Archive for the ‘literatura’ Category

Perguntas de Clarice

1 de maio de 2017

 

 

“Entrevistas”, da Rocco (2007),  reúne diversas entrevistas que Clarice fez ao longo da vida com escritores, músicos, atores, pessoas da área esportiva. As entrevistas foram publicadas na Manchete, Fatos e Fotos,  Jornal do Brasil. As da Manchete foram reunidas no livro “De corpo inteiro”.

Clarice entrevistou Lygia Fagundes Telles, Jorge Amado, Antônio Callado, Pablo Neruda, Nélida Piñon, Tom Jobim, Chico Buarque, Elis Regina, e muitos outros.

As entrevistas me impressionaram pela natureza das perguntas. Perguntar é uma arte e  a maioria das perguntas não precisa ser respondida. Às vezes as respostas vão para outros caminhos, às vezes não dizem nada. Mas, com as entrevistas de Clarice, nada se perde, as perguntas sempre ficam.

Para Rubem Braga, Clarice pergunta: “É verdade que você amou muito? E que é que você mais queria na vida? Qual sua atitude diante da morte?” (p. 19).

Com Jorge Amado ela não poderia ter sido mais direta: “Você gostaria de escrever diferente ou está comprometido demais com o seu público?”. Ele respondeu que o compromisso dele era com o povo e o público é que tinha compromisso com ele.

Clarice perguntou a Nelson Rodrigues:“Você fala em reencarnação e em vidas passadas. Você é esotérico? Acredita em reencarnação?”. E pergunta, ao terminar:“Você gostou de me dar essa entrevista?” Resposta: “Gostei profundamente. O que conta na vida são os momentos confessionais”.

Uma das perguntas a Nélida Piñon é muito atual: “Você é feminista? O que é que reivindica para a mulher brasileira?”. Resposta: “O feminismo é uma consequência da minha condição de mulher. Quanto mais habilito-me a interpretar o mundo, melhor compreendo a necessidade de se conquistar uma identidade, que unicamente uma consciência ativa e alerta nos pode conferir. Sou naturalmente feminista, e aspiro para a mulher, independentemente desenvolvida, capaz de integrar-se ao centro das decisões, de que esteve sempre excluída, e ajudar a tornar possível e melhor a vida comunitária dos nossos tempos”.

Para a poeta Marly de Oliveira, Clarice pergunta: “Marly, para você, qual é a coisa mais importante do mundo?” Resposta: “Seria viver – e morrer -sem ter medo”

Não conheço a poeta Marly de Oliveira e vou pesquisar porque há uma parte de um poema  publicada na entrevista que me emocionou, o poema todo se chama O sangue na veia. Vou procurar esse poema inteiro porque  gostei dele.

A entrevista mais linda de Clarice, no meu sentir, é a que ela fez com Tom Jobim, a única em que as respostas vão além das perguntas (para mim). Dessa entrevista com Tom Jobim interessa uma resposta: “A morte não existe, Clarice. Tive uma (uma com agá: huma) experiência que me revelou isto. Assim como também não existe o eu e nem o euzinho e nem o euzão. Fora essa experiência que não vou contar, temo a morte vinte e quatro horas por dia. A morte do eu, eu te juro, Clarice, porque eu vi”.

 

Sobre o julgamento de Zé Bebelo em Grande Sertão: Veredas

20 de abril de 2016

 

20160417_162550(0)_resized

 

Essa é a vista da sala de aula do anexo da Casa Guilherme de Almeida. O domingo estava lindo e, pelas janelas, entrava uma brisa agradável. O curso com Berthold Zilly sobre a tradução de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa,  abriu a memória e caminhos para outras leituras e reflexões.

Lembrei, na aula, de minha defesa de mestrado em processo penal, Ação penal condenatória, na década de 90. Eu estava explicando para a banca como eu via a ação penal condenatória, sempre a partir da acusação porque, sem acusação, não há defesa. Kafka, em O processo, fala justamente disso, do horror de não se conhecer a acusação.

