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Viagem sentimental entre Huaca Pucclana, Asfalto e Japão

5 de maio de 2014

pirâmide

No sítio arqueológico Huaca Pucclana, no meio da cidade de Lima, no Peru, há construções de adobe, material que é mistura de terra, palha e água. A partir dessa mistura, a civilização anterior aos incas moldava tijolos de idêntico tamanho e com eles formava pirâmides (recheadas de pedras, também). Huaca Pucclana era um espaço para jogos e reuniões religiosas e políticas. As pessoas não moravam lá.

O homem registra ideias, preocupações, sentimentos e rotinas segundo conhecimentos e possibilidades de cada época. Sempre que visito lugares assim antigos, penso no imenso trabalho de reconstrução narrativa de arqueólogos e historiadores. Escavações em Huaca Pucclana trouxeram à tona pirâmide, praças, escadas de adobe em perfeito estado.

Creio que, não à toa, adobe é, também, o nome de empresa que, atualmente, programa registros digitais de dados. O nome adobe é associado, hoje, à construção digital.

Sendo eu uma pessoa ligada à escrita e à documentação, sendo ainda escritora, tendo publicado, em ficção, um romance (Viagem sentimental ao Japão, Apicuri, 2013) e um livro de contos (Asfalto, e-galáxia, 2014), o último em formato exclusivamente digital, é natural que reflita sobre o que é mais gratificante ou duradouro: o livro em papel ou o e-book?

tijolos

Imagino, então, bibliotecas antiquíssimas, talvez aquelas dos monges, em que exemplares únicos eram copiados à mão e guardados, arquivados, mantidos assim até hoje, em ambientes climatizados e algumas vezes sem possibilidade alguma de manuseio. Penso nesses livros enfileirados como os tijolos de adobe.

Penso em meu livro de contos, curiosamente denominado Asfalto, digitalizado, quase infinito. Não importa quantas pessoas o procurem, estará sempre à disposição – desde que mantidos pelas livrarias digitais cada vez mais fortes.

asfalto

Imagino, para o Viagem sentimental ao Japão, bibliotecas físicas bacanas, estantes de leitores interessados, mesmo que da Estante Virtual. Imagino o livro guardado em mochilas, o livro emprestado, comentado, lido. Imagino alguém que se divirta com as viagens de Anette, que se identifique com Anette.

Capa_Baixa

Para Asfalto, imagino vida larga, multiplicada, infinita como o número matemático Pi: 3,14141592653589… Sonhei, aliás, outro dia, com esses números enfileirados, grafados em uma parede de pedra, infinitamente.

Asfalto tem dez contos. Um deles fala de um GPS, outro de um quimono, outro de uma mulher com agenda lotada, outro de uma motociclista atarefada, outro de um rapaz que usa o primeiro smoking em um baile de formatura, outro sobre uma moça em dieta de emagrecimento, outro sobre uma vidente, outro sobre um jornalista e uma escritora em entrevista, outro sobre um depoimento em uma delegacia. São tantos assuntos, o livro é tão curto e tão longo.

Há quem ainda recuse a leitura digital, quem ache que o livro digital não é tão livro como o impresso. Cada leitor é um leitor, cada leitura é uma leitura.

As civilizações mais antigas comunicaram-se e comunicam-se com a nossa de diversas maneiras e nos cabe, também, aceitar nossas formas contemporâneas de expressão. Posso comparar bibliotecas de livros impressos às pirâmides de tijolos adobe, assim como posso comparar livros digitais aos mesmos tijolos.

Aprende-se a falar e escrever sem a ajuda de computadores, mas, depois, não se vive sem eles, não se vive sem o registro digital, fora do sistema. Até se vive. Mas é necessário e divertido tentar pegar a nova onda e encontrar ouvintes, leitores, conexões.

Quem sabe um dia, em um futuro distante, um ser humano altamente especializado decifre, depois de muito esforço, os dez contos de Asfalto e, então, espalhe o conhecimento de que houve, em um passado remoto, um GPS, uma motocicleta, um quimono, uma vidente e um smoking apertado.

Esquentando a Balada Literária, no B_arco

7 de outubro de 2013

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Sábado, dia 5 de outubro, o Centro Cultural B_arco  mostrou um pouco da Balada Literária que acontece todo ano em São Paulo e está marcada para 20 a  24 de novembro. A Balada é realizada desde 2006   por Marcelino Freire.

Aqui está entrevista de Marcelino:  http://barco.art.br/marcelino-freire-fala-proxima-balada-literaria/

No sábado, tudo começou com o documentário  SP-Solo Pernambucano, de   Wilson Freire e Leandro Goddinho.

