Festival Literário de Itapetininga-Flitapê

23 de janeiro de 2018

Flitapê com Déa Paulino, Amelinha Teles, Amara Moira e Samira Albuquerque. Conheci também Daniela Santana, que organizou o Festival. E Angelo Ricchetti, coordenador do Cine Clube de Itapetininga.

Sábado à tarde e a aviadora Anésia Pinheiro Machado nos recebendo logo na entrada do Centro Cultural e Histórico, em uma praça em que, segundo Déa, acontecia, antigamente, o footing: Praça dos amores.

Nossa mesa era sobre violência e preconceito contra a mulher.
O Festival homenageou Lygia Fagundes Telles. Fotografias de Lygia estavam expostas na exposição “Vou lhe contar um segredo”, organizada por Carlos Eduardo Souza Queiroz.

Havia no espaço, também, fotografias de capas de livros de escritores da cidade: muitos.

As conversas começaram com a leitura impactante de um conto de Lygia por Nilton Resende: “Venha ver o pôr do sol”.

Depois Déa Paulino, que coordena o grupo de leitura Leia Mulheres em Itapetininga, aliás a primeira cidade do interior que implantou o projeto, sugeriu que nos apresentássemos, Amara, Amelinha e eu. Expusemos, com empatia recíproca, pontos de vista complementares sobre literatura e feminismo.

Na plateia estavam integrantes do Leia Mulheres que haviam lido meu romance, “Viagem sentimental ao Japão”. Falei das personagens Anette, Sílvia e Sabina. Anette vive em “Viagem sentimental ao Japão” (Apicuri, 2013) e Sílvia e Sabina em “Feliz aniversário, Sílvia” (Patuá. 2017).
Elas são diferentes, mas procuram brechas construir identidade em um mundo em que os homens acham que dão as regras. Não pensei em nada disso enquanto escrevia porque não procurei uma literatura militante. Mas, analisando esses dois romances, percebi que as personagens lidam problemas que rodeiam o contexto feminino: conciliar profissão e vida pessoal, estar contente com a aparência, conviver. Sílvia faz dieta quase o tempo todo e esse esforço é um sofrimento para ela. Sabina escreve, sob pseudônimo, romances que se tornaram best sellers. Esconde-se até do marido, e, principalmente, dele. Anette é solitária e, ao começar a trabalhar em uma agência de viagens, sem nunca ter viajado, precisa coordenar seu comportamento para ser aceita, ou não, no grupo. Ela se confunde um pouco com as regras de convivência, mistura os mundos real e imaginário.

Voltando ao encontro de sábado. Amelinha Teles, que está no movimento feminista há muito tempo e tem falado e escrito sobre suas conquistas há anos, explicou que há vários tipos de feminismo e as mulheres não são iguais a ponto de serem padronizadas. Ela publicou um livro que já é clássico, “Breve história do feminismo no Brasil e outros ensaios” (Alameda), entre outros.

Amara Moira falou sobre seu livro “E se eu fosse puta” (Hoo), em que escreve sobre como se tornou trans, contando angústias, sofrimentos e discriminação experimentadas na prostituição.

Nilton Resende não participou da mesa, mas fez a abertura lendo um conto de Lygia. Ele publicou edição crítica de “Antes do baile verde”, intitulada “A construção de Lygia Fagundes Telles” (Edufal). É um livro consistente que examina as alterações dos contos em sucessivas publicações.

São esses os livros que conheci na Flitapê. E conheci as pessoas, também, que os escreveram, assim como elas me conheceram.

Conhecer pessoalmente um escritor de quem já li os livros é sempre uma surpresa. Se gostei do livro, procuro gostar da pessoa, e vice-versa. Às vezes a gente idealiza um autor, espera dele uma pessoa que corresponda às nossas impressões de leitura. Isso porque o leitor completa o livro, a identidade dele também cria a história. E pode acontecer que os pontos de vista não coincidam. Mas eu fui lá e me apresentei.

Como nós, escritoras, éramos diferentes umas das outras, e tínhamos experiências diferentes para contar, deixamos espaços a serem preenchidos e isso foi muito bom.

Dez livros de não ficção e um haicai

29 de dezembro de 2017

A  gente lê uma lista e já pensa na própria. Aqui está uma lista de livros de não ficção que estiveram comigo em 2017:

1)- Por amor a Freud: Memórias de minha análise com Sigmund Freud, de Hilda Doolitle (Zahar);

2)- Rotas Literárias de São Paulo, de Goimar Dantas (Senac);

3)- Django: The Life and Music of a Gipsy Legend, de Michael Pregni (Oxford University Press);

4)- Places, strange and quiet, de Wim Wenders (Hatje Cantz);

5)- Diários de Berlim: 1940-1945, de Marie Vassiltchikov (Boitempo);

6)- Duas vidas: Gertrude e Alice, de Janet Malcolm (Paz e Terra);

7)- 41 inícios falsos, de Janet Malcolm (Companhia das Letras);

8)- Freud com os escritores, de J.B.Pontalis e Edmundo Gómez Mango (Três Estrelas);

9)- O poeta e a foca, de Nanete Neves (Editora Pasavento);

10)- Manual de Editoração e Estilo, de Plinio Martins Filho (Editoras da Unicamp, Edusp, UFMG).

 

E tem  Lua de Outono (Escrituras), antologia e história do Grêmio Haicai Ipê, organizado por Teruko Oda. Fui ao lançamento na Japan House a convite de Danita Cotrim.

O livro é lindo, cada haicai termina seco, mas continua, as três linhas simples tornam-se todo um rio, só no haicai as palavras expressam de verdade aquilo que pode ser mais. Não consigo explicar.

 

Segue,  de Cristiane Kovacs Cardoso (p. 78):

 

Primavera

Tento acompanhar

loucos voos de andorinhas-

Ah, essa liberdade!

 

 

Um conto: 70 anos

10 de dezembro de 2017

           

barco

 

 

Caminho todos os dias no parque perto de casa, às vezes com o cachorro.

Irene morreu faz tempo. Nossos filhos, os dois médicos, como eu, trabalham muito. Ele é otorrino  e ela, cardiologista.

Vanda sempre quis tratar do coração dos outros. Eu disse várias vezes que ela nunca encontraria, nos corações, os sentimentos. Às vezes uma pessoa com arritmia poderia ser fria e calculista. Mas ela quis. E hoje está aí, esforçada, bem sucedida na profissão.

Casou-se com um dos primeiros pacientes e talvez eu tenha me enganado, ela encontrou muita emoção no rapaz. É um bom sujeito, mas não ficamos amigos. Ainda não entendi se ela e o marido se dão bem. Desconfio que não muito. Mas ela segura bem.

João Pedro logo quis ser otorrino para descobrir a cura da própria rinite. Eu avisei, não tem. Ele é feliz. Tem mulher bacana, dois filhos, gato e cachorro.