É claro que era uma particular maneira de ver que eu aprendi, não inventei nada. Mas eu quis dar uma explicação vertida para a minha linguagem. E me ocorreu, naquele momento, falar da cena de julgamento de Zé Bebelo em Grande Serão: Veredas. Aquela cena explica o processo penal.

Guimarães Rosa mostra, ali, profundo conhecimento de como deve ser um processo público e justo. No início do julgamento, Joca Ramiro diz: “A gente pode principiar a acusação”. E Joca Ramiro deixou para opinar depois, porque iria “baixar sentença”. E quem quisesse podia “propor condena”. Hermógenes fala com raiva: “Acusação, que a gente acha, é que se devia amarrar este cujo, feito porco. O sangrante…Ou então botar atravessado no chão, a gente todos passava a cavalo por riba dele-aver se vida sobrava, para não sobrar”. Zé Bebelo quer falar e diz: “Mas, para falar, careço que não me deixem com as mãos amarradas…”. E Joca Ramiro concorda. E Zé Bebelo fala algo muito certo e racional: “Rompo embargos! Porque acusação tem de ser com sensatas palavras-não é com afrontas de ofensa de insulto…”. E Joca Ramiro pergunta para Sô Candelário, que desafia: quer resolver à faca. Ao que Joca Ramiro responde: “Resultado e condena, a gente deixa para o fim, compadre. Demore, que logo vai ver. Agora é a acusação das culpas. Que crimes o compadre indica neste homem?”. Sô Candelário não vê crime. Zé Bebelo não havia traiu ninguém, não foi ladrão de cavalos. E Zé Bebelo grita: “Sempre eu cumpro a palavra dada”. Houve conversas e debates, Riobaldo finalmente fala, “O que eu tenho é uma verdade forte para dizer, que calado não posso ficar…”. Riobaldo foi um advogado de defesa ali naquele momento. Falou com intensidade: “Por tanto, que digo, ele merece um absolvido escorreito, mesmo não merece de morrer matado à toa…”. E chega o momento de Zé Bebelo se defender: “Altas artes que agradeço, senhor chefe Joca Ramiro, este sincero julgamento, esta bizarria…” Depois ele se apresenta, agradece aos que por ele falaram e puniram. E defende-se e Joca Ramiro diz, como um juiz, porque o juiz diz o direito. Ele diz: “O julgamento é meu, sentença que dou vale em todo este norte. Meu povo me honra. Sou amigo dos meus amigos políticos, mas não sou criado deles. A sentença vale. A decisão. O senhor reconhece”. E Zé Bebelo diz: “Reconheço”. Zé Bebelo se compromete a cumprir a decisão, que acaba sendo a ida para Goiás.

Essa cena descreve todas as fórmulas de um julgamento justo: a acusação impessoal, a defesa, a fala sem amarras, o juiz decidindo o conflito só no final, sem interferir. Há um roteiro de prestação de justiça muito adequado nessa cena.

Quando li Grande sertão e estava escrevendo minha dissertação, fiquei muito impressionada com o julgamento de Zé Bebelo. E falei na defesa, para a banca, com a mesma sinceridade com que Riobaldo fala por Zé Bebelo. Fui muito espontânea, não me lembro de ter ensaiado ou pensado nessa fala antes da defesa. Eu tinha anotações jurídicas e não literárias. Mas a literatura me socorreu, naquele momento.

Esse falar que surpreende e rompe alguma fronteira e mostra outros pontos de vista em uma conversa, um debate, um julgamento, é sempre um ponto de virada na vida da gente.

 

Da primeira história do mundo aos índios no Brasil

9 de dezembro de 2015

IMG_0978
Alberto Mussa obteve o terceiro lugar no Prêmio Oceanos com seu “A primeira história do mundo”, da Record. Dedicou o prêmio a seu editor, Carlos Andreazza.

