Romance Luminoso

11 de agosto de 2018

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Terminei de ler “Romance luminoso” (Companhia das Letras), de Mario Levrero, escritor uruguaio.

Um pouco mais da metade do livro é seu diário. Ele descreve a rotina de quem precisa escrever um romance porque ganhou uma bolsa para isso. Mas ele se dispersa, é viciado em programas de computador e romances policiais que encontra em sebos e bancas, tem uma companheira que o visita e com quem passeia, alguns problemas de saúde e uma médica com quem foi casado, alunos em oficina literária e, com tudo isso, não consegue escrever nada além do diário.

Fico encantada por esse apego aos romances policiais. Ele gosta dos mais antigos e brinca que não leu Agatha Christie. A certa altura, diz: “Assim funcionam os vícios, e a pessoa chega a sofrer grandes humilhações por necessidade da droga. Já sei que um dia vou acabar lendo Agatha Christie”.
Ele gosta desses autores: John D. Mac Donald, Leo Bruce, Chersterton, Edgar Wallace, Ellery Queen, Erle Stanley Gardner, Carter Dickson, e outros, inclusive Somerset Maugham e Graham Greene e tantos que não escrevem policiais, como Thomas Bernhard.

Quando comecei a escrever ficção eu tinha aulas com a professora Malu Zoega e lemos, juntas, “O que é romance policial”, de Sandra Lúcia Reimão, editado há anos pela Editora Brasiliense.

O livro foi importante para mim porque me ensinou o que é o romance de enigma e as diversas formas de narrar uma história.

Recentemente conheci, de Sandra Reimão, o livro “Literatura policial brasileira”, editado pela Zahar para a Coleção Descobrindo o Brasil. O livro me mostrou que conheço pouco o romance policial brasileiro. Fiquei sabendo que Fernando Sabino escreveu policiais e preciso lê-los com urgência.

Nos últimos tempos tenho conhecido escritoras bacanas de suspense: Andrea Nunes, Cláudia Lemes, Cristiane Krumenauer, Vera Carvalho Assumpção, Vivianne Geber. Cláudia Lemes preside a Associação Brasileira de Escritores de Romances Policial, de Suspense e Terror (ABERST). Elas têm liberdade para escrever sobre o lado escuro da vida e são luminosas.

Escrevi “Nove tiros de Chef Lidu”, e, nele, apliquei as regras estruturais dos romances policiais à minha maneira, ou seja, desaplicando.

Mais tarde escrevi outra história que também tem crime, “Feliz aniversário, Sílvia” (Patuá), e nesse último livro não aplico regra nenhuma, pelo contrário. O livro reúne vários livros dentro dele, parece muito simples, mas não é nada simples.

Quando leio um livro como “Romance luminoso”, de Mario Levrero, que foi além, pois descreveu o escritor pensando em quase nada porque é desse vazio que vivem alguns escritores, penso que não preciso me preocupar com enredos.

Mario Levrero observa as pombas no telhado que vê de sua janela como observa pessoas, não vou contar mais para não dar spoiler sobre o destino de uma delas. Só sei que não consigo parar de pensar na beleza de uma certa pomba.

Depois de muito diário ele finalmente escreve o romance. O narrador não é mais ele e a mudança de tom faz com que o romance fique diferente do diário, embora, na essência, talvez seja igual.

O romance de Mario Levrero não é policial, mas, ao valorizar a narrativa policial, seus autores, as coleções antigas, os sebos, contrapondo esse tipo de narrativa à história que não consegue escrever, porque se distrai, fala sobre literatura e sobre não literatura.

Eu fico intrigada com romances policiais. Leio os jornais e os casos de polícia são cada vez mais macabros. Nada parecidos com a pomba no telhado de Mario Levrero. Estagnada, mas comovente.

Falei em uma entrevista para o blog de José Nunes

16 de julho de 2018

https://comoeuescrevo.com/paula-bajer

Esperando Godot

20 de junho de 2018

Esperando Godot, de Samuel Beckett, é sempre um livro novo.

Há semanas leio e releio. Tenho várias edições e li a mais recente, da Companhia das Letras, cor de laranja.

Beckett escreveu em francês, traduziu ele mesmo para o inglês. Ele era irlandês, mas escrevia também em francês. Li em português e a tradução é muito boa.

