“Uma rua de Roma”, de Patrick Modiano

28 de janeiro de 2017

No romance de Patrick Modiano (Rocco) há uma agência de detetives que fecha as portas, um detetive que se muda para Nice e um auxiliar de detetive que fica em Paris procurando uma pessoa: ele mesmo. Na agência há catálogos  que ele pode consultar. A agência dava aos clientes “informações mundanas” (p. 9). Tudo acontecia entre “pessoas de bem” (p.9).

As personagens  são pessoas perdidas na época da 2ª guerra. Os nomes se alteram, uma mesma pessoa pode ter um ou mais nomes, passaportes diversos, no meio do livro a gente se perde um pouco na identificação e acho que a ideia é essa. Ficamos meio perdidos, nós, os personagens de Modiano, a memória esfumaçada do narrador.

Denise, a personagem feminina que encanta, lê romances policiais.

Não dá pra ler o livro uma vez só. É curto, simples, mas dá vontade de voltar e pesquisar o próprio romance.

O romance tem características de um romance policial, há detetives, fugitivos, arquivos, leitores, talvez um crime remoto, a procura de alguém por sua história e sua identidade.

Eu me pergunto, depois de ler o livro, se é assim tão importante encontrar o passado certo e exato, se ele existe.

Quem perde a memória não se perde necessariamente. Há sempre o momento presente (a conclusão transitória é minha e não do romance).

Estou impregnada desse livro e não consigo parar de pensar nele.

P.S.- Acabo de ler de novo.

Feliz aniversário, Sílvia

11 de janeiro de 2017

 

 

“Feliz aniversário, Sílvia”, meu terceiro romance, está pronto. É sobre dietas para emagrecer, amizade entre mulheres, relacionamentos amorosos, traições, sobre a própria ficção. É um livro bem curto.

Sílvia e Sabina são as personagens principais. Adoro esse nome, Sílvia. Sei que Nanni Moretti tem Sílvia em pelos menos dois de seus filmes (“Caro Diário é um deles”), preciso prestar atenção nos outros. Sílvia é o nome da personagem de uma história muito linda que meu filho escreveu e ainda não publicou e só percebi quando ele mesmo lembrou. Achamos graça. Fiquei com esse nome gravado. Tenho amigas que se chamam Sílvia.

Sabina é o nome da personagem de Milan Kundera em “A insustentável leveza do ser” e é o nome da madrasta de minha avó Ieta. Meu bisavô se casou com a Vó Sabina depois que minha bisavó morreu. Ela era uma senhora discreta que usava óculos de lentes muito grossas. Uma madrasta boa, ou que pelo menos não incomodava minha avó. Ficava sentada enquanto não via nada e falava pouco.

Minhas personagens surgem sendo tudo o que sou, não fui, ou poderia ter sido, mas depois elas se transformam e não me reconheço mais. Adoro criar personagens. Meus livros têm esses mundos paralelos e são como a televisão, dá para entrar neles. Eu me sinto um pouco como o personagem de Peter Sellers em “Muito além do jardim”, ou como Mary Poppins entrando dentro dos quadros.

Publiquei “Feliz aniversário, Sílvia”, pela Amazon, no formato Kindle. Eu mesma formatei o livro segundo os parâmetros da Amazon e é a primeira vez que publico de maneira totalmente independente. A capa é uma fotografia de uma torta de morango que minha filha comprou em um domingo.

Gosto de ler no formato digital e fiquei um pouco sem ânimo para procurar uma editora para o livro, esperar avaliações, ou mesmo o tempo da edição, da preparação dos originais, da gráfica. Quero passar imediatamente para outro projeto. Como essa novela é curta, li e reli muitas vezes e espero ter corrigido todos os erros, embora saiba que alguns sempre ficam.

Uma vez ouvi Raquel Naveira falar do destino maravilhoso dos livros e acreditei. Espero que dê tudo certo com “Feliz aniversário, Sílvia”.

