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Notas sobre o que vejo

19 de outubro de 2017

Quando viajo gosto de fixar algumas impressões, isso me ajuda a memorizar e pensar sobre como o que vi  transforma a minha vida. Todos os descolamentos mudam alguma coisa dentro da gente.

1)- Não fui à Feira do Livro de Frankfurt, mas fui a Frankfurt e claro que pensei nos livros. Cidade bonita, rio lindo, museu do cinema super legal. Vi lá, no Museu do cinema,  uma exposição em que quatro telas mostram simultaneamente cenas de filmes diferentes, de épocas diferentes, mas que usam os mesmos recursos de narração. Cenas de mais ou menos 100 filmes são reunidas sob quatro temas principais: imagem, som, edição e ação. É bacana ver que em muitos filmes há pessoas batendo nas coisas e brigando, artistas saindo do avião e acenando para o público antes de descer a escada, incidentes que movem a história. Segue link:  http://deutsches-filminstitut.de/en/filmmuseum/permanent-exhibition/.

Aqui em São Paulo, no Instituto Moreira Salles, vi  videoinstalação parecida, mas também diferente. É The Clock, de Christian Marclay. Cenas de filmes em que o relógio e o tempo surgem  são unidas e mostradas por muito tempo. Em  publicação sobre The clock  há uma entrevista com Christian Marclay. Ele  fala que os assentos (sofás) são confortáveis para que a pessoa assista por quanto  quiser e lide com o próprio tempo. Não fiquei muito. Pensar no tempo e no relógio me deixa nervosa.

As propostas das instalações  de Frankfurt e do IMS, embora trabalhem com edição de imagens, são diferentes. A primeira mostra como as histórias são feitas, quais os principais recursos da linguagem cinematográfica. A segunda mostra a marcação do tempo nas histórias, provocando outras impressões.

2)- Vi ainda, no Museu do cinema em Frankfurt, o tambor do filme “O tambor” (Vorker Schlönderff), o diário de Wim Wenders, anotações de uma atriz alemã que gosto muito, Martina Gedeck.

 

3)- Em Viena visitei a casa de Sigmund Freud (Berggasse, 19). Impressionante. Lá ele atendeu seus primeiros pacientes. A entrada e as salas continuam idênticas e a sala de espera foi reconstituída;

 

4)- Também conheci Budapeste. Pela primeira vez estive em um país onde não entendo o que se fala e o que se escreve. Pude admirar sem precisar tentar compreender tudo;

5)-Por último, vi as árvores do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Não há como descrever tanta beleza. Aqui está o Chafariz das musas.

Italo Calvino, conferências de Harvard e leveza

1 de setembro de 2017

 

“Seis propostas para o próximo milênio”, de Italo Calvino, é sempre lembrado por e para quem escreve. As propostas são: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade. A última seria consistência, mas não foi escrita. Seriam apresentadas em um ciclo de conferências em Harvard denominado Charles Eliot Poetry Lectures.

T.S.Eliot, Stravinsky, Borges, Octavio Paz, entre outros, já deram as conferências. As de Calvino aconteceriam em 85/86, mas ele morreu antes. Esse breve relato está na introdução de Esther Calvino ao seu livro publicado pela Companhia das Letras.

Pesquisando sobre as conferências de Harvard na internet, encontrei a gravação das que Borges deu em 1967 e 1968 (http://bit.ly/1bZcOcC e no youtube), assim como informações sobre as lições de desenho de William Kentridge em 2011 e 2012. Depois quis encontrar as conferências de e.e.cummings de 52 e 53 (nonlectures) e ainda não deu certo.

Então tenho comigo as seis conferências de Umberto Eco (“Seis passeios pelo bosque da ficção”, Companhia das Letras), as de Orhan Pamuk (“O romancista ingênuo e sentimental”, Companhia das Letras), as de Calvino, as de Borges (“Esse ofício do verso”, Companhia das Letras), e as de Igor Straninsky, “Poética musical em 6 lições” (Zahar).

Faz tempo eu quero juntar esses livros. Publicados por editoras diferentes,  demorei para descobrir que poderiam formar  uma coleção particular.  Os autores, ao escreverem os textos, o fizeram para falar, para ler em voz alta, e acho que é por isso que gosto tanto deles.