Meus filhos são felizes (Vanda menos). Gostam da medicina. Querem melhorar o mundo. Os dois se apresentam como médicos quando alguém passa mal no avião ou na fila do banco. São estudiosos, bem mais que eu.

Irene trabalhava comigo na clínica. Era minha secretária. Sempre foi, mesmo antes de nos casarmos. Ela sabia os nomes dos pacientes de cor, conhecia suas doenças; às vezes, quando eu não estava, por algum motivo,  receitava medicamentos. Falsificava a minha assinatura. Eu sempre deixei. Irene facilitava muito meu trabalho. Irene era doce, simpática, carinhosa, eu tinha certeza de que os pacientes voltavam por causa dela. Sempre foi assim. Namoramos durante quatro anos. Eu pedi a mão dela em casamento, nós nos casamos na igreja, tivemos filhos, fomos duas vezes à Europa e uma para os Estados Unidos. Fomos casados por 40 anos.

Irene teve  câncer. Eu estava com ela na UTI quando morreu. Eu fico com você, Irene. Se puder, morro com você.

Nem percebi quando ela morreu. Eu estava cochilando na cadeira ao lado, com minha mão no braço dela. Acordei e o braço estava frio. Não vi. Em meus anos de medicina nunca vi um paciente meu morrer. Vi morrerem em plantões, quando era novo. Paciente meu, não. Não acompanho os pacientes até esse momento, quando já estão com especialistas. Sou clínico geral. Nem Irene, minha mulher, eu vi morrer. O que é a morte? Eu não sei.

Continuei trabalhando, mas os pacientes não retornavam. A moça que coloquei no lugar de Irene era ríspida. E não me dava recados. Eu não suportava entrar no consultório e não encontrar Irene sorridente arquivando fichas, atendendo telefonemas com aquela voz radiante. Era hora de parar.

Mas fazer o quê?

Fui amadurecendo a ideia de que eu poderia voltar atrás, visitar minha cidade, a casa em que morei com meus pais, na praia. Nunca mais eu tinha ido, Irene não gostava de mar. Eu sonhava com barcos,  areia,  água,  nuvens,  vento fresco. Eu me imaginava contornando uma ilha. Uma vez, no sonho, anoiteceu e dormi nas pedras, não conseguia voltar. Naquele dia tive medo. No sonho, tive medo. Comecei a ter muita vontade de visitar aquela ilha. E pensava em minha namorada, com quem eu poderia ter me casado se não tivesse entrado na faculdade de medicina. Eu teria uma pequena loja de pranchas de surf. Eu não surfava, mas fazia pranchas muito bem. Meus filhos nunca souberam de nada disso. Para eles minha vida começou com Irene.

Mas teve tanta coisa antes.

Fiquei obcecado por retomar o passado. Quis voltar àquele luau em que minhas amigas dançavam vestidas de havaianas no meio de pranchas de surf.

Ontem, no meu aniversário de  70 anos,  fomos jantar, meus dois filhos e eu. Só nós três. Escolhi um restaurante muito bom e paguei a conta, coisa que não fazia desde que eles começaram a trabalhar. Sugeriram um jantar com toda a família, talvez na casa de meu filho, que é maior. Mas eu tinha  uma comunicação a fazer. Uma comunicação familiar. Para ser sincero, nos sentimos um pouco estranhos, nós três, no restaurante. Como se estivéssemos fazendo um favor uns aos outros.

-Essa semana começarei a fechar o consultório.

Os dois não trabalham comigo. Eles me consideram ultrapassado, mas nunca se  surpreendem quando eu acerto um diagnóstico. Confiança. Um pai nunca erra. Quando me consultam, eu geralmente dou boas pistas. Mas aí se afastam. Acho que meus filhos têm medo de mim.

-Vocês tomam um vinho comigo?

Vanda tinha cirurgia no dia seguinte, não podia beber. João Pedro aceitou. Ela perguntou se poderia ir embora depois do jantar e eu disse claro. Ninguém era obrigado a ficar com o pai. Ainda mais em véspera de cirurgia. Você sempre faz drama, ela disse.

João Pedro  estava  tranquilo, os otorrinos são sempre tranquilos. Clínicos também. Nisso meu filho puxou a mim, na tranquilidade.

-E que você vai fazer, pai?

-Primeiro vou dar meu cachorro a um de vocês. Podem compartilhar. Uma semana com um, outra com outro.

Nenhum se pronunciou (nenhum dos dois gostava de meu melhor amigo. ciúmes?).

– Depois darei todas as minhas coisas. Peço que vocês visitem nossa casa e peguem tudo o que quiserem na próxima semana.

-Tudo?

-Tudo, Vanda. Vou vender a casa. Sei que vocês têm a parte da sua mãe. A casa é grande, o lugar é bom, vendo rápido. Até tem gente interessada.

Ele  não se conteve:

-Que bom,  quero reformar meu consultório.

-Mas pai, eu quero morar lá em casa um dia.

Nunca pensei que Vanda quisesse morar em casa.

-Não, compra um apartamento novo pra você, que tenha a sua cara. Meus filhos, não sei se depois disso nos veremos.

Vanda até colocou um pouco de vinho na taça.

-Você vai se matar?

-Sem Irene sou um médico pior, uma pessoa pior. Mas fiz um juramento de cuidar de todos e isso me inclui. Não vou me matar. Nunca mais abrirei um compêndio de medicina, não pegarei em um estetoscópio, não assinarei uma receita de antibióticos.

-E que você vai fazer, pai? Um dos dois perguntou, ou os dois, fiquei confuso.

-Vou morar na minha cidade. Eu tive uma namorada lá, sabem? A gente se gostava muito. Mas meu pai não me deixou casar. Quis que eu viesse para cá estudar. Acho que ela está por lá. Se não estiver, ficarei esperando, ela vai voltar. Faz pouco tempo eu me lembro que prometemos essa volta um ao outro. Eu tinha me esquecido, mas agora me lembrei.

Os dois ficaram  com jeito de traídos. Meus filhos de mais de 30 anos como crianças na minha frente. A traição é sempre muito relativa e eu estava bem comigo. Sempre fui fiel a Irene. Ela, acho que não. Me lembro de um período em que desconfiei do amor de Irene. Ela estava distante, aérea. Esperei e depois de um ano ela voltou a nós dois. Mas isso é o passado e eu procurava o passado do passado, o passado perfeito, ou mais que perfeito.

-Quem fica com o cachorro?

Notas sobre o que vi em uma viagem

19 de outubro de 2017

Quando viajo gosto de fixar algumas impressões, isso me ajuda a memorizar e pensar sobre como o que vi  transforma a minha vida. Todos os descolamentos mudam alguma coisa dentro da gente.

