Archive for abril \30\UTC 2010

Pet Fashion Week e poodles gigantes

30 de abril de 2010

Sábado fui à Pet Fashion Week, no Sheraton, em São Paulo. Nunca tinha ido a uma Fashion Week e começar por uma pet me pareceu buena idea. Queria ver cães fofos, bem vestidos, cheirosos. E consegui. Vi até um concurso de tosa de poodles gigantes. Eram quatro, dois brancos e dois pretos. Fincaram as quatro patas sobre uma mesa e os groomers cortavam, raspavam, davam formas extravagantes aos pelos fofos e longos. Achei que o branco decorado com símbolos de cartas do baralho venceria. Estava muito original. Os juízes o examinaram com bastante atenção. Mas dias depois vi na internet que o poodle tosado de maneira mais lisa, simples, vencera. Fiquei um pouco surpresa, mas pensei que o critério talvez fosse a elegância e não a extravagância. Foi um bom resultado, embora inesperado (http://www.petfashionweeksp.com/index.php/concurso-de-tosa).

Três livros e suas ideias infinitas

29 de abril de 2010

Arrumando livros espalhados pela casa, encontro alguns bem interessantes e escondidos:
1)- Preso por trocadilho: a imprensa de narrativa irreverente paulistana de 1900 a 1911, de Paula Ester Janovitch (São Paulo, Alameda, 2006). O livro fala de publicações bem humoradas que se multiplicaram em São Paulo no final do século XIX. Os desenhos que ilustravam as revistas, os pequenos jornais, eram engraçados, caricatos. Havia O Pirralho, A Ronda, Cabrião, A Farpa, O Micróbio. A imprensa aperfeiçoava-se por meio de periódicos ágeis, irônicos, críticos. Pesquisando imagens, descobri esse blog legal. que fala bastante de Angelo Agostini e o Cabrião: http://patadoguaxinim.blogspot.com/2009_10_01_archive.html;
2)- As dez maiores descobertas da medicina, de Meyer Friedman e Gerald W. Friedland (São Paulo, Companhia das Letras, 2006). Drauzio Varella apresentou e fez revisão técnica do texto. Lembro aqui algumas descobertas: Circulação do sangue, bactérias, anestesia cirúrgica,antibióticos, o DNA. Os capítulos explicam detalhadamente os caminhos para as descobertas e, no fim, o autor diz: “Seria fascinante saber quais serão as próximas dez maiores descobertas…”;
3)- O cão sem plumas, de João Cabral de Melo Neto (Rio de Janeiro, Objetiva -Alfaguara-2007). Leio ao acaso a primeira estrofe de A bailarina: “A bailarina feita de borracha e pássaro dança no pavimento anterior do sonho”. O poema tem quatro estrofes com quatro versos cada. O livro inclui Paisagem do Capibaribe, estruturado em parágrafos. É lindo. Gostaria de saber de cor. “O que vive incomoda de vida o silêncio, o sono, o corpo que sonhou cortar-se roupas de nuvens”.

Soul Kitchen e o peso do corpo

17 de abril de 2010

Ontem assisti Soul Kitchen, de Fatih Akin. Filmes alemães estão além do nosso tempo. Quando são da Alemanha e Turquia, ainda mais além. Depois de assistir um, acho os filmes americanos muito doces, piegas, qualquer deles, mesmo os mais violentos. A violência americana é açucarada na tela. Não sei se é isso mesmo, mas é como eu sinto, hoje. Mas Soul Kitchen é delicado, de certa forma, e nada violento. Trata incidentalmente daquilo que comemos, slow food, fast food? Fala de música, lealdade, amizade, irmandade, empreendimentos, força de vontade, família, amor, sexo, bebida, Hamburgo, prisão, vício, não nessa ordem.
O filme faz rir, mas é pesado, também. Circunstâncias determinam o curso da vida independentemente da vontade. E na Europa tudo é muito velho, as circunstâncias determinam demais. No entanto, espaços surgem e pode ser possível empreender.
E, antes de ir ao cinema, li texto de Luiz Felipe Pondé na Folha (12/4/10), sobre estar ou ser triste, depressão, Virginia Woolf, Mrs Dalloway, o deserto, o peso de acordar e ser aquilo que se é. Fiquei um pouco tocada porque, embora a gente já saiba que a angústia existe mesmo, sempre dá aflição vê-la constatada por escrito como uma sensação irremediável. E o peso da existência pode doer. Assisti outro filme no DVD, Ensinando a viver, com John Cusack e Joan Cusack. Ele adota um menino que acredita ter vindo de Marte e anda com pesos na cintura para não voar, para ficar preso. O filme é um pouco piegas, mas me identifiquei.
Também tenho medo de me desapegar e, por isso, às vezes, como tanto, para ficar mais pesada, para criar atrito (não estou acima do peso, ou gorda, falando claramente). Outro dia li que as fotografias de comida na internet fazem sucesso, tem gente que fotografa tudo o que come. Incrível. Não tenho a menor vontade de fotografar comida. Mas até gosto de ver algumas fotos, acho interessante observar como as pessoas decoram o prato e combinam os alimentos.
Como ainda estou lendo Doutor Pasavento, do Vila-Matas (leio devagar), não consigo deixar de relacionar tudo isso com a vontade de desaparecer. O personagem/escritor desvia rumo em uma viagem, deixa para trás o nome e tudo o mais, com exceção de poucos livros e poucas roupas. O desaparecimento do escritor é necessário para a escrita do romance e para que as personagens apareçam. O desaparecimento é o escrever do romance, de qualquer romance. Estou achando que é isso, é assim que eu compreendo o que leio. O desaparecimento é a grande viagem de todo escritor. Esforço-me para deslizar desaparecendo na escrita, mas ainda não atingi aquela insustentável leveza.
Em Soul Kitchen o herói tem um problema sério da coluna e fica meio que paralisado, pesado, arrastado. Depois ele melhora, mas precisa de ajuda, de ajuda esotérica, física, violenta e amorosa. Não é fácil ficar leve.

