Archive for julho \29\UTC 2009

Lugares onde nunca estive

29 de julho de 2009

Embora já conheça a Escandinávia, boa parte da Europa, bastante do Brasil, nunca fui a alguns lugares meio óbvios e muito visitados. A Disney, em Orlando, Flórida, é um desses lugares. Tem gente que eu conheço que já foi até lá duas ou três vezes. Adultos amam a Disney. Ouço falar em parques temáticos, resorts de luxo, hotéis dentro e fora da Disney, aluguel de carros, gps nos veículos, castelo da Cinderela, jantar com o ursinho Pooh, Epcot, Sea World, Universal, montanhas russas de variadas formas e modelos,  como se tudo isso fosse uma coisa só e estivesse logo aqui na esquina.  E me pergunto como nunca fui lá. É que sempre achei caro, complicado e talvez  não merecido ir a um lugar onde a fantasia pudesse me desligar de minhas angústias tão comuns. Se eu for a lugares tão maravilhosos e sentir emoções tão fortes, o que mais poderei fazer? Aonde mais poderei ir? É bom deixar a Disney por último, para uma outra oportunidade, como uma estrela guia. Será isso? Pode ser que eu não tenha a menor vontade de conhecer a Disney e Orlando, pode ser que tudo aquilo me canse, que eu não goste de andar sob o sol escaldante e muito menos de ficar em filas, como ouvi dizer que ficam.  A verdade é: nunca fui à Disney. Também nunca fiz uma coisa que muita gente já fez: nunca esquiei. E nunca vi neve caindo. Já vi neve no chão, na Noruega e em Bariloche. Conheci Bariloche no verão e a paisagem é muito linda. Mas aquela coisa branca e fofa caindo eu não vi. Fui a um resort de neve quando não havia neve, na Noruega, e era como um clube no fim da festa, esquisito. Tenho essas duas frustrações, a de nunca ter visto neve e a de não ter visto a Disney. Talvez, mas só talvez, eu vá a Orlando ainda este ano. Agora a neve vou deixar guardada na imaginação,  porque pode ser que eu veja, e sinta muito frio.

Livros que nunca li

28 de julho de 2009

Os livros que não li são quase tão importantes quanto os livros que li. Há livros que quero ler logo, outros que sei que não lerei, mas que admiro de longe.  Um livro que quero ler e não tenho coragem é Ulysses, de Joyce. Não tenho coragem porque acho que é um pouco hermético e vou acabar não terminando. Quem sabe um dia…Outro que quero ler, está ao meu lado, já iniciei algumas vezes, é  O quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell. Posso começar hoje mesmo. Pastoral americana, de Philip Roth, é outro que está para ser iniciado há tempos. Já comprei duas vezes, sem querer, de tanto que quero ler. Seu rosto amanhã, de Javier Marías, tem uma das primeiras páginas mais lindas que já li. Parei nela e sonho em recomeçar. Um autor que não consigo ler é Rubem Fonseca. Sei que é excelente, mas não fico envolvida. Adoro policiais, no entanto, especialmente Chandler e Simenon.  Gosto de Patricia Cornwell. E não consigo ler Rubem Fonseca, embora tenha todos os  livros que escreveu.

A Fazenda Africana

28 de julho de 2009

Terminei de ler A fazenda africana, de Karen Blixen, em edição da Cosac Naify de capa dura (2005). Gostei tanto que demorei lendo, pra não acabar. Mas a última página chegou. Não leio outra vez porque não gosto de reler livros. Ainda não gosto. Parece que quando as pessoas ficam mais velhas começam a reler. Duvido que eu faça isso. Um livro lido é quase que uma página virada, reler é como voltar pra casa pra ver se o fogão ficou ligado ou pra pegar uma chave esquecida. Poderia comentar muitas passagens, especialmente aquelas em que a autora fala das pessoas de cultura diferente da dela com quem conviveu, ou as passagens em que o tempo é o personagem, o tempo lento em que muita coisa acontece, em que os relacionamentos se desenvolvem, as pessoas se conhecem. Silencio, no entanto, guardando a emoção da leitura pra mim. Os capítulos mais bonitos do livro são aqueles em que ela fala de Denys, de seus momentos juntos e sua morte. As passagens são curtas, delicadas e muito intensas. O livro me fez ter vontade de aprender a fazer tudo mais devagar, se for possível. Talvez um bom exercício fosse ler o livro outra vez.

