Archive for the ‘jornalismo’ Category

Perguntas de Clarice

1 de maio de 2017

 

 

“Entrevistas”, da Rocco (2007),  reúne diversas entrevistas que Clarice fez ao longo da vida com escritores, músicos, atores, pessoas da área esportiva. As entrevistas foram publicadas na Manchete, Fatos e Fotos,  Jornal do Brasil. As da Manchete foram reunidas no livro “De corpo inteiro”.

Clarice entrevistou Lygia Fagundes Telles, Jorge Amado, Antônio Callado, Pablo Neruda, Nélida Piñon, Tom Jobim, Chico Buarque, Elis Regina, e muitos outros.

As entrevistas me impressionaram pela natureza das perguntas. Perguntar é uma arte e  a maioria das perguntas não precisa ser respondida. Às vezes as respostas vão para outros caminhos, às vezes não dizem nada. Mas, com as entrevistas de Clarice, nada se perde, as perguntas sempre ficam.

Para Rubem Braga, Clarice pergunta: “É verdade que você amou muito? E que é que você mais queria na vida? Qual sua atitude diante da morte?” (p. 19).

Com Jorge Amado ela não poderia ter sido mais direta: “Você gostaria de escrever diferente ou está comprometido demais com o seu público?”. Ele respondeu que o compromisso dele era com o povo e o público é que tinha compromisso com ele.

Clarice perguntou a Nelson Rodrigues:“Você fala em reencarnação e em vidas passadas. Você é esotérico? Acredita em reencarnação?”. E pergunta, ao terminar:“Você gostou de me dar essa entrevista?” Resposta: “Gostei profundamente. O que conta na vida são os momentos confessionais”.

Uma das perguntas a Nélida Piñon é muito atual: “Você é feminista? O que é que reivindica para a mulher brasileira?”. Resposta: “O feminismo é uma consequência da minha condição de mulher. Quanto mais habilito-me a interpretar o mundo, melhor compreendo a necessidade de se conquistar uma identidade, que unicamente uma consciência ativa e alerta nos pode conferir. Sou naturalmente feminista, e aspiro para a mulher, independentemente desenvolvida, capaz de integrar-se ao centro das decisões, de que esteve sempre excluída, e ajudar a tornar possível e melhor a vida comunitária dos nossos tempos”.

Para a poeta Marly de Oliveira, Clarice pergunta: “Marly, para você, qual é a coisa mais importante do mundo?” Resposta: “Seria viver – e morrer -sem ter medo”

Não conheço a poeta Marly de Oliveira e vou pesquisar porque há uma parte de um poema  publicada na entrevista que me emocionou, o poema todo se chama O sangue na veia. Vou procurar esse poema inteiro porque  gostei dele.

A entrevista mais linda de Clarice, no meu sentir, é a que ela fez com Tom Jobim, a única em que as respostas vão além das perguntas (para mim). Dessa entrevista com Tom Jobim interessa uma resposta: “A morte não existe, Clarice. Tive uma (uma com agá: huma) experiência que me revelou isto. Assim como também não existe o eu e nem o euzinho e nem o euzão. Fora essa experiência que não vou contar, temo a morte vinte e quatro horas por dia. A morte do eu, eu te juro, Clarice, porque eu vi”.

 