Fábio de Souza Andrade não só traduziu como escreveu o posfácio, um dos textos mais inteligentes sobre um autor que já li. Não é didático e não impõe um ponto de vista. É um texto de quem conhece profundamente Beckett e comenta também para si mesmo. Ele está aqui neste programa falando sobre Beckett.

Descobri, no posfácio, que no Brasil mulheres representaram os personagens masculinos e essa foi uma de nossas contribuições para a história do teatro.

É muito impressionante que Cacilda Becker tenha passado mal em um intervalo da peça, foi para o hospital e morreu lá, tempos depois. Esperando Godot interrompida. Nossa melhor atriz morrendo enquanto representava Estragon.

Esperando Godot pode impactar de maneira diferente a cada leitura. Um vazio que está à nossa volta, em tudo, não só na Europa destruída.

A catástrofe da 2ª Guerra é de uma magnitude inominável, palavra aliás usada pelo próprio Beckett para intitular um de seus romances.

Hoje Esperando Godot mostra aquela solidão que só a gente conhece. E também aponta para o desalento das pessoas que buscam refúgio em outros espaços do planeta.

Em 1961 Giacometti fez a árvore do cenário, esquálida. Quando vejo as figuras de Giacometti nos museus fico hipnotizada. Eu nem sabia que Beckett e ele eram tão amigos e saber disso me fez compreender melhor mais os dois.

Este ensaio fala da amizade entre Beckett e Giacometti: https://www.tate.org.uk/art/artists/alberto-giacometti-1159/long-read/when-alberto-giacometti-met-samuel-beckett.

Não sei bem como terminar este texto, mas acho que posso dizer, como Vladimir: “Então, vamos embora”.

“Vamos lá” (Estragon).

Vislumbres de Bissau (segunda visita)

21 de maio de 2018

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Este é um bolo de casamento no dia seguinte da festa. Todo mundo foi embora e a cobertura do bolo ficou no restaurante, com os bonecos. Tive vontade de perguntar se alguém viria buscar, mas não perguntei.

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Esta é a praça principal de Bissau, à noite. Muita gente passeia e faz esporte aqui. Fiz esta foto do último andar do Hotel Império.

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Este é o Hotel Império, onde me hospedei. Fica na praça principal. A foto está um pouco grande, mas é a única que tenho.

Nino Galissa, músico que ouvi em Bissau, na Embaixada de Portugal. Estava acompanhado de alunos e super equipe.

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Binhan, músico de Guiné-Bissau. Tive a oportunidade de ouvi-lo em um domingo de sol. Há vários registros de Binhan no youtube.

As mulheres na literatura policial

3 de maio de 2018

http://cheflidu.com/2018/05/03/as-mulheres-na-literatura-policial/

Guiné-Bissau

19 de março de 2018

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Estive em  Guiné-Bissau,  país  que está na costa ocidental da África, por uma semana. Foi pouco tempo.

Antes de ir, estudei. Comecei pela literatura  e pelo magnífico livro de Moema Parente Augel,    “O desafio do escombro” (Garamond, 2007), que me deu informações para  compreender melhor  a cultura da Guiné. Ela fala da história do país, da política, da literatura muito rica,  dedicando-se bastante à língua. A oficial é o português,  que se aprende na escola. Há, no entanto, o crioulo, ou a língua guineense, falada pela maioria das pessoas. E há ainda as línguas faladas no âmbito das etnias, que são muitas.

O crioulo é agradável de ouvir. Uma língua bonita. Quando falam entre eles, não dá para entender. É interessante que  não possamos entender o que guineenses conversam quando não estamos incluídos. Não me sentia mal por não estar incluída. No livro de Moema há vários poemas escritos em crioulo traduzidos para o português. São lindos. Há vários da poeta Odete Semedo. Segue um verso, transcrito de “O desafio do escombro”:

Sou parte desta natureza

Tão gasta

Desta face da terra

Tão frágil e vasta

Sou o rio que corre

Tropeçando em pedras e vales.

Em crioulo:

Ami i padas di es mundu

Ku gasta dja

Ami i un burdu di n tera

Ami i iagu ku na kuri

Ku na n baransa nas pedras.

Em Bissau falei e ouvi português, língua  aprendida na escola e usada nas comunicações oficiais. Fala-se bem a língua, mas com algum distanciamento, o que talvez transforme a emotividade das mensagens transmitidas.

