Archive for the ‘Perfil’ Category

Perfil de Dylan

6 de novembro de 2012

Bob Dylan – Blonde on Blonde

Em 1966, Bob Dylan sofreu acidente de motocicleta em Woodstock. Não se sabe bem, até hoje, se ele se machucou muito, pouco ou quase nada. Houve boatos em todos os sentidos. Seu empresário tinha marcado 64 shows nos Estados Unidos – que ele não fez. Voltou às turnês só em 1974. No meio tempo, participou do festival da Ilha de Wight em 1969 e do Concerto para Bangladesh em 1971. Há, na internet, em Dylanesco (http://dylanesco.com/drifters-escape-o-acidente-de-1966), informações bem completas sobre o acidente.
Bob Dylan era sempre muito pressionado, cobrado por ter adotado a guitarra elétrica e transformado, em rock, a música folk que o levara ao sucesso. Era cobrado por ser político, por negar a política, por falar o que pensava, por não falar nada. Não parecia se incomodar muito. Sempre fez a música que quis.
Na introdução ao livro Bob Dylan: The essencial interviews, (Wenner Books, New York, 2006), Jonathan Cott, editor, observa que a frase de Rimbaud, “I is another” (Je est un autre, ou Eu é um outro), define o músico. Quem acompanha a carreira de Dylan sabe que não há nada mais verdadeiro. Ele é, todo o tempo, ele mesmo, ele e outro, ele e eu, nós, você, todos. Sua identidade está sempre se desfazendo. Sua música desfragmenta o tempo.
Declarou, certa vez, ao repórter da Newsweek, David Gate, que não seria uma pessoa tangível, mas mutante: acordava um e dormia outro. Outra característica sua é a de não remoer equívocos: pensa sempre no que está por acontecer. Assume tudo o que faz, seja bom ou ruim. E é conhecido e reconhecido como gênio, visionário, poeta.
Embora as canções de Dylan sejam extremamente discursivas, longas, repletas de imagens complexas, até mesmo proféticas, não ensinam nada a ninguém. Muitas delas foram cantadas na defesa de direitos humanos, como “Masters of war”. Mas o músico sempre negou a militância explícita.
Ao receber o prêmio de direitos humanos Tom Paine em 13 de dezembro de 1963, Dylan fez declarações inusitadas. Disse que não pensava em política e que via algo dele mesmo em Lee Oswald, que matara o presidente Kennedy pouco tempo antes (No Direction Home, de Robert Shelton, p.287). Foi vaiado, o discurso foi considerado ultrajante e ele se ofereceu, inclusive, a devolver o prêmio. Explicou, depois, que não elogiara o assassinato de Kennedy, mas falara em Oswald como reflexo de uma época. E que simplesmente não queria fazer parte de organizações e grupos.
A relação de Bob Dylan com a imprensa sempre foi muito complicada. Ao não aceitar o papel de formador de opinião, deixou de responder assertivamente a perguntas de repórteres em diversas entrevistas. Era vago, irônico, ou sincero demais. Em uma das cenas do filme de Martin Scorcese (No Direction Home), ele mesmo retrata, com sua própria câmera, jornalistas que o fotografavam, invertendo papéis. Outra vez, em 1965, em entrevista coletiva em Los Angeles, disse: “Estou apenas tentando responder às suas perguntas como você é capaz de fazê-las” (Robert Shelton, No Direction Home, p. 400). Também: “Eu não preciso explicar meus sentimentos! Isso aqui não é um julgamento!” (p. 401). Definiu-se como um artista do entretenimento. E só.
Artista do entretenimento, sem dúvida. Mas também um músico que se renova sempre, distorcendo e recriando as próprias canções, como mostrou em recente show em São Paulo (2012). Algumas músicas pareceram outras. Mas ”Ballad of a thin man” e “Like a rolling stone”, cantadas por um outro Dylan, que tem voz mais grave do que quando as compôs, emocionam sempre e uma vez mais.
Seu último disco, Tempest, lançado em setembro, tem sido elogiado por fãs e críticos. O CD gerou certo debate sobre citações, nas canções, de frases do poeta Henry Timrod e do escritor japonês Junichi Saga, sem indicação da fonte. E, mais uma vez, Dylan polemizou: se não fosse ele, ninguém saberia da existência de Henry Timrod. E mais: na escrita das canções, importam ritmo e melodia: vale tudo.
Em tempos em que a comunicação é regida pela internet, debates em torno de direitos autorais são os mais acirrados. As declarações de Bob Dylan fazem pensar. Depois de 50 anos de carreira, acompanhando e adiantando-se a novos tempos, sendo, sempre, um outro, Dylan continua fazendo política. Querendo, ou não.