Para ler o livro, é só inserir meu nome no campo de busca da Amazon.

 

Impressões de Roma

19 de novembro de 2016

Passei uma semana em Roma agora em outubro. Já tinha ido há muitos anos, no verão, e me lembrava do Trastevere e do calor. Lembro-me também que não pude, na ocasião, ver o Papa, pois ele  estava em Castel Gandofo, a residência de férias. Mas era outro Papa, não Francisco. Francisco eu vi agora, em uma manhã ensolarada, perto de uma lua linda que fotografei.

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O que vi de mais bonito: Piazza Navona, Piazza di Spagna e as lindas escadas, Terme di Caracalla e seus maravilhosos mosaicos, o Moisés de Michelangelo. Michelangelo está em toda Roma, assim como Bernini, o escultor que também está em toda Roma. Eu e minha amiga amiga Samantha e gostávamos dos dois, talvez eu um pouco mais de Michelangelo e ela um pouco mais de Bernini, mas era uma brincadeira,  porque gostamos de tudo.

Passamos um dia em Florença também e o Davi é inesquecível, assim como as esculturas inacabadas. Adorei ver os trabalhos inacabados de Michelangelo, suas perfeitas imperfeições, aquele nosso olhar que não se completa.img_1253

Na Praça de Espanha está a casa em que o poeta inglês Keats passou um ano e morreu de tuberculose. A vista é muito bonita e lá também morou Alex Munthe, que escreveu um livro que minha avó amava, O livro de San Michele. Fiquei surpresa quando vi essa primeira edição. Lá também estão anotações de Borges sobre Keats. Borges tinha uma letra tão pequena. Suas anotações são de uma pessoa cuidadosa e metódica.

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Deixei para outra oportunidade as catacumbas, a Via Appia, os Museus Capitolinos, os museus do Vaticano à noite ou bem cedo, antes de as portas abrirem. Tem tanta gente nas galerias, mas tanta gente, que não dá para visitar direito. E é abafado. Mas a capela Sistina eu vi bem melhor e achei linda, Quando fui, da outra vez, também vi, mas estava em restauração e com andaimes. Agora vi pronta e as cores estão bem vivas.

Ainda demoro um tempo para compreender tudo  e a viagem está só começando. Estou no meio da biografia de Michelangelo escrita por Martin Gayford editada pela Cosac e imaginando Roma e Florença quando viveram Savonarola e Maquiavel.

No Rio de Janeiro eu vi jogos, o Abaporu, Urutu, a imperatriz Leopoldina, desenhos de Debret e uma mesa fora do lugar

7 de setembro de 2016

Estive no Rio para ver um pouco das Olimpíadas e acabei vendo outras maravilhas. Vi alguns jogos, mas o que me impressionou, mesmo, foram as visitas a museus que eu não conhecia: Museu de Arte do Rio e Museu de Arte Moderna.

O primeiro museu de arte que visitei foi o MASP. Minha mãe (Ana Maria, sobre quem já escrevi aqui, no post  Perfil de Ana) fez questão de nos trazer em um domingo, nós morávamos em Santos. Fomos ao MASP e depois almoçamos em um restaurante que não existe mais, no Supermercado Eldorado, na Pamplona. Era um restaurante chique e o lustre era enorme, cheio de pedras brilhantes. Era ou dia dos pais ou aniversário de meu pai. Minha mãe colecionava fascículos sobre pintura.

Gosto de fotografar as explicações e legendas nos museus. Fotografo alguns trabalhos também, tentando levar para casa a primeira impressão, para não esquecer.  Não sei se minha mãe, hoje, entraria em um museu com uma máquina fotográfica. Não sei o que ela acharia disso. Não resisto e fotografo.

No Museu de Arte do Rio vi o Abaporu, de Tarsila do Amaral. Achei maravilhoso ter visto em casa, porque ele vive no MALBA, em Buenos Aires, e, quando quis ver, lá, não consegui: o museu estava em reforma.