“A primeira história do mundo” é um romance policial e integra projeto de cinco novelas sobre crimes praticados no Rio de Janeiro, um em cada século. Na introdução, que ele denomina advertência, está que “O trono da rainha e “O senhor do lado esquerdo” integram esse ciclo.

O parágrafo primeiro do livro tem título: “Quando se sabe da existência de um cadáver”. Tudo começa, para a investigação policial, quando o corpo aparece. Hoje em dia essa regra foi relativizada porque, em raras hipóteses, a certeza do homicídio pode vir por outros caminhos. Mas, de qualquer forma, é  da descoberta do cadáver  que nasce, também, o romance policial. E a primeira frase do capítulo é: “Estamos na cena do crime”.

O corpo que surge é o de Francisco da Costa, serralheiro. Foi encontrado por Simão Berquó. Estava furado por sete flechadas, ou oito. As flechas eram curtas e diferentes das usadas pelos índios. Não obstante outros suspeitos, o próprio Simão Berquó foi condenado. É o que narra o autor, que, segundo a advertência inicial, assumiu a função, no romance policial, de investigador. Pesquisou o processo instaurado em 1567.

Havia então, na Guanabara, muitos índios. Havia, segundo o romance, os itaipus, ou “a mais antiga população pré-histórica do litoral carioca” (p. 131). Eram endocanibais: comiam os mortos. Havia os tupis. No inquérito sobre o homicídio, havia intérprete para traduzir a informação dada em tupi para o português (p. 75). O livro está repleto de referências e histórias indígenas.

IMG_0998

Foi bacana ver o escritor Daniel Munduruku, de Belém do Pará, entregar o Prêmio Oceanos a Silviano Santiago por “Mil rosas roubadas”. Ele é da etnia munduruku. É, também, escritor super premiado e doutor pela USP. Antes da entrega do prêmio, falou que precisamos olhar para nosso passado indígena, mesmo que dele não gostemos.

Encontrei, na internet, carta dos Munduruku ao governo: http://migre.me/slO8n.

Há, no Brasil, registradas, 305 etnias diferentes, 817.963 indígenas, 274 línguas indígenas (Censo de 2010, segundo Funai).

A carta dos Munduruku, a fala de Daniel Munduruku na cerimônia de entrega do Oceanos, o livro de Alberto Mussa, adquirem extrema atualidade neste momento em que tramita, no Congresso Nacional, a PEC 215, que transfere, ao Poder Legislativo, a demarcação das terras indígenas, terras que já deveriam, há muito, estar demarcadas.

Há poucos dias houve, em Brasília, audiência sobre a PEC 215, na Procuradoria Geral da República. Leia aqui notícia aqui: http://migre.me/slONH.

Comecei este texto falando do livro de Alberto Mussa, de romance policial, de processo penal, de história, e terminei falando do tema mais importante, sobre o qual eu queria falar e não sabia: situação vulnerável dos índios no Brasil.

“Mil rosas roubadas” no Prêmio Oceanos: amizade

9 de dezembro de 2015

IMG_1004

 

Lucimar e Lourenço Mutarelli convidaram o Coletivo Literário Martelinho de Ouro para o Prêmio Oceanos, no Auditório Ibirapuera.

Escritores de muitos livros (os últimos: Só aos domingos, da Lucimar, e O grifo de abdera, do Lourenço), conhecem bem o valor da ideia e da palavra e conduziram a cerimônia com simpatia, sempre homenageando a literatura. Todos foram lembrados nas falas: escritores, editores, leitores, o cinema.

Silviano Santiago (Mil rosas roubadas), Elvira Vigna (Por escrito), Alberto Mussa (A primeira história do mundo) e Glauco Mattoso (Saccola de feira) foram os quatro premiados.

Coube a Silviano Santiago o primeiro lugar, e foi bonito. Ainda não li os livros vencedores. Então, para mim, é simbólico que o autor mais antigo tenha ficado em primeiro, a escritura da vida é reconhecida no prêmio.