1)- Não fui à Feira do Livro de Frankfurt, mas fui a Frankfurt e claro que pensei nos livros. Cidade bonita, rio lindo, museu do cinema super legal. Vi lá, no Museu do cinema,  uma exposição em que quatro telas mostram simultaneamente cenas de filmes diferentes, de épocas diferentes, mas que usam os mesmos recursos de narração. Cenas de mais ou menos 100 filmes são reunidas sob quatro temas principais: imagem, som, edição e ação. É bacana ver que em muitos filmes há pessoas batendo nas coisas e brigando, artistas saindo do avião e acenando para o público antes de descer a escada, incidentes que movem a história. Segue link:  http://deutsches-filminstitut.de/en/filmmuseum/permanent-exhibition/.

Aqui em São Paulo, no Instituto Moreira Salles, vi  videoinstalação parecida, mas também diferente. É The Clock, de Christian Marclay. Cenas de filmes em que o relógio e o tempo surgem  são unidas e mostradas por muito tempo. Em  publicação sobre The clock  há uma entrevista com Christian Marclay. Ele  fala que os assentos (sofás) são confortáveis para que a pessoa assista por quanto  quiser e lide com o próprio tempo. Não fiquei muito. Pensar no tempo e no relógio me deixa nervosa.

As propostas das instalações  de Frankfurt e do IMS, embora trabalhem com edição de imagens, são diferentes. A primeira mostra como as histórias são feitas, quais os principais recursos da linguagem cinematográfica. A segunda mostra a marcação do tempo nas histórias, provocando outras impressões.

2)- Vi ainda, no Museu do cinema em Frankfurt, o tambor do filme “O tambor” (Vorker Schlönderff), o diário de Wim Wenders, anotações de uma atriz alemã que gosto muito, Martina Gedeck.

 

3)- Em Viena visitei a casa de Sigmund Freud (Berggasse, 19). Impressionante. Lá ele atendeu seus primeiros pacientes. A entrada e as salas continuam idênticas e a sala de espera foi reconstituída;

 

4)- Também conheci Budapeste. Pela primeira vez estive em um país onde não entendo o que se fala e o que se escreve. Pude admirar sem precisar tentar compreender tudo;

5)-Por último, vi as árvores do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Não há como descrever tanta beleza. Aqui está o Chafariz das musas.

Italo Calvino, conferências de Harvard e leveza

1 de setembro de 2017

 

“Seis propostas para o próximo milênio”, de Italo Calvino, é sempre lembrado por e para quem escreve. As propostas são: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade. A última seria consistência, mas não foi escrita. Seriam apresentadas em um ciclo de conferências em Harvard denominado Charles Eliot Poetry Lectures.

T.S.Eliot, Stravinsky, Borges, Octavio Paz, entre outros, já deram as conferências. As de Calvino aconteceriam em 85/86, mas ele morreu antes. Esse breve relato está na introdução de Esther Calvino ao seu livro publicado pela Companhia das Letras.

Pesquisando sobre as conferências de Harvard na internet, encontrei a gravação das que Borges deu em 1967 e 1968 (http://bit.ly/1bZcOcC e no youtube), assim como informações sobre as lições de desenho de William Kentridge em 2011 e 2012. Depois quis encontrar as conferências de e.e.cummings de 52 e 53 (nonlectures) e ainda não deu certo.

Então tenho comigo as seis conferências de Umberto Eco (“Seis passeios pelo bosque da ficção”, Companhia das Letras), as de Orhan Pamuk (“O romancista ingênuo e sentimental”, Companhia das Letras), as de Calvino, as de Borges (“Esse ofício do verso”, Companhia das Letras), e as de Igor Straninsky, “Poética musical em 6 lições” (Zahar).

Faz tempo eu quero juntar esses livros. Publicados por editoras diferentes,  demorei para descobrir que poderiam formar  uma coleção particular.  Os autores, ao escreverem os textos, o fizeram para falar, para ler em voz alta, e acho que é por isso que gosto tanto deles.

Umberto Eco, quando inicia as suas conferências de Harvard, começa por Calvino. Eram amigos, mas não só. Calvino  escrevera “Se um viajante numa noite de inverno” e o romance fala da presença do leitor na história. Umberto Eco chega à conclusão de que o leitor modelo é aquele ansioso para jogar, ele observa as regras  do jogo.

E, conferindo, vi que “Se um viajante…” começa assim: “Você vai começar a ler o novo romance de Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. Relaxe. Concentre-se. Afaste todos os outros pensamentos. Deixe que o mundo a sua volta se dissolva no indefinido. É melhor fechar a porta; do outro lado há sempre um televisor ligado. Diga logo aos outros: “Não, não quero ver televisão!”. Se não ouvirem, levante a voz: “Estou lendo! Não quero ser perturbado!”. Com todo aquele barulho, talvez ainda não o tenham ouvido; fale mais alto, grite: “Estou começando a ler o novo romance de Italo Calvino!”. Se preferir, não diga nada; tomara que o deixem em paz” (Companhia das Letras).

O narrador está em segunda pessoa e chama o leitor para a história. Não sabe o que vai acontecer. Percebe que há problemas no livro. Vai à livraria e descobre que as páginas foram misturadas com as páginas de outro livro, um polonês, por cuja história ele se interessa e nós também, depois.

O leitor de Italo Calvino precisa interromper sua leitura para buscar a sequência de uma história que ele nem sabe qual é. quer partir para a outra, é um leitor do nosso milênio, troca leituras, passagens, personagens.

Você começa a ler um livro que leva a outro, volta ao primeiro, às vezes esquece qual era, passa a ainda outro, vai para a internet. Não há apenas páginas trocadas, há múltiplos interesses e estilos e narrativas.

Comecei a escrever aqui sobre escritores falando em Harvard e termino escrevendo sobre leitores perdidos e até sobre mim, que acabo de me distrair desta escrita para ler um texto de Freud refletindo sobre o Moisés de Michelangelo em Roma que eu queria ler faz tempo.

Voltando às conferências que Italo escreveu e não teve tempo de ler em Harvard,  relendo a primeira, sobre leveza, chego ao ponto em que ele diz: “Resta ainda aquele fio que comecei a desenrolar logo ao princípio: a literatura como função existencial, a busca da leveza como reação ao peso de viver” (p. 39).  Era isso que eu queria dizer.

Listas

17 de junho de 2017

“Listas extraordinárias” (organizado por Shaun Usher, Companhia das Letras, 2016) é um livro curioso.

Na apresentação, o autor já diz: nós, humanos, não paramos de criar listas para organizar nosso mundo caótico. Ele colecionou listas de outras pessoas enquanto pesquisava para seu outro livro também interessante: “Cartas extraordinárias” (Companhia das Letras).

Gosto desse livro das listas porque  me aproxima de pessoas que admiro e não conheci e já morreram.

Há no livro listas bem bacanas, como o Código do Caubói, de Gene Autry (ator e músico country americano da década de 30). Entre os itens está o de que o caubói nunca deve ser o primeiro a atirar, não pode bater em um homem menor que ele e não pode tirar vantagem sem razão. Deve cumprir as promessas, falar a verdade, ser gentil com crianças, velhos e animais e respeitar as mulheres (p. 50).