Umberto Eco, quando inicia as suas conferências de Harvard, começa por Calvino. Eram amigos, mas não só. Calvino  escrevera “Se um viajante numa noite de inverno” e o romance fala da presença do leitor na história. Umberto Eco chega à conclusão de que o leitor modelo é aquele ansioso para jogar, ele observa as regras  do jogo.

E, conferindo, vi que “Se um viajante…” começa assim: “Você vai começar a ler o novo romance de Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. Relaxe. Concentre-se. Afaste todos os outros pensamentos. Deixe que o mundo a sua volta se dissolva no indefinido. É melhor fechar a porta; do outro lado há sempre um televisor ligado. Diga logo aos outros: “Não, não quero ver televisão!”. Se não ouvirem, levante a voz: “Estou lendo! Não quero ser perturbado!”. Com todo aquele barulho, talvez ainda não o tenham ouvido; fale mais alto, grite: “Estou começando a ler o novo romance de Italo Calvino!”. Se preferir, não diga nada; tomara que o deixem em paz” (Companhia das Letras).

O narrador está em segunda pessoa e chama o leitor para a história. Não sabe o que vai acontecer. Percebe que há problemas no livro. Vai à livraria e descobre que as páginas foram misturadas com as páginas de outro livro, um polonês, por cuja história ele se interessa e nós também, depois.

O leitor de Italo Calvino precisa interromper sua leitura para buscar a sequência de uma história que ele nem sabe qual é. quer partir para a outra, é um leitor do nosso milênio, troca leituras, passagens, personagens.

Você começa a ler um livro que leva a outro, volta ao primeiro, às vezes esquece qual era, passa a ainda outro, vai para a internet. Não há apenas páginas trocadas, há múltiplos interesses e estilos e narrativas.

Comecei a escrever aqui sobre escritores falando em Harvard e termino escrevendo sobre leitores perdidos e até sobre mim, que acabo de me distrair desta escrita para ler um texto de Freud refletindo sobre o Moisés de Michelangelo em Roma que eu queria ler faz tempo.

Voltando às conferências que Italo escreveu e não teve tempo de ler em Harvard,  relendo a primeira, sobre leveza, chego ao ponto em que ele diz: “Resta ainda aquele fio que comecei a desenrolar logo ao princípio: a literatura como função existencial, a busca da leveza como reação ao peso de viver” (p. 39).  Era isso que eu queria dizer.

Listas

17 de junho de 2017

“Listas extraordinárias” (organizado por Shaun Usher, Companhia das Letras, 2016) é um livro curioso.

Na apresentação, o autor já diz: nós, humanos, não paramos de criar listas para organizar nosso mundo caótico. Ele colecionou listas de outras pessoas enquanto pesquisava para seu outro livro também interessante: “Cartas extraordinárias” (Companhia das Letras).

Gosto desse livro das listas porque  me aproxima de pessoas que admiro e não conheci e já morreram.

Há no livro listas bem bacanas, como o Código do Caubói, de Gene Autry (ator e músico country americano da década de 30). Entre os itens está o de que o caubói nunca deve ser o primeiro a atirar, não pode bater em um homem menor que ele e não pode tirar vantagem sem razão. Deve cumprir as promessas, falar a verdade, ser gentil com crianças, velhos e animais e respeitar as mulheres (p. 50).

Depois da lista de Gene Autry está a de Chrissie Hynde, dos Pretenders. São conselhos para jovens roqueiras. O primeiro conselho é: “Não se lamurie por ser mulher, não fale de feminismo, não reclame de discriminação sexista. Estamos todas por baixo e fodidas, mas ninguém quer ouvir choradeira. Componha uma canção meio disfarçada a respeito disso e ganhe muito ($)”. O último conselho é: “Não aceite conselho de gente como eu. Faça sempre o que bem entender” (p. 51).

Woody Guthrie, músico que inspirou Bob Dylan, tinha, entre as decisões de ano novo: trabalhar com planejamento, manter a máquina da esperança funcionando, amar o pai, a mãe e todo mundo, ouvir muito rádio, tomar banho, fazer a barba, dançar melhor, entre outras lindezas.

Eu poderia me perder aqui nessas listas, são uma delícia de ler. Umberto Eco também tem um livro sobre listas que vale muitos textos (A vertigem das listas); ele acreditava na força delas, dos dicionários, das enciclopédias.