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No MAR está também uma exposição bacana sobre a Imperatriz Leopoldina, que veio da Áustria para ficar com D. Pedro I. Eles se casaram por procuração, ela lá e ele aqui no Brasil. Ela navegou muito para chegar aqui e teve papel importante na nossa história, principalmente na independência. Morreu muito cedo, com 29 anos. Vi, no MAR, um caderninho dela, denominado “Mes résolutions”. Li depois, em “A biografia íntima de Leopoldina”, de Marsilio Cassotti (Planeta), que o caderno foi escrito por sua preceptora. Correspondia, no entanto, às suas próprias resoluções.

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Leopoldina foi muito importante para independência.

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*****

O Museu de Arte Moderna mereceria um livro de anotações.  Eu me senti muito bem lá, fiquei muitas horas. Os espaços são largos, é possível ver tudo várias vezes sem a menor pressa. Gostei muito de um trabalho de Tarsila chamado Urutu. Li, depois,  sobre esse maravilhoso trabalho: “Seu tema é a lenda amazônica da Cobra Grande, mesma referência tomada por Raul Bopp para seu poema antropofágico “Cobra Norato”, de 1931. De acordo com a lenda, um encantamento transformou um rapaz em cobra, e ele só voltaria a sua forma original se a cobra fosse ferida na cabeça e morta. Raul Bopp, admirador de Tarsila, dedicou a ela seu poema” ( Tarsila do Amaral- Coleção “Folha-Grandes pintores brasileiros”, p. 76).

 

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Também adorei essa trabalho de José Bechara, A casa pintada. É que tenho um conto chamado A mesa fora do lugar e me identifiquei:

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Lista de temas que sempre me interessam

29 de agosto de 2016

Como leitora e ouvinte, tenho algumas curiosidades nunca resolvidas. Sempre volto a esses temas:

1)- Brasil em 1500, antes e depois (índios, escravidão, portugueses).  Gosto também de ler sobre a Imperatriz Leopoldina;

2)- Julio Cortázar e escritores latino americanos. Gosto de Silvina Ocampo;

3)- Modernismo (Anita Malfatti, Mario  de Andrade, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral). Ver o Abaporu no Rio de Janeiro (MAR), recentemente, foi um acontecimento;

4)- Entrevistas. Coleciono livros com entrevistas. Antes eram com escritores e agora qualquer tipo de entrevista;

5)-Livros sobre teoria literária. Não leio inteiros, mas gosto de tê-los por perto e folheio. Sempre aprendo alguma coisa;

6)- Bob Dylan;

7)- Livros e textos sobre literatura policial: procurando perguntas e respostas;

8)- Japão: ainda vou, um dia, tenho certeza;

9)- As bailarinas de Degas;

10) – Wim Wenders e todos os seus filmes.

William Shakespeare na Flip

5 de julho de 2016

Estava eu pela Flip  meio chateada porque não tinha conseguido assistir ao Karl  Ove Knausgaard de perto e peguei um folheto com a programação da Casa Shakespeare.

Entrei na  Capela Nossa Senhora das Dores, de Paraty, adaptada.

Prestei atenção, antes de tudo, nos trabalhos de Dalcir Ramiro de Alcântara, ceramista. Gostei especialmente deste, Rei Zizinho de Mamanguá:

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Sentei-me em um banco quadrado e fiquei esperando  Irvine Welsh, Kenneth Maxwell e Martin Dowle, convidados para conversar sobre Shakespeare, global foreigner. O tema foi muito oportuno porque Shakespeare é universal e representado em todas (acho que quase todas) as línguas e culturas.  Falou-se de como Shakespeare chegou ao Brasil, de João Caetano, Machado de Assis,  Gabriel Villela e o Grupo Galpão. A mediadora, jornalista da BBC, Kirsty Lang, perguntou aos participantes como e quando tinham entrado em contato com Shakespeare pela primeira vez.

