídico.


Há muitos mais, mas por enquanto mostro esses dois, escritos por amigos meus que estudam há anos como o direito vê e como deve ver os povos indígenas:

Os direitos dos índios: fundamentalidade, paradoxos e colonialidades internas (Editora Café com Lei. Pode ser encontrado também em e-book, na plataforma da amazon).

-Direitos Territoriais indígenas: uma interpretação intercultural, de José Araújo Junior (Editora Processo)

7)- Também li Quarup, de Antonio Callado, A marcha para oeste, de Orlando e Cláudio Villas Bôas, e revi, recentemente, o filme de Hector Babenco, “Brincando nos campos do senhor”.

Compartilho com vocês essas fontes sem qualquer metodologia, são as fontes que encontro ao mergulhar em uma realidade nova para mim, mas não para o Brasil. Afinal, falo de povos originários, que aqui já estavam em 1500, e eram milhões, e diversos também.

O processo criminal de Euclides da Cunha, vítima de homicídio

14 de janeiro de 2019

http://cheflidu.com/2019/01/14/o-processo-criminal-de-euclides-da-cunha-vitima-de-homicidio/

Euclides da Cunha

31 de dezembro de 2018

Euclides da Cunha (1866-1909) será o homenageado da Flip em 2019.

Euclides da Cunha era jornalista e engenheiro e foi a Canudos, pelo jornal O Estado de S. Paulo, ver e contar a guerra que lá acontecia. O resultado dessa experiência é Os sertões.

Euclides poderia não ter feito mais nada na vida e já estaria eternizado. Mas ele esteve na Amazônia (Alto Purus) e, depois de um tempo do retorno, foi assassinado pelo amante de D. Saninha, com quem era casado e tinha filhos. Mas ela também os teve com Dilermando, rapaz muito mais novo, militar, por quem se apaixonara nas ausências do marido. As viagens eram longas.

Hoje é fácil viajar, mas antes não era. Assim mesmo, havia muitas expedições. Euclides viajava para contar o que via, desvendava terras brasileiras. Escrevia.

Penso na viagem que Euclides da Cunha fez à Amazônia e esse é um tema que me interessa muito, talvez mais do que Canudos ou Antônio Conselheiro ou Padre Cícero. E bom viver em um país que tem a Amazônia.

O jornalista e escritor Daniel Piza fez em 2009, também pelo Estadão, todo o percurso de Euclides da Cunha e escreveu Amazônia de Euclides. Ele conta, no livro, as duas viagens, a de Euclides e a dele, comparando lugares visitados. Há um documentário dessa viagem chamado Um paraíso perdido. Está no YouTube.

https://youtu.be/WMSsuWihp2U

Já fui à Amazônia, fiquei em Anavilhanas e não entrei de verdade na selva. Fiz passeios de barco e tive medo de o barco parar no meio do rio. Sou medrosa de realidade. Mas fui. O rio era largo e infinito, acho que meu medo era mais do infinito. Eu pensava, e se a gasolina do barco acabar? E se o barco quebrar?

Euclides não devia pensar em nada disso. Ou pensava e não se incomodava.

Dilermando foi absolvido, o júri considerou que ele matou nosso herói em legítima defesa. Ele foi à casa de Dilermando já agressivo e armado, pois Saninha estava lá, e ainda por cima grávida. Ele tinha ficado muito tempo longe e talvez não fosse um companheiro amável.

Achei muito bom a Flip falar de Euclides da Cunha porque pode ser uma oportunidade de falar sobre a Amazônia, índios brasileiros, literatura escrita por indígenas, religião, fé, crimes passionais, romance policial, literatura de viagem. Dá pra pensar em Antônio Conselheiro, em fanatismo, jornalismo, em Padre Cícero. Aliás, está publicada, de Lira Neto, pela Companhia das Letras, biografia de Padre Cícero.

