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Escritura e leitura: espantando a mosca

19 de setembro de 2012

Não sei o que começou primeiro, se a escritura ou a leitura. Acho que foi a escritura, porque me lembro da minha avó me ensinando a desenhar a letra P de meu nome. Foi difícil. Eu queria fazer o P bem redondinho, bonitinho. Aí não parei mais. Consegui desenhar o nome inteiro, escrevi bilhetes, diários, pequenas canções sobre o tema da rosa. Rosa flor. E veio a leitura. A primeira imagem da leitura é eu sentada no sofá marrom de casa lendo um livro, sozinha. E tinha uma mosca. Eu espantava a mosca e lia, lia e espantava a mosca. E depois li os livros todos do Tesouro da Juventude. Os Livros dos Porquês. Como se pode calcular a idade da terra? Os Livros dos Contos, as Lições Recreativas, a importância das pausas na música. E li A Ilha do Tesouro. Todo Monteiro Lobato. Os Diários de Sofia, Winnetou, As Mulherzinhas, O Diário de Anne Frank, Tom Sawyer, As Aventuras de Huckleberry Finn, as detetives de E.V.Cunningham. Agatha Christie. Marçal Aquino. Antônio Torres e Raduan Nassar. Maximo Gorki, Anna Kanerina, A Morte de Ivan Ilitch, D. Quixote, Os Miseráveis. Haruki Murakami e todas as suas Sputniks, Mishima, Kenzaburo Oe. O sertão de Guimarães Rosa, veredas. Os braços de Machado de Assis. Livros e personagens se misturam, hoje em dia todos me rodeiam, já não sei dizer se Tolstoi escreveu Anna Karenina ou Anna Karenina escreveu Tolstoi. Os livros ficam em volta, sempre tenho com quem pensar junto. Diálogos silenciosos acontecem e meu universo fica universal. Estar aqui ou na África, com Karen Blixen, é indiferente. De vez em quando ainda preciso espantar aquela primeira mosca voando.

(escrevi este texto instigada por publicação de primeiro livro da Editora Vagamundo, História Íntima da Leitura. Foi publicado em http://editoravagamundo.com.br/historiasdosleitores/historia-intima-da-leitura-paula-fernandes/)

Quem nunca se sentiu sozinho no deserto extremo?

5 de setembro de 2012

Livros ardem. Davi acorda. Não tem ninguém. Só as coisas. Os DVDs, fogos de artifício, os lugares, existem. A Avenida Paulista existe.  As pessoas, não. Só as roupas ficaram. Mas ele nunca gostou das pessoas, mesmo. Com exceção de Vivian, eu acho.

Outros  sobreviveram, espalhados: um bebê, um prisioneiro político na China, uma passageira em um avião, uma maníaco-depressiva em Nova York, um pesquisador na Antártida.

E ele, Davi. Um homem comum. Sem qualidades.

Davi e os personagens de seus livros. Mas ele ainda pode ver as pessoas em DVD. E a certa altura, ele diz: “A verdade é que não existe arte quando há apenas uma pessoa no mundo. Sem interlocução não existe poesia. Todos os filmes que Davi assistiu, até mesmo as produções mais requintadas, dirigidas com maestria, perderam o poder de transfigurar. Kurosawa, Bergman, Wenders…” (p. 101).

Faz tempo eu penso sobre isso, sobre a existência da arte. Essa é só uma das indagações que o livro de Luiz Bras (http://luizbras.wordpress.com) , “Sozinho no deserto extremo”, publicado pela  Prumo, suscita. A gente lê o livro junto com as lembranças de Kafka, Canetti, Musil, Nietzsche. Nietzsche e o eterno retorno.

Uma das primeiras lembranças que eu tenho de meu pensamento era um exercício de imaginação que me dava aflição: e se nada existir, nem mesmo eu? Meu pensar surgiu a partir da ideia do nada. Para Davi, ainda sobrou ele mesmo. E a pergunta inversa é: será que ele existe, sem os outros?

Onde está o deserto extremo?

Deserto extremo?

O deserto é aqui.

( livros ardem)

Marçal Aquino no B_arco Centro Cultural

30 de junho de 2012

Marçal  Aquino

Hoje fui ao B_arco Centro Cultural, em São Paulo (www.obarco.com.br).

Marçal Aquino falou  para público que frequenta as oficinas literárias coordenadas por Marcelino Freire.

Gosto dos dois escritores. Marcelino entrevistou, Marçal contou.

Contou sobre suas experiências  como jornalista, repórter policial, depois como roteirista. Falou de Amparo, sua cidade, de seu pai, de cinema, de “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios” (Companhia das Letras), de como o título do romance foi bem recebido e eventualmente não tão bem recebido. A tradução para o alemão não segurou o título, por exemplo. Fiquei curiosa para saber como ficou o livro em alemão, vou pesquisar. Li  em português. A história de amor é palpitante e às vezes triste (ela é toda meio melancólica, não estou contando final do livro, de jeito nenhum, até que termina bem). Adorei a ironia do diálogo do texto com o texto do professor Schianberg (quem leu sabe, não vou falar para não tirar a graça). Gostei tanto do livro que não quis assistir ao filme de Beto Brant, mesmo sabendo que é ótimo. É que a escritura faz parte da história e não sei se o filme manteve a intimidade da narrativa em primeira pessoa.  Cauby é um grande personagem. Imagens mudam tudo.

Marçal disse que o escritor cria a partir da imaginação, da observação e da experiência.  Cada leitor lê de um jeito, recebe o livro de um jeito particular. Ao responder pergunta sobre seus autores prediletos, disse que são muitos.  Mas citou, especialmente, Graciliano Ramos.

Sempre que posso, assisto aos escritores, quando falam. Marçal Aquino pensa muito rápido, fala rápido.  Pensa e fala ao mesmo tempo, sempre criando e recriando. Do encontro, ficou, entre tantas impressões, a frase, “eu sou escritor”.

Vladimir Nabokov e Lolita

22 de junho de 2012

 

Faz tempo quero escrever sobre Vladimir Nabokov e sobre Lolita.

Esperava o momento, que chegou quando  vi a maravilhosa edição francesa (Gallimard) na Livraria Cultura. A caixa que guarda o livro é aveludada e cor de rosa. Imagem e texto finalmente se complementam para mim, embora com alguma distorção, pois não tenho de Lolita imagem tão cintilante. Prefiro Humbert Humbert.

O livro parece um sonho de valsa.

Em francês, a primeira frase, que eu adoro, ficou assim: “Lolita, lumière de ma vie, feu de mês reins. Mon péché, mon ame. Lo-lii-ta: le bout de la langue fait trois petits pás le long du palais pour taper, à trois, centre le dents. Lo. Lii. Ta.”

Em português, na tradução de Jorio Dauster (Companhia das Letras e depois Folha de São Paulo), está: “Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo.Li.Ta.”

Há uma tradução anterior, de Brenno Silveira (Biblioteca Universal Popular). E recentemente a Alfaguara publicou tradução de Sergio Flaksman que ainda não vi.

A frase ficou bem nas palavras de Brenno Silveira: “Lolita, luz de minha vida, fogo de meus lombos. Meu pecado, minha alma. Lolita: a ponta da língua fazendo uma viagem de três passos pelo céu da boca, a fim de bater de leve, no terceiro, de encontro aos dentes. LO.LI.TA”.

Em inglês,  é assim: “Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin,  my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo. Lee. Ta.”

Em  português, os tradutores não repetem o i ao escreverem Lolita pela última vez, como faz Nabokov e o tradutor para o francês. E, na edição anterior, Lolita está em letras maiúsculas. Será que houve muita reflexão até se alcançar  um  Lo.Lee.Ta, ou LO.LI.TA, ou Lo.Lii.Ta?

Há uma breve biografia de Vladimir Nabokov escrita por Jane Grayson (Penguin Books). Ele nasceu em 1899. A biblioteca de seu pai tinha mais ou menos 5.000 livros.

Li o livro de Jane Grayson.  Nabokov foi professor  de literatura e dava muitas conferências. Escrevia-as, não falava de improviso. Lia, mas não percebiam – ele lia muito bem. Ilustrava suas aulas com desenhos divertidos. Era cientista, amava estudar borboletas, era bem humorado e usava as palavras com precisão. As línguas migrantes eram importantes para ele. Foi russo, foi inglês, foi americano e foi tudo junto.

Continuando a pesquisa, encontrei em minha biblioteca os seguintes livros de Nabokov: O Original de Laura (Alfaguara), Lolita – em inglês (Olympia Press), Lolita (Biblioteca Universal Popular), Lolita (Companhia das Letras), Lolita (Folha de São Paulo), Fogo Pálido (Editora Guanabara), Gargalhada na Escuridão (Boa Leitura S.A), O Olho Vigilante (José Olympio), Coisas Transparentes (Imago), A Pessoa em Questão (Companhia das Letras), Perfeição:contos (Companhia das Letras).  São poucos os livros, porque Nabokov escreveu 17 romances e muitos outros escritos.

Clarice Lispector disse a José Castello uma vez. “E com medo ninguém consegue escrever”  (José Castello, Inventário das Sombras, p. 20). Nabokov parece não ter tido o medo que impede a imaginação de registrar os  devaneios contorcidos da alma.

A  primeira pessoa de Humbert Humbert, seu discurso meticuloso, petulante e pouco incomodado com o leitor, com o ouvinte, são cativantes. Mergulhamos nessa realidade dele.

É como ele mesmo diz, quase no fim: “Esta, pois, é minha história. Acabo de relê-la. Tem pedaços de medula ainda presos a seus ossos, e sangue, e belas e reluzentes moscas verdes”.

Belas moscas verdes.

capa do livro de Jane Grayson (Penguin Books)

Literatura de viagem

3 de junho de 2012

Depois das câmeras digitais, fotografar ficou muito fácil.

Todo mundo tira foto de tudo e o risco de ser flagrado em uma situação incoveniente aumentou. Inconcoveniente pode ser quase tudo, desde uma dose de álcool a mais até uma gargalhada em local imporóprio, uma festa entre amigos ou entre inimigos, uma bermuda mais curta no facebook de um colega de trabalho. E se a pessoa não tem facebook e não quer estar na internet, azar. Não vê a própria fotografia na rede.

Todo celular tem uma câmera fotográfica. Todo mundo tem celular. E todo mundo fica clicando no celular durante almoços, festas, reuniões, jantares,  restaurantes,  cinema,  hospital,  enterro.

Não sei se isso é ruim ou não, o fato é que é.

Isso tem a ver com literatura de viagens porque os  escritos nas viagens, os diários, são complementados pelas centenas de fotografias. Os diários não acabaram porque a escrita é irresistível. Quem escreve, escreve. Escreve e fotografa, eventualmente, mas sobretudo escreve.  Quem sabe desenhar, desenha também.

Talvez o texto seja diferente. Mais curto.  Mais pessoal. Mais íntimo. Mais fotográfico.

Relatos de viagens existem há muito tempo. Pero  Vaz de Caminha relatou nossas terras, nossa natureza e nossos índios. Jean Baptiste Debret desenhou e escreveu “Viagem pitoresca e histórica do Brasil”. Os desenhos são perfeitos. Ele devia passar horas bordando os relatos. Parece que o tempo deles, naquela época, era mais longo.

Não tenho muita paciência para escrever  diários nas viagens  Às vezes, anoto os lugares que visito, as impressões que tive, se discuti com alguém ou não, não muito mais. Tem gente que escreve tudo, o relato é parte da viagem.

Os estilos são variados. Hoje escrevo sobre um dos livros de viagem que andei lendo.

– Apontamentos de viagem, Penguin & Companhia das Letras, J.A. Leite Moraes, publicado em 2011. A introdução é de Antonio Candido. Leite Moraes foi advogado, político, professor, jornalista, liberal, escritor. A viagem, de São Paulo a Goiás e depois a Belém do Pará, começou no fim de 1880. Transcrevo  parte da intodução de Antonio Candido: “O motivo da viagem foi, como vimos, a nomeação para o cargo de presidente daquela província central, de acesso muito difícil no tempo. A sua missão consistia em presidir as eleições de acordo com a nova lei eleitoral, conhecida na história como lei Saraiva, que modernisou e liberalizou a legislação, estabelecendo o voto direto por distritos, com um deputado para cada um” (p. 12).

Os tempos da viagem fluvial eram outros.

Olha só: “Neste dia, achei-me sempre sentado ao pé do leme, junto ao piloto, o prático basílio, no tombadilho, com a minha espingarda atravessada sobre o colo, e de momento a momento atirava ora um pato, ou uma marreca, ou uma gaivota, ou um mergulhão, ou um socó, ou uma arara, enfim todo pássaro que passava-me pela frente” (p. 90).

James Wood: Como funciona a ficção (Cosac Naify)

26 de novembro de 2011

Fui ao Clube de Prosa da Cosac Naify na Livraria Cultura em 23 de novembro. O livro escolhido: Como funciona a ficção, de James Wood, publicado pela editora  em 2011.

O mediador,  Daniel   Benevides,  estava super bem preparado. Falou sobre James Wood, crítico americano que escreve para a New Yorker e já publicou outros livros.

Pena que precisei sair mais cedo. Até o momento em que fiquei, a conclusão era a de que o livro desmistifica leitura, aproximando livros e pessoas.

É verdade. E o livro é importante, também,  para quem escreve e quer escrever mais e melhor. Gosto de ler a parte em que ele fala da  personagem de ficção.

James Wood reflete sobre  Jean Brodie, personagem criada por Muriel Spark,  que nunca li. A Srta. Brodie é uma professora que aparece por meio de seus alunos. Olha só: “Ao reduzir a Srta. Brodie a uma simples coleção de máximas, Spark nos obriga a virar alunos de Brodie. No decorrer do romance, nunca deixamos a escola ou vamos para casa com ela. Nunca a vemos em sua vida particular, fora de cena. A Srta. Brodie é sempre uma personagem em ação, mantendo uma face pública. Supomos que há alguma frustração e mesmo certo desespero nela, mas a romancista nos nega  acesso ao interior do personagem” (p. 107).

Fiquei curiosa para conhecer Muriel Spark e a Srta. Brodie. Mesmo sem ler The prime of  miss Jean Brodie,  já gosto da Srta. Brodie.

Agora essa frase de James Wood – Spark estava profundamente interessada no quanto podemos conhecer de alguém –  refere-se, no meu ponto de vista, ao assunto principal da literatura.

Segue link para texto de Daniel Benevides sobre o livro no blog da Cosac: http://editora.cosacnaify.com.br/blog/?p=9946.

Daniel Kehlmann, Michel Laub e tirashi no Sushi Guen

17 de abril de 2011

Estava achando chato Fama, de Daniel Kehlmann. Parei, li Longe da Água, de Michel Laub (Companhia das Letras, 2004) e resolvi dar outra chance ao livro (Fama, D. Kehlmann).

O romance  lida com a possibilidade de transformação e de alteridade. Todo mundo pensa em ser outra pessoa, em mudar de personalidade, de corpo, de mente, de amigos, de família. O tema é super atual; na biologia, na psicologia, na psicanálise, estuda-se o tanto que o cérebro e sua química são importantes para a formação da consciência  (livro não fala em química, eu é que fiz a associação).

A literatura reflete sobre a separação entre corpo e mente, entre tempo e espaço, todo o tempo. O  escritor nada mais faz do que entrar em mundos diversos e leva o leitor com ele, para o mundo imaginário de cada um (não necessariamente o mesmo).

Gosto do Sushi Guen da  Brigadeiro Luis Antonio na hora do almoço. Sento no balcão, como um tirashi, leio um livro. O livro do dia era Longe da Água. Fiquei totalmente envolvida com o texto e com o tom da escritura, leve, mas denso. Duvidei um pouco do jeito como terminou, destoou um pouco da naturalidade do caminho inicial. Poderia ter terminado antes, ou terminado de outro jeito. Mesmo assim, o livro é muito bom.

Lendo pela metade

11 de abril de 2011

Sou fã da literatura alemã, de Thomas Mann a Ingo Schulze e Günter Grass, Peter Handke, e tudo o mais. E não conhecia Daniel Kehlmann, comprei por acaso Fama: um romance em  nove histórias, publicado pela Companhia das Letras recentemente. O livro é fino, 159 páginas. Estou impressionada com o estilo seco que mostra as cenas com realismo e permitindo, ao mesmo tempo, a fantasia. As nove histórias se entrelaçam, parece, mas só li as três primeiras: quero terminar logo. Li na orelha do livro que Daniel Kehlmann nasceu em 75 e a Companhia das Letras já publicou, dele, A medida do mundo, que vou comprar amanhã. Há uns vídeos dele na internet, ele tem energia, fala com força. Aliás, falando em vídeos de escritores falando sobre literatura, etc, vale ver os de Alan Pauls na internet. Ele não é só handsome, mas sério, compenetrado, analítico. Procurando na internet, encontrei entrevista dele em um programa jornalístico alemão, onde está link, também, para Günter Grass. Quem quiser ouvir alemão e espanhol em mesmo espaço e tempo, dito e traduzido, é só acessar: http://video.zeit.de/video/627200367001.

Bom, parei de escrever e voltei aqui, logo confessando que  deixei  o livro do Kehlmann. Comecei super bem intencionada, mas em uma das histórias, sobre a senhora  doente que  segue para a Suíça para morrer, fiquei confusa e quis parar. Tem uma técnica interessante na história, o escritor e narrador acaba tendo uma voz como responsável pelos acontecimentos, ele aparece do fundo do palco, abre a cortina e fala com a personagem; ela fala com ele, é o criador, afinal. Isso é divertido. Mas aí o rumo da trama muda e tudo fica um pouco desinteressante e eu parei de ler. Não gosto de parar de ler livros na metade, mas se não aguento continuar eu paro, eu leio porque gosto e não por obrigação. Li os três livros do Stieg Larsson da série Millennium, mas no terceiro pulei um monte de páginas e fui para o final. Fiquei sem paciência e quis ver como terminava. Achei que valeu, gostei muito dos livros, mas o terceiro é um pouco enrolado. Mas sobre o Kehlmann, sou uma leitora que se entedia com facilidade, não se influencie, o escritor é muito bom e o livro só tem 159 páginas.

 

 

Soul Kitchen e o peso do corpo

17 de abril de 2010

Ontem assisti Soul Kitchen, de Fatih Akin. Filmes alemães estão além do nosso tempo. Quando são da Alemanha e Turquia, ainda mais além. Depois de assistir um, acho os filmes americanos muito doces, piegas, qualquer deles, mesmo os mais violentos. A violência americana é açucarada na tela. Não sei se é isso mesmo, mas é como eu sinto, hoje. Mas Soul Kitchen é delicado, de certa forma, e nada violento. Trata incidentalmente daquilo que comemos, slow food, fast food? Fala de música, lealdade, amizade, irmandade, empreendimentos, força de vontade, família, amor, sexo, bebida, Hamburgo, prisão, vício, não nessa ordem.
O filme faz rir, mas é pesado, também. Circunstâncias determinam o curso da vida independentemente da vontade. E na Europa tudo é muito velho, as circunstâncias determinam demais. No entanto, espaços surgem e pode ser possível empreender.
E, antes de ir ao cinema, li texto de Luiz Felipe Pondé na Folha (12/4/10), sobre estar ou ser triste, depressão, Virginia Woolf, Mrs Dalloway, o deserto, o peso de acordar e ser aquilo que se é. Fiquei um pouco tocada porque, embora a gente já saiba que a angústia existe mesmo, sempre dá aflição vê-la constatada por escrito como uma sensação irremediável. E o peso da existência pode doer. Assisti outro filme no DVD, Ensinando a viver, com John Cusack e Joan Cusack. Ele adota um menino que acredita ter vindo de Marte e anda com pesos na cintura para não voar, para ficar preso. O filme é um pouco piegas, mas me identifiquei.
Também tenho medo de me desapegar e, por isso, às vezes, como tanto, para ficar mais pesada, para criar atrito (não estou acima do peso, ou gorda, falando claramente). Outro dia li que as fotografias de comida na internet fazem sucesso, tem gente que fotografa tudo o que come. Incrível. Não tenho a menor vontade de fotografar comida. Mas até gosto de ver algumas fotos, acho interessante observar como as pessoas decoram o prato e combinam os alimentos.
Como ainda estou lendo Doutor Pasavento, do Vila-Matas (leio devagar), não consigo deixar de relacionar tudo isso com a vontade de desaparecer. O personagem/escritor desvia rumo em uma viagem, deixa para trás o nome e tudo o mais, com exceção de poucos livros e poucas roupas. O desaparecimento do escritor é necessário para a escrita do romance e para que as personagens apareçam. O desaparecimento é o escrever do romance, de qualquer romance. Estou achando que é isso, é assim que eu compreendo o que leio. O desaparecimento é a grande viagem de todo escritor. Esforço-me para deslizar desaparecendo na escrita, mas ainda não atingi aquela insustentável leveza.
Em Soul Kitchen o herói tem um problema sério da coluna e fica meio que paralisado, pesado, arrastado. Depois ele melhora, mas precisa de ajuda, de ajuda esotérica, física, violenta e amorosa. Não é fácil ficar leve.

Leituras dispersas

7 de abril de 2010

Leio vários livros ao mesmo tempo. A falta de método atrapalha a compreensão total dos textos e das histórias e a memória perde encadeamentos necessários para uma eventual narrativa.
Se eu fosse contar a alguém o que me lembro de Doutor Pasavento, de Enrique Vila-Matas, diria que é a história de um escritor que tenta se esvaziar de si mesmo para encontrar um personagem possível. No enredo ele desaparece, mas eu compreendi que vai murchando, esvaziando, enquanto viaja.
E ainda parei no meio de Cidade Pequena, de Lawrence Block. Um escritor é suspeito de assassinato e aproveita essa situação para promover seu livro. Será isso? Deixei o livro de lado faz um tempo e olho de vez em quando com vontade de recuperar a escrita natural de Lawrence Block, mas acabo lendo outras coisas.
Li um livro sobre a construção virtual da memória, encontrei no aeroporto. Esqueci o nome. O autor diz que podemos passar todas as nossas experiências para meios digitais e, se soubermos arquivá-las com método, serão encontradas quando precisarmos. Achei interessante, mas deve ser chato ter essa preocupação o tempo inteiro. Outro dia deletei mensagens do celular e depois fiquei meio triste, e se eu quiser escrever minha autobiografia, as mensagens não seriam úteis? Aí pensei, mas por que eu iria escrever minha autobiografia? E aí pensei, mesmo as pessoas cujas personalidades não têm repercussão podem escrever sua autobiografia. Memórias são sempre memórias. É, mas é melhor lembrar de tudo de um jeito esfumaçado, sem apontar datas em linhas do tempo.
E ontem à noite li Drummond, A falta que ama, li e reli Elegia transitiva. “Onde habitas agora, onde saber tuas joias errantes?”.