Já vi duas vezes o filme e veria muitas mais.  Quem escreve não pode deixar de ver. O jeito que Marcelino fala da literatura e das palavras e da poesia e da sua escrita faz com que a gente queira continuar traçando esse caminho da literatura.    E a gente fica conhecendo Sertania e Dona Maria do Carmo, mãe de Marcelino. E o mar de Recife.

Depois do filme, Marcelino chamou ao microfone escritores que lançaram livros recentemente ou que têm desenvolvido projetos literários.

Estiveram lá Lucimar Mutarelli, Renan Inquérito, Anna Zêpa, João Vereza, Sergio Mello, Sin Ha, Patricia Chmielewski Candido, Luis Rafael Monteiro e eu também, Paula Bajer Fernandes.

Cada um falou um pouco e leu poemas ou textos.

Lucimar falou de “Férias na prisão”, seu novo romance (Prumo). A fantasia da prisão ronda a maioria das pessoas e o livro mexe com essa sensação. É como está na orelha: “No entanto, dentro ou fora, estão todos aprisionados. Mesmo acompanhados, estão todos sós”.

Lucimar anunciou, também, o lançamento, em breve, de “Achados e perdidos”, livro que reúne contos de 13 escritoras: Concha Celestino, Cris Gonzalez, Deborah Dornellas, Eliana Castro, Fatima de Oliveira, Flávia Helena, Gabriela Colombo, Gabriela Fonseca, Izilda Bichara, Lucimar Mutarelli, Paula Bajer Fernandes, Regina Junqueira e Teresinha Theodoro

João Vereza, cujo ótimo livro de contos, “Noveleletas”, obteve 1º lugar no Prêmio Sesc 2012-2013 e foi publicado pela Record, falou sobre a repercussão do prêmio em sua vida.

Sérgio Mello leu poemas lindos. É autor de “Inimigo em testamento” (Soul Kitchen). Encontrei o book trailer no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=VQARSuE55Mc.

Renan é letrista de rap e deu um show. Contou um pouco de seu trabalho com os adolescentes na Fundação Casa. O livro de Renan, Poucas Palavras, é bem bacana.

Patricia (Japa Tratante) falou sobre criação de alternativas táteis de leitura. Em “De propósito” está: arte conceitual + poesia visual + intervenção urbana + alma + vida . Olha aqui: http://deproposito.com/about/

Luis falou sobre Boca Santa, literatura em estado vivo e bruto, como está na internet, aqui, em apresentação de Marcelino Freire: http://www.boca-santa.com/fala-marcelino.

Sin Ha recitou belos poemas de um jeito belo.

Conversei com Marcelino sobre meu “Viagem sentimental ao Japão” (Apicuri). Disse que a narrativa de Anette, querida personagem, tem a ver com o espanto de viajar e a dificuldade de conviver.

Tive ainda oportunidade de conhecer o livro lindo de Anna Zêpa, “Primeiro corte”. As páginas vêm com pontilhados de destaque, é poesia pra dividir. Anna diz: “Vamos praticar o desapego, hein?”

Transcrevo alguns, aqui:

palavras
são armas
difíceis de acreditar

alguém
me guarde
por favor

Não consigo dividir, Anna, desculpa.
Me apeguei.

Pauliceia Literária e Lêdo Ivo: reflexões em torno do enigma

20 de setembro de 2013

A Pauliceia Literária realizada pela AASP (Associação dos Advogados de São Paulo)  começou com êxito.

Na abertura, Manuel da Costa Pinto discorreu, de maneira muito articulada e inteligente,  sobre a literatura  de Patrícia Melo, a escritora  em foco do festival.

Depois, Patrícia subiu ao palco. Falou bem. Disse que não pode ser considerada, até o momento, escritora de romances policiais. Escreve sobre crimes, paixões humanas, mas isso não significa, tecnicamente,  que sua literatura seja policial. Seu próximo romance, porém, será.

Hoje, em O Estado de São Paulo, Raphael Montes, autor de Suicidas, romance muito comentado, diz: “Tento explorar o que me parece o futuro do romance policial: histórias mais ágeis, sem o detetive como personagem principal” ( Caderno 2, C3).

Os temas debatidos na Pauliceia Literária giram – não só – em torno da literatura que discute crime e justiça.

Leio  romances policiais, especialmente Agatha Christie, Patricia Cornwell, Lawrence Block e Raymond Chandler. Chandler é meu preferido. Neles, os investigadores são  céticos e ambíguos.

Os personagens me conduzem ao fim do livro. A solução do mistério não importa tanto. Se bem que, em Agatha Christie, a solução é importante, porque quase sempre inusitada. Mas, nos outros, quero saber  como Marlowe, Bernard Rhodenbarr, Scudder  e Scarpetta, terminarão. Torço por eles, assim como torço por mim.

