Archive for the ‘literatura’ Category

Falei em uma entrevista para o blog de José Nunes

16 de julho de 2018

https://comoeuescrevo.com/paula-bajer

Guiné-Bissau

19 de março de 2018

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Estive em  Guiné-Bissau,  país  que está na costa ocidental da África, por uma semana. Foi pouco tempo.

Antes de ir, estudei. Comecei pela literatura  e pelo magnífico livro de Moema Parente Augel,    “O desafio do escombro” (Garamond, 2007), que me deu informações para  compreender melhor  a cultura da Guiné. Ela fala da história do país, da política, da literatura muito rica,  dedicando-se bastante à língua. A oficial é o português,  que se aprende na escola. Há, no entanto, o crioulo, ou a língua guineense, falada pela maioria das pessoas. E há ainda as línguas faladas no âmbito das etnias, que são muitas.

O crioulo é agradável de ouvir. Uma língua bonita. Quando falam entre eles, não dá para entender. É interessante que  não possamos entender o que guineenses conversam quando não estamos incluídos. Não me sentia mal por não estar incluída. No livro de Moema há vários poemas escritos em crioulo traduzidos para o português. São lindos. Há vários da poeta Odete Semedo. Segue um verso, transcrito de “O desafio do escombro”:

Sou parte desta natureza

Tão gasta

Desta face da terra

Tão frágil e vasta

Sou o rio que corre

Tropeçando em pedras e vales.

Em crioulo:

Ami i padas di es mundu

Ku gasta dja

Ami i un burdu di n tera

Ami i iagu ku na kuri

Ku na n baransa nas pedras.

Em Bissau falei e ouvi português, língua  aprendida na escola e usada nas comunicações oficiais. Fala-se bem a língua, mas com algum distanciamento, o que talvez transforme a emotividade das mensagens transmitidas.

Fiquei conhecendo a literatura de Abdulai Sila,  li seu romance “A última tragédia” (Rio de Janeiro, Pallas, 2011). Vi na internet que em Bissau entraria  em cartaz uma peça escrita por Abdulai (“Dois tiros e uma gargalhada”) e eu queria muito assistir, mas não deu: quando estreou, eu já tinha ido vindo embora. Uma viagem é feita também de lugares não visitados, de expectativas não resolvidas.

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No Museu Etnográfico Nacional de Bissau  aprendi sobre o pano de pente, tradicional. Presentear alguém com um pano é um ato de amizade e carinho. Comprei panos de pente em Bissau.  Aprendi que até amanhã significa para sempre, ou que não há para sempre além de amanhã (tive um pouco de dúvida sobre o alcance da expressão).

E na literatura aprendi uma palavra antiga com significado novo: mantenha. Vi essa palavra pela primeira vez no livro de Abdulai Sila, em que o personagem se apresenta: “Vim só falar mantenha rápido. Eu sou o professor da escola”. (“A última tragédia”, p. 109). E todos tem a sua tabanca, a vila para onde podem voltar, onde está sua comunidade.

 

***

 

Este blog que fala sobre Guiné-Bissau  é bacana:http://montedepalavras.blogspot.com.br/ .

E mantenha quer dizer cumprimentos: http://montedepalavras.blogspot.com.br/search?q=mantenha

 

 

Festival Literário de Itapetininga-Flitapê

23 de janeiro de 2018

Flitapê com Déa Paulino, Amelinha Teles, Amara Moira e Samira Albuquerque. Conheci também Daniela Santana, que organizou o Festival. E Angelo Ricchetti, coordenador do Cine Clube de Itapetininga.

Sábado à tarde e a aviadora Anésia Pinheiro Machado nos recebendo logo na entrada do Centro Cultural e Histórico, em uma praça em que, segundo Déa, acontecia, antigamente, o footing: Praça dos amores.

Nossa mesa era sobre violência e preconceito contra a mulher.
O Festival homenageou Lygia Fagundes Telles. Fotografias de Lygia estavam expostas na exposição “Vou lhe contar um segredo”, organizada por Carlos Eduardo Souza Queiroz.