Tenho as minhas listas, só que escrevo em lugares diferentes, às vezes em cadernos, às vezes em aplicativos do celular tipo pocket, inkpad, evernote (preciso fazer listas dos lugares onde guardo listas). Faço listas de assuntos para escrever no blog, das canções preferidas de Bob Dylan, de coisas para arrumar em casa, prioridades burocráticas, ideias para contos, nomes de personagens. Não faço listas de despesas para não me incomodar, e nem de compras.

Estou aqui pensando nas minhas listas :

1)- Livros que gostaria de ter escrito: O irmão alemão e Budapeste, ambos de Chico Buarque.

2)- Filmes prediletos: Esposamante (Marco Vicario) e Aproximação (Amos Gitai). Vários outros.

3)- Canções: Retrato em branco e preto (Tom Jobim e Chico Buarque),  Paint it black (Stones), A simple twist of fate (Dylan), quase todas de Caetano, Feio (Primos distantes).

4)- Cidades: São Paulo, Berlim e Roma.

5)- Autoras preferidas que já morreram: Gertrude Stein, Karen Blixen e Janete Clair.

6)- Autoras preferidas brasileiras: todas, mas rendo minhas homenagens às minhas amigas do Coletivo Literário Martelinho de Ouro.

7)- Autores preferidos que já morreram: Lima Barreto, Oswald de Andrade, Tolstoi, Cortázar, Hemingway, Fitzgerald.

8)- Autores preferidos brasileiros: todos, seja escritor, seja herói (lembrei de Oiticica, aqui).

9)-Cores preferidas: azul, vermelho e amarelo.

10)- Flores preferidas: rosa, rosa e rosa.

O problema de publicar a lista é que dá um frio na barriga, tipo: quanto essa lista revela de mim?

Às vezes, nada, porque a gente pode mudar, inverter a ordem, fazer outras listas, completar as que se acham prontas, como acabei de fazer agora. 

Listas organizam em um momento, mas também são aleatórias.

Este é um texto que nunca darei por terminado.

 

Festa de Literatura para Lima Barreto

4 de junho de 2017

 

desenho de como vai ser a Flip em Paraty

 

Ah! A literatura me mata ou me dá o que peço dela.

Essa frase é de Lima Barreto em “O cemitério dos vivos”. Ouvi de Joselia Aguiar, curadora da Flip, na Coletiva de imprensa à qual tive  o prazer de assistir dia 29 de maio.

Logo no começo da manhã Joselia falou essa frase que na hora  me fez ficar muito ligada em seu discurso muito claro e detalhado. Ela não falou só sobre o programa, mas abriu caminhos para novas ideias. Tanto que cheguei em casa e fui procurar, já que ainda não tinha lido “O cemitério dos vivos”, onde a frase está.

Anos depois de sua morte a literatura retorna a Lima Barreto e dá a ele, em mesma oportunidade, leituras, reflexões, debates, encontros. A Flip 2017 confere  ao grande autor brasileiro toda reverência, expondo ao público, por meio de iluminada programação, a atualização e a atualidade de sua obra e de muitas outras que com ela se relacionam.

A Flip 2017 tem em sua programação mais mulheres que homens e pelo menos 30% de participantes negros. Joselia disse que a questão racial é importante, mas não aprisiona o diálogo. Os artistas querem ter a liberdade de falar sobre arte, ciência,  assuntos diversos.

A liberdade é nosso maior bem,  destacou Joselia, e foi importante na escolha dos assuntos e das mesas, escolha essa concentrada em mostrar autores novos que não estão nos centros, mas nas margens.

A liberdade é essencial na obra de Lima Barreto, valendo ressaltar, sobre o tema,  artigo de Lilia Schwarcz  publicado no último 13 de maio (http://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/13-de-maio-Liberdade-hoje-e-seu-dia). Lilia Moritz Schwarcz estará na abertura da Flip e terá lançado, até lá, a biografia “Lima Barreto: triste visionário”, pela Companhia das Letras.

Na programação da Flip estão autoras de quem já gosto: Ana Miranda, Conceição Evaristo, Maria Valéria Rezende, Natalia Borges Polesso. Entre os homens está Alberto Mussa, admiro bastante da escrita dele. É bom que a programação conte com  autoras e autores que não conheço e virei a conhecer, o mundo literário é infinito, sempre surpreende.