Eu também acabei me lembrando como foi.

Quando estudava na Cultura Inglesa, fiz, na aula,  uma apresentação sobre Shakespeare. Segurei para a classe um cartaz onde estava sua figura séria e ao mesmo tempo soberana e enigmática, com bigode talvez parecido com o de Dali (para mim).  O cartaz caiu da minha mão enquanto eu falava. Eu estava insegura de falar  e o cartaz caiu. Até hoje me lembro da sensação da queda do retrato de Shakespeare de minhas mãos, na frente da classe.

Foi mal, mas ao mesmo tempo essa sensação me obriga a retomar sempre o momento do conhecimento sobre ele. Procuro aperfeiçoar cada vez mais o que sei, para segurar de novo o cartaz. E me lembro de repetir o nome da cidade onde ele nasceu: Stratford- upon- Avon. Esse upon-Avon era meio estranho de falar.

Mais tarde fiquei sabendo que, na época de Shakespeare, as  peças de teatro não chegavam a ser impressas. Muitas foram publicadas em “quarto”, ou páginas dobradas, quatro delas dando origem a oito (fanzines?). Eram escritas à mão. Os atores recebiam  suas próprias falas e só elas. Foram reunidas em uma única publicação por volta de 1620. A publicação ficou conhecida como First Folio.  Fiquei sabendo também que já houve dúvidas sobre a autoria de suas peças (o que não é importante porque ser autor, na época, era diferente de ser autor, hoje). E também soube que há um tempo na vida dele em que não se tem a mínima ideia do que  fez (entre 1580 e 1590).

Li Romeu e Julieta (soube também que a história já existia antes da peça ter sido escrita, por volta de 1595), Hamlet, Macbeth. Assisti aos filmes “A megera domada” com Elizabeth Taylor e Richard Burton e Romeu e Julieta de Zefirelli. Gosto muito desses. Há muitos outros filmes baseados em Shakespeare. Na Flip falou-se de sua influência na série House of Cards. Foi dito que, hoje, ele poderia ser autor de séries ou roteirista de Hollywood. Sinceramente, não sei. Acho que hoje ele não teria todo o apoio e o alcance que seu tempo lhe proporcionou, lançando-o ao futuro.

Quando estive em Londres, visitei o Shakespeare’s Globe, que reproduz o teatro da época. Havia pessoas ensaiando e a ligação delas, no palco, com o que pode ter acontecido, ficou evidente para mim.

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Na Flip também houve, de certa forma, uma tentativa de nos fazer sentir no palco.

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E a Biblioteca que criaram lá está aqui.

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Um livro: guia de escritoras da literatura brasileira

4 de junho de 2016

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É de Luiza Lobo esse guia, publicado pela UERJ e pela Eduerj em 2006. Luiza Lobo é professora de literatura, escritora. No plano da obra, explica que o trabalho durou mais de 10 anos e apresenta 36 escritoras.
Entre os critérios para seleção estão: “perfil sociológico e literário, a questão do cânone e a literatura feminista no Brasil”.
As escritoras são: Adélia Prado, Ana Cristina César, Ana Eurídice Eufrosina de Barandas, Ana Maria Machado, Ana Miranda, Auta de Sousa, Carmem Dolores, Carolina Maria de Jesus, Cecília Meireles, Clarice Lispector, Cora Coralina, Diná Silveira de Queiroz, Francisca Júlia, Gilka Machado, Helena Parente Cunha, Heloísa Maranhão, Henriquieta Lisboa, Hilda Hilst, Júlia Lopes de Almeida, Lya Luft, Lygia Fagundes Telles, Maria Alice Barroso, Maria Firmina dos Reis, Marina Colasanti, Marly de Oliveira, Narcisa Amália, Nélida Piñon, Nísia Floresta, Olga Savary, Patrícia Bins, Patrícia Galvão, Rachel Jardim, Rachel de Queiroz, Sônia Coutinho, Tânia Jamardo Faillace, Zulmira Ribeiro Tavares.
O livro segue como dicionário, ou enciclopédia. Há biografia, bibliografia, bibliografia sobre as autoras.
Muitas escritoras nasceram antes de 1900 e muitas escreveram também sob pseudônimo.
Ana Cristina César e Ana Miranda, estão entre as minhas prediletas relacionadas no post anterior.
O guia é de 2006 e, depois, muitas escritoras novas surgiram no Brasil. Vale muito a pena ver como a autora colecionou informações relevantes para a caracterização de literatura escrita por mulheres no Brasil.
Antes eu não achava importante caracterizar especialmente a literatura de autoria feminina. Mas tenho pensado sobre isso sob outros pontos de vista, entre eles o da valorização da nossa presença na cena literária. Gostei de encontrar o guia de Luiza Lobo.