Perfil de Dylan

6 de novembro de 2012

Bob Dylan – Blonde on Blonde

Em 1966, Bob Dylan sofreu acidente de motocicleta em Woodstock. Não se sabe bem, até hoje, se ele se machucou muito, pouco ou quase nada. Houve boatos em todos os sentidos. Seu empresário tinha marcado 64 shows nos Estados Unidos – que ele não fez. Voltou às turnês só em 1974. No meio tempo, participou do festival da Ilha de Wight em 1969 e do Concerto para Bangladesh em 1971. Há, na internet, em Dylanesco (http://dylanesco.com/drifters-escape-o-acidente-de-1966), informações bem completas sobre o acidente.
Bob Dylan era sempre muito pressionado, cobrado por ter adotado a guitarra elétrica e transformado, em rock, a música folk que o levara ao sucesso. Era cobrado por ser político, por negar a política, por falar o que pensava, por não falar nada. Não parecia se incomodar muito. Sempre fez a música que quis.
Na introdução ao livro Bob Dylan: The essencial interviews, (Wenner Books, New York, 2006), Jonathan Cott, editor, observa que a frase de Rimbaud, “I is another” (Je est un autre, ou Eu é um outro), define o músico. Quem acompanha a carreira de Dylan sabe que não há nada mais verdadeiro. Ele é, todo o tempo, ele mesmo, ele e outro, ele e eu, nós, você, todos. Sua identidade está sempre se desfazendo. Sua música desfragmenta o tempo.
Declarou, certa vez, ao repórter da Newsweek, David Gate, que não seria uma pessoa tangível, mas mutante: acordava um e dormia outro. Outra característica sua é a de não remoer equívocos: pensa sempre no que está por acontecer. Assume tudo o que faz, seja bom ou ruim. E é conhecido e reconhecido como gênio, visionário, poeta.
Embora as canções de Dylan sejam extremamente discursivas, longas, repletas de imagens complexas, até mesmo proféticas, não ensinam nada a ninguém. Muitas delas foram cantadas na defesa de direitos humanos, como “Masters of war”. Mas o músico sempre negou a militância explícita.
Ao receber o prêmio de direitos humanos Tom Paine em 13 de dezembro de 1963, Dylan fez declarações inusitadas. Disse que não pensava em política e que via algo dele mesmo em Lee Oswald, que matara o presidente Kennedy pouco tempo antes (No Direction Home, de Robert Shelton, p.287). Foi vaiado, o discurso foi considerado ultrajante e ele se ofereceu, inclusive, a devolver o prêmio. Explicou, depois, que não elogiara o assassinato de Kennedy, mas falara em Oswald como reflexo de uma época. E que simplesmente não queria fazer parte de organizações e grupos.
A relação de Bob Dylan com a imprensa sempre foi muito complicada. Ao não aceitar o papel de formador de opinião, deixou de responder assertivamente a perguntas de repórteres em diversas entrevistas. Era vago, irônico, ou sincero demais. Em uma das cenas do filme de Martin Scorcese (No Direction Home), ele mesmo retrata, com sua própria câmera, jornalistas que o fotografavam, invertendo papéis. Outra vez, em 1965, em entrevista coletiva em Los Angeles, disse: “Estou apenas tentando responder às suas perguntas como você é capaz de fazê-las” (Robert Shelton, No Direction Home, p. 400). Também: “Eu não preciso explicar meus sentimentos! Isso aqui não é um julgamento!” (p. 401). Definiu-se como um artista do entretenimento. E só.
Artista do entretenimento, sem dúvida. Mas também um músico que se renova sempre, distorcendo e recriando as próprias canções, como mostrou em recente show em São Paulo (2012). Algumas músicas pareceram outras. Mas ”Ballad of a thin man” e “Like a rolling stone”, cantadas por um outro Dylan, que tem voz mais grave do que quando as compôs, emocionam sempre e uma vez mais.
Seu último disco, Tempest, lançado em setembro, tem sido elogiado por fãs e críticos. O CD gerou certo debate sobre citações, nas canções, de frases do poeta Henry Timrod e do escritor japonês Junichi Saga, sem indicação da fonte. E, mais uma vez, Dylan polemizou: se não fosse ele, ninguém saberia da existência de Henry Timrod. E mais: na escrita das canções, importam ritmo e melodia: vale tudo.
Em tempos em que a comunicação é regida pela internet, debates em torno de direitos autorais são os mais acirrados. As declarações de Bob Dylan fazem pensar. Depois de 50 anos de carreira, acompanhando e adiantando-se a novos tempos, sendo, sempre, um outro, Dylan continua fazendo política. Querendo, ou não.

