Jornalistas em entrevista

Por trás da entrevista, de Carla Mühlhaus, publicado pela Record em 2007, vale como retrato do jornalismo brasileiro. Mas não só isso. Reproduz boas conversas entre a autora e pessoas acostumadas a fazer as perguntas, e  não a respondê-las.  Na introdução,  explica-se a importância da entrevista, analisando-a no contexto da história do jornalismo e de seus modelos. Embora se possa ver, no trabalho, principalmente na introdução, que o discurso acadêmico está por ali, as entrevistas podem e devem ser lidas por quem se interessa pela conversa e pela comunicação sincera entre as pessoas. Jornalistas brasileiros de destaque são entrevistados sobre seu trabalho, sua formação, suas entrevistas. Ana Arruda, Artur Xexéo, Benicio Medeiros, Carlos Heitor Cony, Joaquim Ferreira dos Santos, Joel Silveira, José Castello, Paulo Roberto Pires, Sérgio Cabral e Zuenir Ventura falam no livro. Ouve-se Joel Silveira dizendo, no ano 2000, com 81 anos, que gosta de entrevistar a pessoa na casa dela, que o entrevistador deve saber tudo sobre a pessoa que vai entrevistar, que entrevistou Monteiro Lobato na casa dele e ele o recebeu de pijama, que Monteiro Lobato quis falar de política e não de literatura e, em 1944, a  publicação da conversa causou a ocupação da revista Diretrizes, dirigida por Samuel Wainer. José Castello conta a Carla que Clarice Lispector foi sua entrevistada mais marcante e que se recusou a falar com o gravador ligado: ela mesma trancou o gravador no armário. E fala que o jornalista não pode criticar o entrevistado, reprovar suas posturas. Carlos Heitor Cony diz que, na investigação policial, o jornalista não deve perguntar como promotor ou advogado de defesa, deve, apenas, mostrar a verdade. E há muito mais do que isso. As entrevistas são todas muito interessantes e fica-se com a impressão, depois de tê-las lido, de ter encontrado pessoalmente os jornalistas, de ter conversado com eles e compartilhado dos momentos relatados.Para quem gosta de entrevistas em geral, para quem as coleciona, inclusive, como eu, o livro reproduz as melhores, aquelas em que o diálogo é franco e sincero. Deve ser uma experiência curiosa, para um jornalista, ser entrevistado.

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