Escritoras e personagens

29 de maio de 2016

Aqui está uma lista afetiva de escritoras que me influenciaram. Entre parênteses estão os livros que ligaram nelas (tem um conto, também):

1)- Ana Miranda (Boca do inferno);

2)-Gertrude Stein (A autobiografia de Alice B. Toklas);

3)- Isabel Allende (Eva Luna);

4)- Patricia Cornwell (Corpo de delito);

5)- Ana Cristina Cesar (A teus pés);

6)- Simone de Beuvoir (Os mandarins);

7)-Karen Blixen (Fazenda africana);

8)- Jane Austen (Razão e sensibilidade);

9)- Marguerite Duras (O amante);

10)- Marilene Felinto (Muslim: woman)

Tem uma coisa na discussão atual sobre igualdade, sobre feminismo, sobre os espaços que nós, mulheres,  ocupamos, que me escapa. Eu não sei precisar bem o que falta, não consigo muito falar sobre isso.

Sou de uma geração intermediária, nasci em 62. Fui educada para acreditar  que o mundo tinha mudado e me surpreendi quando vi que nem tanto. Tomei um susto, um choque.

Há mais escritores publicados que escritoras publicadas. Tenho achado que publicar é muito importante, mesmo textos não tão bons ou bem avaliados sob um ponto de vista mais literário. Eu sei que há muitos livros publicados, que o mercado está saturado, que é difícil ter livros em livrarias, dizem que brasileiros leem pouco (li que as brasileiras leem muito), que encontrar uma editora é mais difícil ainda.

Mesmo assim, é importante publicar. A internet facilita, sempre se pode fazer um blog, um fanzine impresso em casa, um folhetim em xerox, um e-book em uma plataforma gratuita.

O ideal seria ter milhares de leitores,  mas ter um leitor que responda a um texto  é maravilhoso. Um leitor  que  leia com atenção, grife uma frase, ria de uma piada, que se identifique com um mistério, uma tristeza, um sentimento de inadequação da personagem.

Comecei a falar de minhas autoras preferidas e acabei falando de mim e esse foi um devaneio suscitado pela minha condição feminina.

Quando eu era pequena, estava na livraria com a minha avó, era uma livraria que frequentávamos, nós duas. Havia um livro na estante  e no título estava a palavra sexo. Eu perguntei a ela o que era sexo. Ela me respondeu que era algo como masculino e feminino, uma palavra que reunia os gêneros. A resposta não foi a mais adequada, talvez, mas não estava errada. Eu me lembro que, na hora, achei a explicação um pouco estranha, mas me identifiquei com aquele título, ele me incluía. Não sei por que me lembrei disso agora. Outro devaneio.

Pensando nas escritoras, lembrei de personagens femininas muito vivas: Macabéa, Lady Chatterley, Emma Bovary, Anna Karenina. Só uma delas criada por uma escritora: Macabéa, por Clarice Lispector.