Estou escrevendo um romance policial em que dois personagens pesquisam um homicídio.

Dr. Magreza  e Elvis,  escrivão inexperiente que o auxilia e acompanha, têm uma relação  de subordinação hierárquica irreverente.

O morto é Chef Lidu, dono de restaurante envolvido em tramas amorosas e alimentares. Ele também é um personagem interessante, embora póstumo.

Mudando um pouco de assunto, mas ainda no assunto, li “O aluno relapso – Afastem-se das hélices”, que a Editora Apicuri publicou recentemente, de Lêdo Ivo.

O livro reedita, com importante acréscimo (Afastem-se das hélices), livro publicado em 1991 por Nemar e Massao Ohno.

Em uma parte, Lêdo Ivo fala: “A função da literatura não é a de refletir a realidade,  sim a de criar uma realidade que só a linguagem tem condições de produzir. A literatura é a realidade da linguagem, e não a realidade da vida, que se exprime através de uma des-linguagem”. (p. 35).

Está no livro, ainda,  breve poema:

Mistério policial

A chave do enigma

Não decifra nada.

Abre para a porta

Sem ferrolho e chave.

Leva ao labirinto

Desenhado  na água.

 Escrevo tudo isso para dizer que, na literatura policial, é esse labirinto desenhado na água que me chama. Além dos detetives: insisto  neles. Eles têm aquela chave que não decifra nada e sabem disso.

A vida de verdade é outra história. A vida  de verdade está no campo da des-linguagem, como disse Lêdo Ivo (ou das hélices, penso eu).

 

 

 

 

 

 

 

Viagem sentimental ao Japão

9 de agosto de 2013

Viagem sentimental ao Japão

Importância do livro para registrar pensamento e arte

13 de maio de 2013

A Editora Apicuri publica duas coleções de livros que documentam e refletem  arte : Pensamento em Arte e Cosmocopa + Apicuri.

Jozias Benedicto, coordenador das Coleções Pensamento e Arte e Ficção, da Apicuri, também artista,  Hugo Houayek e Felipe Barbosa, autores de livros que registram e refletem arte contemporânea,  estiveram na Livraria Martins Fontes da Avenida Paulista em  11 de maio para conversar sobre “Livro: Registro e disseminação de Arte Contemporânea”.

A sinopse apresentada para o encontro é: “O livro ainda é um importante veículo para registro e disseminação de trabalhos de artistas contemporâneos. Duas iniciativas da Editora Apicuri em termos de livros de artista são as Coleções Pensamento em Arte, com ênfase em textos acadêmicos e de debates, e a Coleção Cosmocopa+Apicuri, que apresenta monografias sobre o trabalho de artistas. Hugo Houayek, editor da Coleção Pensamento em Arte, e Felipe Barbosa, curador e organizador da Coleção Cosmocopa+Apicuri, falaram sobre sua experiência com estas coleções, os trabalhos publicados e em projeto, e também de seus trabalhos como artistas e, no caso do Felipe, sua experiência como galerista”.

A Livraria Martins Fontes tem um auditório novo. A conversa aconteceu ali.  Felipe, Hugo e Jozias,  artistas que já estão no futuro, sabem que não há mais lugar para pensamentos e ideias setorizadas. Acreditam que arte, escrita e literatura estão entrelaçadas, assim como todas as formas de expressão.

Nós podemos transitar de um mundo a outro, fazemos parte de mundos diferentes, é permitido alterá-los, também. Nossas personalidades têm diversas faces, somos vários ao mesmo tempo, temos  liberdade de trocar de lugar e experimentar caminhos novos.

Pensei, durante a tarde: tudo é e pode, ao mesmo tempo, não ser. Podemos recusar exclusividade em   tribos que um dia escolhemos ou que nos foram impostas ou onde caímos por acaso. Queremos pertencer a outros grupos, também, e, quem sabe, um dia, as fronteiras fiquem diluídas. Isso pode acontecer. Acho que, com a crescente importância da imagem na comunicação, ficou mais fácil compreender diferenças. A arte tem essa possibilidade: mostra modos de ser sem juízo de valor.

Na conversa, muitos livros da Editora Apicuri foram expostos.

Felipe Barbosa mostrou dois livros: Estranha Economia, com muitas fotografias (Apicuri/Cosmocopa, 2012), registra seu trabalho. O livro traz, ainda, textos de Alvaro Seixas, Luciano Vinhosa e Sheila Cabo Geraldo. Outro livro de Felipe Barbosa: Matemática imperfeita (Apicuri/Cosmocopa). O livro também documenta seu trabalho.