Havia no espaço, também, fotografias de capas de livros de escritores da cidade: muitos.

As conversas começaram com a leitura impactante de um conto de Lygia por Nilton Resende: “Venha ver o pôr do sol”.

Depois Déa Paulino, que coordena o grupo de leitura Leia Mulheres em Itapetininga, aliás a primeira cidade do interior que implantou o projeto, sugeriu que nos apresentássemos, Amara, Amelinha e eu. Expusemos, com empatia recíproca, pontos de vista complementares sobre literatura e feminismo.

Na plateia estavam integrantes do Leia Mulheres que haviam lido meu romance, “Viagem sentimental ao Japão”. Falei das personagens Anette, Sílvia e Sabina. Anette vive em “Viagem sentimental ao Japão” (Apicuri, 2013) e Sílvia e Sabina em “Feliz aniversário, Sílvia” (Patuá. 2017).
Elas são diferentes, mas procuram brechas construir identidade em um mundo em que os homens acham que dão as regras. Não pensei em nada disso enquanto escrevia porque não procurei uma literatura militante. Mas, analisando esses dois romances, percebi que as personagens lidam problemas que rodeiam o contexto feminino: conciliar profissão e vida pessoal, estar contente com a aparência, conviver. Sílvia faz dieta quase o tempo todo e esse esforço é um sofrimento para ela. Sabina escreve, sob pseudônimo, romances que se tornaram best sellers. Esconde-se até do marido, e, principalmente, dele. Anette é solitária e, ao começar a trabalhar em uma agência de viagens, sem nunca ter viajado, precisa coordenar seu comportamento para ser aceita, ou não, no grupo. Ela se confunde um pouco com as regras de convivência, mistura os mundos real e imaginário.

Voltando ao encontro de sábado. Amelinha Teles, que está no movimento feminista há muito tempo e tem falado e escrito sobre suas conquistas há anos, explicou que há vários tipos de feminismo e as mulheres não são iguais a ponto de serem padronizadas. Ela publicou um livro que já é clássico, “Breve história do feminismo no Brasil e outros ensaios” (Alameda), entre outros.

Amara Moira falou sobre seu livro “E se eu fosse puta” (Hoo), em que escreve sobre como se tornou trans, contando angústias, sofrimentos e discriminação experimentadas na prostituição.

Nilton Resende não participou da mesa, mas fez a abertura lendo um conto de Lygia. Ele publicou edição crítica de “Antes do baile verde”, intitulada “A construção de Lygia Fagundes Telles” (Edufal). É um livro consistente que examina as alterações dos contos em sucessivas publicações.

São esses os livros que conheci na Flitapê. E conheci as pessoas, também, que os escreveram, assim como elas me conheceram.

Conhecer pessoalmente um escritor de quem já li os livros é sempre uma surpresa. Se gostei do livro, procuro gostar da pessoa, e vice-versa. Às vezes a gente idealiza um autor, espera dele uma pessoa que corresponda às nossas impressões de leitura. Isso porque o leitor completa o livro, a identidade dele também cria a história. E pode acontecer que os pontos de vista não coincidam. Mas eu fui lá e me apresentei.

Como nós, escritoras, éramos diferentes umas das outras, e tínhamos experiências diferentes para contar, deixamos espaços a serem preenchidos e isso foi muito bom.

Um conto: 70 anos

10 de dezembro de 2017

           

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Caminho todos os dias no parque perto de casa, às vezes com o cachorro.

Irene morreu faz tempo. Nossos filhos, os dois médicos, como eu, trabalham muito. Ele é otorrino  e ela, cardiologista.

Vanda sempre quis tratar do coração dos outros. Eu disse várias vezes que ela nunca encontraria, nos corações, os sentimentos. Às vezes uma pessoa com arritmia poderia ser fria e calculista. Mas ela quis. E hoje está aí, esforçada, bem sucedida na profissão.

Casou-se com um dos primeiros pacientes e talvez eu tenha me enganado, ela encontrou muita emoção no rapaz. É um bom sujeito, mas não ficamos amigos. Ainda não entendi se ela e o marido se dão bem. Desconfio que não muito. Mas ela segura bem.

