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Festa de Literatura para Lima Barreto

4 de junho de 2017

 

desenho de como vai ser a Flip em Paraty

 

Ah! A literatura me mata ou me dá o que peço dela.

Essa frase é de Lima Barreto em “O cemitério dos vivos”. Ouvi de Joselia Aguiar, curadora da Flip, na Coletiva de imprensa à qual tive  o prazer de assistir dia 29 de maio.

Logo no começo da manhã Joselia falou essa frase que na hora  me fez ficar muito ligada em seu discurso muito claro e detalhado. Ela não falou só sobre o programa, mas abriu caminhos para novas ideias. Tanto que cheguei em casa e fui procurar, já que ainda não tinha lido “O cemitério dos vivos”, onde a frase está.

Anos depois de sua morte a literatura retorna a Lima Barreto e dá a ele, em mesma oportunidade, leituras, reflexões, debates, encontros. A Flip 2017 confere  ao grande autor brasileiro toda reverência, expondo ao público, por meio de iluminada programação, a atualização e a atualidade de sua obra e de muitas outras que com ela se relacionam.

A Flip 2017 tem em sua programação mais mulheres que homens e pelo menos 30% de participantes negros. Joselia disse que a questão racial é importante, mas não aprisiona o diálogo. Os artistas querem ter a liberdade de falar sobre arte, ciência,  assuntos diversos.

A liberdade é nosso maior bem,  destacou Joselia, e foi importante na escolha dos assuntos e das mesas, escolha essa concentrada em mostrar autores novos que não estão nos centros, mas nas margens.

A liberdade é essencial na obra de Lima Barreto, valendo ressaltar, sobre o tema,  artigo de Lilia Schwarcz  publicado no último 13 de maio (http://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/13-de-maio-Liberdade-hoje-e-seu-dia). Lilia Moritz Schwarcz estará na abertura da Flip e terá lançado, até lá, a biografia “Lima Barreto: triste visionário”, pela Companhia das Letras.

Na programação da Flip estão autoras de quem já gosto: Ana Miranda, Conceição Evaristo, Maria Valéria Rezende, Natalia Borges Polesso. Entre os homens está Alberto Mussa, admiro bastante da escrita dele. É bom que a programação conte com  autoras e autores que não conheço e virei a conhecer, o mundo literário é infinito, sempre surpreende.

Para mim a Flip já começou. Não sei ainda se vou a Paraty. Mas já estou no movimento de buscar novas escritas, de pesquisar  textos de Lima Barreto que nunca li. Leio sempre “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, adoro esse romance.

Os primeiros dois capítulos e metade do terceiro de Recordações foram publicados, primeiro, na  Floreal, revista que Lima Barreto fundou em 1907 e só chegou ao quarto volume. Depois, o romance foi publicado por editora portuguesa (encontrei os exemplares da Floreal digitalizados na página da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin na internet).

Em carta a Gonzaga Duque, o próprio Lima Barreto afirma: “Mandei as Recordações do Escrivão Isaías Caminha, um livro desigual, propositalmente malfeito, brutal por vezes, mas sincero sempre” (Correspondência, I, pp 169-170, citada por “A vida de Lima Barreto”, Rio de Janeiro, José Olympio, 2002, p. 184).

Uma de minhas características prediletas do livro “Recordações do escrivão Isaías Caminha” é essa imperfeição destacada pelo próprio autor.

Gosto quando, na ficção, a linguagem não é barreira entre o leitor e o texto. Fica tudo claro e posso pensar no que o autor está contando ou dizendo, fazendo minhas próprias associações e analogias e confrontos.

O romance, em seu estilo muito direto,  só renova a compreensão sobre a hipocrisia em suas diversas formas.

Um autor perfeito como Lima Barreto, que admite ter escrito de modo imperfeito, só pode esperar o máximo da literatura.

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Insiro aqui alguns links de textos interessantes que encontrei na internet sobre Lima Barreto:

http://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/13-de-maio-Liberdade-hoje-e-seu-dia

http://seer.fclar.unesp.br/estudos/article/viewFile/1047/863

http://objdigital.bn.br/acervo_digital/anais/anais_105_1985.pdf

http://www.revistas.usp.br/teresa/article/viewFile/99461/97948

http://seer.fclar.unesp.br/estudos/article/viewFile/1047/863

http://www.historia.uff.br/stricto/td/1444.pdf

http://www.ileel.ufu.br/anaisdosilel/pt/arquivos/gt_lt13_artigo_6.pdf

https://pendientedemigracion.ucm.es/info/especulo/numero18/limabar2.html

http://www.filologia.org.br/viiicnlf/anais/caderno13-17.html

http://www.bocc.ubi.pt/pag/coracao-claudio-resistencia-missao-solidariedade.pdf

http://www.brasiliana.usp.br/bitstream/handle/1918/03585510/035855-1_COMPLETO.pdf

 

Flip 2013 Graciliano Ramos

2 de outubro de 2012

Graciliano Ramos será o homenageado da Flip em 2013. Quando penso no estilo seco, curto e intenso de Graciliano, principalmente em Vidas Secas e São Bernardo, eu me suspendo. Tudo fica no ar.

Falando em Graciliano, li outro dia, em “O conto brasileiro contemporâneo”, organizado por Alfredo Bosi, dois contos de Ricardo Ramos, seu filho. Circuito fechado (4) e Circuito fechado (5). Lindos, os dois. Vou até transcrever um pouco do último: “Não foi o amor, a certeza, o amanhã, foram as ideias de, o conceito, enfim a sua redução. Não foi pouco nem muito, foi igual. Não foi sempre, nem faltou, foi mais às vezes. Não foi o que, e onde, e quando. Não, não foi”.

Ainda sobre Nabokov e Humbert Humbert

15 de julho de 2012

Dia 22 de junho  escrevi sobre Lolita e Nabokov e hoje, inspirada pela leitura do jornal, volto ao assunto.

No Caderno 2 (O Estado de São Paulo), Luis Fernando Verissimo contou que deu uma entrevista à Radio Batuta, do Instituto Moreira Salles, na Flip, dizendo que seu personagem literário inesquecível  é Humbert  Humbert, de Lolita,  Nabokov.  Humbert  Humbert é “uma figura monstruosa e fascinante”, ele disse.

Eu também acho. Humbert Humbert é um personagem totalmente verossímel, nós acreditamos nele. Seguimos  seus pensamentos com extrema curiosidade e espanto: como ele pôde ir tão longe?

Ele (Humbert Humbert) escreve  na prisão.  É,  paradoxalmente, e talvez por isso mesmo,   livre para escrever o que quiser e como quiser.  E ele até poderia ir mais longe. Ainda transcrevendo Verissimo, “os explicadores de Nabokov, com a mesma intensidade dos fundamentalistas, combatem a ideia de que Lolita seja pornográfico”.

Nabokov  também foi livre para escrever Lolita e sabemos que ele e seu personagem não têm nada em comum. Como lembrou Veríssimo, ele nunca diria, “Humbert Humbert  sou eu”.

A  revista Serrote 11, do Instituto Moreira Salles, publicou  ensaio “Nabokov & Machado”, de Brian Boyd.  O ensaio, que vem acompanhado de lindas ilustrações de borboletas, desenhadas por Nabokov,  é de uma profundidade intensa. Lerei e relerei para poder escrever sobre o texto que mostra pontos em comum entre dois grandes escritores: Machado de Assis e Nabokov.  Por enquanto, hoje, fico com as lindas borboletas.

Segue link para o vídeo da Rádio Batuta: http://ims.uol.com.br/Radio/D1048