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Sobre o julgamento de Zé Bebelo em Grande Sertão: Veredas

20 de abril de 2016

 

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Essa é a vista da sala de aula do anexo da Casa Guilherme de Almeida. O domingo estava lindo e, pelas janelas, entrava uma brisa agradável. O curso com Berthold Zilly sobre a tradução de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa,  abriu a memória e caminhos para outras leituras e reflexões.

Lembrei, na aula, de minha defesa de mestrado em processo penal, Ação penal condenatória, na década de 90. Eu estava explicando para a banca como eu via a ação penal condenatória, sempre a partir da acusação porque, sem acusação, não há defesa. Kafka, em O processo, fala justamente disso, do horror de não se conhecer a acusação.

É claro que era uma particular maneira de ver que eu aprendi, não inventei nada. Mas eu quis dar uma explicação vertida para a minha linguagem. E me ocorreu, naquele momento, falar da cena de julgamento de Zé Bebelo em Grande Serão: Veredas. Aquela cena explica o processo penal.

Guimarães Rosa mostra, ali, profundo conhecimento de como deve ser um processo público e justo. No início do julgamento, Joca Ramiro diz: “A gente pode principiar a acusação”. E Joca Ramiro deixou para opinar depois, porque iria “baixar sentença”. E quem quisesse podia “propor condena”. Hermógenes fala com raiva: “Acusação, que a gente acha, é que se devia amarrar este cujo, feito porco. O sangrante…Ou então botar atravessado no chão, a gente todos passava a cavalo por riba dele-aver se vida sobrava, para não sobrar”. Zé Bebelo quer falar e diz: “Mas, para falar, careço que não me deixem com as mãos amarradas…”. E Joca Ramiro concorda. E Zé Bebelo fala algo muito certo e racional: “Rompo embargos! Porque acusação tem de ser com sensatas palavras-não é com afrontas de ofensa de insulto…”. E Joca Ramiro pergunta para Sô Candelário, que desafia: quer resolver à faca. Ao que Joca Ramiro responde: “Resultado e condena, a gente deixa para o fim, compadre. Demore, que logo vai ver. Agora é a acusação das culpas. Que crimes o compadre indica neste homem?”. Sô Candelário não vê crime. Zé Bebelo não havia traiu ninguém, não foi ladrão de cavalos. E Zé Bebelo grita: “Sempre eu cumpro a palavra dada”. Houve conversas e debates, Riobaldo finalmente fala, “O que eu tenho é uma verdade forte para dizer, que calado não posso ficar…”. Riobaldo foi um advogado de defesa ali naquele momento. Falou com intensidade: “Por tanto, que digo, ele merece um absolvido escorreito, mesmo não merece de morrer matado à toa…”. E chega o momento de Zé Bebelo se defender: “Altas artes que agradeço, senhor chefe Joca Ramiro, este sincero julgamento, esta bizarria…” Depois ele se apresenta, agradece aos que por ele falaram e puniram. E defende-se e Joca Ramiro diz, como um juiz, porque o juiz diz o direito. Ele diz: “O julgamento é meu, sentença que dou vale em todo este norte. Meu povo me honra. Sou amigo dos meus amigos políticos, mas não sou criado deles. A sentença vale. A decisão. O senhor reconhece”. E Zé Bebelo diz: “Reconheço”. Zé Bebelo se compromete a cumprir a decisão, que acaba sendo a ida para Goiás.

Essa cena descreve todas as fórmulas de um julgamento justo: a acusação impessoal, a defesa, a fala sem amarras, o juiz decidindo o conflito só no final, sem interferir. Há um roteiro de prestação de justiça muito adequado nessa cena.

Quando li Grande sertão e estava escrevendo minha dissertação, fiquei muito impressionada com o julgamento de Zé Bebelo. E falei na defesa, para a banca, com a mesma sinceridade com que Riobaldo fala por Zé Bebelo. Fui muito espontânea, não me lembro de ter ensaiado ou pensado nessa fala antes da defesa. Eu tinha anotações jurídicas e não literárias. Mas a literatura me socorreu, naquele momento.

Esse falar que surpreende e rompe alguma fronteira e mostra outros pontos de vista em uma conversa, um debate, um julgamento, é sempre um ponto de virada na vida da gente.

 

Nonada

16 de abril de 2016

Estou fazendo um curso surpreendente na Casa Guilherme de Almeida:

“Grande Sertão: Veredas-Suas traduções e retraduções”, por Berthold Zilly.

Eu tenho muita admiração pelos tradutores porque eles têm uma paciência que me falta.

Os tradutores pensam nos vários significados das palavras, procuram sinônimos, sabem o que é anáfora, metonímia, síncope, prestam atenção ao ritmo, comparam traduções e muito mais. E leem diversas vezes as obras que traduzem e escrevem de novo, de novo, tentando respeitar o original e ao mesmo tempo precisando inovar porque a literalidade não reproduz o que o autor disse.