O processo criminal correspondente ao julgamento de Dilermando está publicado em livro e ali é possível conhecer as versões dos fatos e suas circunstâncias (Crônica de uma tragédia inesquecível-Autos do processo de Dilermando de Assis, que matou Euclides da Cunha).

Mary Del Priore escreveu um livro sobre a tragédia: Matar para não morrer: a morte de Euclides da Cunha e a noite sem fim de Dilermando de Assis.

Quero saber tudo sobre a história de Euclides da Cunha, vontade de saber o que o movia, por que ele ousava ir tão longe e como conseguia escrever tão bem e com tanto estilo.

Só agora, escrevendo este texto, me ocorre que morei por alguns anos, quando adolescente, em uma rua chamada Euclides da Cunha. Eu nem me importava com o nome, só achava meio longo e sisudo, como aliás a rua era. Pode ser que a minha curiosidade inicial venha daí, curiosidade de saber mais sobre essa rua reta em que morei e percorria para ir ao cinema.

Ele cuida da Ótica

6 de dezembro de 2018

Escrevi este texto durante oficina com Cadão Volpato em 2017, o objetivo era criar um personagem. Enviei para publicação no Mulherio das Letras Europa, organizado por Sonia Palma e editado por Fatima Nascimento, da Editora Fafalag, na Alemanha. O livro foi lançado em Perugia, na Itália, em encontro do Mulherio (2018) formado por mulheres que vivem na Europa.

Adorei a capa. O livro veio direto da Alemanha com esses marcadores lindos da Editora Fafalag.  

É muito bom participar de publicação tão inspirada e com um personagem como Tony, que pode prosseguir, mas também parar por aqui.

Leituras diversas

16 de novembro de 2018

Leio bastante. A lanterna mágica de Ingmar Bergman, A noite da espera de Milton Hatoum, A uruguaia de Pedro Mairal.

A escrita de ficção segue. Reuni contos, alguns inéditos, outros não, e vamos publicá-los até o fim do ano, começo do próximo (Editora Patuá).

Tenho a impressão de que com a reunião dos contos termino uma fase ligada ao suspense policial.

Mas toda escrita é de suspense, então não sei se vai fazer muita diferença.

Estou começando outro romance, ainda não dá pra falar dele. Só que não é policial. Escrevo mentalmente.

Voltando às leituras, A uruguaia, de Pedro Mairal, tem um narrador homem, Lucas Pereyra. Ele é divertido e triste, impossível não simpatizar com a ingenuidade dele, que se acha o maior esperto. É escritor. O livro tem um enredo simples, mas não consegui parar de ler, curiosa pra saber como terminava. E ele fala de Montevidéu, onde já estive, me deu uma nostalgia daquele rio imenso que é como o mar.

A noite da espera é mais sério, não tem humor, tem gosto de ditadura, de juventude, de estar perdido no meio de acontecimentos sobre os quais não se tem qualquer controle. É triste.

Sobre o Bergman só posso dizer que estar dentro do pensamento dele é diferente de ver seus filmes. Ele descreve, na autobiografia, suas limitações, dúvidas, inseguranças, a intimidade criativa. Seus filmes são tão perfeitos, muitos deles sofridos, não entendo como foram criados por uma pessoa finita. Os filmes não terminam nunca, mudam no decorrer dos anos, estou revendo aos poucos.

Hoje li partes deste livro:

E encontrei:

Gosto de textos incompletos.

Sobre oficinas e coletivos literários, por Paula Bajer, escritora

23 de setembro de 2018

via Sobre oficinas e coletivos literários, por Paula Bajer, escritora

Romance Luminoso

11 de agosto de 2018

dt855h9rwd6hxjb8hasflr068107785033036466117.jpg

Terminei de ler “Romance luminoso” (Companhia das Letras), de Mario Levrero, escritor uruguaio.

