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Pauliceia Literária e Lêdo Ivo: reflexões em torno do enigma

20 de setembro de 2013

A Pauliceia Literária realizada pela AASP (Associação dos Advogados de São Paulo)  começou com êxito.

Na abertura, Manuel da Costa Pinto discorreu, de maneira muito articulada e inteligente,  sobre a literatura  de Patrícia Melo, a escritora  em foco do festival.

Depois, Patrícia subiu ao palco. Falou bem. Disse que não pode ser considerada, até o momento, escritora de romances policiais. Escreve sobre crimes, paixões humanas, mas isso não significa, tecnicamente,  que sua literatura seja policial. Seu próximo romance, porém, será.

Hoje, em O Estado de São Paulo, Raphael Montes, autor de Suicidas, romance muito comentado, diz: “Tento explorar o que me parece o futuro do romance policial: histórias mais ágeis, sem o detetive como personagem principal” ( Caderno 2, C3).

Os temas debatidos na Pauliceia Literária giram – não só – em torno da literatura que discute crime e justiça.

Leio  romances policiais, especialmente Agatha Christie, Patricia Cornwell, Lawrence Block e Raymond Chandler. Chandler é meu preferido. Neles, os investigadores são  céticos e ambíguos.

Os personagens me conduzem ao fim do livro. A solução do mistério não importa tanto. Se bem que, em Agatha Christie, a solução é importante, porque quase sempre inusitada. Mas, nos outros, quero saber  como Marlowe, Bernard Rhodenbarr, Scudder  e Scarpetta, terminarão. Torço por eles, assim como torço por mim.

Estou escrevendo um romance policial em que dois personagens pesquisam um homicídio.

Dr. Magreza  e Elvis,  escrivão inexperiente que o auxilia e acompanha, têm uma relação  de subordinação hierárquica irreverente.

O morto é Chef Lidu, dono de restaurante envolvido em tramas amorosas e alimentares. Ele também é um personagem interessante, embora póstumo.

Mudando um pouco de assunto, mas ainda no assunto, li “O aluno relapso – Afastem-se das hélices”, que a Editora Apicuri publicou recentemente, de Lêdo Ivo.

O livro reedita, com importante acréscimo (Afastem-se das hélices), livro publicado em 1991 por Nemar e Massao Ohno.

Em uma parte, Lêdo Ivo fala: “A função da literatura não é a de refletir a realidade,  sim a de criar uma realidade que só a linguagem tem condições de produzir. A literatura é a realidade da linguagem, e não a realidade da vida, que se exprime através de uma des-linguagem”. (p. 35).

Está no livro, ainda,  breve poema:

Mistério policial

A chave do enigma

Não decifra nada.

Abre para a porta

Sem ferrolho e chave.

Leva ao labirinto

Desenhado  na água.

 Escrevo tudo isso para dizer que, na literatura policial, é esse labirinto desenhado na água que me chama. Além dos detetives: insisto  neles. Eles têm aquela chave que não decifra nada e sabem disso.

A vida de verdade é outra história. A vida  de verdade está no campo da des-linguagem, como disse Lêdo Ivo (ou das hélices, penso eu).

 

 

 

 

 

 

 

A que horas você escreve?

15 de setembro de 2013

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As pessoas têm curiosidade de saber a que horas o escritor escreve. Ninguém pergunta para o médico a que horas ele trabalha, nem para o advogado, muito menos para o engenheiro. Mas o escritor acaba respondendo essa pergunta.

É que é difícil encontrar tempo para escrever. A escrita exige concentração, algum silêncio,  comunicação entre o eu do escritor e o eu dos personagens, comunicação entre o escritor e os livros pesquisados, fotografias, recortes de jornal, tanta coisa. Leitura.

E tem o facebook,  o celular,  a internet,  as conversas com os amigos, os eventos literários nos quais é importante estar para saber o que está acontecendo e estar com outros escritores.

Os devaneios também ajudam e atrapalham. Escrevemos tudo ao mesmo tempo, lemos tudo ao mesmo tempo, pensamos assim, também.

Quem tem outra profissão, além da escrita ficcional, precisa trabalhar. Não se diz por aí que poucos vivem dos livros  publicados? E também é possível gostar de escrever e de trabalhar com outras coisas. Primo Levi, por exemplo, gostava de seu trabalho como químico. Há muitos exemplos assim. Eu mesma, por exemplo. Estudei direito, escrevo sobre direito, trabalho com direito. E escrevo ficção. Adoro escrever ficção. Precisei de muito tempo pra entender que é possível conciliar tudo. É claro que as linguagens são outras e estão em partes diferentes do cérebro. Como falar línguas diferentes, talvez. Não sei, preciso refletir mais e melhor sobre isso.

Mas voltando ao horário da escrita,  pode acontecer bem cedo, de manhã. De madrugada.

Eu gosto de escrever bem cedo,  quando estou bem concentrada e livre. E gosto de escrever domingo, como estou fazendo agora (não é cedo). Não gosto de escrever aos sábados.  E escrevo  no meu escritório, em casa. Só escrevo em casa.

Mas às vezes demoro para encontrar a escrita. Mesmo em casa.