João Pedro logo quis ser otorrino para descobrir a cura da própria rinite. Eu avisei, não tem. Ele é feliz. Tem mulher bacana, dois filhos, gato e cachorro.

Meus filhos são felizes (Vanda menos). Gostam da medicina. Querem melhorar o mundo. Os dois se apresentam como médicos quando alguém passa mal no avião ou na fila do banco. São estudiosos, bem mais que eu.

Irene trabalhava comigo na clínica. Era minha secretária. Sempre foi, mesmo antes de nos casarmos. Ela sabia os nomes dos pacientes de cor, conhecia suas doenças; às vezes, quando eu não estava, por algum motivo,  receitava medicamentos. Falsificava a minha assinatura. Eu sempre deixei. Irene facilitava muito meu trabalho. Irene era doce, simpática, carinhosa, eu tinha certeza de que os pacientes voltavam por causa dela. Sempre foi assim. Namoramos durante quatro anos. Eu pedi a mão dela em casamento, nós nos casamos na igreja, tivemos filhos, fomos duas vezes à Europa e uma para os Estados Unidos. Fomos casados por 40 anos.

Irene teve  câncer. Eu estava com ela na UTI quando morreu. Eu fico com você, Irene. Se puder, morro com você.

Nem percebi quando ela morreu. Eu estava cochilando na cadeira ao lado, com minha mão no braço dela. Acordei e o braço estava frio. Não vi. Em meus anos de medicina nunca vi um paciente meu morrer. Vi morrerem em plantões, quando era novo. Paciente meu, não. Não acompanho os pacientes até esse momento, quando já estão com especialistas. Sou clínico geral. Nem Irene, minha mulher, eu vi morrer. O que é a morte? Eu não sei.

Continuei trabalhando, mas os pacientes não retornavam. A moça que coloquei no lugar de Irene era ríspida. E não me dava recados. Eu não suportava entrar no consultório e não encontrar Irene sorridente arquivando fichas, atendendo telefonemas com aquela voz radiante. Era hora de parar.

Mas fazer o quê?

Fui amadurecendo a ideia de que eu poderia voltar atrás, visitar minha cidade, a casa em que morei com meus pais, na praia. Nunca mais eu tinha ido, Irene não gostava de mar. Eu sonhava com barcos,  areia,  água,  nuvens,  vento fresco. Eu me imaginava contornando uma ilha. Uma vez, no sonho, anoiteceu e dormi nas pedras, não conseguia voltar. Naquele dia tive medo. No sonho, tive medo. Comecei a ter muita vontade de visitar aquela ilha. E pensava em minha namorada, com quem eu poderia ter me casado se não tivesse entrado na faculdade de medicina. Eu teria uma pequena loja de pranchas de surf. Eu não surfava, mas fazia pranchas muito bem. Meus filhos nunca souberam de nada disso. Para eles minha vida começou com Irene.

Mas teve tanta coisa antes.

Fiquei obcecado por retomar o passado. Quis voltar àquele luau em que minhas amigas dançavam vestidas de havaianas no meio de pranchas de surf.

Ontem, no meu aniversário de  70 anos,  fomos jantar, meus dois filhos e eu. Só nós três. Escolhi um restaurante muito bom e paguei a conta, coisa que não fazia desde que eles começaram a trabalhar. Sugeriram um jantar com toda a família, talvez na casa de meu filho, que é maior. Mas eu tinha  uma comunicação a fazer. Uma comunicação familiar. Para ser sincero, nos sentimos um pouco estranhos, nós três, no restaurante. Como se estivéssemos fazendo um favor uns aos outros.

-Essa semana começarei a fechar o consultório.

Os dois não trabalham comigo. Eles me consideram ultrapassado, mas nunca se  surpreendem quando eu acerto um diagnóstico. Confiança. Um pai nunca erra. Quando me consultam, eu geralmente dou boas pistas. Mas aí se afastam. Acho que meus filhos têm medo de mim.

-Vocês tomam um vinho comigo?