Depois da lista de Gene Autry está a de Chrissie Hynde, dos Pretenders. São conselhos para jovens roqueiras. O primeiro conselho é: “Não se lamurie por ser mulher, não fale de feminismo, não reclame de discriminação sexista. Estamos todas por baixo e fodidas, mas ninguém quer ouvir choradeira. Componha uma canção meio disfarçada a respeito disso e ganhe muito ($)”. O último conselho é: “Não aceite conselho de gente como eu. Faça sempre o que bem entender” (p. 51).

Woody Guthrie, músico que inspirou Bob Dylan, tinha, entre as decisões de ano novo: trabalhar com planejamento, manter a máquina da esperança funcionando, amar o pai, a mãe e todo mundo, ouvir muito rádio, tomar banho, fazer a barba, dançar melhor, entre outras lindezas.

Eu poderia me perder aqui nessas listas, são uma delícia de ler. Umberto Eco também tem um livro sobre listas que vale muitos textos (A vertigem das listas); ele acreditava na força delas, dos dicionários, das enciclopédias.

Tenho as minhas listas, só que escrevo em lugares diferentes, às vezes em cadernos, às vezes em aplicativos do celular tipo pocket, inkpad, evernote (preciso fazer listas dos lugares onde guardo listas). Faço listas de assuntos para escrever no blog, das canções preferidas de Bob Dylan, de coisas para arrumar em casa, prioridades burocráticas, ideias para contos, nomes de personagens. Não faço listas de despesas para não me incomodar, e nem de compras.

Estou aqui pensando nas minhas listas :

1)- Livros que gostaria de ter escrito: O irmão alemão e Budapeste, ambos de Chico Buarque.

2)- Filmes prediletos: Esposamante (Marco Vicario) e Aproximação (Amos Gitai). Vários outros.

3)- Canções: Retrato em branco e preto (Tom Jobim e Chico Buarque),  Paint it black (Stones), A simple twist of fate (Dylan), quase todas de Caetano, Feio (Primos distantes).

4)- Cidades: São Paulo, Berlim e Roma.

5)- Autoras preferidas que já morreram: Gertrude Stein, Karen Blixen e Janete Clair.

6)- Autoras preferidas brasileiras: todas, mas rendo minhas homenagens às minhas amigas do Coletivo Literário Martelinho de Ouro.

7)- Autores preferidos que já morreram: Lima Barreto, Oswald de Andrade, Tolstoi, Cortázar, Hemingway, Fitzgerald.

8)- Autores preferidos brasileiros: todos, seja escritor, seja herói (lembrei de Oiticica, aqui).

9)-Cores preferidas: azul, vermelho e amarelo.

10)- Flores preferidas: rosa, rosa e rosa.

O problema de publicar a lista é que dá um frio na barriga, tipo: quanto essa lista revela de mim?

Às vezes, nada, porque a gente pode mudar, inverter a ordem, fazer outras listas, completar as que se acham prontas, como acabei de fazer agora. 

Listas organizam em um momento, mas também são aleatórias.

Este é um texto que nunca darei por terminado.

 

Festa de Literatura para Lima Barreto

4 de junho de 2017

 

desenho de como vai ser a Flip em Paraty

 

Ah! A literatura me mata ou me dá o que peço dela.

Essa frase é de Lima Barreto em “O cemitério dos vivos”. Ouvi de Joselia Aguiar, curadora da Flip, na Coletiva de imprensa à qual tive  o prazer de assistir dia 29 de maio.

Logo no começo da manhã Joselia falou essa frase que na hora  me fez ficar muito ligada em seu discurso muito claro e detalhado. Ela não falou só sobre o programa, mas abriu caminhos para novas ideias. Tanto que cheguei em casa e fui procurar, já que ainda não tinha lido “O cemitério dos vivos”, onde a frase está.

Anos depois de sua morte a literatura retorna a Lima Barreto e dá a ele, em mesma oportunidade, leituras, reflexões, debates, encontros. A Flip 2017 confere  ao grande autor brasileiro toda reverência, expondo ao público, por meio de iluminada programação, a atualização e a atualidade de sua obra e de muitas outras que com ela se relacionam.

A Flip 2017 tem em sua programação mais mulheres que homens e pelo menos 30% de participantes negros. Joselia disse que a questão racial é importante, mas não aprisiona o diálogo. Os artistas querem ter a liberdade de falar sobre arte, ciência,  assuntos diversos.

A liberdade é nosso maior bem,  destacou Joselia, e foi importante na escolha dos assuntos e das mesas, escolha essa concentrada em mostrar autores novos que não estão nos centros, mas nas margens.

A liberdade é essencial na obra de Lima Barreto, valendo ressaltar, sobre o tema,  artigo de Lilia Schwarcz  publicado no último 13 de maio (http://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/13-de-maio-Liberdade-hoje-e-seu-dia). Lilia Moritz Schwarcz estará na abertura da Flip e terá lançado, até lá, a biografia “Lima Barreto: triste visionário”, pela Companhia das Letras.

Na programação da Flip estão autoras de quem já gosto: Ana Miranda, Conceição Evaristo, Maria Valéria Rezende, Natalia Borges Polesso. Entre os homens está Alberto Mussa, admiro bastante da escrita dele. É bom que a programação conte com  autoras e autores que não conheço e virei a conhecer, o mundo literário é infinito, sempre surpreende.

Para mim a Flip já começou. Não sei ainda se vou a Paraty. Mas já estou no movimento de buscar novas escritas, de pesquisar  textos de Lima Barreto que nunca li. Leio sempre “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, adoro esse romance.

Os primeiros dois capítulos e metade do terceiro de Recordações foram publicados, primeiro, na  Floreal, revista que Lima Barreto fundou em 1907 e só chegou ao quarto volume. Depois, o romance foi publicado por editora portuguesa (encontrei os exemplares da Floreal digitalizados na página da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin na internet).

Em carta a Gonzaga Duque, o próprio Lima Barreto afirma: “Mandei as Recordações do Escrivão Isaías Caminha, um livro desigual, propositalmente malfeito, brutal por vezes, mas sincero sempre” (Correspondência, I, pp 169-170, citada por “A vida de Lima Barreto”, Rio de Janeiro, José Olympio, 2002, p. 184).

Uma de minhas características prediletas do livro “Recordações do escrivão Isaías Caminha” é essa imperfeição destacada pelo próprio autor.

Gosto quando, na ficção, a linguagem não é barreira entre o leitor e o texto. Fica tudo claro e posso pensar no que o autor está contando ou dizendo, fazendo minhas próprias associações e analogias e confrontos.

O romance, em seu estilo muito direto,  só renova a compreensão sobre a hipocrisia em suas diversas formas.

Um autor perfeito como Lima Barreto, que admite ter escrito de modo imperfeito, só pode esperar o máximo da literatura.