O escritor e professor Daniel Munduruku entregou o troféu  a Silviano Santiago. Antes, falou sobre a importância de o Brasil olhar para povos indígenas que formaram e fazem parte de sua história.

Ao falar sobre a primeira frase de seu livro (Perco meu biógrafo), antes de receber o prêmio, Silviano Santiago disse, mais ou menos, que, no momento em que o narrador perde a pessoa mais querida, está perdendo a si mesmo, escrever sobre o outro é recuperar a própria história. O sobrevivente é quem narra o outro para conhecer a si mesmo.

Toda narrativa tem dois lados (ou mais), e agora já estou em uma digressão, ainda não li “Mil rosas roubadas”.

Já estou com o livro no meu leitor. E, procurando, leio a frase: “Que o bom amigo seja minha sentinela, meu espectador, meu padrinho, meu superego voluntário. Não importa. Que seja meu olheiro, como se diz na gíria de futebol”.

“O que amar quer dizer”, de Mathieu Lindon (Cosac Naify)

29 de novembro de 2014

20141129_124153_resized_1

 

O livro  é sobre Michel Foucault, sobre o pai de Mathieu,  editor  (Jérôme Lindon), e sobre uma geração, ou duas gerações, porque Foucault era muito mais velho.  Todos  então fomos surpreendidas pela AIDS, que mudou tudo.

Essa proximidade entre Lindon e Foucault aconteceu em vida, mas tive a impressão de que, depois da morte de Foucault, a amizade continuou. Depois que as pessoas morrem, elas continuam  falando com a gente.

Não estou me referindo aqui a qualquer contato do outro mundo, mas à comunicação que acontece a partir de lembranças e prognósticos dessas lembranças.

É mais ou menos como a cena em que David Copperfield procura sua tia e o que o move é a lembrança de um relato que sua mãe fez sobre o último encontro que tiveram, e que ela vislumbrou, em um gesto, certo carinho. Essa impressão de carinho deu  a David energia para procurar a tia, que o rejeitara, quando ele nasceu, porque desejava uma sobrinha mulher.

O livro de Mathieu é também sobre o que não se diz, ou se diz sem dizer, e a fala só se completa depois, muito depois, até depois da morte, se é que ela vem. Acho que não é “o que amar quer dizer”, mas como e quando dizer o tanto que se ama.

Mathieu Lindon diz para nós o que estaria dizendo a Foucault e ao pai. Na verdade, fala para eles.

Não vou contar o que é dito para não estragar a surpresa de quem lê, porque a narrativa se transforma ao longo do texto e há suspense, a gente quer chegar ao fim.

Curiosa, procurei Mathieu Lindon no site do Liberation. Vou ler sempre suas crônicas e reler o livro daqui a um tempo para compreender outras falas que não percebi, nunca se percebe tudo, ou alguns textos só se revelam quando lidos uma outra vez.

Romance policial (3)

24 de setembro de 2014

foto (3)

Há vários tipos de romance policial. Raymond Chandler, Agatha Christie, Patricia Highsmith, Patricia Cornwell, Simenon, são autores completamente diferentes um do outro. A  identidade entre eles é a interrogação em torno de um crime. Lawrence Block, Tony Bellotto, Raphael Montes, cada um tem um jeito de mostrar quem matou quem. E esse estilo de contar mostra  a concepção de mundo do escritor e de seu tempo.

Luiz Bras escreveu no Guia da Folha um artigo legal na Folha sobre literatura policial, publicado em seu blog: “Crimes que compensam” (http://luizbras.wordpress.com/category/resenha/).