Vanda tinha cirurgia no dia seguinte, não podia beber. João Pedro aceitou. Ela perguntou se poderia ir embora depois do jantar e eu disse claro. Ninguém era obrigado a ficar com o pai. Ainda mais em véspera de cirurgia. Você sempre faz drama, ela disse.

João Pedro  estava  tranquilo, os otorrinos são sempre tranquilos. Clínicos também. Nisso meu filho puxou a mim, na tranquilidade.

-E que você vai fazer, pai?

-Primeiro vou dar meu cachorro a um de vocês. Podem compartilhar. Uma semana com um, outra com outro.

Nenhum se pronunciou (nenhum dos dois gostava de meu melhor amigo. ciúmes?).

– Depois darei todas as minhas coisas. Peço que vocês visitem nossa casa e peguem tudo o que quiserem na próxima semana.

-Tudo?

-Tudo, Vanda. Vou vender a casa. Sei que vocês têm a parte da sua mãe. A casa é grande, o lugar é bom, vendo rápido. Até tem gente interessada.

Ele  não se conteve:

-Que bom,  quero reformar meu consultório.

-Mas pai, eu quero morar lá em casa um dia.

Nunca pensei que Vanda quisesse morar em casa.

-Não, compra um apartamento novo pra você, que tenha a sua cara. Meus filhos, não sei se depois disso nos veremos.

Vanda até colocou um pouco de vinho na taça.

-Você vai se matar?

-Sem Irene sou um médico pior, uma pessoa pior. Mas fiz um juramento de cuidar de todos e isso me inclui. Não vou me matar. Nunca mais abrirei um compêndio de medicina, não pegarei em um estetoscópio, não assinarei uma receita de antibióticos.

-E que você vai fazer, pai? Um dos dois perguntou, ou os dois, fiquei confuso.

-Vou morar na minha cidade. Eu tive uma namorada lá, sabem? A gente se gostava muito. Mas meu pai não me deixou casar. Quis que eu viesse para cá estudar. Acho que ela está por lá. Se não estiver, ficarei esperando, ela vai voltar. Faz pouco tempo eu me lembro que prometemos essa volta um ao outro. Eu tinha me esquecido, mas agora me lembrei.

Os dois ficaram  com jeito de traídos. Meus filhos de mais de 30 anos como crianças na minha frente. A traição é sempre muito relativa e eu estava bem comigo. Sempre fui fiel a Irene. Ela, acho que não. Me lembro de um período em que desconfiei do amor de Irene. Ela estava distante, aérea. Esperei e depois de um ano ela voltou a nós dois. Mas isso é o passado e eu procurava o passado do passado, o passado perfeito, ou mais que perfeito.

-Quem fica com o cachorro?

Perguntas de Clarice

1 de maio de 2017

 

 

“Entrevistas”, da Rocco (2007),  reúne diversas entrevistas que Clarice fez ao longo da vida com escritores, músicos, atores, pessoas da área esportiva. As entrevistas foram publicadas na Manchete, Fatos e Fotos,  Jornal do Brasil. As da Manchete foram reunidas no livro “De corpo inteiro”.

Clarice entrevistou Lygia Fagundes Telles, Jorge Amado, Antônio Callado, Pablo Neruda, Nélida Piñon, Tom Jobim, Chico Buarque, Elis Regina, e muitos outros.

As entrevistas me impressionaram pela natureza das perguntas. Perguntar é uma arte e  a maioria das perguntas não precisa ser respondida. Às vezes as respostas vão para outros caminhos, às vezes não dizem nada. Mas, com as entrevistas de Clarice, nada se perde, as perguntas sempre ficam.

Para Rubem Braga, Clarice pergunta: “É verdade que você amou muito? E que é que você mais queria na vida? Qual sua atitude diante da morte?” (p. 19).

Com Jorge Amado ela não poderia ter sido mais direta: “Você gostaria de escrever diferente ou está comprometido demais com o seu público?”. Ele respondeu que o compromisso dele era com o povo e o público é que tinha compromisso com ele.

Clarice perguntou a Nelson Rodrigues:“Você fala em reencarnação e em vidas passadas. Você é esotérico? Acredita em reencarnação?”. E pergunta, ao terminar:“Você gostou de me dar essa entrevista?” Resposta: “Gostei profundamente. O que conta na vida são os momentos confessionais”.

