Correspondentes de guerra

A Revista de Fotografia ZUM 2, editada pelo Instituto Moreira Salles, discute, entre outros assuntos, todos muito interessantes, jornalismo de guerra.

Em “A guerra conectada” (Balazs Gardi, Teru Kuwayama, Rita Leistner, Omar Mullick e Leão Serva, p. 32-49), as fotos no Afeganistão foram feitas com Iphone e aplicativo Hipstamatic. Os comentários são de Leão Serva. O projeto independente é o Basetrack,  formado por repórteres de guerra. Cotidiano dos soldados é registrado.

A matéria na Revista Zum 2 é sobre fotojornalismo, mídia independente, e não sobre guerra propriamente dita. As fotos mostram afegãos, fardas, pó, capacetes, crianças e tatuagens. Duas páginas inteiras trazem retratos de desenhos tatuados. Imaginam-se solidão, estranhamento, distância, diferenças. Ao lado de uma foto, está comentário da autora: “Os afegãos ainda encaram a fotografia com certa formalidade e posam de acordo. A reação dos americanos é quase oposta” (Rita Leistner, p. 41).

A revista é de fotografia e, assim, as imagens impressionam não só pelo que mostram e denunciam, mas pela estética realista e, ao mesmo tempo, distante.

O blog do Instituto Moreira Salles traz vídeo com conferência do repórter húngaro Balazs Gardi sobre jornalismo no Afeganistão e sobre o Basetrack. Ele fala com detalhes e muita sinceridade sobre transparência no jornalismo de guerra e limites à divulgação de imagens. Vale a pena ver o vídeo da conferência em que ele mostra cenas, barulhos e, também, o silêncio da guerra.

Balazs Gardi é húngaro, assim como Robert Capa, conhecido fotógrafo que retratou algumas guerras, inclusive a 2ª mundial, também era.

Em “Ligeiramente fora de foco” (Cosac Naify), Capa fala do fotojornalismo na guerra  com  simplicidade que só os grandes gênios e os grandes mestres alcançam.

A certa altura, ele diz: “No trem para Londres, com aqueles bem sucedidos rolos de filme, senti ódio de mim mesmo e de minha profissão. Esse tipo de fotografia era para agentes funerários, e eu não gostava de ser um deles. Se eu tinha de participar do funeral, jurei, teria de participar da procissão” (p. 65). E ainda: “Na manhã seguinte, depois de dormir com essa sensação, me senti melhor. Enquanto me barbeava, tive uma conversa comigo mesmo sobre a incompatibilidade de ser um repórter e ter uma alma sensível ao mesmo tempo. As fotos dos sujeitos sentados no campo de pouso sem as fotos deles feridos e mortos teriam dado a impressão errada. As fotos dos mortos e feridos é que iam mostrar às pessoas o aspecto real da guerra, e fiquei contente de ter feito aquele rolo de imagens antes de afrouxar” (p. 65).

Esses comentários foram pinçados aleatoriamente do livro entre tantos outros dizeres tocantes do fotógrafo. Está dito ali, na introdução, que Capa queria ser romancista. Escreveu romance com imagens reais.

Como disse o cineasta Errol Morris ao jornalista Lawrence Weschler em conversa publicada em “Crer para ver”, outro texto da excelente Zum 2 (p. 127), “as fotos fazem algo complicado. Elas descontextualizam as coisas. Arrancam imagens do mundo e, por isso, nos deixam livres para pensar o que quiser sobre elas”.

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