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Perguntas de Clarice

1 de maio de 2017

 

 

“Entrevistas”, da Rocco (2007),  reúne diversas entrevistas que Clarice fez ao longo da vida com escritores, músicos, atores, pessoas da área esportiva. As entrevistas foram publicadas na Manchete, Fatos e Fotos,  Jornal do Brasil. As da Manchete foram reunidas no livro “De corpo inteiro”.

Clarice entrevistou Lygia Fagundes Telles, Jorge Amado, Antônio Callado, Pablo Neruda, Nélida Piñon, Tom Jobim, Chico Buarque, Elis Regina, e muitos outros.

As entrevistas me impressionaram pela natureza das perguntas. Perguntar é uma arte e  a maioria das perguntas não precisa ser respondida. Às vezes as respostas vão para outros caminhos, às vezes não dizem nada. Mas, com as entrevistas de Clarice, nada se perde, as perguntas sempre ficam.

Para Rubem Braga, Clarice pergunta: “É verdade que você amou muito? E que é que você mais queria na vida? Qual sua atitude diante da morte?” (p. 19).

Com Jorge Amado ela não poderia ter sido mais direta: “Você gostaria de escrever diferente ou está comprometido demais com o seu público?”. Ele respondeu que o compromisso dele era com o povo e o público é que tinha compromisso com ele.

Clarice perguntou a Nelson Rodrigues:“Você fala em reencarnação e em vidas passadas. Você é esotérico? Acredita em reencarnação?”. E pergunta, ao terminar:“Você gostou de me dar essa entrevista?” Resposta: “Gostei profundamente. O que conta na vida são os momentos confessionais”.

Uma das perguntas a Nélida Piñon é muito atual: “Você é feminista? O que é que reivindica para a mulher brasileira?”. Resposta: “O feminismo é uma consequência da minha condição de mulher. Quanto mais habilito-me a interpretar o mundo, melhor compreendo a necessidade de se conquistar uma identidade, que unicamente uma consciência ativa e alerta nos pode conferir. Sou naturalmente feminista, e aspiro para a mulher, independentemente desenvolvida, capaz de integrar-se ao centro das decisões, de que esteve sempre excluída, e ajudar a tornar possível e melhor a vida comunitária dos nossos tempos”.

Para a poeta Marly de Oliveira, Clarice pergunta: “Marly, para você, qual é a coisa mais importante do mundo?” Resposta: “Seria viver – e morrer -sem ter medo”

Não conheço a poeta Marly de Oliveira e vou pesquisar porque há uma parte de um poema  publicada na entrevista que me emocionou, o poema todo se chama O sangue na veia. Vou procurar esse poema inteiro porque  gostei dele.

A entrevista mais linda de Clarice, no meu sentir, é a que ela fez com Tom Jobim, a única em que as respostas vão além das perguntas (para mim). Dessa entrevista com Tom Jobim interessa uma resposta: “A morte não existe, Clarice. Tive uma (uma com agá: huma) experiência que me revelou isto. Assim como também não existe o eu e nem o euzinho e nem o euzão. Fora essa experiência que não vou contar, temo a morte vinte e quatro horas por dia. A morte do eu, eu te juro, Clarice, porque eu vi”.

 

Entrevistas com escritores

17 de outubro de 2015

Se um dia me perguntarem o que coleciono, direi: entrevistas com escritores. Sempre gostei.
Em uma entrevista, o escritor pode dizer qualquer coisa porque a resposta nunca será checada. Não é uma informação que ele dá. É um estado de espírito, um devaneio, uma luz qualquer que pode iluminar outros escritores.
Não sei exatamente quem lê essas entrevistas, se são leitores ou escritores. Acho que os primeiros, já que os segundos gostam de mergulhar na ficção.
Gosto de ler entrevistas bem longas.
A Companhia das Letras publicou muitas da Paris Review (“As históricas entrevistas da Paris Review”, “As entrevistas da Paris Review”). São quatro livros (1988, 1989,2006, 2006).
No primeiro estão E.M. Forster, Dorothy Parker, Faulkner, Simenon, Pound, T.S.Eliot, Céline, Evelyn Waugh, William Burroughs, Saul Bellow, John Dos Passos, Borges, Isaac Bashevis Singer, John Cheever, Gore Vidal, Nadine Gordimer, Kundera.
Simenon disse que segue conselho de Colette: não escrever de um jeito muito literário e isso significa tirar do texto advérbios, adjetivos, “a frase que está lá só por si mesma”. Não revê o enredo, mas muda nomes de personagens e depois uniformiza. Tem sempre algumas ideias e, antes de começar a escrever, escolhe uma. Aí procura uma atmosfera (um sol, uma primavera). Uma cidade, personagens e um mundo se forma. E aquela ideia primeira se junta ao ambiente. E, com o problema, surge o romance. Um dos problemas recorrentes é o da comunicação. É trágico, para ele, que, entre milhões de pessoas, a comunicação completa é impossível entre duas delas. Outro é o da fuga: mudar de vida totalmente.
Eu me identifico com essa fala de Simenon. Também me interesso pela mudança de rumo na vida, pelo desaparecer das pessoas, por morte ou outro motivo. E a impossibilidade de comunicação completa, o não compreender o outro, me afligem.
Outra entrevista bacana é a de Milan Kundera. Diz muitas coisas interessantes, e uma delas é “todos os meus romances são variantes de uma arquitetura baseada no número sete”. Capítulos são independentes, como compassos de uma partitura musical: moderato, presto, andante. “A festa do adeus”, porém, tem cinco partes, assim como “Risíveis amores”. E ele diz mais: a verossimilhança não é necessária. A farsa é permitida. O divertimento é importante. Seus romances unem elementos heterogêneos (polifonia) e há também, em alguns, a farsa, que chega ao inverossímil.
Entre Simenon e Kundera não há nada em comum. Mas aprendo, com os dois, a respeitar meu próprio modo de imaginar situações e personagens, concretizando-os no mundo da ficção, que certamente existe.