As memórias do Sr. Nabokov

24 de outubro de 2012

Tem vezes que a gente lê prosa e é como se lesse poesia. Não importa a história, a coerência do relato, importa o som que as palavras produzem no pensamento. E a gente imagina o que está sendo dito.
Isso aconteceu agora comigo quando folheava o livro de Nabokov, A pessoa em questão, da Companhia das Letras (1994). É mais ou menos uma autobiografia, sem compromisso de ser uma autobiografia. Em inglês, o título é Speak, memory. E é isso mesmo.
Quando a gente começa a lembrar o passado, surgem falas, penumbras, ventos, ondas emotivas. A certa altura, ele diz: “Confesso que não acredito muito no tempo. Gosto de dobrar meu tapete mágico, depois de usá-lo, de modo a superpor uma parte do desenho a outra. Os visitantes que tropecem” (p. 123). Ninguém tropeça. Pelo contrário. O leitor desliza devagar.
Encontrei, dentro do livro, uma resenha do próprio Nabokov de seu livro, publicada na Folha de São Paulo, no Mais, em 18 de abril de 1999. Ele fala das memórias como se escritas por outro, pelo Sr. Nabokov. É muito interessante. Diz, por exemplo: “Com a permissão do autor, menciono aqui um de meus contatos acidentais com sua família”. E também: “O Sr. Nabokov deve achar estranha essa rememoração das extravagâncias literárias dos anos de sua juventude”.
O jornal dentro do livro está amarelado, mas intacto.
Imaginei, imediatamente, meu querido sogro, Tomás, destacando a resenha do suplemento para encartá-la no livro de modo que eu a lesse mais de 12 anos depois, hoje, exatamente.
E assim as memórias de Nabokov encontraram as minhas.

Mangá no Paladar (O Estado de S.Paulo)

20 de setembro de 2012

A edição especial de aniversário do Paladar (estadao.com.br/paladar) publicada hoje está deliciosa: mangá, restaurantes japoneses, comidas típicas japonesas, vinho e cerveja. Tudo escrito e desenhado. Para ser lido de trás para frente, quando der.

Estou com o Japão na cabeça. Essa semana fui ao restaurante que mais adoro em São Paulo, o Sushi Guen (Brigadeiro Luiz Antonio, 2367) e, lá pelas duas da tarde, depois de preparar os mais maravilhosos sushis, sashimis, tirashis, o sushiman Mitsuaki Shimizu sentou-se no balcão e começou a ler uma revista japonesa linda e colorida: de trás para a frente.

Aí hoje eu vejo, no Paladar, elogio ao amendoim japonês empanado, que adoro. Segundo a matéria assinada por Neide Rigo (p. 6), bom é o amendoim japonês cozido, ainda desconhecido para mim, mas que vou tentar fazer (a receita está publicada).

A matéria sobre o Anthony Bourdain está muito divertida. Ele, Antony Bourdain, é divertido. Fiquei sabendo do Get Jiro, HQ dele e de Joel Rose, publicado pela Vertigo, que conta conflito entre o sushiman Jiro e um chef francês. Fiquei curiosa e procurei na internet: http://www.vertigocomics.com/graphic-novels/get-jiro.
E há muitas histórias sobre mangás e vinhos, cervejas, restaurantes, comida. E desenhos.

Nunca tinha ouvido falar do mangá As Gotas de Deus, de Tadashi Agi (na verdade os irmãos Yuko e Shin Kibayashi), mangá popular sobre vinhos publicado em oito países. Está na página 8, texto de Luiz Horta e Patrícia Ferraz: “A história é a da disputa entre dois jovens irmãos pela herança deixada pelo pai, Kanzaki Yutaka, um dos maiores e mais respeitados críticos de vinho do mundo: uma adega colossal”.

Um dos pratos típicos em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, é o sobá, macarrão artesanal de Okinawa, que tem uma culinária bem específica, mesmo no Japão. Eu já sabia que a culinária de Okinawa é destacada, e sabia, também, que em Campo Grande o sobá é tradicional.
Foi bom ler a notícia.

É isso. Só lendo o Paladar pra ver (http://blogs.estadao.com.br/paladar/)

Correspondentes de guerra

13 de junho de 2012

A Revista de Fotografia ZUM 2, editada pelo Instituto Moreira Salles, discute, entre outros assuntos, todos muito interessantes, jornalismo de guerra.

Em “A guerra conectada” (Balazs Gardi, Teru Kuwayama, Rita Leistner, Omar Mullick e Leão Serva, p. 32-49), as fotos no Afeganistão foram feitas com Iphone e aplicativo Hipstamatic. Os comentários são de Leão Serva. O projeto independente é o Basetrack,  formado por repórteres de guerra. Cotidiano dos soldados é registrado.