Para mim a Flip já começou. Não sei ainda se vou a Paraty. Mas já estou no movimento de buscar novas escritas, de pesquisar  textos de Lima Barreto que nunca li. Leio sempre “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, adoro esse romance.

Os primeiros dois capítulos e metade do terceiro de Recordações foram publicados, primeiro, na  Floreal, revista que Lima Barreto fundou em 1907 e só chegou ao quarto volume. Depois, o romance foi publicado por editora portuguesa (encontrei os exemplares da Floreal digitalizados na página da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin na internet).

Em carta a Gonzaga Duque, o próprio Lima Barreto afirma: “Mandei as Recordações do Escrivão Isaías Caminha, um livro desigual, propositalmente malfeito, brutal por vezes, mas sincero sempre” (Correspondência, I, pp 169-170, citada por “A vida de Lima Barreto”, Rio de Janeiro, José Olympio, 2002, p. 184).

Uma de minhas características prediletas do livro “Recordações do escrivão Isaías Caminha” é essa imperfeição destacada pelo próprio autor.

Gosto quando, na ficção, a linguagem não é barreira entre o leitor e o texto. Fica tudo claro e posso pensar no que o autor está contando ou dizendo, fazendo minhas próprias associações e analogias e confrontos.

O romance, em seu estilo muito direto,  só renova a compreensão sobre a hipocrisia em suas diversas formas.

Um autor perfeito como Lima Barreto, que admite ter escrito de modo imperfeito, só pode esperar o máximo da literatura.

*****

Insiro aqui alguns links de textos interessantes que encontrei na internet sobre Lima Barreto:

http://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/13-de-maio-Liberdade-hoje-e-seu-dia

http://seer.fclar.unesp.br/estudos/article/viewFile/1047/863

http://objdigital.bn.br/acervo_digital/anais/anais_105_1985.pdf

http://www.revistas.usp.br/teresa/article/viewFile/99461/97948

http://seer.fclar.unesp.br/estudos/article/viewFile/1047/863

http://www.historia.uff.br/stricto/td/1444.pdf

http://www.ileel.ufu.br/anaisdosilel/pt/arquivos/gt_lt13_artigo_6.pdf

https://pendientedemigracion.ucm.es/info/especulo/numero18/limabar2.html

http://www.filologia.org.br/viiicnlf/anais/caderno13-17.html

http://www.bocc.ubi.pt/pag/coracao-claudio-resistencia-missao-solidariedade.pdf

http://www.brasiliana.usp.br/bitstream/handle/1918/03585510/035855-1_COMPLETO.pdf

 

Perguntas de Clarice

1 de maio de 2017

 

 

“Entrevistas”, da Rocco (2007),  reúne diversas entrevistas que Clarice fez ao longo da vida com escritores, músicos, atores, pessoas da área esportiva. As entrevistas foram publicadas na Manchete, Fatos e Fotos,  Jornal do Brasil. As da Manchete foram reunidas no livro “De corpo inteiro”.

Clarice entrevistou Lygia Fagundes Telles, Jorge Amado, Antônio Callado, Pablo Neruda, Nélida Piñon, Tom Jobim, Chico Buarque, Elis Regina, e muitos outros.

As entrevistas me impressionaram pela natureza das perguntas. Perguntar é uma arte e  a maioria das perguntas não precisa ser respondida. Às vezes as respostas vão para outros caminhos, às vezes não dizem nada. Mas, com as entrevistas de Clarice, nada se perde, as perguntas sempre ficam.

Para Rubem Braga, Clarice pergunta: “É verdade que você amou muito? E que é que você mais queria na vida? Qual sua atitude diante da morte?” (p. 19).

Com Jorge Amado ela não poderia ter sido mais direta: “Você gostaria de escrever diferente ou está comprometido demais com o seu público?”. Ele respondeu que o compromisso dele era com o povo e o público é que tinha compromisso com ele.

Clarice perguntou a Nelson Rodrigues:“Você fala em reencarnação e em vidas passadas. Você é esotérico? Acredita em reencarnação?”. E pergunta, ao terminar:“Você gostou de me dar essa entrevista?” Resposta: “Gostei profundamente. O que conta na vida são os momentos confessionais”.