Embora eu não tenha a menor intenção de traduzir – gosto de saber como os tradutores fazem –  aprendo com eles e acho que posso escrever melhor.

E Guimarães Rosa é um autor do qual gosto muito. Talvez – talvez- seja o meu preferido, ao lado de Cervantes e Lima Barreto e Cortázar (por enquanto).O jeito como ele fala me movimenta a escrever.

Berthold Zilly  é alemão e fala muito bem português e, nas aulas, gostei porque ele, sendo professor, consegue falar com simplicidade sobre assuntos muito complexos e talvez isso aconteça também porque, na cabeça dele, ele transfira, muito rapidamente,  ideias complicadas para o português e, nessa transmissão, elas ficam mais fáceis (eu acho que pode ser isso).

Eu me interesso demais pelos discursos e pela maneira de dizer as coisas. Berthold Zilly traduziu “Os sertões” de Euclides da Cunha para o alemão.

Ele contou que em “Os sertões”   a palavra nonada já foi escrita. Eu procurei na publicação digital e achei, está lá, como ele disse, na parte em que ele disse que está:  “Causava dó verem-se expostos à venda nas feiras, extraordinária quantidade de gado cavalar, vacum, caprino etc., além de outros objetos, por preços de nonada, como terrenos, casas etc”.

O curso valeu muito e amanhã ainda continua, mas só de saber isso, que nonada está em “Os sertões”, já fiquei super contente. Eu sempre pensei que fosse palavra inventada e ainda talvez ainda seja inventada (depois vi na internet que existia, mesmo). Às vezes Euclides inventou nonada também, muitas vezes as pessoas escrevem e imaginam as mesmas coisas.

Quero acreditar que nonada é inventada. Se eu fosse inventar uma palavra em alemão para nonada, de brincadeira, acho que seria “neenichts”.

 

Hitchcock, Allan Poe e Lou Reed

28 de fevereiro de 2016

 

Cary Grant e Brigitte Auber em Ladrão de Casaca, de Hitchcock

Cary Grant e Brigitte Auber em Ladrão de Casaca, de Hitchcock

 

Sou uma escritora curiosa. Agora estou fazendo dois cursos: na Casa Guilherme de Almeida com Donny Correia e Flávio Ricardo Vassoler sobre Hitchcock e Edgar Allan Poe e Ficções, com Cadão Volpato.

Na Casa Guilherme de Almeida assistimos a filmes de Hitchcock na sala Cinematographos (A tortura do silêncio, Festim diabólico e Psicose).

Eu me inscrevi no curso sobre Hitchcock e Poe para saber mais sobre o suspense na narrativa. No fim não aplico nada de maneira consciente na minha escrita, mas acho que tudo fica.

A oficina com Cadão está valendo. No primeiro dia ouvimos a canção Perfect day do Lou Reed e o exercício era um texto sobre um dia perfeito. Todos escreveram textos muito bons.

Tenho um livro com letras do Lou Reed (Pass thru fire: The collected Lyrics) que comprei uma vez na Livraria da Vila e estava meio amassado, acho que ficou anos lá e outros anos aqui na minha estante.

Todo livro tem seu dia de rei, aquele primeiro dia em que realmente diz alguma coisa importante para um certo leitor. Eu olhava sempre para o livro e pensava, preciso ver e ler direito o que tem nele. E  abro esse livro e tenho a maior surpresa. A canção Perfect day está no disco The raven, cujo tema central é Edgar Allan Poe. É uma versão nova e diferente, porque a primeira versão está em Transformer.

Não é uma coincidência que a canção que lemos e ouvimos e nos inspirou a escrever na aula esteja em um disco sobre outro autor que também estudo agora, Edgar Allan Poe, que escreveu um ensaio, A Filosofia da composição, que tenho lido e relido? E os dois cursos não estavam ligados e ficaram muito ligados de repente.

A versão de Perfect day em The raven de Lou Reed é bem diferente da que ouvimos na aula (Em The raven há a participação de Antony Hegarty). É bem mais sombria. Porque toda perfeição tem um lado meio sombrio, foi o que conversamos, foi mais ou menos o que o Cadão lembrou.

P.S.

Fui à inauguração da sala Cinematographos e passaram um filme maravilhoso que eu não conhecia, de 1929: São Paulo, sinfonia da metrópole, de Rudolf Lustig e Adalberto Kemeny. Lívio Tragtenberg fez ao vivo a trilha sonora. Que bom que eu vi. O filme poderia ter sido feito agora (na forma, porque é tudo meio fragmentado) e achei interessante filmarem a prisão em São Paulo naquela época (bem diferente das prisões de hoje). Tudo no filme faz pensar. Vi que está no youtube (uma cópia muito antiga, acho, não restaurada).