A matéria na Revista Zum 2 é sobre fotojornalismo, mídia independente, e não sobre guerra propriamente dita. As fotos mostram afegãos, fardas, pó, capacetes, crianças e tatuagens. Duas páginas inteiras trazem retratos de desenhos tatuados. Imaginam-se solidão, estranhamento, distância, diferenças. Ao lado de uma foto, está comentário da autora: “Os afegãos ainda encaram a fotografia com certa formalidade e posam de acordo. A reação dos americanos é quase oposta” (Rita Leistner, p. 41).

A revista é de fotografia e, assim, as imagens impressionam não só pelo que mostram e denunciam, mas pela estética realista e, ao mesmo tempo, distante.

O blog do Instituto Moreira Salles traz vídeo com conferência do repórter húngaro Balazs Gardi sobre jornalismo no Afeganistão e sobre o Basetrack. Ele fala com detalhes e muita sinceridade sobre transparência no jornalismo de guerra e limites à divulgação de imagens. Vale a pena ver o vídeo da conferência em que ele mostra cenas, barulhos e, também, o silêncio da guerra.

Balazs Gardi é húngaro, assim como Robert Capa, conhecido fotógrafo que retratou algumas guerras, inclusive a 2ª mundial, também era.

Em “Ligeiramente fora de foco” (Cosac Naify), Capa fala do fotojornalismo na guerra  com  simplicidade que só os grandes gênios e os grandes mestres alcançam.

A certa altura, ele diz: “No trem para Londres, com aqueles bem sucedidos rolos de filme, senti ódio de mim mesmo e de minha profissão. Esse tipo de fotografia era para agentes funerários, e eu não gostava de ser um deles. Se eu tinha de participar do funeral, jurei, teria de participar da procissão” (p. 65). E ainda: “Na manhã seguinte, depois de dormir com essa sensação, me senti melhor. Enquanto me barbeava, tive uma conversa comigo mesmo sobre a incompatibilidade de ser um repórter e ter uma alma sensível ao mesmo tempo. As fotos dos sujeitos sentados no campo de pouso sem as fotos deles feridos e mortos teriam dado a impressão errada. As fotos dos mortos e feridos é que iam mostrar às pessoas o aspecto real da guerra, e fiquei contente de ter feito aquele rolo de imagens antes de afrouxar” (p. 65).

Esses comentários foram pinçados aleatoriamente do livro entre tantos outros dizeres tocantes do fotógrafo. Está dito ali, na introdução, que Capa queria ser romancista. Escreveu romance com imagens reais.

Como disse o cineasta Errol Morris ao jornalista Lawrence Weschler em conversa publicada em “Crer para ver”, outro texto da excelente Zum 2 (p. 127), “as fotos fazem algo complicado. Elas descontextualizam as coisas. Arrancam imagens do mundo e, por isso, nos deixam livres para pensar o que quiser sobre elas”.

Arquivos e impressões

11 de dezembro de 2011

Essa semana  fui ao banco. A agência é pequena. Embora  haja diversos guichês, só um funcionário atende. É verdade que é um funcionário muito competente, digita rápido.

A fila andava depressa. O problema é que, quando eu estava quase lá, surgia um idoso para atendimento preferencial.

Aí ele atendia o idoso.

Isso aconteceu umas três vezes.

Fico quase querendo que meus dias de idosa cheguem rápido, para eu merecer um lugar melhor na fila do banco.

Não faltam tantos anos assim. Percebo isso quando abro o armário do escritório para organizar jornais que coleciono. Há  jornais da década de 80, da década de 90.

Vou jogar tudo fora, encontrar espaço para outras memórias. Aí vejo um caderno sobre idosos da Folha de São Paulo, publicado em 26 de setembro de 1999, dia em que, por coincidência, fiz anos-não direi quantos. O caderno está intitulado  “Mais velhos”. Naquele ano, o Brasil tinha 13,5 milhões de idosos. Previu-se que, em 2050, teria 56 milhões.

Está escrito, em um dos artigos, “idade não define a fronteira da velhice” (escrito por Marcelo Leite). O caderno traz inúmeras informações úteis, tenta nos convencer de que ficar velho não deve ser um problema.

Quero acreditar. Tenho preguiça de ler, tudo muito intenso e complicado. Dobro e fecho. Seleciono e coloco o jornal na pilha dos guardados. Em poucos anos será bem útil, eu chego lá. Descartarei outros.