Para mim, no romance policial,  o detetive, é o mais importante. Não tenho interesse no crime. O romance policial começa pelo fim da história: alguém morreu. E o detetive se volta para o passado. Ele precisa ser simpático, senão o leitor não acompanha a volta no tempo.  Kay Scarpetta,   Marlowe,  Poirot,  Maigret, outros tantos, são pessoas com as quais se pode identificar. O curioso é saber como eles fazem as perguntas, como pensam, como se relacionam com as pessoas, como encontram tempo e espaço para perguntar. O curioso é ver que erros cometem – e cometem vários, nenhum deles é perfeito. Um dos detetives de Lawrence Block, por exemplo, é ladrão: Bernard Rhodenbarr. Mas ele tem uma livraria, e por isso está desculpado.

Encontrei na internet (banco de teses da USP) trabalho acadêmico  de Raquel Vieira Parrine Sant’Ana: “Contradições do detetive: a literatura policial como problema para a teoria literária em obras de Machado de Assis, Jorge Luis Borges e Roberto Bolaño”.

Ela discorre com clareza sobre as interrogações possíveis do romance, compara Machado de Assis a Borges e Bolaño e diz, no fim, que o detetive nunca volta para casa, nunca está satisfeito com seu trabalho: ele continua a buscar o segredo, ainda que de outros crimes.

“Os detetives selvagens”, de Roberto Bolaño, é um policial mais amplo e mais complexo. Bolaño se arrisca mais,  não segue fórmulas, não preenche vazios. Li uma entrevista (livro digital especificado na fotografia que segue, Kobo) em que ele revela a vontade de ter sido um detetive (de homicídios), teria preferido esse ao ofício de escritor. E em outro trecho  diz, então comentando 2666, que ser um escritor é tão perigoso quanto ser um detetive: “Being a writer in this world is as dangerous as being a detective, walking through a graveyard, looking at ghosts” (li em inglês).

foto (4)

Andei lendo bastante sobre o romance policial. Escrevi um, “Nove tiros em Chef Lidu”, que será publicado em breve pela Editora Circuito. A vítima, Chef  Lidu, era chefe de cozinha de um restaurante francês. Mas ele estava de dieta e com vontade de diversificar o cardápio. Foi baleado no meio dessa mudança de vida.

O narrador é o Elvis, escrivão de polícia novo, que acompanha o Dr. Magreza na investigação. A inocência do narrador contrasta com a experiência do detetive e a combinação entre os dois resultou em uma história divertida de escrever.

Em meio a pudins de coco e sopa de tomates, Chef Lidu encontrou um desafeto que atirou para matar.

Logo o livro vai sair. Aviso vocês.

Jorge Edwards na Flip

3 de agosto de 2014

edwards

A Flip este ano convidou o escritor chileno Jorge Edwards para uma das mesas. A Cosac Naify publicou no Brasil, agora em 2014, seu “A origem do mundo”, lançado em 1996 (El origen del mundo).
Conheci a literatura de Jorge Edwards no Chile, quando visitei as casas de Pablo Neruda (La Chascona e La Sebastiana); lá vi seus livros e comprei dois: “Adiós, poeta…”e “El Anfitrión”.

Eu me afeiçoei à figura de Jorge Edwards, amigo de Pablo Neruda.

“Adiós, poeta…” é um livro meio autobiográfico que gira em torno de Pablo Neruda e escritores latino-americanos. Fala de estilos literários, de Cortázar, Paris, diplomacia, Cuba, comunismo, intelectuais e esquerda. Edwards fala muito de política, sobre experiências compreendidas no contexto de quem viveu intensamente a transição das democracias para as ditaduras na América Latina.

Pablo Neruda é um autor da minha formação literária. Embora seus poemas sejam bonitos, foi “Confesso que Vivi” que me pegou.

Há outro autor chileno (nascido na Argentina) de quem gosto mais. Gosto tanto que pouco falo nele: Ariel Dorfman. Adoro “Uma vida em trânsito” e “O longo adeus a Pinochet”. Aliás, o título do último lembra “O longo Adeus”, de Raymond Chandler, outro autor preferido.