Amós Oz

16 de julho de 2009

Houve uma época em que eu lia muito Amós Oz. É um escritor que me desconcerta, me sensibiliza tanto quanto Kenzaburo Oe. Mas faz tempo que não o leio e, tendo resolvido falar sobre meus livros, achei que deveria enfrentar o relato de Pantera no porão (Panter bamartef), de que tanto gostei há alguns anos. Li o livro e preciso consultá-lo outra vez para comentá-lo, porque aspectos objetivos da história me escapam. A sensação que o escrito me causou permanece íntegra, no entanto. Senti uma afinidade enorme com o narrador, Prófi, que teve uma conexão forte com um militar britânico em Jerusalém, antes da criação de Israel. Uma conexão forte pode ser aquela em que duas pessoas trocam conhecimentos, impressões e experiências em contexto de sinceridade. O relacionamento entre os dois não era bem compreendido na época em que se lutava para que a Grã-Bretanha deixasse Israel e o país ficasse independente e reconhecido perante a comunidade internacional. E Prófi foi chamado de traidor. E explicou que nunca sequer disse seu nome ao inglês: ”A única coisa que fiz foi ler a Bíblia com ele em hebraico e lhe ensinar algumas palavras modernas que não estão na Bíblia, e em troca ele me ajudou a aprender os rudimentos do inglês” (Companhia das Letras, 1999, p. 35). E então o livro trata da influência que o coletivo exerce sobre as pessoas, principalmente em épocas de silêncios e opressões. E o livro trata da linguagem, dos conceitos, e de livros. E trata da amizade e dos costumes rotineiros que todos nós temos, decorrentes do temperamento que nos leva, irremediavelmente, a ser aquilo que já poderia ter sido previsto, ou que era esperado. E pensei que o livro suscita as perguntas: O que faz com que um escritor torne-se, realmente, um escritor? O que o impulsiona a contar a história? Amós Oz enfrentaria o assunto da criação da história depois, em Rimas da vida e da morte, também publicado pela Companhia das Letras.

Jornalistas em entrevista

15 de julho de 2009

Por trás da entrevista, de Carla Mühlhaus, publicado pela Record em 2007, vale como retrato do jornalismo brasileiro. Mas não só isso. Reproduz boas conversas entre a autora e pessoas acostumadas a fazer as perguntas, e  não a respondê-las.  Na introdução,  explica-se a importância da entrevista, analisando-a no contexto da história do jornalismo e de seus modelos. Embora se possa ver, no trabalho, principalmente na introdução, que o discurso acadêmico está por ali, as entrevistas podem e devem ser lidas por quem se interessa pela conversa e pela comunicação sincera entre as pessoas. Jornalistas brasileiros de destaque são entrevistados sobre seu trabalho, sua formação, suas entrevistas. Ana Arruda, Artur Xexéo, Benicio Medeiros, Carlos Heitor Cony, Joaquim Ferreira dos Santos, Joel Silveira, José Castello, Paulo Roberto Pires, Sérgio Cabral e Zuenir Ventura falam no livro. Ouve-se Joel Silveira dizendo, no ano 2000, com 81 anos, que gosta de entrevistar a pessoa na casa dela, que o entrevistador deve saber tudo sobre a pessoa que vai entrevistar, que entrevistou Monteiro Lobato na casa dele e ele o recebeu de pijama, que Monteiro Lobato quis falar de política e não de literatura e, em 1944, a  publicação da conversa causou a ocupação da revista Diretrizes, dirigida por Samuel Wainer. José Castello conta a Carla que Clarice Lispector foi sua entrevistada mais marcante e que se recusou a falar com o gravador ligado: ela mesma trancou o gravador no armário. E fala que o jornalista não pode criticar o entrevistado, reprovar suas posturas. Carlos Heitor Cony diz que, na investigação policial, o jornalista não deve perguntar como promotor ou advogado de defesa, deve, apenas, mostrar a verdade. E há muito mais do que isso. As entrevistas são todas muito interessantes e fica-se com a impressão, depois de tê-las lido, de ter encontrado pessoalmente os jornalistas, de ter conversado com eles e compartilhado dos momentos relatados.Para quem gosta de entrevistas em geral, para quem as coleciona, inclusive, como eu, o livro reproduz as melhores, aquelas em que o diálogo é franco e sincero. Deve ser uma experiência curiosa, para um jornalista, ser entrevistado.