Aí passo para outro caderno, dessa vez de O Estado de São Paulo, novembro de 1998. O jornal nem amarelou. O artigo fala de um livro sobre o bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, de Moacyr Andrade. Guardo ou não guardo? Será que eu me interesso pelo bairro em que Portinari teve um ateliê, em que Manuel Bandeira morou? Acho que sim. Guardados.

Olhando os jornais velhos, penso em como os títulos dos artigos são afirmações reducionistas pretensiosas e ao mesmo tempo fugidias.

Olha essa: “Rita Pavone lança autobiografia e volta ao teatro” (Caderno 2, O Estado de São Paulo, 28 de novembro de 1998).

Fico pensando em como Rita Pavone ousou estrelar a peça de Fellini, em como o jornal brasileiro deu tanta importância ao fato e na importância que eu, mera  leitora de jornais guardados, dou a essa matéria jornalística 13 anos depois. Descarto.

O problema não é dos jornais,  feitos para serem lidos e jogados fora no dia seguinte. É impossível guardá-los como se guardam livros. As manchetes são, mesmo, peremptórias, feitas para nos convencer de qualquer  coisa de maneira definitiva e ao mesmo tempo muito transitória.

Eu é que não deveria ter conservado  tantos jornais que agora hesito em jogar fora. Fiquei de ler ou usar depois as informações e não fiz nada. Guardei papéis  em sacolas de plástico. Agora Rita Pavone incomoda  minha lembrança de Giulietta Masina.

No meio de tanta confusão, encontrei um caderno da Folha de São Paulo de 6 de agosto de 1998, sobre “Biologia desenha a cara do século 21”.

Depois de assistir ao último Almodóvar,  mais avançado que o mais avançado dos cineastas,  sinto  que gostaria de me transformar em outra pessoa, não sei bem quem. Não faria tanta diferença.

Afinal, o que A pele que habito mostra é que não importam as transformações todas, continuamos com a mesma essência intangível, onde tudo é possível.

2011

19 de janeiro de 2011

Ano novo

Olhando a internet na página uol, vi chamada para os crimes da década. Qual a graça de recapitular os crimes da década? Chamar atenção daqueles caras que adoram os aspectos sórdidos da convivência. Só pode ser.
Hoje já vi retrospectiva melhor: os cds brasileiros da década. Los Hermanos, Mallu Magalhães, Nando Reis, e outros. Ouço muita música, mas do século passado: Bowie, Dylan, Arnaldo Antunes (50 anos, ele vai fazer), Secos e Molhados (comprei na banca de jornal), Egberto, Keith Jarrett. Qual a graça de lembrar os cds da época? Promover os cds, formar um retrato do gosto musical de um povo em um dado lugar e em certa época. Quem gosta do quê? As pessoas gostam do que gostam ou do que são induzidas a gostar? Quem induz quem a quê?
Agora na internet tinha outra retrospectiva: piores acidentes naturais da década.
No filme José e Pilar, um dizer de Saramago ficou na memória, ele disse mais ou menos que, em termos de comunidade, estamos péssimos. Não usou essas palavras, mas eu entendi assim o que ele disse.
Saramago me pareceu muito cético, ou lúcido. Sou pessimista, só que tenho irritante ingenuidade. Crio falsas esperanças de que as pessoas são boas e tenho a ilusão de nosso mundo está progredindo.
Aí resolvi começar a ler o Evangelho segundo Jesus Cristo, que eu guardo em um lugar nobre da estante sem ter lido, e estou encantada. Em espanhol diria, “me encanta el libro”. Saramago pode não ter acreditado em Deus, mas o texto dele é poderoso. Como a história de Cristo é triste…ficar pregado na cruz do jeito que ele ficou…(não cheguei nessa parte, mas já adianto minha aflição com essa parte da história que com certeza virá). A ressurreição dele não me surpreende tanto, a crucificação é que me espanta. Mas era uma forma de punição corriqueira, muito usada na época. Cristo foi julgado, condenado segundo regras jurídicas estabelecidas.
No fim, vamos todo para debaixo da terra e os cremados ficarão guardados em urnas ou voarão pelos ares, não sei o que é pior. Se ressuscitaremos ou não, já não posso dizer.
Vi uma série sobre a vida no dvd e fiquei impressionada com o esqueleto de um pinguim afundando no mar depois de trucidado por um animal gigante, não me lembro se uma baleia assassina ou um outro peixe grande.
Não sou muito de retrospectivas, vivo um dia a cada dia e a vida inteira e não classifico muito os acontecimentos, embora sinta necessidade, depois dos 40, de fazer listas e formar conjuntos.
Estou na praia agora, é dia 31 de janeiro, os fogos estão pipocando, assobiam antes de explodir e os cachorros têm medo. Por que as pessoas soltam fogos no fim do ano?
Pra terminar essa crônica de ano novo, quero contar que estou revendo Reds com Warren Beatty e Diane Keaton. O filme obteve um Oscar em 81. É de 81, mas entra na minha retrospectiva da última década. Algumas tomadas, alguns diálogos, ficaram um pouco datados. Não gosto das partes em que as pessoas do período (começo do século XX), mais velhas, narram impressões sobre o que aconteceu, elas estão enrugadas, fica esquisito. Documentário americano é um pouco assim, eles colocam pessoas narrando ou contando histórias anos depois. Pesquisando, vi que Warren Beatty começou as entrevistas em 1970. As entrevistas são consideradas ponto alto do filme. Não gosto, prefiro entrar no romance. Tirando isso, o filme é bom também porque tem como personagem Eugene O’Neill (Jack Nicholson), além de Louise e Jack, sempre tentando escrever da melhor forma. Ele dizia a ela que o texto precisa tirar o fôlego do leitor.
John Reed é um dos personagens que eu admiro. Eu queria escrever como ele escrevia, com vida. O texto dele é esperto e colorido. Ele acredita naquele texto dele.
Minha proposta para 2011 é acreditar no meu texto e ouvir um disco por dia, todo dia, porque a música desperta a alma. Existe a alma? Tive uma dúvida, agora, mas é claro que existe.