Voltando a Jorge Edwards, Neruda conta, em “Confesso que vivi”, que o chamou para trabalhar na embaixada em Paris, depois que ele, Edwards, teve problemas trabalhando em Havana. Neruda refere-se a Edwards como seu melhor companheiro e funcionário no período, politicamente impecável.

Não fui à Flip e não ouvi Jorge Edwards. O romance agora lançado pela Cosac Naify em 2014 deve ter sido comentado no painel, mas também não li.

A vinda do autor ao Brasil me levou às lembranças que tenho de Pablo Neruda e de suas casas maravilhosas no Chile, levou-me a Ariel Dorfman. E levou-me aos livros do próprio Edwards.

Em “El Anfitrión”, o narrador é um chileno exilado em Berlim depois de 1973. Vive na Alemanha oriental, mas conhece um homem que o conduz a uma aventura na parte ocidental, aventura fantástica e inquietante. A história lida com os fantasmas do Chile, outra vez.

Ao escrever este texto, fiquei curiosa para saber quais os sentimentos de Ariel Dorfman por Pablo Neruda. Pesquisando na internet, descobri esse artigo recente (12 de julho) publicado em O Estado de São Paulo, escrito pelo próprio Ariel Dorfman: “Vozes de lá e de cá”. Vale a pena ler. Ele admirava muito Pablo Neruda.
http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,vozes-de-la-e-de-ca,1527320.

Voltando a Jorge Edwards e sua viagem em “El Anfitrión”, notei que é interessante ler o livro muito tempo depois de escrito e com distanciamento.

A reflexão não se dá só em torno de exílio e de um mundo dividido entre ocidente e oriente, mas em torno das fronteiras e limites entre culturas, nações, realidade e ficção, e, sobretudo, em torno da individualidade irônica no meio de tudo isso.