Philip Roth por David Remnick

13 de julho de 2009

O perfil de Philip Roth que David Remnick publicou na The New Yorker, que está no livro da Companhia das Letras intitulado Dentro da Floresta: Perfis e outros escritos da revista The New Yorker (2006-Coleção Jornalismo Literário coordenada por Matinas Suzuki Jr.), vai além da escrita. A leitura continua depois de terminada. Lê-se o que está ali, narrado por uma pessoa que parece muito próxima, e também tudo o mais que se puder enxergar e interpretar, dependendo do leitor. É um texto aberto. É aberto porque a obra de Roth suscita inúmeras constatações e indagações, porque os Estados unidos continuam a influenciar e a ter importância no mundo. Os personagens de Roth têm problemas maduros, sérios e decorrentes de um contexto político e social que não preserva os indivíduos: cada um que viva sua vida como puder, sem clemência. Fica-se sabendo, entre tramas lidas e contadas, que Roth veste-se “como um acadêmico do final dos anos 1950”, faz ginástica, caminha, mora sozinho, escreve o dia inteiro e, às vezes, à noite e quando mais quiser. Tornou-se estrela quando publicou O complexo de Portnoy, em 1969. O livro vendeu, no lançamento, mais de 400.000 exemplares. O protagonista, rapaz judeu que quer se libertar da família e ao mesmo tempo não consegue plenamente, tem cenas cômicas narradas em sessões de análise e revoltou a comunidade judaica. Os livros posteriores de Roth vêm fazendo muito sucesso. O perfil de Remnick fala de muita coisa, inclusive da profunda admiração de Roth por Saul Bellow, grande escritor americano com quem aprendeu a escrever, sem comiseração, sobre a geração que, depois da guerra, foi da Europa para a América. O aprendizado não captou o estilo, mas a liberdade de escrever. E é essa liberdade – ausência de medo- que faz um bom escritor, ou um escritor pelo menos razoável. Essa a mensagem do perfil de Philip Roth, se é que um perfil pode ter alguma mensagem.

Roland Barthes

13 de julho de 2009

A preparação do romance I e II, publicado pela Martins Fontes em 2005, reproduz cursos e seminários de Roland Barthes no Collège de France entre 1978 e 1980. A tradução é de Leyla Perrone-Moisés. O texto cativa porque informal, na linguagem oral, da aula, ou ainda na linguagem das notas preparatórias de uma aula. Barthes fala primeiro do querer escrever. Proust e Em busca do tempo perdido falam do desejo  de escrever. Refletindo sobre como se passa das notas ao romance propriamente dito, Barthes introduz, nas conversas, o haicai. O haicai é ato mínimo de enunciação e encanta ao não permitir análise alguma do que diz. Há um desejo de haicai. Entre um haicai e a narrativa existe uma forma intermediária:  a cena. E ele trata das formas breves, da frase, das anotações, para chegar ao romance, que mistura a verdade das anotações ao falso do imaginário. Para conseguir escrever um romance é preciso conseguir mentir, misturar o verdadeiro com o falso. O volume II disseca o ato de escrever e o ato de ler, indagando se é possível, enquanto se escreve, ler, também. Ler o livro de Roland Barthes é mergulhar na escrita (por meio de falas em aulas), procurando desvendar os mistérios da compulsão por escrever, a localização do assunto, o modo como ele  toma conta do escritos. Barthes usa Proust durante quase todo o tempo e o livro, nesta edição, termina com anotações para seminário sobre “Proust e a fotografia”, em que são analisadas fotografis de pessoas que inspiraram os personagens de Em busca do tempo perdido.

Italo Calvino

12 de julho de 2009

Hoje escrevo sobre  Assunto encerrado-Discursos sobre literatura e sociedade, de Italo Calvino (Companhia das Letras, 2009). Está dividido em capítulos que podem ser lidos separadamente.

Sintetizo, de Calvino, o escrito Para quem se escreve? (A prateleira hipotética). O texto foi publicado na Rinascita nº 46 de 24 de novembro de 1967. Ele responde às perguntas “para quem se escreve um romance?” e “para quem se escreve uma poesia?”. E seguem as respostas: “Escrevemos romances para um leitor que finalmente terá compreendido que já não deve  ler romances”. Ele diz que, embora se espere que os romances estejam adequados a uma determinada concepção de mundo, e possam ser colocados entre outros análogos em prateleiras, sua verdadeira função é despertar novas indagações, destruindo constatações.  Não é possível pressupor que o leitor seja menos culto que o escritor e deva ser ensinado, porque o paternalismo acentua desníveis culturais. Calvino diz ainda que a literatura tem peso político modesto e que a própria obra é território de luta e está em constante movimento.

Bom, posso sintetizar outro escrito de Calvino, do mesmo livro. Em 1967, ele proferiu conferência intitulada Cibernética e fantasmas (nota sobre a narrativa como processo combinatório).  O texto é muito interessante porque enfrenta a descontinuidade do discurso e do sujeito que o formula. Hoje, narrar não é só contar uma história, mas dizer que se conta uma história, transformando-se, o narrador, no próprio objeto do discurso, assumindo personalidades diferentes. A linguagem é desmontada. Surge o eu que escreve e o eu que está escrito. E Calvino afirma que o momento da vida literária é a leitura. O autor desaparece e a obra, julgada e comentada, vive e sobrevive. A máquina poderia, então, tendo aprendido as combinações possíveis, substituir o homem na escrita. A literatura é jogo combinatório. Só que a máquina poderia combinar e trocar elementos em um jogo, mas o impacto dessas trocas só repercute no homem e na sociedade, fantasmas ocultos na escrita. E a literatura pode confirmar ou questionar. Cabe ao leitor compreendê-la, independentemente da intenção do autor.


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