Uma das perguntas a Nélida Piñon é muito atual: “Você é feminista? O que é que reivindica para a mulher brasileira?”. Resposta: “O feminismo é uma consequência da minha condição de mulher. Quanto mais habilito-me a interpretar o mundo, melhor compreendo a necessidade de se conquistar uma identidade, que unicamente uma consciência ativa e alerta nos pode conferir. Sou naturalmente feminista, e aspiro para a mulher, independentemente desenvolvida, capaz de integrar-se ao centro das decisões, de que esteve sempre excluída, e ajudar a tornar possível e melhor a vida comunitária dos nossos tempos”.

Para a poeta Marly de Oliveira, Clarice pergunta: “Marly, para você, qual é a coisa mais importante do mundo?” Resposta: “Seria viver – e morrer -sem ter medo”

Não conheço a poeta Marly de Oliveira e vou pesquisar porque há uma parte de um poema  publicada na entrevista que me emocionou, o poema todo se chama O sangue na veia. Vou procurar esse poema inteiro porque  gostei dele.

A entrevista mais linda de Clarice, no meu sentir, é a que ela fez com Tom Jobim, a única em que as respostas vão além das perguntas (para mim). Dessa entrevista com Tom Jobim interessa uma resposta: “A morte não existe, Clarice. Tive uma (uma com agá: huma) experiência que me revelou isto. Assim como também não existe o eu e nem o euzinho e nem o euzão. Fora essa experiência que não vou contar, temo a morte vinte e quatro horas por dia. A morte do eu, eu te juro, Clarice, porque eu vi”.

 

Sobre o julgamento de Zé Bebelo em Grande Sertão: Veredas

20 de abril de 2016

 

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Essa é a vista da sala de aula do anexo da Casa Guilherme de Almeida. O domingo estava lindo e, pelas janelas, entrava uma brisa agradável. O curso com Berthold Zilly sobre a tradução de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa,  abriu a memória e caminhos para outras leituras e reflexões.

Lembrei, na aula, de minha defesa de mestrado em processo penal, Ação penal condenatória, na década de 90. Eu estava explicando para a banca como eu via a ação penal condenatória, sempre a partir da acusação porque, sem acusação, não há defesa. Kafka, em O processo, fala justamente disso, do horror de não se conhecer a acusação.

É claro que era uma particular maneira de ver que eu aprendi, não inventei nada. Mas eu quis dar uma explicação vertida para a minha linguagem. E me ocorreu, naquele momento, falar da cena de julgamento de Zé Bebelo em Grande Serão: Veredas. Aquela cena explica o processo penal.

Guimarães Rosa mostra, ali, profundo conhecimento de como deve ser um processo público e justo. No início do julgamento, Joca Ramiro diz: “A gente pode principiar a acusação”. E Joca Ramiro deixou para opinar depois, porque iria “baixar sentença”. E quem quisesse podia “propor condena”. Hermógenes fala com raiva: “Acusação, que a gente acha, é que se devia amarrar este cujo, feito porco. O sangrante…Ou então botar atravessado no chão, a gente todos passava a cavalo por riba dele-aver se vida sobrava, para não sobrar”. Zé Bebelo quer falar e diz: “Mas, para falar, careço que não me deixem com as mãos amarradas…”. E Joca Ramiro concorda. E Zé Bebelo fala algo muito certo e racional: “Rompo embargos! Porque acusação tem de ser com sensatas palavras-não é com afrontas de ofensa de insulto…”. E Joca Ramiro pergunta para Sô Candelário, que desafia: quer resolver à faca. Ao que Joca Ramiro responde: “Resultado e condena, a gente deixa para o fim, compadre. Demore, que logo vai ver. Agora é a acusação das culpas. Que crimes o compadre indica neste homem?”. Sô Candelário não vê crime. Zé Bebelo não havia traiu ninguém, não foi ladrão de cavalos. E Zé Bebelo grita: “Sempre eu cumpro a palavra dada”. Houve conversas e debates, Riobaldo finalmente fala, “O que eu tenho é uma verdade forte para dizer, que calado não posso ficar…”. Riobaldo foi um advogado de defesa ali naquele momento. Falou com intensidade: “Por tanto, que digo, ele merece um absolvido escorreito, mesmo não merece de morrer matado à toa…”. E chega o momento de Zé Bebelo se defender: “Altas artes que agradeço, senhor chefe Joca Ramiro, este sincero julgamento, esta bizarria…” Depois ele se apresenta, agradece aos que por ele falaram e puniram. E defende-se e Joca Ramiro diz, como um juiz, porque o juiz diz o direito. Ele diz: “O julgamento é meu, sentença que dou vale em todo este norte. Meu povo me honra. Sou amigo dos meus amigos políticos, mas não sou criado deles. A sentença vale. A decisão. O senhor reconhece”. E Zé Bebelo diz: “Reconheço”. Zé Bebelo se compromete a cumprir a decisão, que acaba sendo a ida para Goiás.