Três livros e suas ideias infinitas

29 de abril de 2010

Arrumando livros espalhados pela casa, encontro alguns bem interessantes e escondidos:
1)- Preso por trocadilho: a imprensa de narrativa irreverente paulistana de 1900 a 1911, de Paula Ester Janovitch (São Paulo, Alameda, 2006). O livro fala de publicações bem humoradas que se multiplicaram em São Paulo no final do século XIX. Os desenhos que ilustravam as revistas, os pequenos jornais, eram engraçados, caricatos. Havia O Pirralho, A Ronda, Cabrião, A Farpa, O Micróbio. A imprensa aperfeiçoava-se por meio de periódicos ágeis, irônicos, críticos. Pesquisando imagens, descobri esse blog legal. que fala bastante de Angelo Agostini e o Cabrião: http://patadoguaxinim.blogspot.com/2009_10_01_archive.html;
2)- As dez maiores descobertas da medicina, de Meyer Friedman e Gerald W. Friedland (São Paulo, Companhia das Letras, 2006). Drauzio Varella apresentou e fez revisão técnica do texto. Lembro aqui algumas descobertas: Circulação do sangue, bactérias, anestesia cirúrgica,antibióticos, o DNA. Os capítulos explicam detalhadamente os caminhos para as descobertas e, no fim, o autor diz: “Seria fascinante saber quais serão as próximas dez maiores descobertas…”;
3)- O cão sem plumas, de João Cabral de Melo Neto (Rio de Janeiro, Objetiva -Alfaguara-2007). Leio ao acaso a primeira estrofe de A bailarina: “A bailarina feita de borracha e pássaro dança no pavimento anterior do sonho”. O poema tem quatro estrofes com quatro versos cada. O livro inclui Paisagem do Capibaribe, estruturado em parágrafos. É lindo. Gostaria de saber de cor. “O que vive incomoda de vida o silêncio, o sono, o corpo que sonhou cortar-se roupas de nuvens”.

Ficção e folhetins e imprensa e internet

15 de setembro de 2009

Estou lendo muitos livros ao mesmo tempo, mas o principal é Justine (Quarteto de Alexandria, Lawrence Durrell). Há outros circundantes, como os policiais de Lawrence Block e os livros de ideias, histórias, relatos, ensaios, reflexões. Gosto sempre de escrever sobre eles porque não me emocionam, mas me instigam, me fazem trocar ideias de lugar. Já disse isso. Poderia escrever sobre Justine e sua personalidade volátil, sobre Justine e sua insegurança adolescente, sobre Justine e o feitiço, sobre Alexandria e magia, sobre o escritor que realiza a história que escreve.