Fiquei conhecendo a literatura de Abdulai Sila,  li seu romance “A última tragédia” (Rio de Janeiro, Pallas, 2011). Vi na internet que em Bissau entraria  em cartaz uma peça escrita por Abdulai (“Dois tiros e uma gargalhada”) e eu queria muito assistir, mas não deu: quando estreou, eu já tinha ido vindo embora. Uma viagem é feita também de lugares não visitados, de expectativas não resolvidas.

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No Museu Etnográfico Nacional de Bissau  aprendi sobre o pano de pente, tradicional. Presentear alguém com um pano é um ato de amizade e carinho. Comprei panos de pente em Bissau.  Aprendi que até amanhã significa para sempre, ou que não há para sempre além de amanhã (tive um pouco de dúvida sobre o alcance da expressão).

E na literatura aprendi uma palavra antiga com significado novo: mantenha. Vi essa palavra pela primeira vez no livro de Abdulai Sila, em que o personagem se apresenta: “Vim só falar mantenha rápido. Eu sou o professor da escola”. (“A última tragédia”, p. 109). E todos tem a sua tabanca, a vila para onde podem voltar, onde está sua comunidade.

 

***

 

Este blog que fala sobre Guiné-Bissau  é bacana:http://montedepalavras.blogspot.com.br/ .

E mantenha quer dizer cumprimentos: http://montedepalavras.blogspot.com.br/search?q=mantenha

 

 

Festival Literário de Itapetininga-Flitapê

23 de janeiro de 2018

Flitapê com Déa Paulino, Amelinha Teles, Amara Moira e Samira Albuquerque. Conheci também Daniela Santana, que organizou o Festival. E Angelo Ricchetti, coordenador do Cine Clube de Itapetininga.

Sábado à tarde e a aviadora Anésia Pinheiro Machado nos recebendo logo na entrada do Centro Cultural e Histórico, em uma praça em que, segundo Déa, acontecia, antigamente, o footing: Praça dos amores.

Nossa mesa era sobre violência e preconceito contra a mulher.
O Festival homenageou Lygia Fagundes Telles. Fotografias de Lygia estavam expostas na exposição “Vou lhe contar um segredo”, organizada por Carlos Eduardo Souza Queiroz.

Havia no espaço, também, fotografias de capas de livros de escritores da cidade: muitos.

As conversas começaram com a leitura impactante de um conto de Lygia por Nilton Resende: “Venha ver o pôr do sol”.

Depois Déa Paulino, que coordena o grupo de leitura Leia Mulheres em Itapetininga, aliás a primeira cidade do interior que implantou o projeto, sugeriu que nos apresentássemos, Amara, Amelinha e eu. Expusemos, com empatia recíproca, pontos de vista complementares sobre literatura e feminismo.

Na plateia estavam integrantes do Leia Mulheres que haviam lido meu romance, “Viagem sentimental ao Japão”. Falei das personagens Anette, Sílvia e Sabina. Anette vive em “Viagem sentimental ao Japão” (Apicuri, 2013) e Sílvia e Sabina em “Feliz aniversário, Sílvia” (Patuá. 2017).
Elas são diferentes, mas procuram brechas construir identidade em um mundo em que os homens acham que dão as regras. Não pensei em nada disso enquanto escrevia porque não procurei uma literatura militante. Mas, analisando esses dois romances, percebi que as personagens lidam problemas que rodeiam o contexto feminino: conciliar profissão e vida pessoal, estar contente com a aparência, conviver. Sílvia faz dieta quase o tempo todo e esse esforço é um sofrimento para ela. Sabina escreve, sob pseudônimo, romances que se tornaram best sellers. Esconde-se até do marido, e, principalmente, dele. Anette é solitária e, ao começar a trabalhar em uma agência de viagens, sem nunca ter viajado, precisa coordenar seu comportamento para ser aceita, ou não, no grupo. Ela se confunde um pouco com as regras de convivência, mistura os mundos real e imaginário.

Voltando ao encontro de sábado. Amelinha Teles, que está no movimento feminista há muito tempo e tem falado e escrito sobre suas conquistas há anos, explicou que há vários tipos de feminismo e as mulheres não são iguais a ponto de serem padronizadas. Ela publicou um livro que já é clássico, “Breve história do feminismo no Brasil e outros ensaios” (Alameda), entre outros.