Um pouco mais da metade do livro é seu diário. Ele descreve a rotina de quem precisa escrever um romance porque ganhou uma bolsa para isso. Mas ele se dispersa, é viciado em programas de computador e romances policiais que encontra em sebos e bancas, tem uma companheira que o visita e com quem passeia, alguns problemas de saúde e uma médica com quem foi casado, alunos em oficina literária e, com tudo isso, não consegue escrever nada além do diário.

Fico encantada por esse apego aos romances policiais. Ele gosta dos mais antigos e brinca que não leu Agatha Christie. A certa altura, diz: “Assim funcionam os vícios, e a pessoa chega a sofrer grandes humilhações por necessidade da droga. Já sei que um dia vou acabar lendo Agatha Christie”.
Ele gosta desses autores: John D. Mac Donald, Leo Bruce, Chersterton, Edgar Wallace, Ellery Queen, Erle Stanley Gardner, Carter Dickson, e outros, inclusive Somerset Maugham e Graham Greene e tantos que não escrevem policiais, como Thomas Bernhard.

Quando comecei a escrever ficção eu tinha aulas com a professora Malu Zoega e lemos, juntas, “O que é romance policial”, de Sandra Lúcia Reimão, editado há anos pela Editora Brasiliense.

O livro foi importante para mim porque me ensinou o que é o romance de enigma e as diversas formas de narrar uma história.

Recentemente conheci, de Sandra Reimão, o livro “Literatura policial brasileira”, editado pela Zahar para a Coleção Descobrindo o Brasil. O livro me mostrou que conheço pouco o romance policial brasileiro. Fiquei sabendo que Fernando Sabino escreveu policiais e preciso lê-los com urgência.

Nos últimos tempos tenho conhecido escritoras bacanas de suspense: Andrea Nunes, Cláudia Lemes, Cristiane Krumenauer, Vera Carvalho Assumpção, Vivianne Geber. Cláudia Lemes preside a Associação Brasileira de Escritores de Romances Policial, de Suspense e Terror (ABERST). Elas têm liberdade para escrever sobre o lado escuro da vida e são luminosas.

Escrevi “Nove tiros de Chef Lidu”, e, nele, apliquei as regras estruturais dos romances policiais à minha maneira, ou seja, desaplicando.

Mais tarde escrevi outra história que também tem crime, “Feliz aniversário, Sílvia” (Patuá), e nesse último livro não aplico regra nenhuma, pelo contrário. O livro reúne vários livros dentro dele, parece muito simples, mas não é nada simples.

Quando leio um livro como “Romance luminoso”, de Mario Levrero, que foi além, pois descreveu o escritor pensando em quase nada porque é desse vazio que vivem alguns escritores, penso que não preciso me preocupar com enredos.

Mario Levrero observa as pombas no telhado que vê de sua janela como observa pessoas, não vou contar mais para não dar spoiler sobre o destino de uma delas. Só sei que não consigo parar de pensar na beleza de uma certa pomba.

Depois de muito diário ele finalmente escreve o romance. O narrador não é mais ele e a mudança de tom faz com que o romance fique diferente do diário, embora, na essência, talvez seja igual.

O romance de Mario Levrero não é policial, mas, ao valorizar a narrativa policial, seus autores, as coleções antigas, os sebos, contrapondo esse tipo de narrativa à história que não consegue escrever, porque se distrai, fala sobre literatura e sobre não literatura.

Eu fico intrigada com romances policiais. Leio os jornais e os casos de polícia são cada vez mais macabros. Nada parecidos com a pomba no telhado de Mario Levrero. Estagnada, mas comovente.

Falei em uma entrevista para o blog de José Nunes

16 de julho de 2018

https://comoeuescrevo.com/paula-bajer

Esperando Godot

20 de junho de 2018

Esperando Godot, de Samuel Beckett, é sempre um livro novo.

Há semanas leio e releio. Tenho várias edições e li a mais recente, da Companhia das Letras, cor de laranja.