Essa cena descreve todas as fórmulas de um julgamento justo: a acusação impessoal, a defesa, a fala sem amarras, o juiz decidindo o conflito só no final, sem interferir. Há um roteiro de prestação de justiça muito adequado nessa cena.

Quando li Grande sertão e estava escrevendo minha dissertação, fiquei muito impressionada com o julgamento de Zé Bebelo. E falei na defesa, para a banca, com a mesma sinceridade com que Riobaldo fala por Zé Bebelo. Fui muito espontânea, não me lembro de ter ensaiado ou pensado nessa fala antes da defesa. Eu tinha anotações jurídicas e não literárias. Mas a literatura me socorreu, naquele momento.

Esse falar que surpreende e rompe alguma fronteira e mostra outros pontos de vista em uma conversa, um debate, um julgamento, é sempre um ponto de virada na vida da gente.

 

Da primeira história do mundo aos índios no Brasil

9 de dezembro de 2015

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Alberto Mussa obteve o terceiro lugar no Prêmio Oceanos com seu “A primeira história do mundo”, da Record. Dedicou o prêmio a seu editor, Carlos Andreazza.

“A primeira história do mundo” é um romance policial e integra projeto de cinco novelas sobre crimes praticados no Rio de Janeiro, um em cada século. Na introdução, que ele denomina advertência, está que “O trono da rainha e “O senhor do lado esquerdo” integram esse ciclo.

O parágrafo primeiro do livro tem título: “Quando se sabe da existência de um cadáver”. Tudo começa, para a investigação policial, quando o corpo aparece. Hoje em dia essa regra foi relativizada porque, em raras hipóteses, a certeza do homicídio pode vir por outros caminhos. Mas, de qualquer forma, é  da descoberta do cadáver  que nasce, também, o romance policial. E a primeira frase do capítulo é: “Estamos na cena do crime”.

O corpo que surge é o de Francisco da Costa, serralheiro. Foi encontrado por Simão Berquó. Estava furado por sete flechadas, ou oito. As flechas eram curtas e diferentes das usadas pelos índios. Não obstante outros suspeitos, o próprio Simão Berquó foi condenado. É o que narra o autor, que, segundo a advertência inicial, assumiu a função, no romance policial, de investigador. Pesquisou o processo instaurado em 1567.

Havia então, na Guanabara, muitos índios. Havia, segundo o romance, os itaipus, ou “a mais antiga população pré-histórica do litoral carioca” (p. 131). Eram endocanibais: comiam os mortos. Havia os tupis. No inquérito sobre o homicídio, havia intérprete para traduzir a informação dada em tupi para o português (p. 75). O livro está repleto de referências e histórias indígenas.

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Foi bacana ver o escritor Daniel Munduruku, de Belém do Pará, entregar o Prêmio Oceanos a Silviano Santiago por “Mil rosas roubadas”. Ele é da etnia munduruku. É, também, escritor super premiado e doutor pela USP. Antes da entrega do prêmio, falou que precisamos olhar para nosso passado indígena, mesmo que dele não gostemos.

