Seis lugares da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco

O primeiro lugar: o túmulo de Julio Frank.

Dava para entrar ali ou não dava. Ele tinha sido da Bucha. E  o que era a Bucha? Existia, não existia, algum professor teria participado da sociedade secreta?

Sempre passei meio rápido pelo  túmulo, logo à esquerda da entrada,  nunca acreditei que debaixo do cimento houvesse algo que tivesse sido o senhor Julio Frank.

O segundo lugar: o elevador dos professores. Apertado. O primeiro elevador à esquerda. Pequeno, de grades formando losangos. Os professores desciam e subiam por aquele elevador minúsculo. Uma ou duas vezes peguei  carona, constrangida. Fizeram-me extrema deferência, não me lembro bem o mestre que autorizou minha entrada. Lembro, mas não vou contar.

Terceiro lugar: a escada. Quarto degrau. Ali sentei-me com muitas e muitos amigos, li, conversei, esperei a chuva passar, fiquei olhando o pátio. Tenho fotografias com Lúcia, Cláudia, Lilian, Lili, Hajnal, Tereza.

Quarto lugar: o Departamento Feminino. Que faculdade do mundo pode ter um lugar só para mulheres descansarem, fazer tricô, cochilar? A minha faculdade tinha e eu gostava disso. Gostava de me sentar nos sofás de couro e  ficar livre dos olhares masculinos, gostava de fechar um os olhos. Hoje em dia espaços exclusivos para as mulheres voltaram a ser necessários para amamentação, para qualquer outra privacidade feminina. Na época eu gostava de ficar quieta ali no DF.

Quinto lugar: o salão nobre. Já me sentei em uma pequena mesa em frente à mesa maior, um degrau abaixo, defendendo a tese de doutorado sobre igualdade no direito processual penal brasileiro. Estar no salão nobre é sempre uma honra, em qualquer situação, em qualquer de suas posições. Na plateia estive bem mais de uma vez.

Sexto lugar: Sala de aula da turma de penal, quinto ano. Somos da Turma de 1985, antes da Carta de 1988. Presenciamos a Constituinte logo depois de formados.

Tivemos aula com o Professor Manoel Pedro Pimentel, um dos idealizadores da Reforma Penal de 1984, que eu admirava demais. Ele escreveu textos muito claros que   eu sabia quase   de cor. Usava óculos com lentes escuras em aula, e andava de lá para cá no tablado explicando a diferença entre erro de tipo, erro de fato e erro sobre a ilicitude do fato. Eu compreendi muitíssimo bem essa diferença e até hoje é o que mais sei em direito penal.

Minha última lembrança feliz do Largo de São Francisco é do lado de fora, no ano de 2018. Era de noite, e estavam passando um filme na parede da praça em frente, “A paixão de Joana D’Arc”, de Dreyer.

Encontro agora o filme no YouTube e assisto perguntarem a Joana no julgamento: Jura dizer a verdade, nada mais que a verdade? E ela diz: sim.

Todo mundo sabe o lugar em que Joana D’Arc termina: a fogueira.

Mesmo com a fogueira o filme é muito lindo, assim como a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.

Texto publicado em “Não sei se é fato ou se é fita…Memórias da Turma de 1985, São Paulo, Max Limonad, 2022, coordenação Cristina Mastrobuono

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