Amara Moira falou sobre seu livro “E se eu fosse puta” (Hoo), em que escreve sobre como se tornou trans, contando angústias, sofrimentos e discriminação experimentadas na prostituição.

Nilton Resende não participou da mesa, mas fez a abertura lendo um conto de Lygia. Ele publicou edição crítica de “Antes do baile verde”, intitulada “A construção de Lygia Fagundes Telles” (Edufal). É um livro consistente que examina as alterações dos contos em sucessivas publicações.

São esses os livros que conheci na Flitapê. E conheci as pessoas, também, que os escreveram, assim como elas me conheceram.

Conhecer pessoalmente um escritor de quem já li os livros é sempre uma surpresa. Se gostei do livro, procuro gostar da pessoa, e vice-versa. Às vezes a gente idealiza um autor, espera dele uma pessoa que corresponda às nossas impressões de leitura. Isso porque o leitor completa o livro, a identidade dele também cria a história. E pode acontecer que os pontos de vista não coincidam. Mas eu fui lá e me apresentei.

Como nós, escritoras, éramos diferentes umas das outras, e tínhamos experiências diferentes para contar, deixamos espaços a serem preenchidos e isso foi muito bom.

Dez livros de não ficção e um haicai

29 de dezembro de 2017

A  gente lê uma lista e já pensa na própria. Aqui está uma lista de livros de não ficção que estiveram comigo em 2017:

1)- Por amor a Freud: Memórias de minha análise com Sigmund Freud, de Hilda Doolitle (Zahar);

2)- Rotas Literárias de São Paulo, de Goimar Dantas (Senac);

3)- Django: The Life and Music of a Gipsy Legend, de Michael Pregni (Oxford University Press);

4)- Places, strange and quiet, de Wim Wenders (Hatje Cantz);

5)- Diários de Berlim: 1940-1945, de Marie Vassiltchikov (Boitempo);

6)- Duas vidas: Gertrude e Alice, de Janet Malcolm (Paz e Terra);

7)- 41 inícios falsos, de Janet Malcolm (Companhia das Letras);

8)- Freud com os escritores, de J.B.Pontalis e Edmundo Gómez Mango (Três Estrelas);

9)- O poeta e a foca, de Nanete Neves (Editora Pasavento);

10)- Manual de Editoração e Estilo, de Plinio Martins Filho (Editoras da Unicamp, Edusp, UFMG).

 

E tem  Lua de Outono (Escrituras), antologia e história do Grêmio Haicai Ipê, organizado por Teruko Oda. Fui ao lançamento na Japan House a convite de Danita Cotrim.

O livro é lindo, cada haicai termina seco, mas continua, as três linhas simples tornam-se todo um rio, só no haicai as palavras expressam de verdade aquilo que pode ser mais. Não consigo explicar.

 

Segue,  de Cristiane Kovacs Cardoso (p. 78):

 

Primavera

Tento acompanhar

loucos voos de andorinhas-

Ah, essa liberdade!

 

 

Um conto: 70 anos

10 de dezembro de 2017

           

barco

 

 

Caminho todos os dias no parque perto de casa, às vezes com o cachorro.

Irene morreu faz tempo. Nossos filhos, os dois médicos, como eu, trabalham muito. Ele é otorrino  e ela, cardiologista.

Vanda sempre quis tratar do coração dos outros. Eu disse várias vezes que ela nunca encontraria, nos corações, os sentimentos. Às vezes uma pessoa com arritmia poderia ser fria e calculista. Mas ela quis. E hoje está aí, esforçada, bem sucedida na profissão.

Casou-se com um dos primeiros pacientes e talvez eu tenha me enganado, ela encontrou muita emoção no rapaz. É um bom sujeito, mas não ficamos amigos. Ainda não entendi se ela e o marido se dão bem. Desconfio que não muito. Mas ela segura bem.

João Pedro logo quis ser otorrino para descobrir a cura da própria rinite. Eu avisei, não tem. Ele é feliz. Tem mulher bacana, dois filhos, gato e cachorro.

Meus filhos são felizes (Vanda menos). Gostam da medicina. Querem melhorar o mundo. Os dois se apresentam como médicos quando alguém passa mal no avião ou na fila do banco. São estudiosos, bem mais que eu.