Beckett escreveu em francês, traduziu ele mesmo para o inglês. Ele era irlandês, mas escrevia também em francês. Li em português e a tradução é muito boa.

Fábio de Souza Andrade não só traduziu como escreveu o posfácio, um dos textos mais inteligentes sobre um autor que já li. Não é didático e não impõe um ponto de vista. É um texto de quem conhece profundamente Beckett e comenta também para si mesmo. Ele está aqui neste programa falando sobre Beckett.

Descobri, no posfácio, que no Brasil mulheres representaram os personagens masculinos e essa foi uma de nossas contribuições para a história do teatro.

É muito impressionante que Cacilda Becker tenha passado mal em um intervalo da peça, foi para o hospital e morreu lá, tempos depois. Esperando Godot interrompida. Nossa melhor atriz morrendo enquanto representava Estragon.

Esperando Godot pode impactar de maneira diferente a cada leitura. Um vazio que está à nossa volta, em tudo, não só na Europa destruída.

A catástrofe da 2ª Guerra é de uma magnitude inominável, palavra aliás usada pelo próprio Beckett para intitular um de seus romances.

Hoje Esperando Godot mostra aquela solidão que só a gente conhece. E também aponta para o desalento das pessoas que buscam refúgio em outros espaços do planeta.

Em 1961 Giacometti fez a árvore do cenário, esquálida. Quando vejo as figuras de Giacometti nos museus fico hipnotizada. Eu nem sabia que Beckett e ele eram tão amigos e saber disso me fez compreender melhor mais os dois.

Este ensaio fala da amizade entre Beckett e Giacometti: https://www.tate.org.uk/art/artists/alberto-giacometti-1159/long-read/when-alberto-giacometti-met-samuel-beckett.

Não sei bem como terminar este texto, mas acho que posso dizer, como Vladimir: “Então, vamos embora”.

“Vamos lá” (Estragon).

Vislumbres de Bissau (segunda visita)

21 de maio de 2018

20180506_095351

Este é um bolo de casamento no dia seguinte da festa. Todo mundo foi embora e a cobertura do bolo ficou no restaurante, com os bonecos. Tive vontade de perguntar se alguém viria buscar, mas não perguntei.

20180506_180013

Esta é a praça principal de Bissau, à noite. Muita gente passeia e faz esporte aqui. Fiz esta foto do último andar do Hotel Império.

20180506_175758

Este é o Hotel Império, onde me hospedei. Fica na praça principal. A foto está um pouco grande, mas é a única que tenho.

Nino Galissa, músico que ouvi em Bissau, na Embaixada de Portugal. Estava acompanhado de alunos e super equipe.

Binhan (2)

Binhan, músico de Guiné-Bissau. Tive a oportunidade de ouvi-lo em um domingo de sol. Há vários registros de Binhan no youtube.

As mulheres na literatura policial

3 de maio de 2018

http://cheflidu.com/2018/05/03/as-mulheres-na-literatura-policial/

Guiné-Bissau

19 de março de 2018

20180303_070336.jpg

 

Estive em  Guiné-Bissau,  país  que está na costa ocidental da África, por uma semana. Foi pouco tempo.

Antes de ir, estudei. Comecei pela literatura  e pelo magnífico livro de Moema Parente Augel,    “O desafio do escombro” (Garamond, 2007), que me deu informações para  compreender melhor  a cultura da Guiné. Ela fala da história do país, da política, da literatura muito rica,  dedicando-se bastante à língua. A oficial é o português,  que se aprende na escola. Há, no entanto, o crioulo, ou a língua guineense, falada pela maioria das pessoas. E há ainda as línguas faladas no âmbito das etnias, que são muitas.

O crioulo é agradável de ouvir. Uma língua bonita. Quando falam entre eles, não dá para entender. É interessante que  não possamos entender o que guineenses conversam quando não estamos incluídos. Não me sentia mal por não estar incluída. No livro de Moema há vários poemas escritos em crioulo traduzidos para o português. São lindos. Há vários da poeta Odete Semedo. Segue um verso, transcrito de “O desafio do escombro”:

Sou parte desta natureza

Tão gasta

Desta face da terra

Tão frágil e vasta

Sou o rio que corre

Tropeçando em pedras e vales.