*****

Insiro aqui alguns links de textos interessantes que encontrei na internet sobre Lima Barreto:

http://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/13-de-maio-Liberdade-hoje-e-seu-dia

http://seer.fclar.unesp.br/estudos/article/viewFile/1047/863

http://objdigital.bn.br/acervo_digital/anais/anais_105_1985.pdf

http://www.revistas.usp.br/teresa/article/viewFile/99461/97948

http://seer.fclar.unesp.br/estudos/article/viewFile/1047/863

http://www.historia.uff.br/stricto/td/1444.pdf

http://www.ileel.ufu.br/anaisdosilel/pt/arquivos/gt_lt13_artigo_6.pdf

https://pendientedemigracion.ucm.es/info/especulo/numero18/limabar2.html

http://www.filologia.org.br/viiicnlf/anais/caderno13-17.html

http://www.bocc.ubi.pt/pag/coracao-claudio-resistencia-missao-solidariedade.pdf

http://www.brasiliana.usp.br/bitstream/handle/1918/03585510/035855-1_COMPLETO.pdf

 

Perguntas de Clarice

1 de maio de 2017

 

 

“Entrevistas”, da Rocco (2007),  reúne diversas entrevistas que Clarice fez ao longo da vida com escritores, músicos, atores, pessoas da área esportiva. As entrevistas foram publicadas na Manchete, Fatos e Fotos,  Jornal do Brasil. As da Manchete foram reunidas no livro “De corpo inteiro”.

Clarice entrevistou Lygia Fagundes Telles, Jorge Amado, Antônio Callado, Pablo Neruda, Nélida Piñon, Tom Jobim, Chico Buarque, Elis Regina, e muitos outros.

As entrevistas me impressionaram pela natureza das perguntas. Perguntar é uma arte e  a maioria das perguntas não precisa ser respondida. Às vezes as respostas vão para outros caminhos, às vezes não dizem nada. Mas, com as entrevistas de Clarice, nada se perde, as perguntas sempre ficam.

Para Rubem Braga, Clarice pergunta: “É verdade que você amou muito? E que é que você mais queria na vida? Qual sua atitude diante da morte?” (p. 19).

Com Jorge Amado ela não poderia ter sido mais direta: “Você gostaria de escrever diferente ou está comprometido demais com o seu público?”. Ele respondeu que o compromisso dele era com o povo e o público é que tinha compromisso com ele.

Clarice perguntou a Nelson Rodrigues:“Você fala em reencarnação e em vidas passadas. Você é esotérico? Acredita em reencarnação?”. E pergunta, ao terminar:“Você gostou de me dar essa entrevista?” Resposta: “Gostei profundamente. O que conta na vida são os momentos confessionais”.

Uma das perguntas a Nélida Piñon é muito atual: “Você é feminista? O que é que reivindica para a mulher brasileira?”. Resposta: “O feminismo é uma consequência da minha condição de mulher. Quanto mais habilito-me a interpretar o mundo, melhor compreendo a necessidade de se conquistar uma identidade, que unicamente uma consciência ativa e alerta nos pode conferir. Sou naturalmente feminista, e aspiro para a mulher, independentemente desenvolvida, capaz de integrar-se ao centro das decisões, de que esteve sempre excluída, e ajudar a tornar possível e melhor a vida comunitária dos nossos tempos”.

Para a poeta Marly de Oliveira, Clarice pergunta: “Marly, para você, qual é a coisa mais importante do mundo?” Resposta: “Seria viver – e morrer -sem ter medo”

Não conheço a poeta Marly de Oliveira e vou pesquisar porque há uma parte de um poema  publicada na entrevista que me emocionou, o poema todo se chama O sangue na veia. Vou procurar esse poema inteiro porque  gostei dele.

A entrevista mais linda de Clarice, no meu sentir, é a que ela fez com Tom Jobim, a única em que as respostas vão além das perguntas (para mim). Dessa entrevista com Tom Jobim interessa uma resposta: “A morte não existe, Clarice. Tive uma (uma com agá: huma) experiência que me revelou isto. Assim como também não existe o eu e nem o euzinho e nem o euzão. Fora essa experiência que não vou contar, temo a morte vinte e quatro horas por dia. A morte do eu, eu te juro, Clarice, porque eu vi”.

 

Aprile, de Nanni Moretti

3 de abril de 2017

 

 

Acho que já falei aqui que sou fã do Nanni Moretti e de todos os seus filmes. Recentemente, revi Aprile, de 1998.

Em Aprile, Nanni Moretti é Nanni Moretti (acho que quase sempre Nanni Moretti é Nanni Moretti, mas  acredito muito na ficção de seus filmes). Ele está em crise e não sabe se fará um documentário sobre a história da Itália ou um musical sobre uma confeitaria e essa dúvida é muito séria, compreendo perfeitamente o drama dele.

Ele não sabe se filma as eleições entre esquerda e direita, se filma sobre refugiados da Albânia, se filma a  luta por autonomia da Padânia (eu nem conhecia essa questão), se filma o musical.

No meio tempo, ele coleciona e classifica recortes de jornal e revistas, o que evidencia um processo criativo muito interessante nessa linha que ele escolheu de fazer de si mesmo um personagem. O nascimento do filho acontece e transforma totalmente a vida dele. Totalmente, não. O filho faz com que ele seja mais autêntico, talvez, e leve a sério seus gostos e preferências. Ao perceber que viveu bastante, Moretti tem coragem de usar sua capa de lã.

E, é claro, faz o musical, sem se desfazer, também, de certa forma, do documentário.

Nanni Moretti reúne realidade e ficção, ele discute, o tempo todo, o artista no meio em que vive, como cria, como pode entender o mundo e ser ele mesmo, ao mesmo tempo. Eu me identifico muito com ele, até por que usa muito uma das minhas cores preferidas: vermelho. Usa um suéter vermelho e usa vermelho nos letreiros, acho que ele gosta dessa cor.

 

Dia internacional da mulher

7 de março de 2017

Sempre achei o dia internacional da mulher uma data desconfortável. Pensava que tinha todos os direitos do mundo, que o mercado de trabalho estava aberto a quem se dedicasse, independentemente do gênero. Ter e criar filhos, vida profissional, tudo junto, só podia ser fácil.

Achava que não precisava cozinhar, que expressaria minhas ideias em reuniões e palestras e todos me ouviriam com respeito e sem interrupção, em franco debate (li na Folha de 5 de março  sobre um aplicativo que contabiliza as interrupções das falas das mulheres, por homens, em reuniões).  