Grupo de Leitura na Pauliceia Literaria: Diário da queda

28 de julho de 2013

Amanhã vou coordenar grupo de leitura na Pauliceia Literária, na Associação dos Advogados de São Paulo (www.pauliceialiteraria.com.br). O livro é Diário da queda, de Michel Laub (Companhia das Letras, 2011).
Antes de falar sobre o livro, é importante falar sobre o autor. Nada melhor que transcrever a apresentação que está em seu blog (michellaub.wordpress.com):
“Michel Laub nasceu em Porto Alegre, em 1973. Escritor e jornalista, foi editor-chefe da revista Bravo e coordenador de publicações e internet do Instituto Moreira Salles. Hoje é colunista da Folha de S.Paulo e da revista Vip, além de colaborar com diversas editoras e veículos. Publicou cinco romances, todos pela Companhia das Letras: Música Anterior (2001), Longe da água (2004, lançado também na Argentina), O segundo tempo (2006), O gato diz adeus (2009) e Diário da queda (2011), que teve os direitos vendidos para onze países e virará filme. Seu novo romance, A maçã envenenada, sairá em agosto de 2013. Recebeu os prêmios Bienal de Brasília (2012), Bravo Prime (2011) e Erico Verissimo (2001) e foi finalista dos prêmios Portugal Telecom (2005, 2007 e 2012), Zaffari&Bourbon (2005 e 2012), Jabuti (2007) e São Paulo de Literatura (2012). Também tem contos publicados em antologias no Brasil e no exterior. É um dos integrantes da edição Os melhores jovens escritores brasileiros, da revista inglesa Granta”.
 A leitura de Diário da queda suscita muitas reflexões e especifico, aqui, alguns pontos para debate:
1)- Crimes contra a humanidade (antissemitismo, banalidade do mal, Hannah Arendt, genocídio, Tribunal Internacional). Primo Levi: É isto um homem?;
2)- Discriminação;
3)- Adolescência. Construção da identidade;
4)- A festa de 13 anos de João, em que os convidados não o seguram depois de o lançarem ao ar na 13ª vez;
5)- Culpa individual pela queda de João, culpa coletiva. Confronto com a ideia de culpa que está também no livro Longe da água, de Michel Laub;
6)- Silêncio dos que sofreram presos nos campos de concentração e sobreviveram (memória);
7)- Identidade judaica. Identidade. Pertencimento.
8)- Pai com Alzheimer. Examinar junto com o filme argentino O filho da noiva, em que a mãe tem Alzheimer;
9)- A memória que se esvai com Alzheimer, o desejo de lembrar.
10)- Registros escritos do avô. Escrevia verbetes anódinos. O diário do pai, o diário do narrador. O diário para organizar, o diário da revolta, o diário da redenção, discurso ao filho;
11)- Estilo literário. Relação de causa e efeito entre os fatos da vida. Movimentos circulares no enredo e na construção dos parágrafos;
12)- Refletir sobre autobiografia, autoficção, ficção (J.M.Coetzee).
Textos também consultados:
-“O gosto de areia na boca- sobre Diário da queda”, de Michel Laub, por Stefania Chiarelli, em O futuro pelo retrovisor: Inquietudes da literatura brasileira contemporânea (organizado por Stefania Chiarelli, Giovanna Dealtry e Paloma Vidal, Rio de Janeiro, Rocco, 2013, p. 17-32).
-A arte de ler, ou como resistir à adversidade , Michèle Petit ( São Paulo, Editora 34, 2009).
-Autores e ideias, Mona Dorf (São Paulo, Saraiva, 2010, p. 191-196);
-Origens do totalitarismo, Hannah Arendt (São Paulo, Companhia das Letras, 1989).
-Entre nós: um escritor e seus colegas falam de trabalho, de Philip Roth ( Roth entrevista Primo Levi – São Paulo, Companhia das Letras, 2008, p. 9-26)
Biblioteca vertical, blog de Guilherme Sobota: http://bibliotecavertical.blogspot.com.br/2013/04/e-isto-um-homem-primo-levi.html
Em um grupo de leitura, tudo pode acontecer. Pode haver participantes que leram o livro diversas vezes, outros que leram uma só vez, os que leram mais ou menos, os que leram resenhas, os que não leram trecho algum, só ouviram falar, os que leram outros livros do autor, mas não o livro em questão.
A presença de todos é importante, assim como as contribuições, inclusive os silêncios. O diálogo sobre o livro, o diálogo com o próprio livro, o momento em que os interessados, reunidos, ouvem e falam e silenciam sobre os os temas da vida às quais o texto remete, são, sempre, memoráveis.
Gosto de participar de grupos de leitura.

Romance policial (1) Cadernos de Agatha Christie

22 de abril de 2013

567HTRJaBJeaLU7DWHb3aESd (2)

Hoje começo uma série de posts sobre romances policiais. Eles me interessam. Tenho lido bastante sobre. Gosto até mais de ler sobre os romances policiais do que ler os romances policiais. No fundo, todo romance tem estrutura parecida com a do romance policial. Só que ele é mais fácil de ser compreendido: o crime é o que precisa ser desvendado. O crime, aqui, é um fato preciso e determinado no tempo. Isso dá segurança ao leitor, que não tem trabalho de tentar entender o que o autor quer dizer. Mas e se, no romance policial, surge o inesperado? Outra indagação além da autoria do crime cometido? Deve ser possível fazer isso. Acho que Roberto Bolaño, em “Os detetives selvagens”, fez isso. Mas depois falo de Bolaño. Outro dia. Hoje falo de Agatha Christie. Lia muito. Tenho aqui comigo “Os diários secretos de Agatha Christie”, de John Curran (Leya, 2010). Esse livro é muito estranho. É estranho porque o autor comenta o tempo todo e é difícil separar o que ela escreveu do que ele escreve. Ela mesma não tinha muito método para as anotações.
Algumas curiosidades: 1)-Há 73 Cadernos de Agatha Christie conhecidos; 2)- Os Cadernos são numerados de arbitrariamente. A filha de Agatha Christie determinou numeração antes dela morrer, mas isso não foi feito de maneira cronológica; 3)- As anotações eram lembretes; 4)- Ela queria ser lembrada como boa autora de histórias policiais (respondeu isso em uma entrevista).
Também achei curioso: “Parte do prazer de estudar os cadernos está no fato de não se saber o que vai ser encontrado ao virar a página. A trama do último romance de Poirot pode ser interrompida por um poema escrito para o aniversário de Rosalind; uma página em que se lê, de forma otimista, “Coisas a fazer”, está espremida entre um romance de Miss Marple e uma peça teatral inconclusa” (p.63).
Alguns escritores fazem anotações minuciosas antes de escrever o livro. Outros, não. Parece que, para os escritores de romances policiais, as anotações prévias são muito importantes. Há um raciocínio a ser observado, a história não pode ser aleatória. O autor precisa conhecer o fim? Será que ele mesmo precisa saber quem praticou o crime desde o começo? Mas e a graça de escrever?