Perfil de Ana

17 de outubro de 2012

Com 38 anos, a vida de Ana Maria Babette Bajer Fernandes estaria apenas começando. Mas foi aí que a morte chegou, de surpresa: o coração parou sem aviso prévio.
Deixou tese de pós-graduação em direito penal por terminar, uma mãe aflita, um marido triste, três filhos meio perdidos e muito mais.
Nasceu em São Paulo, no dia 26 de dezembro de 1941, logo depois do Natal. Morreu em Santos, em 18 de março de 1980.
O pai era alemão e a mãe filha de italianos, combinação que, na época da 2ª guerra, não era das mais admiradas na sociedade. E, além de tudo, os pais tinham temperamentos muito diferentes, o que talvez dificultasse um pouco as coisas para ela. Criada à moda europeia, sem luxo, mas com incentivo ao estudo e à leitura, viajou muito pouco, não saiu do Brasil. Ana Maria nunca foi à Europa.
Estudou em colégio de freiras. Tornou-se perfeccionista em uma infância atormentada pela asma e pela necessidade diária de vencer uma timidez insuportável. Mesmo assim, teve aulas de declamação, francês, etiqueta, bordado, teatro. O bordado deveria ser perfeito: um bom bordado se conhece pelo avesso, dizia. Por isso os lençóis de linho do enxoval ainda são os mais belos.
Casou-se muito cedo, aos 18 anos, com advogado igualmente moço, que só queria a especialidade criminal. E a vida foi um pouco difícil até que ele se estabelecesse, anos depois. Logo vieram filhos. Ana Maria teve o privilégio de ter duas filhas nascidas no mesmo dia, com intervalo de dois anos exatos, em 62 e em 64. Concebidas na noite de Natal. Ou do aniversário?
Embora o casal tivesse um apartamento dado pelo pai de Ana Maria, as despesas eram pagas sem regularidade ou constância, já que advogado criminal às vezes ganha bem, às vezes ganha mal; e a programação de receitas e despesas não era o forte do marido de Ana Maria. Nem dela, que gostava de viver com perfeição.
Era uma mãe exigente que sabia ser flexível, também. Os filhos podiam fazer quase tudo, menos mentir, furtar e fazer fofoca. Mas eles sempre gostaram de ficar por perto.
Na década de 70, Ana Maria quis cursar a Faculdade de Direito. Entrou em primeiro lugar. Tirou 10 em quase todas as provas, todos os anos. Um mês antes da semana dos exames, trancava-se no quarto para estudar. Terminado o curso, logo entrou para o pós-graduação, em São Paulo, no Largo de São Francisco. Subia a serra duas vezes por semana, com o marido, que ficava esperando a aula terminar no corredor. Tirou conceito A em todas as disciplinas. Formada, tornou-se professora na Faculdade de Direito de Santos.
A dissertação, iniciada no fim da década de 70, era sobre tortura, tema que desafiava a ditadura ainda remanescente. Mas Ana Maria nunca teve receio. Se teve, não falou. Tinha medo de tirar nota baixa, de não concluir as pesquisas necessárias, de fazer um trabalho imperfeito, menos rigoroso – passava horas semanais em bibliotecas anotando referências e citações em cadernos e blocos. Não parecia ter medo de repressão. O desafio de fazer algo grandioso era maior. Sua mãe contava que, quando criança, teve uma febre muito forte e gritava “eu sou de vida ou de morte!”.
Ana Maria gostava de cinema. Adorava os filmes de Lina Wertmüller: “Por um destino insólito”, “Mimi, o Metalúrgico”, “Pasqualino Sete Belezas”, todos com Giancalo Giannini. Assistiu Regina Duarte em Réveillon. Gostava de ir a concertos, de ver as mãos do pianista e não seu rosto. Essa era uma dúvida que tinha. Era melhor ver as mãos ou o rosto? Antes de começar a faculdade, gostava de cozinhar e cozinhava muito bem. Depois, parou. Mas continuou a colecionar receitas elaboradas que eram executadas por auxiliares domésticas dedicadas. Colecionava fascículos de revistas de arte, também. E de moda. Tinha vontade de fazer coisas diferentes: na última festa de ano novo, aboliu o peru e a farofa. Serviu coquetel de camarão e camafeus. Gostava de Nhá Benta e curau. E de carpano, uma bebida um pouco amarga.
Depois que morreu, seu nome virou nome de escola municipal na cidade de Praia Grande: Escola Municipal Dra. Ana Maria Babette Bajer Fernandes. A escola é grande, foi ampliada. É uma escola pública muito boa, reconhecida na comunidade. E o marido de Ana Maria terminou e publicou sua dissertação em 1982. O livro tem o nome “Aspectos jurídico-penais da tortura”.
É um clássico, o primeiro livro jurídico que enfrentou a violência estatal no Brasil. Talvez Ana Maria tivesse terminado a tese de outra forma. Nunca se sabe. Mas o livro ficou muito bom do jeito que está. Está aí. É o primeiro livro sobre tortura.


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