Clarice Lispector não pode faltar em nenhuma lista. Gosto e respeito, mas não sou totalmente envolvida por ela. Sua escrita é tão forte que me incomoda e leio pouco para não me machucar. Preciso de distância na leitura e tenho a impressão de que o texto de Clarice não concorda com o afastamento.

Não sei exatamente por que as escritoras mulheres são menos publicadas que os homens (isso está mudando). O que eu sei é que as mulheres ainda não escrevem tudo. Há muitas opiniões, sentimentos, versões, ficções, invenções, não verbalizadas.

A literatura transforma as pessoas e podemos transformar sempre e cada vez mais, escrevendo uma história sem qualquer intenção de fazer a cabeça, ou politizar, ou mudar o mundo, ou tendo a intenção, tanto faz, cada uma ou cada um escreve o que quer (e pode) para quem quiser ler.

Mas cada escrita reflete seu tempo e seu contexto e se descola da pessoa que escreve e da que lê, também. Implementando diálogos diversos, representando, o romance muda o mundo. Os romances de minhas escritoras prediletas mudaram meus mundos. Até Corpo de delito. Kay Scarpetta é uma senhora personagem.

Sobre o julgamento de Zé Bebelo em Grande Sertão: Veredas

20 de abril de 2016

 

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Essa é a vista da sala de aula do anexo da Casa Guilherme de Almeida. O domingo estava lindo e, pelas janelas, entrava uma brisa agradável. O curso com Berthold Zilly sobre a tradução de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa,  abriu a memória e caminhos para outras leituras e reflexões.

Lembrei, na aula, de minha defesa de mestrado em processo penal, Ação penal condenatória, na década de 90. Eu estava explicando para a banca como eu via a ação penal condenatória, sempre a partir da acusação porque, sem acusação, não há defesa. Kafka, em O processo, fala justamente disso, do horror de não se conhecer a acusação.

É claro que era uma particular maneira de ver que eu aprendi, não inventei nada. Mas eu quis dar uma explicação vertida para a minha linguagem. E me ocorreu, naquele momento, falar da cena de julgamento de Zé Bebelo em Grande Serão: Veredas. Aquela cena explica o processo penal.

Guimarães Rosa mostra, ali, profundo conhecimento de como deve ser um processo público e justo. No início do julgamento, Joca Ramiro diz: “A gente pode principiar a acusação”. E Joca Ramiro deixou para opinar depois, porque iria “baixar sentença”. E quem quisesse podia “propor condena”. Hermógenes fala com raiva: “Acusação, que a gente acha, é que se devia amarrar este cujo, feito porco. O sangrante…Ou então botar atravessado no chão, a gente todos passava a cavalo por riba dele-aver se vida sobrava, para não sobrar”. Zé Bebelo quer falar e diz: “Mas, para falar, careço que não me deixem com as mãos amarradas…”. E Joca Ramiro concorda. E Zé Bebelo fala algo muito certo e racional: “Rompo embargos! Porque acusação tem de ser com sensatas palavras-não é com afrontas de ofensa de insulto…”. E Joca Ramiro pergunta para Sô Candelário, que desafia: quer resolver à faca. Ao que Joca Ramiro responde: “Resultado e condena, a gente deixa para o fim, compadre. Demore, que logo vai ver. Agora é a acusação das culpas. Que crimes o compadre indica neste homem?”. Sô Candelário não vê crime. Zé Bebelo não havia traiu ninguém, não foi ladrão de cavalos. E Zé Bebelo grita: “Sempre eu cumpro a palavra dada”. Houve conversas e debates, Riobaldo finalmente fala, “O que eu tenho é uma verdade forte para dizer, que calado não posso ficar…”. Riobaldo foi um advogado de defesa ali naquele momento. Falou com intensidade: “Por tanto, que digo, ele merece um absolvido escorreito, mesmo não merece de morrer matado à toa…”. E chega o momento de Zé Bebelo se defender: “Altas artes que agradeço, senhor chefe Joca Ramiro, este sincero julgamento, esta bizarria…” Depois ele se apresenta, agradece aos que por ele falaram e puniram. E defende-se e Joca Ramiro diz, como um juiz, porque o juiz diz o direito. Ele diz: “O julgamento é meu, sentença que dou vale em todo este norte. Meu povo me honra. Sou amigo dos meus amigos políticos, mas não sou criado deles. A sentença vale. A decisão. O senhor reconhece”. E Zé Bebelo diz: “Reconheço”. Zé Bebelo se compromete a cumprir a decisão, que acaba sendo a ida para Goiás.