Uma das perguntas a Nélida Piñon é muito atual: “Você é feminista? O que é que reivindica para a mulher brasileira?”. Resposta: “O feminismo é uma consequência da minha condição de mulher. Quanto mais habilito-me a interpretar o mundo, melhor compreendo a necessidade de se conquistar uma identidade, que unicamente uma consciência ativa e alerta nos pode conferir. Sou naturalmente feminista, e aspiro para a mulher, independentemente desenvolvida, capaz de integrar-se ao centro das decisões, de que esteve sempre excluída, e ajudar a tornar possível e melhor a vida comunitária dos nossos tempos”.

Para a poeta Marly de Oliveira, Clarice pergunta: “Marly, para você, qual é a coisa mais importante do mundo?” Resposta: “Seria viver – e morrer -sem ter medo”

Não conheço a poeta Marly de Oliveira e vou pesquisar porque há uma parte de um poema  publicada na entrevista que me emocionou, o poema todo se chama O sangue na veia. Vou procurar esse poema inteiro porque  gostei dele.

A entrevista mais linda de Clarice, no meu sentir, é a que ela fez com Tom Jobim, a única em que as respostas vão além das perguntas (para mim). Dessa entrevista com Tom Jobim interessa uma resposta: “A morte não existe, Clarice. Tive uma (uma com agá: huma) experiência que me revelou isto. Assim como também não existe o eu e nem o euzinho e nem o euzão. Fora essa experiência que não vou contar, temo a morte vinte e quatro horas por dia. A morte do eu, eu te juro, Clarice, porque eu vi”.

 

Aprile, de Nanni Moretti

3 de abril de 2017

 

 

Acho que já falei aqui que sou fã do Nanni Moretti e de todos os seus filmes. Recentemente, revi Aprile, de 1998.

Em Aprile, Nanni Moretti é Nanni Moretti (acho que quase sempre Nanni Moretti é Nanni Moretti, mas  acredito muito na ficção de seus filmes). Ele está em crise e não sabe se fará um documentário sobre a história da Itália ou um musical sobre uma confeitaria e essa dúvida é muito séria, compreendo perfeitamente o drama dele.

Ele não sabe se filma as eleições entre esquerda e direita, se filma sobre refugiados da Albânia, se filma a  luta por autonomia da Padânia (eu nem conhecia essa questão), se filma o musical.

No meio tempo, ele coleciona e classifica recortes de jornal e revistas, o que evidencia um processo criativo muito interessante nessa linha que ele escolheu de fazer de si mesmo um personagem. O nascimento do filho acontece e transforma totalmente a vida dele. Totalmente, não. O filho faz com que ele seja mais autêntico, talvez, e leve a sério seus gostos e preferências. Ao perceber que viveu bastante, Moretti tem coragem de usar sua capa de lã.

E, é claro, faz o musical, sem se desfazer, também, de certa forma, do documentário.

Nanni Moretti reúne realidade e ficção, ele discute, o tempo todo, o artista no meio em que vive, como cria, como pode entender o mundo e ser ele mesmo, ao mesmo tempo. Eu me identifico muito com ele, até por que usa muito uma das minhas cores preferidas: vermelho. Usa um suéter vermelho e usa vermelho nos letreiros, acho que ele gosta dessa cor.

 

Dia internacional da mulher

7 de março de 2017

Sempre achei o dia internacional da mulher uma data desconfortável. Pensava que tinha todos os direitos do mundo, que o mercado de trabalho estava aberto a quem se dedicasse, independentemente do gênero. Ter e criar filhos, vida profissional, tudo junto, só podia ser fácil.

Achava que não precisava cozinhar, que expressaria minhas ideias em reuniões e palestras e todos me ouviriam com respeito e sem interrupção, em franco debate (li na Folha de 5 de março  sobre um aplicativo que contabiliza as interrupções das falas das mulheres, por homens, em reuniões).  

Estou contente com minhas conquistas. Mas, voltando no tempo, percebo situações em que diferenças foram estabelecidas porque eu era mulher. Eu disfarçava ao notar diferenças e me acomodava a nem sempre buscar posições mais proeminentes porque tinha medo da recusa e de não dar conta, também. A discriminação também acontece por parte das mulheres. Já ouvi muitas dizerem que preferem homens como colegas de trabalho.Seriam mais flexíveis? Nós só podemos ser mais rígidas pra fazer tanta coisa diferente ao mesmo tempo.
 As jovens hoje estão unidas na condição feminina. Gostam de estar entre elas, são amigas, militantes, têm atitudes  e vontade de mudar as coisas. A minha geração foi meio ingênua, ou eu fui, talvez. Achei que estava tudo mudado.
Estou falando de um jeito meio genérico porque não quero ficar lembrando pessoas e fatos, mas quem sente isso sabe como é (e estou falando de questões simples e leves aqui, sabendo que muitas mulheres, no mundo, sofrem violências físicas e verbais difíceis de serem combatidas, a violência contra uma atinge todas nós).