Em crioulo:

Ami i padas di es mundu

Ku gasta dja

Ami i un burdu di n tera

Ami i iagu ku na kuri

Ku na n baransa nas pedras.

Em Bissau falei e ouvi português, língua  aprendida na escola e usada nas comunicações oficiais. Fala-se bem a língua, mas com algum distanciamento, o que talvez transforme a emotividade das mensagens transmitidas.

Fiquei conhecendo a literatura de Abdulai Sila,  li seu romance “A última tragédia” (Rio de Janeiro, Pallas, 2011). Vi na internet que em Bissau entraria  em cartaz uma peça escrita por Abdulai (“Dois tiros e uma gargalhada”) e eu queria muito assistir, mas não deu: quando estreou, eu já tinha ido vindo embora. Uma viagem é feita também de lugares não visitados, de expectativas não resolvidas.

20180301_0736431.jpg

No Museu Etnográfico Nacional de Bissau  aprendi sobre o pano de pente, tradicional. Presentear alguém com um pano é um ato de amizade e carinho. Comprei panos de pente em Bissau.  Aprendi que até amanhã significa para sempre, ou que não há para sempre além de amanhã (tive um pouco de dúvida sobre o alcance da expressão).

E na literatura aprendi uma palavra antiga com significado novo: mantenha. Vi essa palavra pela primeira vez no livro de Abdulai Sila, em que o personagem se apresenta: “Vim só falar mantenha rápido. Eu sou o professor da escola”. (“A última tragédia”, p. 109). E todos tem a sua tabanca, a vila para onde podem voltar, onde está sua comunidade.

 

***

 

Este blog que fala sobre Guiné-Bissau  é bacana:http://montedepalavras.blogspot.com.br/ .

E mantenha quer dizer cumprimentos: http://montedepalavras.blogspot.com.br/search?q=mantenha

 

 

Festival Literário de Itapetininga-Flitapê

23 de janeiro de 2018

Flitapê com Déa Paulino, Amelinha Teles, Amara Moira e Samira Albuquerque. Conheci também Daniela Santana, que organizou o Festival. E Angelo Ricchetti, coordenador do Cine Clube de Itapetininga.

Sábado à tarde e a aviadora Anésia Pinheiro Machado nos recebendo logo na entrada do Centro Cultural e Histórico, em uma praça em que, segundo Déa, acontecia, antigamente, o footing: Praça dos amores.

Nossa mesa era sobre violência e preconceito contra a mulher.
O Festival homenageou Lygia Fagundes Telles. Fotografias de Lygia estavam expostas na exposição “Vou lhe contar um segredo”, organizada por Carlos Eduardo Souza Queiroz.

Havia no espaço, também, fotografias de capas de livros de escritores da cidade: muitos.

As conversas começaram com a leitura impactante de um conto de Lygia por Nilton Resende: “Venha ver o pôr do sol”.

Depois Déa Paulino, que coordena o grupo de leitura Leia Mulheres em Itapetininga, aliás a primeira cidade do interior que implantou o projeto, sugeriu que nos apresentássemos, Amara, Amelinha e eu. Expusemos, com empatia recíproca, pontos de vista complementares sobre literatura e feminismo.