Estou contente com minhas conquistas. Mas, voltando no tempo, percebo situações em que diferenças foram estabelecidas porque eu era mulher. Eu disfarçava ao notar diferenças e me acomodava a nem sempre buscar posições mais proeminentes porque tinha medo da recusa e de não dar conta, também. A discriminação também acontece por parte das mulheres. Já ouvi muitas dizerem que preferem homens como colegas de trabalho.Seriam mais flexíveis? Nós só podemos ser mais rígidas pra fazer tanta coisa diferente ao mesmo tempo.
 As jovens hoje estão unidas na condição feminina. Gostam de estar entre elas, são amigas, militantes, têm atitudes  e vontade de mudar as coisas. A minha geração foi meio ingênua, ou eu fui, talvez. Achei que estava tudo mudado.
Estou falando de um jeito meio genérico porque não quero ficar lembrando pessoas e fatos, mas quem sente isso sabe como é (e estou falando de questões simples e leves aqui, sabendo que muitas mulheres, no mundo, sofrem violências físicas e verbais difíceis de serem combatidas, a violência contra uma atinge todas nós).

É claro que sempre é possível vencer debates ou entrar na competição com jeitinho, ou certa política, nem sei como dizer. Mas é importante conquistar posições falando direto e claro, com a razão.

Assisti outro dia ao filme alemão Toni Erdmann e me chamou atenção o tanto que a personagem se ocupava em se sobressair no trabalho e o quanto recebia mensagens masculinas discriminatórias, algumas sutis e outras não. No fim o pai percebeu que ela experimentava situações absurdas, e ele sabia que ela podia conquistar espaços sendo ela mesma, ele conhecia a capacidade e os talentos dela. Achei legal o filme, mesmo com algum exagero na caracterização do personagem masculino.

Bom, pra fechar o texto, e sem conclusões, queria dizer que tenho visto  a dança de Pina Bausch no filme do Wim Wenders e no youtube, em outros filmes, e acho que ela expressa a angústia do nosso tempo, principalmente a feminina.

Lembrei dela, mas lembro  de brasileiras maravilhosas na forma de se expressar, como  Elza Soares, Marisa Monte e Mônica Salmaso, minhas preferidas.
Estou aqui falando de expressão pelo corpo e pela voz, preocupada, dessa vez, em não entrar na literatura, já que sempre leio e escrevo tanto.

Eu quero muitos dias das mulheres, um só é pouco. Nós merecemos muitos dias, todos.

Meus temas estão no Carnaval

26 de fevereiro de 2017

Vi que o tema do baile do Copacabana Palace foi o Japão. Sabrina Sato estava de gueixa e vi a fantasia e achei bem pouco parecida com os kimonos de um livro que eu tenho.

Nunca fui ao Japão. Enquanto escrevia o romance “Viagem sentimental ao Japão” (Apicuri),  pesquisei demais e tive muita vontade de ir. Agora passou um pouco, mas chego lá.

Mas ver o baile do Copa inspirado no Japão me deu saudades desse tempo. Ninguém precisa ir ao Japão pra colocar a máscara, criar um personagem, imaginar. Anette, a personagem do livro, trabalha em agência de viagem e conta aos clientes ter ido lugares que não visitou.  Ela nunca viajou. As viagens dela são sentimentais.

E mais incrível ainda é acordar e ver que o tema do desfile da Rosas de Ouro em São Paulo agora de madrugada foi “Convivium, sente-se à mesa e saboreie”. Li que  os banquetes a da história da humanidade estavam no desfile, desde o Egito.

Proust deu muita importância às refeições, aos chás em porcelana, aos faisões, aos ovos mexidos com toucinho. A comida ajudou a tecer o ambiente de seu grande romance. Hoje, ao se falar de alimentação, o ponto de vista é restritivo. Fala-se mais sobre não comer do que sobre comer. Ou se faz regime, ou se tem diabete ou colesterol, ou se é vegano, ou não sei mais. Mas mesmo assim, comer bem, com família e amigos, ainda é uma delícia.

Os dois últimos romances que escrevi, “Nove tiros em Chef Lidu” e “Feliz aniversário, Sílvia”, têm a alimentação no contexto menos proustiano: a dieta está no ar.

Agora cedo, na minha casa, bem longe dos bailes e dos desfiles e do Japão e dos banquetes, me sinto ligada ao meu tempo.

Meus temas estão no carnaval!

Hoje eu gostaria de escrever como Dashiell Hammett

12 de fevereiro de 2017

Organizando filmes, descobri preferência, em minha coleção, pelo cinema itaiano. De Roma cidade aberta até Aprile. Caro Diário, do Nanni Moretti, tem uma cena em que ele vai de moto até o lugar onde Pasolini morreu. A música é do álbum Köln Concert, do Keith Jarrett. Sem economia de tempo ou de espaço. A gente acompanha a moto, vendo o mar.

Ontem assisti  One from the heart, do Coppola. Gostei bem mais do que me lembro de ter gostado. Não é só a trilha sonora. Os atores, os diálogos e o cenário, encantam do começo ao fim. Melhor do que La la land? Mais espontâneo, talvez.

Separei os filmes que quero rever: Buena Vista Social Clube, Pina, Alice nas cidades. Assisti Hammett domingo. O personagem é o escritor Dashiel Hammett. É como se ele tivesse escrito a história que ele vive. Escreveu, provavelmente. Mas é ficção. O filme é do Wim Wenders e li depois na internet que foi filmado duas vezes. Só vimos a segunda. A primeira, com cenas externas, não foi aceita pelo estúdio e não existe mais. Dashiell Hammett marca uma fase dos romances policiais em que a história é contada ao mesmo tempo em que acontece. Sandra Lúcia Reimão, em O que é romance policial, da Brasiliense, explica que, na fase da série negra, que sucede o romance de enigma, a ação é importante e as paixões, os sentimentos, também. O detetive se envolve na trama e não há reflexões psicológicas. Sam Spade, o investidor de Dashiell Hammett, é falível, não é um super decifrador de pistas e sinais como são Holmes e Dupin. O mundo do crime reproduz a sociedade capitalista. O filme de Wim Wenders é muito fiel à série negra do romance policial. Hammett é o escritor que investiga de maneira atrapalhada, perde os originais que passa o filme procurando.

Estou começando um novo romance. Ainda em processo, pesquisando, me organizando mentalmente. Tenho um personagem, o nome dele é Tito (por enquanto). Nasceu na Alemanha, em Berlim oriental. Veio para o Brasil depois da queda do muro e, aqui, ficou rico, envolveu-se em encrencas que ainda desconheço, foi preso, libertado e voltou para Berlim. Aqui era casado com uma moça que ainda não tem nome, ela narra a história. Depois que ele saiu da cadeia, se separaram. Estou mais ou menos neste ponto, 8 páginas. Ainda não perdi meus originais e hoje, com o computador, é difícil isso acontecer porque tem muito espaço na nuvem para salvarmos nossos arquivos. É verdade que pode acabar a luz ou acontecer uma coisa forte que elimine nossa energia e destrua os dados armazenados em locais esquisitos. Por isso é bom imprimir de tempos em tempos. Hammett viu páginas datilografadas boiando, espalhadas, perdidas. Essa imagem das páginas espalhadas é incrível.