É claro que sempre é possível vencer debates ou entrar na competição com jeitinho, ou certa política, nem sei como dizer. Mas é importante conquistar posições falando direto e claro, com a razão.

Assisti outro dia ao filme alemão Toni Erdmann e me chamou atenção o tanto que a personagem se ocupava em se sobressair no trabalho e o quanto recebia mensagens masculinas discriminatórias, algumas sutis e outras não. No fim o pai percebeu que ela experimentava situações absurdas, e ele sabia que ela podia conquistar espaços sendo ela mesma, ele conhecia a capacidade e os talentos dela. Achei legal o filme, mesmo com algum exagero na caracterização do personagem masculino.

Bom, pra fechar o texto, e sem conclusões, queria dizer que tenho visto  a dança de Pina Bausch no filme do Wim Wenders e no youtube, em outros filmes, e acho que ela expressa a angústia do nosso tempo, principalmente a feminina.

Lembrei dela, mas lembro  de brasileiras maravilhosas na forma de se expressar, como  Elza Soares, Marisa Monte e Mônica Salmaso, minhas preferidas.
Estou aqui falando de expressão pelo corpo e pela voz, preocupada, dessa vez, em não entrar na literatura, já que sempre leio e escrevo tanto.

Eu quero muitos dias das mulheres, um só é pouco. Nós merecemos muitos dias, todos.

Meus temas estão no Carnaval

26 de fevereiro de 2017

Vi que o tema do baile do Copacabana Palace foi o Japão. Sabrina Sato estava de gueixa e vi a fantasia e achei bem pouco parecida com os kimonos de um livro que eu tenho.

Nunca fui ao Japão. Enquanto escrevia o romance “Viagem sentimental ao Japão” (Apicuri),  pesquisei demais e tive muita vontade de ir. Agora passou um pouco, mas chego lá.

Mas ver o baile do Copa inspirado no Japão me deu saudades desse tempo. Ninguém precisa ir ao Japão pra colocar a máscara, criar um personagem, imaginar. Anette, a personagem do livro, trabalha em agência de viagem e conta aos clientes ter ido lugares que não visitou.  Ela nunca viajou. As viagens dela são sentimentais.

E mais incrível ainda é acordar e ver que o tema do desfile da Rosas de Ouro em São Paulo agora de madrugada foi “Convivium, sente-se à mesa e saboreie”. Li que  os banquetes a da história da humanidade estavam no desfile, desde o Egito.

Proust deu muita importância às refeições, aos chás em porcelana, aos faisões, aos ovos mexidos com toucinho. A comida ajudou a tecer o ambiente de seu grande romance. Hoje, ao se falar de alimentação, o ponto de vista é restritivo. Fala-se mais sobre não comer do que sobre comer. Ou se faz regime, ou se tem diabete ou colesterol, ou se é vegano, ou não sei mais. Mas mesmo assim, comer bem, com família e amigos, ainda é uma delícia.

Os dois últimos romances que escrevi, “Nove tiros em Chef Lidu” e “Feliz aniversário, Sílvia”, têm a alimentação no contexto menos proustiano: a dieta está no ar.

Agora cedo, na minha casa, bem longe dos bailes e dos desfiles e do Japão e dos banquetes, me sinto ligada ao meu tempo.

Meus temas estão no carnaval!

Hoje eu gostaria de escrever como Dashiell Hammett

12 de fevereiro de 2017

Organizando filmes, descobri preferência, em minha coleção, pelo cinema itaiano. De Roma cidade aberta até Aprile. Caro Diário, do Nanni Moretti, tem uma cena em que ele vai de moto até o lugar onde Pasolini morreu. A música é do álbum Köln Concert, do Keith Jarrett. Sem economia de tempo ou de espaço. A gente acompanha a moto, vendo o mar.