Hugo Houayek é autor de Pintura como ato de fronteira: o confronto entre a pintura e o mundo (Apicuri, 2011).  O livro instiga nossas indagações mais sérias. Eu me pergunto, lendo: Porque as bailarinas de Degas me encantam? Porque adoro olhar Vermeer?

A Editora Apicuri, ao publicar esses e outros livros sobre arte e texto, arte e literatura, enfrenta os grandes temas do nosso tempo: o que nos encanta, hoje? O que nos preocupa? Como nos expressamos? Como transitamos de um lugar ao outro, de um pensamento a outro? Como saímos da imagem para o texto e do texto para a imagem? Como nos preservamos e modificamos, ao mesmo tempo? O registro do pensamento artístico possibilita continuidade e, ao mesmo tempo, mudança.

Em seu Estranha Economia, Felipe Barbosa expõe objetos comuns em  contexto diferente. Forma nova ordem, nova função, ou nada disso. Bolas, palitos de fósforo, garrafas de refrigerante, cédulas de dinheiro picado, suscitam, para quem olha as novas organizações estabelecidas,  interpretações que alargam o pensamento. Ele classifica suas coleções de um jeito peculiar. Faz desenhos geométricos com agrupamento de símbolos concretos da nossa vida: escada, bola de futebol, casa de cachorro, disco de vinil, tampa de garrafa. Dá até para fazer um poema com as palavras das coisas, assim como as imagens das mesmas coisas formam poemas.

Sou uma pessoa ligada, sempre, no texto. O livro, para mim, é muito importante, ajuda a compreender o que eu vejo. Quando vou a uma exposição, preciso do catálogo,  do livro escrito para a ocasião. Por isso  gostei tanto da conversa: todo mundo ali estava de acordo: o livro registra a arte para o futuro. A mesma arte que é, hoje, será vista amanhã, de um outro jeito.

Agora, escrevendo este texto, vendo as imagens dos livros, pensei no poema de Cecília Meireles, Ou isto ou aquilo. Tem uma estrofe assim: “Quem sobe nos ares não fica no chão, quem fica no chão não sobe nos ares”.

Tenho quase certeza. Hoje, ela quis dizer o contrário.

Sobre Carnebruta

23 de novembro de 2012

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As editoras Apicuri e Oito e meio acabam de lançar Carnebruta, de Rodrigo Novaes de Almeida. A capa é cor-de-rosa, mas o livro, de rosa, não tem nada.
Logo no início, está epígrafe de Milan Kundera: “sexo é violação”. Depois, na página seguinte, vem a dedicatória: “para Chris, com amor”.
E o livro é todo assim, a rosa misturada com dor e amor.
Começa com valete-de-espadas e termina com valete-de-espadas. Valete-de-espadas é o avatar, Joaquim Proença de Rara-Sana. Eu me identifico com a ideia do avatar. Depois, quase no fim do livro, Joaquim Proença de Rara-Santa aparece de novo. Aí, dá pra ficar sabendo mais.
Gostei muito do “Carnebruta”, que está nas páginas 38 e 39. Adorei esse conto. A linguagem, o [VOCÊ] aparecendo várias vezes, o conto na primeira pessoa do plural, é curto e leio várias vezes. Fico com a frase: “[VOCÊ] fuma um Marlboro vermelho na varanda da sala”.
“Adeus ao paraíso” remeteu-me às cidades invisíveis de Ítalo Calvino e aos lugares imaginários descritos por Alberto Manguel. Também pensei nas viagens de Gulliver. Nesse conto, as mulheres reinam. Sereias de Ulisses.
Mesmo nos contos mais violentos as mulheres prevalecem: as fantasias masculinas.
“Queima de arquivo” é muito bom, lida com o escrever do próprio conto, mostra a importância dos textos ocultos: “O leitor precisa ser informado, antes de prosseguirmos, de que a tal questão delicada não será esclarecida no decorrer desta história” (p. 57). Na vida real, também não se sabe tudo. Raramente as questões delicadas são esclarecidas.
Vale notar, por último, a edição caprichada. As ilustrações de Julia Debasse são bem bonitas e a diagramação deixa o texto aparecer.
Gostei. Gostei e vou ler outras vezes porque a cada leitura percebo o inusitado.
Rodrigo Novaes de Almeida estará na Primavera dos Livros, em São Paulo, em mesa do dia 24, sobre “Conflitos humanos e conflitos literários”. Integram a mesa, também, Juliano Garcia e Marcelo Mirisola. A programação está aqui:
http://libre.org.br/noticias.asp?ID=359


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