Na plateia estavam integrantes do Leia Mulheres que haviam lido meu romance, “Viagem sentimental ao Japão”. Falei das personagens Anette, Sílvia e Sabina. Anette vive em “Viagem sentimental ao Japão” (Apicuri, 2013) e Sílvia e Sabina em “Feliz aniversário, Sílvia” (Patuá. 2017).
Elas são diferentes, mas procuram brechas construir identidade em um mundo em que os homens acham que dão as regras. Não pensei em nada disso enquanto escrevia porque não procurei uma literatura militante. Mas, analisando esses dois romances, percebi que as personagens lidam problemas que rodeiam o contexto feminino: conciliar profissão e vida pessoal, estar contente com a aparência, conviver. Sílvia faz dieta quase o tempo todo e esse esforço é um sofrimento para ela. Sabina escreve, sob pseudônimo, romances que se tornaram best sellers. Esconde-se até do marido, e, principalmente, dele. Anette é solitária e, ao começar a trabalhar em uma agência de viagens, sem nunca ter viajado, precisa coordenar seu comportamento para ser aceita, ou não, no grupo. Ela se confunde um pouco com as regras de convivência, mistura os mundos real e imaginário.

Voltando ao encontro de sábado. Amelinha Teles, que está no movimento feminista há muito tempo e tem falado e escrito sobre suas conquistas há anos, explicou que há vários tipos de feminismo e as mulheres não são iguais a ponto de serem padronizadas. Ela publicou um livro que já é clássico, “Breve história do feminismo no Brasil e outros ensaios” (Alameda), entre outros.

Amara Moira falou sobre seu livro “E se eu fosse puta” (Hoo), em que escreve sobre como se tornou trans, contando angústias, sofrimentos e discriminação experimentadas na prostituição.

Nilton Resende não participou da mesa, mas fez a abertura lendo um conto de Lygia. Ele publicou edição crítica de “Antes do baile verde”, intitulada “A construção de Lygia Fagundes Telles” (Edufal). É um livro consistente que examina as alterações dos contos em sucessivas publicações.

São esses os livros que conheci na Flitapê. E conheci as pessoas, também, que os escreveram, assim como elas me conheceram.

Conhecer pessoalmente um escritor de quem já li os livros é sempre uma surpresa. Se gostei do livro, procuro gostar da pessoa, e vice-versa. Às vezes a gente idealiza um autor, espera dele uma pessoa que corresponda às nossas impressões de leitura. Isso porque o leitor completa o livro, a identidade dele também cria a história. E pode acontecer que os pontos de vista não coincidam. Mas eu fui lá e me apresentei.

Como nós, escritoras, éramos diferentes umas das outras, e tínhamos experiências diferentes para contar, deixamos espaços a serem preenchidos e isso foi muito bom.

Dez livros de não ficção e um haicai

29 de dezembro de 2017

A  gente lê uma lista e já pensa na própria. Aqui está uma lista de livros de não ficção que estiveram comigo em 2017:

1)- Por amor a Freud: Memórias de minha análise com Sigmund Freud, de Hilda Doolitle (Zahar);

2)- Rotas Literárias de São Paulo, de Goimar Dantas (Senac);

3)- Django: The Life and Music of a Gipsy Legend, de Michael Pregni (Oxford University Press);

4)- Places, strange and quiet, de Wim Wenders (Hatje Cantz);

5)- Diários de Berlim: 1940-1945, de Marie Vassiltchikov (Boitempo);

6)- Duas vidas: Gertrude e Alice, de Janet Malcolm (Paz e Terra);

7)- 41 inícios falsos, de Janet Malcolm (Companhia das Letras);

8)- Freud com os escritores, de J.B.Pontalis e Edmundo Gómez Mango (Três Estrelas);

9)- O poeta e a foca, de Nanete Neves (Editora Pasavento);

10)- Manual de Editoração e Estilo, de Plinio Martins Filho (Editoras da Unicamp, Edusp, UFMG).

 

E tem  Lua de Outono (Escrituras), antologia e história do Grêmio Haicai Ipê, organizado por Teruko Oda. Fui ao lançamento na Japan House a convite de Danita Cotrim.

O livro é lindo, cada haicai termina seco, mas continua, as três linhas simples tornam-se todo um rio, só no haicai as palavras expressam de verdade aquilo que pode ser mais. Não consigo explicar.

