Archive for dezembro \24\UTC 2015

Sobre “O irmão alemão” de Chico Buarque

24 de dezembro de 2015

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Faz tempo penso no último livro do Chico, “O irmão alemão” (Companhia das Letras).

Penso também no filme “Chico-artista brasileiro”, vi duas vezes. Eu gosto tanto do Chico – como se gosta de um irmão, primo, um super amigo, alguém de quem você não precisa dizer que gosta, é mais do que óbvio gostar. Ele está lá, aqui, ouço sempre que quero, leio quando quero, ele não me cobra nada, não está nem aí.

Agora fui ao youtube e vi “O que será que será”, “Cálice”, conversa com Tom Jobim, com Caetano, a Globo tinha um programa, “Chico e Caetano”, vi um pouco outra vez, eu sou da época desse programa. O livro sobre o irmão alemão é bem atual na forma, Chico acompanhou o tempo, soube chegar a 2015 sem deixar nada no caminho. Ou melhor, deixou muito, e se transformou, o filme mostra muito a transformação.

A história do livro se completa no filme, quando o próprio Chico surge em Berlim, uma cidade de bruscas e drásticas transformações.

O irmão alemão do Chico existiu mesmo, não é o mesmo irmão do livro, mas é o do filme, ele era artista também, na DDR, Alemanha oriental. Ficou do outro lado do muro.

No filme, a Marília Pera lê partes do livro. A voz da Marília Pera. Uma voz que fica.

Aí o Chico discutiu outro dia com alguém na rua sobre política, na verdade discutem com ele, e alguém filma, o vídeo viraliza. As pessoas ficam curiosas para ver como é o Chico discutindo na vida real. Eu não cheguei a ver. Vi só o começo do filme, fiquei sem paciência, era uma roda de homens falando, sei lá. Então é o Chico pessoa e o Chico artista e o personagem do livro que tem o irmão, o Chico que tem o irmão, de quem estou falando?, que importa, eu nem conheço pessoalmente.

No livro o Chico fala dos livros do pai dele com uma intimidade, poderiam ser os meus livros, os livros do meu pai e da minha mãe, que eram outros livros.

Ele fala em W.G. Sebald uma vez e eu vinha pensando muito em Sebald e nas imagens que ele insere entre os textos. Os espaços vazios de Sebald alargam a literatura ao infinito. O mundo ao infinito. Sebald era alemão. Por que será que Chico falou de Sebald?

No documentário mais recente Chico fala da infância e no youtube ele fala da infância, do pai dele que vivia estudando, lendo e escrevendo, quando perguntam ele fala que não participava das conversas de adulto (mas é verdade que ouvia a música de Vinícius, amigo do pai dele).

Quantas vezes um artista conta a sua infância? E se começar a contar de um jeito diferente, será que as pessoas percebem?

Em “O irmão alemão” ele faz isso, conta tudo de novo de um jeito diferente, como se fosse outro, ou como se tivesse sido.

Da primeira história do mundo aos índios no Brasil

9 de dezembro de 2015

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Alberto Mussa obteve o terceiro lugar no Prêmio Oceanos com seu “A primeira história do mundo”, da Record. Dedicou o prêmio a seu editor, Carlos Andreazza.

“A primeira história do mundo” é um romance policial e integra projeto de cinco novelas sobre crimes praticados no Rio de Janeiro, um em cada século. Na introdução, que ele denomina advertência, está que “O trono da rainha e “O senhor do lado esquerdo” integram esse ciclo.

O parágrafo primeiro do livro tem título: “Quando se sabe da existência de um cadáver”. Tudo começa, para a investigação policial, quando o corpo aparece. Hoje em dia essa regra foi relativizada porque, em raras hipóteses, a certeza do homicídio pode vir por outros caminhos. Mas, de qualquer forma, é  da descoberta do cadáver  que nasce, também, o romance policial. E a primeira frase do capítulo é: “Estamos na cena do crime”.

