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Amazônia, Alemanha, Ingo Schulze

8 de dezembro de 2009

Vi Ingo Schulze no Instituto Goethe semana passada em São Paulo. Lançou Vidas novas, Cosacnaify. O livro é consistente, tem  capa dura, ficou  lindo. O autor falou, o tradutor Marcelo Backes falou, as pessoas fizeram perguntas.

Adoro as histórias passadas na Alemanha oriental, na DDR.  Filmes como Adeus Lenin, A vida dos outros, Um amor além do muro, são muito legais. Vi outros sobre pessoas separadas pelo muro na Alemanha,  lembro-me de cenas e imagens, mas não dos nomes.  Minha memória falha tanto. As imagens ficam, e não são suficientes. Gostaria de lembrar nomes de diretores, atores, filmes, anos de filmagens, essas coisas. Mas não dá, não lembro.

Ingo Schulze ainda está claro na minha memória, foi semana passada. E eu fotografei, comprei livros que ele autografou, prestei atenção em tudo o que foi dito.

O romance Vidas novas é epistolar, um Briefromanz. Ingo disse que construiu o livro tendo como parâmetro a estrutura da memória. Cartas são reunidas e organizadas por Ingo Schulze, que não é, necessariamente, o Ingo Schulze que nos falava e que leu, em voz alta, trechos do romance. E o tradutor Marcelo Backes interferiu no livro porque acrescentou a ele notas explicativas de pessoa que foi ao lugar onde a história se passou, tornou-se testemunha e até mesmo personagem, um personagem de rodapé. É um tradutor interferente. Claro que o autor concordou com as interferências. Foi generoso ao aceitar a inserção das notas pelo tradutor brasileiro. Senti no ar, enquanto  ouvia os dois falarem, que havia uma curiosidade recíproca, uma atenção respeitosa. É difícil escrever. É difícil traduzir.

Não entendo muito de tradução, mas ouvi ali que as intervenções de Marcelo Backes foram consideradas inovadoras no meio literário.

Fiz ainda associações naquela noite. Lembrei-me do Jogo da amarelinha, de Julio Cortázar, um romance que o leitor ajuda a estruturar, ordenando capítulos de diversas maneiras. Lembrei-me também do romance A volta para casa, de Bernard Schlink, que escreveu O Leitor, também. E A volta para casa também fala de um homem que deixou um passado na Alemanha, escreveu histórias e estórias, e desapareceu, assim como o escritor das cartas de Ingo Schulze, Türmer, Enrico Türmer. E         recordei-me, ainda, de um conto de Paul Auster, Cidade de vidro, publicado em A trilogia de Nova York. No conto, Paul Auster é um personagem escritor, ele mesmo, talvez –  ou não -, assim como Ingo Schulze é o organizador das cartas de Enrico Türmer.

Os grandes escritores têm um repertório parecido, pois percebem os grandes conflitos.  O duplo é um tema que aparece sempre nas narrativas porque vivemos às voltas com a projeção do nosso eu em diversas situações, reais e imaginárias. O desaparecimento das pessoas é também um assunto e tanto (tem a ver com o duplo, também). Quem não tem vontade de evaporar e aparecer em outro contexto? Não  falo em morrer, mas em sumir, mudar, trocar de identidade. Essa é uma fantasia.

Estou por aqui tendo essas ideias e nem comecei a ler Vidas novas. A língua alemã se permite traduzir, mas não se deixa invadir. A tradução de Marcelo Backes pode ter acrescido um outro olhar à história, mas só. Parece que há um convite para que o leitor também participe do enredo. Mas gosto de ser uma leitora conformada e compreender o que é contado sem muitas pretensões. Entro no texto em forma e conteúdo e é isso o que vou fazer daqui a pouco. Espero me surpreender.

Ah, li no jornal que Ingo Schulze vai escreve sobre a Amazônia. Os europeus ficam muito encantados com a nossa selva, sempre ficaram. Senti um pouco de ciúmes ao ler sobre essa vontade, essa inspiração. Gostaria que a Amazônia ficasse intocada.

Brasília e Bob Dylan

1 de dezembro de 2009

Brasília e Bob Dylan têm alguma coisa em comum, pra mim. É que no avião ouço Bob Dylan e quando estou na capital geralmente estou sozinha e no hotel  sou eu mesma e nessas ocasiões geralmente  penso em algumas músicas vitais: Visions of Johanna, A simple twist of  fate , Like a rolling stone, Desolation row, Ballad of a thin man, Highway 61 revisited. Essas são as músicas que eu mais gosto. Gosto de Jokerman, também, mas Jokerman está em um cd que não ouço tanto. Ouço muito  Highway 61 revisited (1965), Blonde on blonde (1966) e  Blood on the tracks (1974).

Brasília é uma cidade da década de 60, foi inaugurada em 1960. Quando Bob Dylan gravou  Highway 61 revisited, a cidade tinha cinco anos. JK foi um presidente visionário, concretizou um sonho que parecia impossível. Em uma das vezes em que estive lá, comprei sua biografia. Está separada, vou ler antes da biografia de Walt Disney. Quando um lugar me impressiona, gosto de ler sobre quem o criou. Por isso tenho a bio de Disney, também.

E tenho livros sobre Bob Dylan, embora  ele não tenha criado uma cidade. Mas criou inúmeros espaços mentais e sonoros; ele construiu, com sons e palavras,  caminhos que levam as pessoas a assumirem identidades e diferenças. Para Bob Dylan, suponho, não existe a igualdade ideológica entre as pessoas. Penso que ao descobrir isso ele se desligou da tentação dos discursos políticos e ativistas. Não sei. Não gosto de teorizar, de estabelecer pensamentos dogmáticos. Ele também não. Em dezembro de 65, deu uma entrevista coletiva famosa em que  negou, ou ignorou, que suas canções pudessem ter mensagens. Para ele, não são folk songs,  considerando-se que ele mesmo definiu folk music “as a constitutional re-play of mass production” (Television Press Conference, KQED, em Bob Dylan:The essential interviews).

Mas o que Brasília tem com  tudo isso? Tem no meu espaço mental. A cidade é aquele branco que fica separado de tudo, em que as pessoas não se comunicam, ou comunicam-se politicamente, em que vejo edifícios de Niemeyer sem que eles me enviem qualquer mensagem subliminar.

Acho os edifícios desenhados por Niemeyer puros, eles não querem impor conteúdos, permitem que sejam preenchidos por diferentes culturas, ideologias, grupos, ideias: são básicos, essenciais. Talvez não sejam funcionais, os edifícios. Mas são essenciais em suas linhas sintéticas e claras. Posso ouvir a música que quero ao olhar os espaços públicos de Brasília. E ouço Bob Dylan. E penso em JK, depois em JFK. E de novo em JK.


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