 

Segue,  de Cristiane Kovacs Cardoso (p. 78):

 

Primavera

Tento acompanhar

loucos voos de andorinhas-

Ah, essa liberdade!

 

 

Um conto: 70 anos

10 de dezembro de 2017

           

barco

 

 

Caminho todos os dias no parque perto de casa, às vezes com o cachorro.

Irene morreu faz tempo. Nossos filhos, os dois médicos, como eu, trabalham muito. Ele é otorrino  e ela, cardiologista.

Vanda sempre quis tratar do coração dos outros. Eu disse várias vezes que ela nunca encontraria, nos corações, os sentimentos. Às vezes uma pessoa com arritmia poderia ser fria e calculista. Mas ela quis. E hoje está aí, esforçada, bem sucedida na profissão.

Casou-se com um dos primeiros pacientes e talvez eu tenha me enganado, ela encontrou muita emoção no rapaz. É um bom sujeito, mas não ficamos amigos. Ainda não entendi se ela e o marido se dão bem. Desconfio que não muito. Mas ela segura bem.

João Pedro logo quis ser otorrino para descobrir a cura da própria rinite. Eu avisei, não tem. Ele é feliz. Tem mulher bacana, dois filhos, gato e cachorro.

Meus filhos são felizes (Vanda menos). Gostam da medicina. Querem melhorar o mundo. Os dois se apresentam como médicos quando alguém passa mal no avião ou na fila do banco. São estudiosos, bem mais que eu.

Irene trabalhava comigo na clínica. Era minha secretária. Sempre foi, mesmo antes de nos casarmos. Ela sabia os nomes dos pacientes de cor, conhecia suas doenças; às vezes, quando eu não estava, por algum motivo,  receitava medicamentos. Falsificava a minha assinatura. Eu sempre deixei. Irene facilitava muito meu trabalho. Irene era doce, simpática, carinhosa, eu tinha certeza de que os pacientes voltavam por causa dela. Sempre foi assim. Namoramos durante quatro anos. Eu pedi a mão dela em casamento, nós nos casamos na igreja, tivemos filhos, fomos duas vezes à Europa e uma para os Estados Unidos. Fomos casados por 40 anos.

Irene teve  câncer. Eu estava com ela na UTI quando morreu. Eu fico com você, Irene. Se puder, morro com você.

Nem percebi quando ela morreu. Eu estava cochilando na cadeira ao lado, com minha mão no braço dela. Acordei e o braço estava frio. Não vi. Em meus anos de medicina nunca vi um paciente meu morrer. Vi morrerem em plantões, quando era novo. Paciente meu, não. Não acompanho os pacientes até esse momento, quando já estão com especialistas. Sou clínico geral. Nem Irene, minha mulher, eu vi morrer. O que é a morte? Eu não sei.

Continuei trabalhando, mas os pacientes não retornavam. A moça que coloquei no lugar de Irene era ríspida. E não me dava recados. Eu não suportava entrar no consultório e não encontrar Irene sorridente arquivando fichas, atendendo telefonemas com aquela voz radiante. Era hora de parar.

Mas fazer o quê?

Fui amadurecendo a ideia de que eu poderia voltar atrás, visitar minha cidade, a casa em que morei com meus pais, na praia. Nunca mais eu tinha ido, Irene não gostava de mar. Eu sonhava com barcos,  areia,  água,  nuvens,  vento fresco. Eu me imaginava contornando uma ilha. Uma vez, no sonho, anoiteceu e dormi nas pedras, não conseguia voltar. Naquele dia tive medo. No sonho, tive medo. Comecei a ter muita vontade de visitar aquela ilha. E pensava em minha namorada, com quem eu poderia ter me casado se não tivesse entrado na faculdade de medicina. Eu teria uma pequena loja de pranchas de surf. Eu não surfava, mas fazia pranchas muito bem. Meus filhos nunca souberam de nada disso. Para eles minha vida começou com Irene.

