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Na Patagônia

20 de janeiro de 2011

Agora alguns dias se passaram e 2011 começou. Estou na Patagônia, Argentina, em uma cidade chamada El Chalten. Se você não for esportista radical, não passe a noite aqui. Mesmo as caminhadas mais fáceis acontecem no vento. Não sei se é assim sempre, ou se os guias não nos deram atenção, mas ficamos perdidos no meio do nada. Fizemos um passeio de barco até o Glaciar Vedma e ainda não vimos o Perito Moreno, que está em El Calafate. Valeu, o Vedma é poderoso. Mas as outras horas no quarto do hotel são desoladoras. Aqui não tem celular e a internet é muito lenta.
O pior é que li na internet que um alpinista brasileiro importante morreu ao descer o Fitz Roy, pico relevante. E ninguém fala nada, não se comenta o episódio. Para eles é um episódio, eles sabem que o lugar é difícil e quem se aventura conhece o risco. E o corpo dele não foi recuperado porque não podem arriscar mais vidas no salvamento, parece. E, provavelmente, ou certamente, ele morreu. Estou aqui onde aconteceu essa tragédia e é como se nada tivesse acontecido. O vento leva tudo.
E agora cheguei em São Paulo. Demorei, mas cheguei em casa. Vi Perito Moreno, El Calafate, Buenos Aires outra vez, tudo isso. Em 11 dias estive em 5 ou 6 cidades da Argentina, fui ao fim do mundo, ao Canal de Beagle, vi pinguins, leões, elefantes, lobos, todos marinhos, animais desconhecidos para mim (guanacos) e coelhos, até. Vi gelo, muito gelo.
Ficou a impressão de que não dá pra chegar muito perto de nada porque a natureza engole a gente. Gelo e bicho; pouca gente, mas do mundo todo. Se tivesse ido ao Rio de Janeiro, mais perto, teria passado maus momentos. Em São Paulo mesmo uma enchente poderia ter me surpreendido. Mas aqui estou, procurando o livro sobre Darwin e a viagem no Beagle. Preciso desse livro.
Nós navegamos no Canal de Beagle, em Ushuaia; mas Ushuaia merece uma narrativa singular, ficou bem destacada na nossa viagem.
Voltando à Patagônia – esse é nome é tão esquisito -, a viagem no momento em que acontece é um pouco cansativa, porque a gente anda, anda (de van, ônibus ou avião) e vê as paisagens por algumas horas e depois anda outra vez…É tão longe tudo que não dá pra conviver direito com as pessoas ou com as paisagens, é só ir, comer e ver, ir, comer e ver. E beber vinho.
Viagens são intervalos nos nossos cenários e vivemos por um tempo possibilidades de uma nova vida, de uma vida diferente, em outro contexto. É bom que as viagens provoquem mudanças, mas isso nem sempre acontece, pois algumas vezes ficamos impermeáveis às transformações. Tenho a sorte de ficar perplexa, de não me envolver muito e de me assustar. Aí, depois, estudo para compreender. Compro livros em viagens e livros depois das viagens, sobre as viagens. Antes, não. Gosto de chegar no lugar sabendo muito pouco, o essencial.
Visitamos um museu de dinossauros em uma cidade chamada Trelew, perto do aeroporto em Trelew, perto de Puerto Madryn, cidade onde se hospeda quando se quer visitar a Peninsula Valdés (aliás, um hotel muito bom em Puerto Madryn é o Território; moderno, com chão de cimento queimado, colunas de concreto, tem uma decoração que acolhe e ao mesmo tempo é sóbria, principalmente na sala de estar). No Museu Paleontológico Egidio Feruglio há esqueletos originais de dinossauros e outros achados de antes de tudo.
Essa região tem forte influência galesa, por isso os nomes das cidades são diferentes do espanhol, não se sabe nem pronunciar. Mas Trelew é Trelew mesmo, o w tem som de u e não se pronuncia, lá, com acento inglês. É bom lembrar que o galês é bem diferente do inglês, também. E nessa região, principalmente em uma cidade pequena chamada Gaiman, há inúmeras casas de chá. Uma delas teria sido visitada por Lady Dy em 1995, mas não fomos lá. Fomos a uma outra, onde comemos pães com queijo e manteiga e bolos diversos. Devo ser sincera e dizer que os bolos não estavam muito bons. Embora os guias de viagem enalteçam as casas de chá, elas bucólicas e voltadas para turistas. A gente se sente meio enganado quando sai de lá, sem razão, porque o que é prometido é servido. Mas, mesmo assim, a fantasia do chá não se concretiza.
Vimos pinturas rupestres em El Calafate (Punta Walichu). Ficam perto do Lago Argentino, o 3º maior lago da América Latina, verde esmeralda. Mas não são tão nítidas como as que vi na Chapada Diamantina, e algumas rochas receberam inscrições entre 1940 e 1950, foram rabiscadas. E o curioso é que algumas pinturas são reproduções de outras mais inacessíveis, de outros lugares. Optaram pelas reproduções exatas para que os visitantes possam ter uma idéia de tudo. Não tirei fotografias das reproduções, só das originais.
Ainda falta falar sobre o Glaciar Perito Moreno (nem falei dos pingüins e dos elefantes marinhos, meus preferidos). De El Calafate, vai-se até ele de carro ou ônibus, em excursão programada, talvez. Fomos com um grupo da agência All Patagonia. O guia era um apaixonado pelo glaciar e já o tinha visto à noite, de manhã cedo, em vários momentos e de várias formas.
Chega-se até o Glaciar e há ali uma enorme lanchonete, um tipo de restaurante popular onde as filas andam rápido e os visitantes falam diversas línguas. As pessoas são do mundo inteiro. Embora, àquela altura, já se tenha tido um vislumbre da geleira na estrada, caminhar até perto dela pelas escadarias de metal e madeira é necessário.
E aí a gente vê que aquele gelo todo deve ter vindo de outro lugar, não da terra. Pode ser uma amostra do mundo extraterrestre. É uma miragem, um grande quadro emoldurado, não sei. Mas dá um pouco de medo, a qualquer momento aquilo tudo pode derreter e se transformar em um tsunami? E depois a gente entra no ônibus e quem quiser faz um passeio de barco até mais perto dele. Eu já tinha feito o passeio até perto do Glaciar Vedma. É frio, parece que um iceberg vai surgir como um submarino (é assim que eles surgem, disseram, como um submarino).
É impressionante e precisa ser visto pelo menos uma vez na vida, assim como se deve ver o mar.
Encontrei na internet este artigo interessante sobre Perito Moreno (a pessoa, não o Glaciar):
http://www.usp.br/ran/ojs/index.php/angelusnovus/article/viewFile/13/pdf_5