Irene trabalhava comigo na clínica. Era minha secretária. Sempre foi, mesmo antes de nos casarmos. Ela sabia os nomes dos pacientes de cor, conhecia suas doenças; às vezes, quando eu não estava, por algum motivo,  receitava medicamentos. Falsificava a minha assinatura. Eu sempre deixei. Irene facilitava muito meu trabalho. Irene era doce, simpática, carinhosa, eu tinha certeza de que os pacientes voltavam por causa dela. Sempre foi assim. Namoramos durante quatro anos. Eu pedi a mão dela em casamento, nós nos casamos na igreja, tivemos filhos, fomos duas vezes à Europa e uma para os Estados Unidos. Fomos casados por 40 anos.

Irene teve  câncer. Eu estava com ela na UTI quando morreu. Eu fico com você, Irene. Se puder, morro com você.

Nem percebi quando ela morreu. Eu estava cochilando na cadeira ao lado, com minha mão no braço dela. Acordei e o braço estava frio. Não vi. Em meus anos de medicina nunca vi um paciente meu morrer. Vi morrerem em plantões, quando era novo. Paciente meu, não. Não acompanho os pacientes até esse momento, quando já estão com especialistas. Sou clínico geral. Nem Irene, minha mulher, eu vi morrer. O que é a morte? Eu não sei.

Continuei trabalhando, mas os pacientes não retornavam. A moça que coloquei no lugar de Irene era ríspida. E não me dava recados. Eu não suportava entrar no consultório e não encontrar Irene sorridente arquivando fichas, atendendo telefonemas com aquela voz radiante. Era hora de parar.

Mas fazer o quê?

Fui amadurecendo a ideia de que eu poderia voltar atrás, visitar minha cidade, a casa em que morei com meus pais, na praia. Nunca mais eu tinha ido, Irene não gostava de mar. Eu sonhava com barcos,  areia,  água,  nuvens,  vento fresco. Eu me imaginava contornando uma ilha. Uma vez, no sonho, anoiteceu e dormi nas pedras, não conseguia voltar. Naquele dia tive medo. No sonho, tive medo. Comecei a ter muita vontade de visitar aquela ilha. E pensava em minha namorada, com quem eu poderia ter me casado se não tivesse entrado na faculdade de medicina. Eu teria uma pequena loja de pranchas de surf. Eu não surfava, mas fazia pranchas muito bem. Meus filhos nunca souberam de nada disso. Para eles minha vida começou com Irene.

Mas teve tanta coisa antes.

Fiquei obcecado por retomar o passado. Quis voltar àquele luau em que minhas amigas dançavam vestidas de havaianas no meio de pranchas de surf.

Ontem, no meu aniversário de  70 anos,  fomos jantar, meus dois filhos e eu. Só nós três. Escolhi um restaurante muito bom e paguei a conta, coisa que não fazia desde que eles começaram a trabalhar. Sugeriram um jantar com toda a família, talvez na casa de meu filho, que é maior. Mas eu tinha  uma comunicação a fazer. Uma comunicação familiar. Para ser sincero, nos sentimos um pouco estranhos, nós três, no restaurante. Como se estivéssemos fazendo um favor uns aos outros.

-Essa semana começarei a fechar o consultório.

Os dois não trabalham comigo. Eles me consideram ultrapassado, mas nunca se  surpreendem quando eu acerto um diagnóstico. Confiança. Um pai nunca erra. Quando me consultam, eu geralmente dou boas pistas. Mas aí se afastam. Acho que meus filhos têm medo de mim.

-Vocês tomam um vinho comigo?

Vanda tinha cirurgia no dia seguinte, não podia beber. João Pedro aceitou. Ela perguntou se poderia ir embora depois do jantar e eu disse claro. Ninguém era obrigado a ficar com o pai. Ainda mais em véspera de cirurgia. Você sempre faz drama, ela disse.

João Pedro  estava  tranquilo, os otorrinos são sempre tranquilos. Clínicos também. Nisso meu filho puxou a mim, na tranquilidade.

-E que você vai fazer, pai?

-Primeiro vou dar meu cachorro a um de vocês. Podem compartilhar. Uma semana com um, outra com outro.

Nenhum se pronunciou (nenhum dos dois gostava de meu melhor amigo. ciúmes?).

– Depois darei todas as minhas coisas. Peço que vocês visitem nossa casa e peguem tudo o que quiserem na próxima semana.

-Tudo?

