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Sobre “Sexo, amor e concursos públicos”, de Ruy da Silva Próximo (São Paulo, Novo Século).

11 de maio de 2021

Quando a gente começa um livro e não consegue parar de ler a vontade imediata é saber mais sobre o autor.

Foi o que aconteceu nesse isolamento do primeiro semestre de 2021, trabalhando em casa, lendo as notícias tenebrosas da política, da covid política, da covid saúde, das mortes, da onda de mortes, das mortes na favela de Jacarezinho no Rio de Janeiro, que me deixaram triste e mais que triste, indignada e desacorçoada (essa é uma palavra que minha avó usava muito).

E a morte do ator Paulo Gustavo também me deixou triste porque eu não sou de assistir comédia brasileira no cinema, mas dele eu gostava muito, e quem não? Ele até inspirou o nome de um personagem meu.

Nunca conto esses segredos, mas aqui eu vou contar, em homenagem ao Paulo Gustavo.

Quando eu ia ao cinema, antes da pandemia, quando ir ao cinema não era um ato de subversão, antes de começar o filme, ele aparecia falando algumas coisas sobre desligar o celular. E ele mencionava Carlos Alberto. Eu não lembro nada, só a voz dele, Carlos Alberto. E eu pensava, esse nome é muito bom, Carlos Alberto, é um personagem muito bom, muito curioso esse personagem com quem ela fala, a mãe interpretada pelo Paulo Gustavo (agora eu sei, é o pai dele).

Gente, minha memória mistura tudo, eu não sou boa para contar fatos, eu sou boa para sensações e impressões.

E dei esse nome, Carlos Alberto, para o personagem do marido de Sabina em “Feliz aniversário, Sílvia” (Patuá).

Ele ganhou esse nome pela voz de Paulo Gustavo, foi muito legal.

Esse personagem, pra mim, tem muita personalidade, ele existe mesmo.

E passei a assistir aos filmes de Paulo Gustavo. Ele deu nome a um personagem meu. Isso é importante pra mim, quando alguém me inspira esse alguém passa a fazer parte da minha vida.

Nesse livro, “Feliz aniversário, Sílvia”, há uma personagem, Sabina, que é tradutora e uma escritora de best sellers, trilhardária, mas o marido não sabe. O marido, o Carlos Alberto, não sabe que ela é a escritora famosa. Ele não sabe que ela é rica e tem  dinheiro guardado em contas no exterior. Ele não sabe nada da vida secreta dela.

Mas nem tudo é desesperança.

Quando li “Sexo, amor e concursos públicos”, de Ruy da Silva Próximo (Novo Século, 2021), eu fiquei mais animada, eu dei risada, eu me lembrei de quando andava a pé pelo Centro de São Paulo, de quando era jovem advogada, de quando imaginava como seria o meu futuro, de quando havia um trabalho a ser feito.

E quando eu li esse livro, “Sexo, amor e concursos públicos”, de Ruy da Silva Próximo,  eu me lembrei dos livros de Sabina, todos best sellers. E percebi que Ruy da Silva Próximo, o autor, é um personagem também. Essa é uma advertência feita no início do livro, aliás, mas eu só li essa advertência no fim do livro.

Sabina também escreve sob pseudônimo: Anna B. Timble. Minha personagem, Sabina, encontrou um personagem na vida real, Ruy da Silva Próximo.

Eu gostei muito do livro de Ruy (já o trato de Ruy, um amigo). O narrador cresce na leitura, fiquei muito próxima dele. Não é à toa que se chama Próximo.

E a história se desenvolve em São Paulo, em lugares por onde andei, no Centro, na Líbero Badaró, na Benjamin Constant, no Bairro da Liberdade. Ruy anda por lugares muito familiares para mim, de ônibus, a pé. Ele estuda para ser promotor de justiça, é um jovem advogado e se dispersa com festas e garotas.  É meio tímido, mas ao mesmo tempo ousado, tem pouca grana, também, dá pra sentir sua angústia  ao se ver dividido entre estudar e experimentar as doçuras da vida (uma angústia bem suportável).

 Ele precisa passar no concurso para promotor de justiça, ele tem esse ideal além de tudo, um ideal de vida. E ele segue seu caminho fazendo uma coisa e outra,  desviando-se dos obstáculos e conquistando etapas.

Depois desse primeiro momento de identificação com uma angústia matreira, que me fez rir e sentir afeto por ele, vem o segundo, agora formal: o índice do livro. O índice é muito bem feito, tanto na ordem como na escolha dos títulos. Dá vontade de ler o livro, ainda que escolhendo, aleatoriamente, os capítulos, o que não fiz, já que segui a sequência.

As introduções aos capítulos são ótimas. Edição, diagramação, perfeitas. O ritmo da fala do Ruy é peculiar, não se assemelha a nenhum ritmo literário conhecido.

Ruy tem  a voz do personagem. Ele fala rápido, mas não tanto a ponto de saltar na página para dar impressão de modernidade ao estilo. Ele fala  rápido com as pausas naturais da personalidade. E algumas frases terminam com a ironia necessária, não excessiva, não forçada, como “a verdade é que eu não teria dinheiro nem para a pipoca”.

As diversas referências a Napoleão no capítulo 2 são super sutis, cômicas, sem serem pesadas. A sutileza aparece também em “A queda não causou qualquer contusão ou dano físico” (p. 145).

Isoladamente, as frases irônicas podem parecer simples, mas, quando examinadas no contexto, juntas, mostram o personagem, seu modo leve de ver o mudo e de experimentar a ansiedade de prestar concursos públicos.

Ruy é uma pessoa um pouco atrapalhada, mas também confiante no seu destino. Não desperdiça os momentos da vida: “Não havia missão, predestinação ou presságios, só um trabalho a ser feito”.

O Salão azul é o lugar de Ruy, o Everest de George Mallory, e não há nada demais nisso, é uma conquista natural essa. É só um trabalho a ser feito.

O livro é bom e divertido, o sexo está na medida certa, faz parte da vida de Ruy, a gente lê com naturalidade.

O livro é escrito por um pseudônimo masculino   sem ser machista e essa característica, hoje, é muito interessante: o que Ruy pensa sobre as mulheres não atingiu meu feminismo ou minha sororidade. Eu achei o livro bacana e bem escrito. Ruy é um personagem que mal chegou e já tem nome e endereço fixo.

Veio para ficar.

Espero a continuação.


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