Essa cena descreve todas as fórmulas de um julgamento justo: a acusação impessoal, a defesa, a fala sem amarras, o juiz decidindo o conflito só no final, sem interferir. Há um roteiro de prestação de justiça muito adequado nessa cena.

Quando li Grande sertão e estava escrevendo minha dissertação, fiquei muito impressionada com o julgamento de Zé Bebelo. E falei na defesa, para a banca, com a mesma sinceridade com que Riobaldo fala por Zé Bebelo. Fui muito espontânea, não me lembro de ter ensaiado ou pensado nessa fala antes da defesa. Eu tinha anotações jurídicas e não literárias. Mas a literatura me socorreu, naquele momento.

Esse falar que surpreende e rompe alguma fronteira e mostra outros pontos de vista em uma conversa, um debate, um julgamento, é sempre um ponto de virada na vida da gente.

 

Nonada

16 de abril de 2016

Estou fazendo um curso surpreendente na Casa Guilherme de Almeida:

“Grande Sertão: Veredas-Suas traduções e retraduções”, por Berthold Zilly.

Eu tenho muita admiração pelos tradutores porque eles têm uma paciência que me falta.

Os tradutores pensam nos vários significados das palavras, procuram sinônimos, sabem o que é anáfora, metonímia, síncope, prestam atenção ao ritmo, comparam traduções e muito mais. E leem diversas vezes as obras que traduzem e escrevem de novo, de novo, tentando respeitar o original e ao mesmo tempo precisando inovar porque a literalidade não reproduz o que o autor disse.

Embora eu não tenha a menor intenção de traduzir – gosto de saber como os tradutores fazem –  aprendo com eles e acho que posso escrever melhor.

E Guimarães Rosa é um autor do qual gosto muito. Talvez – talvez- seja o meu preferido, ao lado de Cervantes e Lima Barreto e Cortázar (por enquanto).O jeito como ele fala me movimenta a escrever.

Berthold Zilly  é alemão e fala muito bem português e, nas aulas, gostei porque ele, sendo professor, consegue falar com simplicidade sobre assuntos muito complexos e talvez isso aconteça também porque, na cabeça dele, ele transfira, muito rapidamente,  ideias complicadas para o português e, nessa transmissão, elas ficam mais fáceis (eu acho que pode ser isso).

Eu me interesso demais pelos discursos e pela maneira de dizer as coisas. Berthold Zilly traduziu “Os sertões” de Euclides da Cunha para o alemão.

Ele contou que em “Os sertões”   a palavra nonada já foi escrita. Eu procurei na publicação digital e achei, está lá, como ele disse, na parte em que ele disse que está:  “Causava dó verem-se expostos à venda nas feiras, extraordinária quantidade de gado cavalar, vacum, caprino etc., além de outros objetos, por preços de nonada, como terrenos, casas etc”.

O curso valeu muito e amanhã ainda continua, mas só de saber isso, que nonada está em “Os sertões”, já fiquei super contente. Eu sempre pensei que fosse palavra inventada e ainda talvez ainda seja inventada (depois vi na internet que existia, mesmo). Às vezes Euclides inventou nonada também, muitas vezes as pessoas escrevem e imaginam as mesmas coisas.

Quero acreditar que nonada é inventada. Se eu fosse inventar uma palavra em alemão para nonada, de brincadeira, acho que seria “neenichts”.