Eu me pergunto se preciso escrever um romance policial e me pergunto se o livro que escrevo é policial. Quero que tenha suspense. Como já li em Modiano, uma vez, não lembro onde, o melhor de escrever o livro é esse devaneio.

Já quis escrever como Simenon e como Chandler (ainda quero escrever como Chandler). Mas, hoje, quero escrever como Hammett.

“Uma rua de Roma”, de Patrick Modiano

28 de janeiro de 2017

No romance de Patrick Modiano (Rocco) há uma agência de detetives que fecha as portas, um detetive que se muda para Nice e um auxiliar de detetive que fica em Paris procurando uma pessoa: ele mesmo. Na agência há catálogos  que ele pode consultar. A agência dava aos clientes “informações mundanas” (p. 9). Tudo acontecia entre “pessoas de bem” (p.9).

As personagens  são pessoas perdidas na época da 2ª guerra. Os nomes se alteram, uma mesma pessoa pode ter um ou mais nomes, passaportes diversos, no meio do livro a gente se perde um pouco na identificação e acho que a ideia é essa. Ficamos meio perdidos, nós, os personagens de Modiano, a memória esfumaçada do narrador.

Denise, a personagem feminina que encanta, lê romances policiais.

Não dá pra ler o livro uma vez só. É curto, simples, mas dá vontade de voltar e pesquisar o próprio romance.

O romance tem características de um romance policial, há detetives, fugitivos, arquivos, leitores, talvez um crime remoto, a procura de alguém por sua história e sua identidade.

Eu me pergunto, depois de ler o livro, se é assim tão importante encontrar o passado certo e exato, se ele existe.

Quem perde a memória não se perde necessariamente. Há sempre o momento presente (a conclusão transitória é minha e não do romance).

Estou impregnada desse livro e não consigo parar de pensar nele.

P.S.- Acabo de ler de novo.

Impressões de Roma

19 de novembro de 2016

Passei uma semana em Roma agora em outubro. Já tinha ido há muitos anos, no verão, e me lembrava do Trastevere e do calor. Lembro-me também que não pude, na ocasião, ver o Papa, pois ele  estava em Castel Gandofo, a residência de férias. Mas era outro Papa, não Francisco. Francisco eu vi agora, em uma manhã ensolarada, perto de uma lua linda que fotografei.

img_1349

O que vi de mais bonito: Piazza Navona, Piazza di Spagna e as lindas escadas, Terme di Caracalla e seus maravilhosos mosaicos, o Moisés de Michelangelo. Michelangelo está em toda Roma, assim como Bernini, o escultor que também está em toda Roma. Eu e minha amiga amiga Samantha e gostávamos dos dois, talvez eu um pouco mais de Michelangelo e ela um pouco mais de Bernini, mas era uma brincadeira,  porque gostamos de tudo.

Passamos um dia em Florença também e o Davi é inesquecível, assim como as esculturas inacabadas. Adorei ver os trabalhos inacabados de Michelangelo, suas perfeitas imperfeições, aquele nosso olhar que não se completa.img_1253

Na Praça de Espanha está a casa em que o poeta inglês Keats passou um ano e morreu de tuberculose. A vista é muito bonita e lá também morou Alex Munthe, que escreveu um livro que minha avó amava, O livro de San Michele. Fiquei surpresa quando vi essa primeira edição. Lá também estão anotações de Borges sobre Keats. Borges tinha uma letra tão pequena. Suas anotações são de uma pessoa cuidadosa e metódica.

img_1625

 

img_1618

 

img_1633

Deixei para outra oportunidade as catacumbas, a Via Appia, os Museus Capitolinos, os museus do Vaticano à noite ou bem cedo, antes de as portas abrirem. Tem tanta gente nas galerias, mas tanta gente, que não dá para visitar direito. E é abafado. Mas a capela Sistina eu vi bem melhor e achei linda, Quando fui, da outra vez, também vi, mas estava em restauração e com andaimes. Agora vi pronta e as cores estão bem vivas.

Ainda demoro um tempo para compreender tudo  e a viagem está só começando. Estou no meio da biografia de Michelangelo escrita por Martin Gayford editada pela Cosac e imaginando Roma e Florença quando viveram Savonarola e Maquiavel.

No Rio de Janeiro eu vi jogos, o Abaporu, Urutu, a imperatriz Leopoldina, desenhos de Debret e uma mesa fora do lugar

7 de setembro de 2016

Estive no Rio para ver um pouco das Olimpíadas e acabei vendo outras maravilhas. Vi alguns jogos, mas o que me impressionou, mesmo, foram as visitas a museus que eu não conhecia: Museu de Arte do Rio e Museu de Arte Moderna.

O primeiro museu de arte que visitei foi o MASP. Minha mãe (Ana Maria, sobre quem já escrevi aqui, no post  Perfil de Ana) fez questão de nos trazer em um domingo, nós morávamos em Santos. Fomos ao MASP e depois almoçamos em um restaurante que não existe mais, no Supermercado Eldorado, na Pamplona. Era um restaurante chique e o lustre era enorme, cheio de pedras brilhantes. Era ou dia dos pais ou aniversário de meu pai. Minha mãe colecionava fascículos sobre pintura.

Gosto de fotografar as explicações e legendas nos museus. Fotografo alguns trabalhos também, tentando levar para casa a primeira impressão, para não esquecer.  Não sei se minha mãe, hoje, entraria em um museu com uma máquina fotográfica. Não sei o que ela acharia disso. Não resisto e fotografo.

No Museu de Arte do Rio vi o Abaporu, de Tarsila do Amaral. Achei maravilhoso ter visto em casa, porque ele vive no MALBA, em Buenos Aires, e, quando quis ver, lá, não consegui: o museu estava em reforma.

abaporu

 

No MAR está também uma exposição bacana sobre a Imperatriz Leopoldina, que veio da Áustria para ficar com D. Pedro I. Eles se casaram por procuração, ela lá e ele aqui no Brasil. Ela navegou muito para chegar aqui e teve papel importante na nossa história, principalmente na independência. Morreu muito cedo, com 29 anos. Vi, no MAR, um caderninho dela, denominado “Mes résolutions”. Li depois, em “A biografia íntima de Leopoldina”, de Marsilio Cassotti (Planeta), que o caderno foi escrito por sua preceptora. Correspondia, no entanto, às suas próprias resoluções.

diario

 

Leopoldina foi muito importante para independência.

img_0924

 

*****

O Museu de Arte Moderna mereceria um livro de anotações.  Eu me senti muito bem lá, fiquei muitas horas. Os espaços são largos, é possível ver tudo várias vezes sem a menor pressa. Gostei muito de um trabalho de Tarsila chamado Urutu. Li, depois,  sobre esse maravilhoso trabalho: “Seu tema é a lenda amazônica da Cobra Grande, mesma referência tomada por Raul Bopp para seu poema antropofágico “Cobra Norato”, de 1931. De acordo com a lenda, um encantamento transformou um rapaz em cobra, e ele só voltaria a sua forma original se a cobra fosse ferida na cabeça e morta. Raul Bopp, admirador de Tarsila, dedicou a ela seu poema” ( Tarsila do Amaral- Coleção “Folha-Grandes pintores brasileiros”, p. 76).