2011

19 de janeiro de 2011

Ano novo

Olhando a internet na página uol, vi chamada para os crimes da década. Qual a graça de recapitular os crimes da década? Chamar atenção daqueles caras que adoram os aspectos sórdidos da convivência. Só pode ser.
Hoje já vi retrospectiva melhor: os cds brasileiros da década. Los Hermanos, Mallu Magalhães, Nando Reis, e outros. Ouço muita música, mas do século passado: Bowie, Dylan, Arnaldo Antunes (50 anos, ele vai fazer), Secos e Molhados (comprei na banca de jornal), Egberto, Keith Jarrett. Qual a graça de lembrar os cds da época? Promover os cds, formar um retrato do gosto musical de um povo em um dado lugar e em certa época. Quem gosta do quê? As pessoas gostam do que gostam ou do que são induzidas a gostar? Quem induz quem a quê?
Agora na internet tinha outra retrospectiva: piores acidentes naturais da década.
No filme José e Pilar, um dizer de Saramago ficou na memória, ele disse mais ou menos que, em termos de comunidade, estamos péssimos. Não usou essas palavras, mas eu entendi assim o que ele disse.
Saramago me pareceu muito cético, ou lúcido. Sou pessimista, só que tenho irritante ingenuidade. Crio falsas esperanças de que as pessoas são boas e tenho a ilusão de nosso mundo está progredindo.
Aí resolvi começar a ler o Evangelho segundo Jesus Cristo, que eu guardo em um lugar nobre da estante sem ter lido, e estou encantada. Em espanhol diria, “me encanta el libro”. Saramago pode não ter acreditado em Deus, mas o texto dele é poderoso. Como a história de Cristo é triste…ficar pregado na cruz do jeito que ele ficou…(não cheguei nessa parte, mas já adianto minha aflição com essa parte da história que com certeza virá). A ressurreição dele não me surpreende tanto, a crucificação é que me espanta. Mas era uma forma de punição corriqueira, muito usada na época. Cristo foi julgado, condenado segundo regras jurídicas estabelecidas.
No fim, vamos todo para debaixo da terra e os cremados ficarão guardados em urnas ou voarão pelos ares, não sei o que é pior. Se ressuscitaremos ou não, já não posso dizer.
Vi uma série sobre a vida no dvd e fiquei impressionada com o esqueleto de um pinguim afundando no mar depois de trucidado por um animal gigante, não me lembro se uma baleia assassina ou um outro peixe grande.
Não sou muito de retrospectivas, vivo um dia a cada dia e a vida inteira e não classifico muito os acontecimentos, embora sinta necessidade, depois dos 40, de fazer listas e formar conjuntos.
Estou na praia agora, é dia 31 de janeiro, os fogos estão pipocando, assobiam antes de explodir e os cachorros têm medo. Por que as pessoas soltam fogos no fim do ano?
Pra terminar essa crônica de ano novo, quero contar que estou revendo Reds com Warren Beatty e Diane Keaton. O filme obteve um Oscar em 81. É de 81, mas entra na minha retrospectiva da última década. Algumas tomadas, alguns diálogos, ficaram um pouco datados. Não gosto das partes em que as pessoas do período (começo do século XX), mais velhas, narram impressões sobre o que aconteceu, elas estão enrugadas, fica esquisito. Documentário americano é um pouco assim, eles colocam pessoas narrando ou contando histórias anos depois. Pesquisando, vi que Warren Beatty começou as entrevistas em 1970. As entrevistas são consideradas ponto alto do filme. Não gosto, prefiro entrar no romance. Tirando isso, o filme é bom também porque tem como personagem Eugene O’Neill (Jack Nicholson), além de Louise e Jack, sempre tentando escrever da melhor forma. Ele dizia a ela que o texto precisa tirar o fôlego do leitor.
John Reed é um dos personagens que eu admiro. Eu queria escrever como ele escrevia, com vida. O texto dele é esperto e colorido. Ele acredita naquele texto dele.
Minha proposta para 2011 é acreditar no meu texto e ouvir um disco por dia, todo dia, porque a música desperta a alma. Existe a alma? Tive uma dúvida, agora, mas é claro que existe.


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