O corpo que surge é o de Francisco da Costa, serralheiro. Foi encontrado por Simão Berquó. Estava furado por sete flechadas, ou oito. As flechas eram curtas e diferentes das usadas pelos índios. Não obstante outros suspeitos, o próprio Simão Berquó foi condenado. É o que narra o autor, que, segundo a advertência inicial, assumiu a função, no romance policial, de investigador. Pesquisou o processo instaurado em 1567.

Havia então, na Guanabara, muitos índios. Havia, segundo o romance, os itaipus, ou “a mais antiga população pré-histórica do litoral carioca” (p. 131). Eram endocanibais: comiam os mortos. Havia os tupis. No inquérito sobre o homicídio, havia intérprete para traduzir a informação dada em tupi para o português (p. 75). O livro está repleto de referências e histórias indígenas.

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Foi bacana ver o escritor Daniel Munduruku, de Belém do Pará, entregar o Prêmio Oceanos a Silviano Santiago por “Mil rosas roubadas”. Ele é da etnia munduruku. É, também, escritor super premiado e doutor pela USP. Antes da entrega do prêmio, falou que precisamos olhar para nosso passado indígena, mesmo que dele não gostemos.

Encontrei, na internet, carta dos Munduruku ao governo: http://migre.me/slO8n.

Há, no Brasil, registradas, 305 etnias diferentes, 817.963 indígenas, 274 línguas indígenas (Censo de 2010, segundo Funai).

A carta dos Munduruku, a fala de Daniel Munduruku na cerimônia de entrega do Oceanos, o livro de Alberto Mussa, adquirem extrema atualidade neste momento em que tramita, no Congresso Nacional, a PEC 215, que transfere, ao Poder Legislativo, a demarcação das terras indígenas, terras que já deveriam, há muito, estar demarcadas.

Há poucos dias houve, em Brasília, audiência sobre a PEC 215, na Procuradoria Geral da República. Leia aqui notícia aqui: http://migre.me/slONH.

Comecei este texto falando do livro de Alberto Mussa, de romance policial, de processo penal, de história, e terminei falando do tema mais importante, sobre o qual eu queria falar e não sabia: situação vulnerável dos índios no Brasil.

“Mil rosas roubadas” no Prêmio Oceanos: amizade

9 de dezembro de 2015

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Lucimar e Lourenço Mutarelli convidaram o Coletivo Literário Martelinho de Ouro para o Prêmio Oceanos, no Auditório Ibirapuera.

Escritores de muitos livros (os últimos: Só aos domingos, da Lucimar, e O grifo de abdera, do Lourenço), conhecem bem o valor da ideia e da palavra e conduziram a cerimônia com simpatia, sempre homenageando a literatura. Todos foram lembrados nas falas: escritores, editores, leitores, o cinema.

Silviano Santiago (Mil rosas roubadas), Elvira Vigna (Por escrito), Alberto Mussa (A primeira história do mundo) e Glauco Mattoso (Saccola de feira) foram os quatro premiados.

Coube a Silviano Santiago o primeiro lugar, e foi bonito. Ainda não li os livros vencedores. Então, para mim, é simbólico que o autor mais antigo tenha ficado em primeiro, a escritura da vida é reconhecida no prêmio.

O escritor e professor Daniel Munduruku entregou o troféu  a Silviano Santiago. Antes, falou sobre a importância de o Brasil olhar para povos indígenas que formaram e fazem parte de sua história.

Ao falar sobre a primeira frase de seu livro (Perco meu biógrafo), antes de receber o prêmio, Silviano Santiago disse, mais ou menos, que, no momento em que o narrador perde a pessoa mais querida, está perdendo a si mesmo, escrever sobre o outro é recuperar a própria história. O sobrevivente é quem narra o outro para conhecer a si mesmo.

Toda narrativa tem dois lados (ou mais), e agora já estou em uma digressão, ainda não li “Mil rosas roubadas”.

Já estou com o livro no meu leitor. E, procurando, leio a frase: “Que o bom amigo seja minha sentinela, meu espectador, meu padrinho, meu superego voluntário. Não importa. Que seja meu olheiro, como se diz na gíria de futebol”.


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