Encontrei, na internet, carta dos Munduruku ao governo: http://migre.me/slO8n.

Há, no Brasil, registradas, 305 etnias diferentes, 817.963 indígenas, 274 línguas indígenas (Censo de 2010, segundo Funai).

A carta dos Munduruku, a fala de Daniel Munduruku na cerimônia de entrega do Oceanos, o livro de Alberto Mussa, adquirem extrema atualidade neste momento em que tramita, no Congresso Nacional, a PEC 215, que transfere, ao Poder Legislativo, a demarcação das terras indígenas, terras que já deveriam, há muito, estar demarcadas.

Há poucos dias houve, em Brasília, audiência sobre a PEC 215, na Procuradoria Geral da República. Leia aqui notícia aqui: http://migre.me/slONH.

Comecei este texto falando do livro de Alberto Mussa, de romance policial, de processo penal, de história, e terminei falando do tema mais importante, sobre o qual eu queria falar e não sabia: situação vulnerável dos índios no Brasil.

“Mil rosas roubadas” no Prêmio Oceanos: amizade

9 de dezembro de 2015

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Lucimar e Lourenço Mutarelli convidaram o Coletivo Literário Martelinho de Ouro para o Prêmio Oceanos, no Auditório Ibirapuera.

Escritores de muitos livros (os últimos: Só aos domingos, da Lucimar, e O grifo de abdera, do Lourenço), conhecem bem o valor da ideia e da palavra e conduziram a cerimônia com simpatia, sempre homenageando a literatura. Todos foram lembrados nas falas: escritores, editores, leitores, o cinema.

Silviano Santiago (Mil rosas roubadas), Elvira Vigna (Por escrito), Alberto Mussa (A primeira história do mundo) e Glauco Mattoso (Saccola de feira) foram os quatro premiados.

Coube a Silviano Santiago o primeiro lugar, e foi bonito. Ainda não li os livros vencedores. Então, para mim, é simbólico que o autor mais antigo tenha ficado em primeiro, a escritura da vida é reconhecida no prêmio.

O escritor e professor Daniel Munduruku entregou o troféu  a Silviano Santiago. Antes, falou sobre a importância de o Brasil olhar para povos indígenas que formaram e fazem parte de sua história.

Ao falar sobre a primeira frase de seu livro (Perco meu biógrafo), antes de receber o prêmio, Silviano Santiago disse, mais ou menos, que, no momento em que o narrador perde a pessoa mais querida, está perdendo a si mesmo, escrever sobre o outro é recuperar a própria história. O sobrevivente é quem narra o outro para conhecer a si mesmo.

Toda narrativa tem dois lados (ou mais), e agora já estou em uma digressão, ainda não li “Mil rosas roubadas”.

Já estou com o livro no meu leitor. E, procurando, leio a frase: “Que o bom amigo seja minha sentinela, meu espectador, meu padrinho, meu superego voluntário. Não importa. Que seja meu olheiro, como se diz na gíria de futebol”.

“O que amar quer dizer”, de Mathieu Lindon (Cosac Naify)

29 de novembro de 2014

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O livro  é sobre Michel Foucault, sobre o pai de Mathieu,  editor  (Jérôme Lindon), e sobre uma geração, ou duas gerações, porque Foucault era muito mais velho.  Todos  então fomos surpreendidas pela AIDS, que mudou tudo.

Essa proximidade entre Lindon e Foucault aconteceu em vida, mas tive a impressão de que, depois da morte de Foucault, a amizade continuou. Depois que as pessoas morrem, elas continuam  falando com a gente.

Não estou me referindo aqui a qualquer contato do outro mundo, mas à comunicação que acontece a partir de lembranças e prognósticos dessas lembranças.

É mais ou menos como a cena em que David Copperfield procura sua tia e o que o move é a lembrança de um relato que sua mãe fez sobre o último encontro que tiveram, e que ela vislumbrou, em um gesto, certo carinho. Essa impressão de carinho deu  a David energia para procurar a tia, que o rejeitara, quando ele nasceu, porque desejava uma sobrinha mulher.