Ontem assisti  One from the heart, do Coppola. Gostei bem mais do que me lembro de ter gostado. Não é só a trilha sonora. Os atores, os diálogos e o cenário, encantam do começo ao fim. Melhor do que La la land? Mais espontâneo, talvez.

Separei os filmes que quero rever: Buena Vista Social Clube, Pina, Alice nas cidades. Assisti Hammett domingo. O personagem é o escritor Dashiel Hammett. É como se ele tivesse escrito a história que ele vive. Escreveu, provavelmente. Mas é ficção. O filme é do Wim Wenders e li depois na internet que foi filmado duas vezes. Só vimos a segunda. A primeira, com cenas externas, não foi aceita pelo estúdio e não existe mais. Dashiell Hammett marca uma fase dos romances policiais em que a história é contada ao mesmo tempo em que acontece. Sandra Lúcia Reimão, em O que é romance policial, da Brasiliense, explica que, na fase da série negra, que sucede o romance de enigma, a ação é importante e as paixões, os sentimentos, também. O detetive se envolve na trama e não há reflexões psicológicas. Sam Spade, o investidor de Dashiell Hammett, é falível, não é um super decifrador de pistas e sinais como são Holmes e Dupin. O mundo do crime reproduz a sociedade capitalista. O filme de Wim Wenders é muito fiel à série negra do romance policial. Hammett é o escritor que investiga de maneira atrapalhada, perde os originais que passa o filme procurando.

Estou começando um novo romance. Ainda em processo, pesquisando, me organizando mentalmente. Tenho um personagem, o nome dele é Tito (por enquanto). Nasceu na Alemanha, em Berlim oriental. Veio para o Brasil depois da queda do muro e, aqui, ficou rico, envolveu-se em encrencas que ainda desconheço, foi preso, libertado e voltou para Berlim. Aqui era casado com uma moça que ainda não tem nome, ela narra a história. Depois que ele saiu da cadeia, se separaram. Estou mais ou menos neste ponto, 8 páginas. Ainda não perdi meus originais e hoje, com o computador, é difícil isso acontecer porque tem muito espaço na nuvem para salvarmos nossos arquivos. É verdade que pode acabar a luz ou acontecer uma coisa forte que elimine nossa energia e destrua os dados armazenados em locais esquisitos. Por isso é bom imprimir de tempos em tempos. Hammett viu páginas datilografadas boiando, espalhadas, perdidas. Essa imagem das páginas espalhadas é incrível.

Eu me pergunto se preciso escrever um romance policial e me pergunto se o livro que escrevo é policial. Quero que tenha suspense. Como já li em Modiano, uma vez, não lembro onde, o melhor de escrever o livro é esse devaneio.

Já quis escrever como Simenon e como Chandler (ainda quero escrever como Chandler). Mas, hoje, quero escrever como Hammett.

“Uma rua de Roma”, de Patrick Modiano

28 de janeiro de 2017

No romance de Patrick Modiano (Rocco) há uma agência de detetives que fecha as portas, um detetive que se muda para Nice e um auxiliar de detetive que fica em Paris procurando uma pessoa: ele mesmo. Na agência há catálogos  que ele pode consultar. A agência dava aos clientes “informações mundanas” (p. 9). Tudo acontecia entre “pessoas de bem” (p.9).

As personagens  são pessoas perdidas na época da 2ª guerra. Os nomes se alteram, uma mesma pessoa pode ter um ou mais nomes, passaportes diversos, no meio do livro a gente se perde um pouco na identificação e acho que a ideia é essa. Ficamos meio perdidos, nós, os personagens de Modiano, a memória esfumaçada do narrador.

Denise, a personagem feminina que encanta, lê romances policiais.

Não dá pra ler o livro uma vez só. É curto, simples, mas dá vontade de voltar e pesquisar o próprio romance.

O romance tem características de um romance policial, há detetives, fugitivos, arquivos, leitores, talvez um crime remoto, a procura de alguém por sua história e sua identidade.

Eu me pergunto, depois de ler o livro, se é assim tão importante encontrar o passado certo e exato, se ele existe.

Quem perde a memória não se perde necessariamente. Há sempre o momento presente (a conclusão transitória é minha e não do romance).

Estou impregnada desse livro e não consigo parar de pensar nele.

P.S.- Acabo de ler de novo.


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