Li e vi o Cine Bijou

8 de fevereiro de 2013

2013-02-07_23-19-24_999

Eu não diria que sou uma grande leitora: às vezes não consigo me concentrar o suficiente para ler o tanto que gostaria.

Mas sou muito amiga de muitos livros, que classifico da seguinte maneira: livros que adoro (e nunca poderia ter escrito), livros que eu gostaria de ter escrito (e também adoro), livros que  respeito, livros para consulta (sociologia, história, filosofia), biografias, autobiografias, livros que ainda vou ler. É mais ou menos assim.

Entre os livros que gostaria de ter escrito está  “Minhas férias”, de Marcelo Coelho, editado já faz um tempo pela Companhia das Letrinhas. Nós adoramos em casa – todo mundo gostou. É bem escrito e a gente se identifica com o narrador. Não é um livro infantil, é pra toda a família. É curto e vai além do texto, chega ao coração.

Marcelo Coelho agora lança outro livro muito bom:  Cine Bijou, com ilustrações de Caco Galhardo (Cosac Naify). Fala tudo o que é importante: o que foi o  Cine Bijou em São Paulo, o que significou em determinada época , que tipo de filme passava lá, o que tinha em volta do cinema, quem era o narrador, o que ele fazia e sentia. Ele teve um professor perseguido pela ditadura, o professor Mauro. Fiquei pensando que o professor deve ter ficado contente de se ver no livro, se ainda estiver vivo. Foi uma homenagem, mas não só: o Mauro representou todos os professores que deram, na época,  exemplos de liberdade. E ele também tinha um guarda-chuva.

Em 57 páginas, o livro e os desenhos contam o que era ser  jovem e curioso na década de 70. Insegurança, deslumbramento com o cinema, com o sonho,  tudo isso e muito mais está no livro e nos lindos desenhos de Caco Galhardo.

Eu não morava em São Paulo nessa época. Morava em Santos. Mudei pra cá em 1981. Fui algumas vezes ao Cine Bijou. Mas eu vi todos – quase todos – os filmes mencionados no livro, com o mesmo encantamento. Vi no cinema ou em vídeo-cassette. Vi Os amantes de Maria, com a Natassja Kinski. Vi O  Último Tango em Paris, Perdidos na Noite.  Laranja Mecânica eu não quis ver, tive aflição, não queria tanta angústia.  Não gosto de ficar chocada no cinema, nem Crepúsculo eu vejo. Gosto de ficar deslumbrada, de dar risada, de ver violência quando explícita, como a dos filmes de  Tarantino; mas vou até aí.

Eu via todos os filmes de Ingmar Bergman, filmes com a Romy Schneider, da Lina Wertmüller (Mimi, o Metalúrgico, Pasqualino Sete Belezas). Outro dia revi O Porteiro da Noite, como é forte.

Lembrei de tudo isso ao ler e ver o livro. Gostei muito do Cine Bijou.