Leio um livro chamado “O segredo dos grandes artistas”, de Mason Currey (Elsevier/Campus, 2013). Ele colecionou informações sobre rotinas de escrita.

Em Chawton, na Inglaterra, Jane Austen escrevia na sala, em folhas de papel pequenas. Acordava cedo e tocava piano. Depois, escrevia na sala. Curioso é que, quando pessoas de fora entravam, ela escondia os papéis e começava a costurar. À noite, lia para a família os romances que escrevia.

Thomas Mann trabalhava das nove ao meio dia, em seu estúdio. Depois, almoçava e lia até quatro da tarde. Dormia uma hora. Às cinco, tomava chá com a família. Depois, escrevia cartas, artigos para jornal. Caminhava antes do jantar. Antes de dormir, lia ou ouvia música com sua mulher.

Gosto de ler essas curiosidades.

Para escrever sempre, é importante ter alguma rotina. É como fazer ginástica. Um dia de cada vez, algumas horas de cada vez.

Eu, na verdade, não escrevo durante muito tempo. Meia hora, no máximo.

Pode parecer que escrevo de um jeito simples.

Minha simplicidade exige um certo esforço.

 

Divórcio, de Ricardo Lísias

1 de setembro de 2013

Terminei de ler “Divórcio”, de Ricardo Lísias.

Estava bem curiosa para ler o romance porque inserido entre aqueles que permitem  debate  em torno do foco narrativo. Gosto de ler sobre autoficção.

Em J.M. Coetzee, sobre o qual já escrevi aqui, a discussão vai ao extremo porque Coetzee escritor é narrador e personagem ao mesmo tempo (em Juventude e Verão, livros que li). E, mesmo assim, não se sabe se a narrativa é real ou inventada.

Com “Divórcio” acontece mais ou menos a mesma coisa. Ele mesmo, Ricardo Lísias, é o personagem e o narrador do romance. Conta todo o doloroso processo de separação de sua ex-mulher  – é assim que ele se refere à  personagem  cuja voz  aparece nos pequenos trechos de um diário.

No início,  fiquei um pouco incomodada com a exposição do diário encontrado. Faz tempo não escrevo diários. Quando criança, escrevia muitos. Desapareceram  e, até hoje, fico preocupada com seu destino. Esse é um assunto que me incomoda, o destino dos escritos secretos.

Mas o diário da ex-mulher foi encontrado (não estava  trancado e nem escondido). Tinha revelações que provocaram a saída do marido de casa e ele passou por momentos bem desconfortáveis. E me marcou muito o fato de dizer, sempre, que ficou sem pele. Essa é uma descrição extrema e tocante, faz com que a gente imagine a infelicidade total do narrador. Ardência.

Logo me desliguei desse incômodo e passei a prestar atenção na técnica narrativa, na maneira como o processo doloroso é associado aos treinos de corrida, especificamente para a prova de São Silvestre.

Haruki Murakami  já escreveu sobre corrida e escrita (Do que eu falo quando falo de corrida, Alfaguara) e Ricardo Lísias também faz isso, associando a corrida e o treino à recuperação pessoal.

Há alguns anos eu corria e cheguei a completar duas meias maratonas, do Rio de janeiro e da Praia Grande. A sensação de terminar uma prova de rua é indescritível. Correr ao lado de pessoas desconhecidas (irmãos corredores, eu dizia)  que querem, todas,  passar a linha de chegada, correndo, é muito gostoso.

Quando a gente termina os quilômetros, e são todos muito sofridos, tem a compreensão exata e concreta do dever cumprido.  Acredito que isso seja importante para todo mundo, mas para quem trabalha lendo e escrevendo e pensando, é  inusitado. Sempre estranhei isso em mim. Aí me machuquei e parei de correr, mas tive bons momentos.

Outro aspecto super interessante do livro é a maneira como o autor lida com o discurso do sistema da justiça, com a perspectiva de um processo judicial, com a documentação jurídica do conflito entre ele e a ex-mulher.

O discurso do direito é um discurso que fica sempre à margem do discurso literário ou do discurso da convivência. Ricardo Lísias resolve enfrentar esse outro mundo, paralelo,  no livro. Não há termos jurídicos, nada disso, mas há um debate interno sobre a eventualidade daquela separação ser discutida em outro plano, em um plano oficial. E isso não deixa o narrador com medo, pelo contrário. Ele não está nem aí. Ele se diverte com a outra escrita.

É muito interessante, também, a maneira como o narrador fala sobre seu processo literário. Conta como escreveu. Primeiro à mão, depois passou tudo para o computador. Diz que é comum os escritores misturarem realidade e ficção. O leitor acompanha a escritura de perto. O discurso literário está ali, vivo, no livro.

Ouvi  Ricardo Lísias falar no Jardim Alheio, na Livraria Martins Fontes. Até escrevi sobre esse dia, aqui. Ele parece ter domínio total sobre sua literatura.  Deve ter escrito o livro com extrema consciência literária. Ainda que essa consciência possa ter nascido no desespero (não sei), é resultado de reflexão e total domínio do escritor sobre a narrativa.

Nunca verei “Divórcio” como autobiografia.

É um grande romance.


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