O livro de Mathieu é também sobre o que não se diz, ou se diz sem dizer, e a fala só se completa depois, muito depois, até depois da morte, se é que ela vem. Acho que não é “o que amar quer dizer”, mas como e quando dizer o tanto que se ama.

Mathieu Lindon diz para nós o que estaria dizendo a Foucault e ao pai. Na verdade, fala para eles.

Não vou contar o que é dito para não estragar a surpresa de quem lê, porque a narrativa se transforma ao longo do texto e há suspense, a gente quer chegar ao fim.

Curiosa, procurei Mathieu Lindon no site do Liberation. Vou ler sempre suas crônicas e reler o livro daqui a um tempo para compreender outras falas que não percebi, nunca se percebe tudo, ou alguns textos só se revelam quando lidos uma outra vez.

Romance policial (3)

24 de setembro de 2014

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Há vários tipos de romance policial. Raymond Chandler, Agatha Christie, Patricia Highsmith, Patricia Cornwell, Simenon, são autores completamente diferentes um do outro. A  identidade entre eles é a interrogação em torno de um crime. Lawrence Block, Tony Bellotto, Raphael Montes, cada um tem um jeito de mostrar quem matou quem. E esse estilo de contar mostra  a concepção de mundo do escritor e de seu tempo.

Luiz Bras escreveu no Guia da Folha um artigo legal na Folha sobre literatura policial, publicado em seu blog: “Crimes que compensam” (http://luizbras.wordpress.com/category/resenha/).

Para mim, no romance policial,  o detetive, é o mais importante. Não tenho interesse no crime. O romance policial começa pelo fim da história: alguém morreu. E o detetive se volta para o passado. Ele precisa ser simpático, senão o leitor não acompanha a volta no tempo.  Kay Scarpetta,   Marlowe,  Poirot,  Maigret, outros tantos, são pessoas com as quais se pode identificar. O curioso é saber como eles fazem as perguntas, como pensam, como se relacionam com as pessoas, como encontram tempo e espaço para perguntar. O curioso é ver que erros cometem – e cometem vários, nenhum deles é perfeito. Um dos detetives de Lawrence Block, por exemplo, é ladrão: Bernard Rhodenbarr. Mas ele tem uma livraria, e por isso está desculpado.

Encontrei na internet (banco de teses da USP) trabalho acadêmico  de Raquel Vieira Parrine Sant’Ana: “Contradições do detetive: a literatura policial como problema para a teoria literária em obras de Machado de Assis, Jorge Luis Borges e Roberto Bolaño”.

Ela discorre com clareza sobre as interrogações possíveis do romance, compara Machado de Assis a Borges e Bolaño e diz, no fim, que o detetive nunca volta para casa, nunca está satisfeito com seu trabalho: ele continua a buscar o segredo, ainda que de outros crimes.

“Os detetives selvagens”, de Roberto Bolaño, é um policial mais amplo e mais complexo. Bolaño se arrisca mais,  não segue fórmulas, não preenche vazios. Li uma entrevista (livro digital especificado na fotografia que segue, Kobo) em que ele revela a vontade de ter sido um detetive (de homicídios), teria preferido esse ao ofício de escritor. E em outro trecho  diz, então comentando 2666, que ser um escritor é tão perigoso quanto ser um detetive: “Being a writer in this world is as dangerous as being a detective, walking through a graveyard, looking at ghosts” (li em inglês).

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Andei lendo bastante sobre o romance policial. Escrevi um, “Nove tiros em Chef Lidu”, que será publicado em breve pela Editora Circuito. A vítima, Chef  Lidu, era chefe de cozinha de um restaurante francês. Mas ele estava de dieta e com vontade de diversificar o cardápio. Foi baleado no meio dessa mudança de vida.

O narrador é o Elvis, escrivão de polícia novo, que acompanha o Dr. Magreza na investigação. A inocência do narrador contrasta com a experiência do detetive e a combinação entre os dois resultou em uma história divertida de escrever.

Em meio a pudins de coco e sopa de tomates, Chef Lidu encontrou um desafeto que atirou para matar.

Logo o livro vai sair. Aviso vocês.


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