Imagens dispersas

11 de abril de 2010

Assisti Julie & Julia ontem, no DVD. O filme tem momentos muito bons e Meryl Streep vale em qualquer ocasião. Se eu pudesse ser outra pessoa, se se pudesse escolher, seria Meryl Streep. Acho que Meryl melhorou com a idade. Ficou mais leve, mais alegre. Deve ser uma pessoa calorosa, gostosa de ficar perto.
A atriz que interpreta Julie, Amy Adams, interpretou Amelia Earhart em Uma noite no Museu 2. É tão cativante, quando assistia ao filme queria que a fita fosse para o presente só para vê-la atuar, cozinhando, escrevendo e conversando com Julia Child. Mas depois que o filme terminou voltei para o passado e fui ao youtube e vi a própria Julia Child e dei mais valor ainda à interpretação de Meryl Streep.
As imagens dessas atrizes me lembram outras atrizes, como por exemplo Vivian Leigh em A ponte de Waterloo, que assisti recentemente, e em E o vento levou…E Penelope Cruz. E Jane Fonda em Julia.
Voltando a Julie & Julia, fiquei pensando, se eu dialogasse com um personagem do passado, transportando para o presente alguma experiência, atualizando idéias ou pensamentos, renovando a persona, faria isso com Marilyn Monroe e com Roberto Bolaño. Os dois não se parecem em nada, mas adoraria conversar com Bolaño e ser um pouquinho Marilyn Monroe, pelo menos quando ela cantava para os soldados na Coreia. E de Bolaño nem gosto tanto do que ele escreve, acho muito longo, mas deve ter sido uma pessoa muito interessante. Aqueles óculos dele, aquele jeito sério de falar…Gostar de verdade gosto mesmo de Cortázar. Mas eu jamais poderia me imaginar sendo Julio Cortázar. Seria muita pretensão.
A ponte de Waterloo é um filme que só vale por Vivian Leigh e sua dança deslizante. O personagem interpretado por Robert Taylor é muito bobo, não fala nada de interessante o filme inteiro, tem uma inocência insuportável para a época. Na guerra a inocência é imperdoável.
Essas imagens que tenho dos outros e de mim mesma misturam-se na memória e na internet. Se quero ver alguém, vou ao youtube imediatamente e vejo. Vi até Regina Duarte na novela Selva de Pedra, de 77, dizendo para um Francisco Cuoco/Cristiano estupefato ao ver sua falecida mulher Simone em uma festa: Meu nome é Rosana Reis. Acho que eu queria ser Janete Clair.
http://bit.ly/c12vpq

Leituras dispersas

7 de abril de 2010

Leio vários livros ao mesmo tempo. A falta de método atrapalha a compreensão total dos textos e das histórias e a memória perde encadeamentos necessários para uma eventual narrativa.
Se eu fosse contar a alguém o que me lembro de Doutor Pasavento, de Enrique Vila-Matas, diria que é a história de um escritor que tenta se esvaziar de si mesmo para encontrar um personagem possível. No enredo ele desaparece, mas eu compreendi que vai murchando, esvaziando, enquanto viaja.
E ainda parei no meio de Cidade Pequena, de Lawrence Block. Um escritor é suspeito de assassinato e aproveita essa situação para promover seu livro. Será isso? Deixei o livro de lado faz um tempo e olho de vez em quando com vontade de recuperar a escrita natural de Lawrence Block, mas acabo lendo outras coisas.
Li um livro sobre a construção virtual da memória, encontrei no aeroporto. Esqueci o nome. O autor diz que podemos passar todas as nossas experiências para meios digitais e, se soubermos arquivá-las com método, serão encontradas quando precisarmos. Achei interessante, mas deve ser chato ter essa preocupação o tempo inteiro. Outro dia deletei mensagens do celular e depois fiquei meio triste, e se eu quiser escrever minha autobiografia, as mensagens não seriam úteis? Aí pensei, mas por que eu iria escrever minha autobiografia? E aí pensei, mesmo as pessoas cujas personalidades não têm repercussão podem escrever sua autobiografia. Memórias são sempre memórias. É, mas é melhor lembrar de tudo de um jeito esfumaçado, sem apontar datas em linhas do tempo.
E ontem à noite li Drummond, A falta que ama, li e reli Elegia transitiva. “Onde habitas agora, onde saber tuas joias errantes?”.


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