Escritores  gostam de ser, eles mesmos, os personagens da narrativa no contexto da própria escrita. O narrador é o personagem. Será isso? A história dentro da história? Proust e o desejo de escrever de seu narrador encontram-se com meu desejo de escrever que some enquanto se realiza, como o chocolate derretendo na boca. A angústia de tentar escrever algo completo é imensa.

Mudando para alguma coisa mais concreta, digo que gosto muito de ler estudos sobre jornalismo e relatos de jornalistas. Os relatos de correspondentes estrangeiros me encantam, como se diria em espanhol. Leio desde John Reed na Rússia até Michael Herr no Vietnã, até Lourival Sant’Anna no Afeganistão, e mais. E também passo pelo jornalismo em folhetins. Encontrei um livro interessante guardado na estante: “Imprensa e ficção no século XIX: Edgar Allan Poe e a narrativa de Arthur Gordon Pym” (Unesp, 1996). É sobre o romance publicado em folhetim. É um texto acadêmico, então um pouco hermético. Porém, o autor preocupa-se em sintetizar as ideias expostas, facilitando a leitura de quem quer conhecer sem necessariamente estudar. E enumera técnicas de construção da narrativa ficcional nos folhetins. E ressalto as mais interessantes: 1)- Títulos atraentes; 2)- Inícios de histórias sensacionalistas; 3)- Muitos diálogos; 4)- Intriga (tensão e distensão); 5)- Acaso; 6)- Herói e heroína  simplificados; 6)- Vilões satânicos; 7)- Finais inconsistentes (p. 44, 45).

A narrativa de Arthur Gordon Pym, de Poe, foi publicada em 1837. As duas primeiras partes foram publicadas na revista Southern Literary Messenger (janeiro e fevereiro de 1837). Depois Poe terminou a história e a publicou em livro. José Alcides Ribeiro analisa o texto de Poe em detalhes, dissecando personagens e suas ações.  E depois expõe  reflexões conclusivas (Capítulo 5, Parte 2). Arthur G. Pym é o autor fictício do romance. Mas há três autores. O outro narrador é anônimo e o terceiro é o próprio Edgar Allan Poe. Criam-se, assim, diversas possibilidades de leitura. Poe escreve para a imprensa periódica e a específica maneira de publicar influencia a criação literária.

Atualizando a discussão, reflito eu que a publicação na internet, a fluidez na leitura de textos em diferentes meios (livros, jornais, revistas, blogs, sítios específicos), a comunicação rápida e volátil de ideias, contribuem para uma produção escrita curta, cifrada,  que muitas vezes só pode ser bem compreendida e digerida por quem também participa e compartilha dos mesmos processos de comunicação. Mas sempre haverá clássicos, aqueles que ultrapassam os limites e as regras estabelecidas pela comunidade.

Sobre Goleiros

6 de agosto de 2009

Peguei  na estante o livro “Goleiros: herois e anti-herois da camisa 1″, do jornalista Paulo Guilherme, publicado pela Alameda em 2006. O livro fala sobre a função do goleiro no time, sobre as dificuldades do goleiro no jogo e conta muita coisa sobre os muitos goleiros na história do futebol. Che Guevara gostava de jogar na posição de goleiro,  era um goleiro barulhento e provocador (p. 20).

Quando o futebol foi criado, em 1863, não previa a posição do goleiro, que só apareceu em 1871. E o livro relata, com bom humor   e estilo – lembrando inclusive o fato de que uma revista francesa achou as pernas de Leão as mais belas do futebol mundial- a história do jogo no Brasil, falando de todos os nossos goleiros, das partidas e dos frangos, já que ” todo goleiro consagrado tem seu frango guardado no fundo da gaveta da memória” (p. 195).

O livro traz fotografias bonitas e coloridas, relação de todos os goleiros da seleção e curiosidades como médias de gols sofridos, vitórias. Taffarel foi o goleiro que mais vezes jogou pela seleção, foi o que mais tempo ficou sem levar gols. Leão foi o que ficou mais tempo sem levar gols em copas do mundo, e assim vai.

Eu gosto desse livro, embora não goste de assistir futebol na tv. Mas gosto de assistir aqueles programas na hora do almoço e de madrugada, em que comentaristas analisam passes, jogadas, política do futebol. É um assunto e tanto, move todo mundo.