Mas teve tanta coisa antes.

Fiquei obcecado por retomar o passado. Quis voltar àquele luau em que minhas amigas dançavam vestidas de havaianas no meio de pranchas de surf.

Ontem, no meu aniversário de  70 anos,  fomos jantar, meus dois filhos e eu. Só nós três. Escolhi um restaurante muito bom e paguei a conta, coisa que não fazia desde que eles começaram a trabalhar. Sugeriram um jantar com toda a família, talvez na casa de meu filho, que é maior. Mas eu tinha  uma comunicação a fazer. Uma comunicação familiar. Para ser sincero, nos sentimos um pouco estranhos, nós três, no restaurante. Como se estivéssemos fazendo um favor uns aos outros.

-Essa semana começarei a fechar o consultório.

Os dois não trabalham comigo. Eles me consideram ultrapassado, mas nunca se  surpreendem quando eu acerto um diagnóstico. Confiança. Um pai nunca erra. Quando me consultam, eu geralmente dou boas pistas. Mas aí se afastam. Acho que meus filhos têm medo de mim.

-Vocês tomam um vinho comigo?

Vanda tinha cirurgia no dia seguinte, não podia beber. João Pedro aceitou. Ela perguntou se poderia ir embora depois do jantar e eu disse claro. Ninguém era obrigado a ficar com o pai. Ainda mais em véspera de cirurgia. Você sempre faz drama, ela disse.

João Pedro  estava  tranquilo, os otorrinos são sempre tranquilos. Clínicos também. Nisso meu filho puxou a mim, na tranquilidade.

-E que você vai fazer, pai?

-Primeiro vou dar meu cachorro a um de vocês. Podem compartilhar. Uma semana com um, outra com outro.

Nenhum se pronunciou (nenhum dos dois gostava de meu melhor amigo. ciúmes?).

– Depois darei todas as minhas coisas. Peço que vocês visitem nossa casa e peguem tudo o que quiserem na próxima semana.

-Tudo?

-Tudo, Vanda. Vou vender a casa. Sei que vocês têm a parte da sua mãe. A casa é grande, o lugar é bom, vendo rápido. Até tem gente interessada.

Ele  não se conteve:

-Que bom,  quero reformar meu consultório.

-Mas pai, eu quero morar lá em casa um dia.

Nunca pensei que Vanda quisesse morar em casa.

-Não, compra um apartamento novo pra você, que tenha a sua cara. Meus filhos, não sei se depois disso nos veremos.

Vanda até colocou um pouco de vinho na taça.

-Você vai se matar?

-Sem Irene sou um médico pior, uma pessoa pior. Mas fiz um juramento de cuidar de todos e isso me inclui. Não vou me matar. Nunca mais abrirei um compêndio de medicina, não pegarei em um estetoscópio, não assinarei uma receita de antibióticos.

-E que você vai fazer, pai? Um dos dois perguntou, ou os dois, fiquei confuso.

-Vou morar na minha cidade. Eu tive uma namorada lá, sabem? A gente se gostava muito. Mas meu pai não me deixou casar. Quis que eu viesse para cá estudar. Acho que ela está por lá. Se não estiver, ficarei esperando, ela vai voltar. Faz pouco tempo eu me lembro que prometemos essa volta um ao outro. Eu tinha me esquecido, mas agora me lembrei.

Os dois ficaram  com jeito de traídos. Meus filhos de mais de 30 anos como crianças na minha frente. A traição é sempre muito relativa e eu estava bem comigo. Sempre fui fiel a Irene. Ela, acho que não. Me lembro de um período em que desconfiei do amor de Irene. Ela estava distante, aérea. Esperei e depois de um ano ela voltou a nós dois. Mas isso é o passado e eu procurava o passado do passado, o passado perfeito, ou mais que perfeito.

-Quem fica com o cachorro?


%d blogueiros gostam disto: