Sobre eventos literários e escritores que foram espiões e um pouco sobre o escritor Eduardo Halfon no Emil e também sobre Leonardo Padura

escritoresespioes

Espião é o sujeito que observa secretamente para passar informações. Alguns escritores foram espiões e, de certa forma, isso não é estranho, já que escritores são bons observadores e bons observadores podem ser bons espiões.

Tenho visto e lido escritores durante muitos anos e hoje em dia eles precisam falar, também, explicar verbalmente como escrevem. Os diversos eventos literários mostram escritores nem sempre acostumados aos discursos esforçando-se para dizer. Sinceramente, não sei se hoje há escritores espiões e nem mesmo sei se há espiões como antes havia. Só o tempo para dizer isso.

Agora em São Paulo está havendo o 1º Encontro mundial de invenção literária (Emil) e eu não estava muito ligada em assistir porque o evento se pulverizou muito pela cidade e já irei à Balada Literária que começa agora quarta-feira porque nela lançaremos nosso Fancine (nós é o Coletivo Literário Martelinho de Ouro) e não quero transitar demais. Mas, por coincidência, passei pela Livraria da Vila da Fradique ontem enquanto o escritor Eduardo Halfon falava e sentei ali para ouvir porque quando um escritor fala e você por acaso passa no lugar, precisa parar. Eu não o conhecia. Comprei o livro (O boxeador polaco-Rocco) e já vou ler e conhecer, mas gostei quando ele contou que fala inglês muito bem porque mora nos Estados Unidos, mas só escreve na sua língua, espanhol.

Nabokov só escrevia em inglês. Isaac Beshevis Singer só escrevia em iídiche. Isso me faz pensar que a escrita ficcional vem de uma parte do cérebro que dá muita atenção à identidade afetiva, não sei se posso falar assim. A escrita ficcional brota e, se brota, ainda que com esforço, não pode haver outra etapa entre a ideia e o papel. Não deve haver uma tradução pelo próprio escritor no trajeto da ideia à tela, ao papel. Claro que isso não é uma regra. Eduardo Halfon diz que não traduz pessoalmente seus livros para o inglês. Não havia muitas pessoas assistindo, mas havia uma moça traduzindo tudo o que era dito para libras, a linguagem dos sinais. Imagino que essa tradução tenha sido constante no Emil, em todos os eventos.

Agora como vou juntar essas reflexões aos escritores espiões que me fizeram sentar e escrever neste domingo (e não gosto de domingos)? É um livro que eu tenho que fala sobre isso, de Fernando Martínez Laínez, da Relume Dumará, que me chamou. Faz tempo quero falar sobre esse livro. Chama-se Escritores e espiões. O autor escreve sobre muitos escritores que foram espiões: Francisco de Quevedo, Christopher Marlowe, John Le Carré, Pierre-Augustin Caron Beaumarchais, Miguel de Cervantes, Graham Greene, François Rabelais, Aphra Behn, Josep Pla, Voltaire, Daniel Defoe.

Imagine se esses escritores precisassem dar entrevistas sobre suas atividades, sua vida. Não teriam o que dizer, ou inventariam fatos e fotos, representariam personagens. Não é isso que vejo, hoje, nos eventos literários. A maioria dos escritores tenta ser sincero, leva as perguntas a sério. Há exceções, claro, mas os que tenho visto procuram ser verdadeiros. Ou tentam parecer verdadeiros.

E se o autor escreve sob pseudônimo? E se faz muito sucesso e, mesmo assim, não quer dizer quem é? Será que a identidade de um escritor é útil para a compreensão de sua obra? Fico pensando se não é melhor que a obra prevaleça sobre seu autor, que ele se desvaneça nela.

Às vezes não quero conhecer um escritor cuja obra admiro muito. Prefiro não falar com ele e nem mesmo ter o autógrafo se for ao lançamento (se não for amigo, de livro de amigo sempre gosto, e com autógrafo). Porque posso ficar confusa e o livro nunca será o mesmo se o escritor não tiver sido muito simpático, ou afetuoso, e não corresponder às minhas expectativas naquele momento. Ontem fiquei em dúvida se esperaria Eduardo Halfon para o autógrafo.

padura

Outro dia, no Colégio Santa Cruz,assisti ao escritor cubano Leonardo Padura, que tem feito muito sucesso com seus O homem que amava os cachorros e Hereges, os dois da Boitempo Editorial. Ele foi entrevistado por professores que super conheciam sua obra e ele mesmo é da academia, então a conversa foi bastante profunda. Ele estava tão compenetrado, foi tão cuidadoso nas respostas, falava em espanhol e era perguntado em português. Ele se colocou, ali, de uma maneira quase que impenetrável, embora simpática. Gostei desse jeito dele. Estou lendo O homem que amava os cachorros e não vejo o autor na leitura. O livro tem a própria identidade. Quero ler os romances policiais de Padura. Devem ser um pouco diferentes.

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