-Tudo, Vanda. Vou vender a casa. Sei que vocês têm a parte da sua mãe. A casa é grande, o lugar é bom, vendo rápido. Até tem gente interessada.

Ele  não se conteve:

-Que bom,  quero reformar meu consultório.

-Mas pai, eu quero morar lá em casa um dia.

Nunca pensei que Vanda quisesse morar em casa.

-Não, compra um apartamento novo pra você, que tenha a sua cara. Meus filhos, não sei se depois disso nos veremos.

Vanda até colocou um pouco de vinho na taça.

-Você vai se matar?

-Sem Irene sou um médico pior, uma pessoa pior. Mas fiz um juramento de cuidar de todos e isso me inclui. Não vou me matar. Nunca mais abrirei um compêndio de medicina, não pegarei em um estetoscópio, não assinarei uma receita de antibióticos.

-E que você vai fazer, pai? Um dos dois perguntou, ou os dois, fiquei confuso.

-Vou morar na minha cidade. Eu tive uma namorada lá, sabem? A gente se gostava muito. Mas meu pai não me deixou casar. Quis que eu viesse para cá estudar. Acho que ela está por lá. Se não estiver, ficarei esperando, ela vai voltar. Faz pouco tempo eu me lembro que prometemos essa volta um ao outro. Eu tinha me esquecido, mas agora me lembrei.

Os dois ficaram  com jeito de traídos. Meus filhos de mais de 30 anos como crianças na minha frente. A traição é sempre muito relativa e eu estava bem comigo. Sempre fui fiel a Irene. Ela, acho que não. Me lembro de um período em que desconfiei do amor de Irene. Ela estava distante, aérea. Esperei e depois de um ano ela voltou a nós dois. Mas isso é o passado e eu procurava o passado do passado, o passado perfeito, ou mais que perfeito.

-Quem fica com o cachorro?

Notas sobre o que vi em uma viagem

19 de outubro de 2017

Quando viajo gosto de fixar algumas impressões, isso me ajuda a memorizar e pensar sobre como o que vi  transforma a minha vida. Todos os descolamentos mudam alguma coisa dentro da gente.

1)- Não fui à Feira do Livro de Frankfurt, mas fui a Frankfurt e claro que pensei nos livros. Cidade bonita, rio lindo, museu do cinema super legal. Vi lá, no Museu do cinema,  uma exposição em que quatro telas mostram simultaneamente cenas de filmes diferentes, de épocas diferentes, mas que usam os mesmos recursos de narração. Cenas de mais ou menos 100 filmes são reunidas sob quatro temas principais: imagem, som, edição e ação. É bacana ver que em muitos filmes há pessoas batendo nas coisas e brigando, artistas saindo do avião e acenando para o público antes de descer a escada, incidentes que movem a história. Segue link:  http://deutsches-filminstitut.de/en/filmmuseum/permanent-exhibition/.

Aqui em São Paulo, no Instituto Moreira Salles, vi  videoinstalação parecida, mas também diferente. É The Clock, de Christian Marclay. Cenas de filmes em que o relógio e o tempo surgem  são unidas e mostradas por muito tempo. Em  publicação sobre The clock  há uma entrevista com Christian Marclay. Ele  fala que os assentos (sofás) são confortáveis para que a pessoa assista por quanto  quiser e lide com o próprio tempo. Não fiquei muito. Pensar no tempo e no relógio me deixa nervosa.

As propostas das instalações  de Frankfurt e do IMS, embora trabalhem com edição de imagens, são diferentes. A primeira mostra como as histórias são feitas, quais os principais recursos da linguagem cinematográfica. A segunda mostra a marcação do tempo nas histórias, provocando outras impressões.

2)- Vi ainda, no Museu do cinema em Frankfurt, o tambor do filme “O tambor” (Vorker Schlönderff), o diário de Wim Wenders, anotações de uma atriz alemã que gosto muito, Martina Gedeck.

 

3)- Em Viena visitei a casa de Sigmund Freud (Berggasse, 19). Impressionante. Lá ele atendeu seus primeiros pacientes. A entrada e as salas continuam idênticas e a sala de espera foi reconstituída;

 

4)- Também conheci Budapeste. Pela primeira vez estive em um país onde não entendo o que se fala e o que se escreve. Pude admirar sem precisar tentar compreender tudo;

5)-Por último, vi as árvores do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Não há como descrever tanta beleza. Aqui está o Chafariz das musas.


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