 

IMG_1135

 

Também adorei essa trabalho de José Bechara, A casa pintada. É que tenho um conto chamado A mesa fora do lugar e me identifiquei:

img_1054

Lista de temas que sempre me interessam

29 de agosto de 2016

Como leitora e ouvinte, tenho algumas curiosidades nunca resolvidas. Sempre volto a esses temas:

1)- Brasil em 1500, antes e depois (índios, escravidão, portugueses).  Gosto também de ler sobre a Imperatriz Leopoldina;

2)- Julio Cortázar e escritores latino americanos. Gosto de Silvina Ocampo;

3)- Modernismo (Anita Malfatti, Mario  de Andrade, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral). Ver o Abaporu no Rio de Janeiro (MAR), recentemente, foi um acontecimento;

4)- Entrevistas. Coleciono livros com entrevistas. Antes eram com escritores e agora qualquer tipo de entrevista;

5)-Livros sobre teoria literária. Não leio inteiros, mas gosto de tê-los por perto e folheio. Sempre aprendo alguma coisa;

6)- Bob Dylan;

7)- Livros e textos sobre literatura policial: procurando perguntas e respostas;

8)- Japão: ainda vou, um dia, tenho certeza;

9)- As bailarinas de Degas;

10) – Wim Wenders e todos os seus filmes.

William Shakespeare na Flip

5 de julho de 2016

Estava eu pela Flip  meio chateada porque não tinha conseguido assistir ao Karl  Ove Knausgaard de perto e peguei um folheto com a programação da Casa Shakespeare.

Entrei na  Capela Nossa Senhora das Dores, de Paraty, adaptada.

Prestei atenção, antes de tudo, nos trabalhos de Dalcir Ramiro de Alcântara, ceramista. Gostei especialmente deste, Rei Zizinho de Mamanguá:

20160701_180455 (2)

Sentei-me em um banco quadrado e fiquei esperando  Irvine Welsh, Kenneth Maxwell e Martin Dowle, convidados para conversar sobre Shakespeare, global foreigner. O tema foi muito oportuno porque Shakespeare é universal e representado em todas (acho que quase todas) as línguas e culturas.  Falou-se de como Shakespeare chegou ao Brasil, de João Caetano, Machado de Assis,  Gabriel Villela e o Grupo Galpão. A mediadora, jornalista da BBC, Kirsty Lang, perguntou aos participantes como e quando tinham entrado em contato com Shakespeare pela primeira vez.

Eu também acabei me lembrando como foi.

Quando estudava na Cultura Inglesa, fiz, na aula,  uma apresentação sobre Shakespeare. Segurei para a classe um cartaz onde estava sua figura séria e ao mesmo tempo soberana e enigmática, com bigode talvez parecido com o de Dali (para mim).  O cartaz caiu da minha mão enquanto eu falava. Eu estava insegura de falar  e o cartaz caiu. Até hoje me lembro da sensação da queda do retrato de Shakespeare de minhas mãos, na frente da classe.

Foi mal, mas ao mesmo tempo essa sensação me obriga a retomar sempre o momento do conhecimento sobre ele. Procuro aperfeiçoar cada vez mais o que sei, para segurar de novo o cartaz. E me lembro de repetir o nome da cidade onde ele nasceu: Stratford- upon- Avon. Esse upon-Avon era meio estranho de falar.

Mais tarde fiquei sabendo que, na época de Shakespeare, as  peças de teatro não chegavam a ser impressas. Muitas foram publicadas em “quarto”, ou páginas dobradas, quatro delas dando origem a oito (fanzines?). Eram escritas à mão. Os atores recebiam  suas próprias falas e só elas. Foram reunidas em uma única publicação por volta de 1620. A publicação ficou conhecida como First Folio.  Fiquei sabendo também que já houve dúvidas sobre a autoria de suas peças (o que não é importante porque ser autor, na época, era diferente de ser autor, hoje). E também soube que há um tempo na vida dele em que não se tem a mínima ideia do que  fez (entre 1580 e 1590).

Li Romeu e Julieta (soube também que a história já existia antes da peça ter sido escrita, por volta de 1595), Hamlet, Macbeth. Assisti aos filmes “A megera domada” com Elizabeth Taylor e Richard Burton e Romeu e Julieta de Zefirelli. Gosto muito desses. Há muitos outros filmes baseados em Shakespeare. Na Flip falou-se de sua influência na série House of Cards. Foi dito que, hoje, ele poderia ser autor de séries ou roteirista de Hollywood. Sinceramente, não sei. Acho que hoje ele não teria todo o apoio e o alcance que seu tempo lhe proporcionou, lançando-o ao futuro.

Quando estive em Londres, visitei o Shakespeare’s Globe, que reproduz o teatro da época. Havia pessoas ensaiando e a ligação delas, no palco, com o que pode ter acontecido, ficou evidente para mim.

SONY DSC

 

SONY DSC

Na Flip também houve, de certa forma, uma tentativa de nos fazer sentir no palco.

20160701_174801 (2)

 

E a Biblioteca que criaram lá está aqui.

20160701_164507

Um livro: guia de escritoras da literatura brasileira

4 de junho de 2016

image

É de Luiza Lobo esse guia, publicado pela UERJ e pela Eduerj em 2006. Luiza Lobo é professora de literatura, escritora. No plano da obra, explica que o trabalho durou mais de 10 anos e apresenta 36 escritoras.
Entre os critérios para seleção estão: “perfil sociológico e literário, a questão do cânone e a literatura feminista no Brasil”.
As escritoras são: Adélia Prado, Ana Cristina César, Ana Eurídice Eufrosina de Barandas, Ana Maria Machado, Ana Miranda, Auta de Sousa, Carmem Dolores, Carolina Maria de Jesus, Cecília Meireles, Clarice Lispector, Cora Coralina, Diná Silveira de Queiroz, Francisca Júlia, Gilka Machado, Helena Parente Cunha, Heloísa Maranhão, Henriquieta Lisboa, Hilda Hilst, Júlia Lopes de Almeida, Lya Luft, Lygia Fagundes Telles, Maria Alice Barroso, Maria Firmina dos Reis, Marina Colasanti, Marly de Oliveira, Narcisa Amália, Nélida Piñon, Nísia Floresta, Olga Savary, Patrícia Bins, Patrícia Galvão, Rachel Jardim, Rachel de Queiroz, Sônia Coutinho, Tânia Jamardo Faillace, Zulmira Ribeiro Tavares.
O livro segue como dicionário, ou enciclopédia. Há biografia, bibliografia, bibliografia sobre as autoras.
Muitas escritoras nasceram antes de 1900 e muitas escreveram também sob pseudônimo.
Ana Cristina César e Ana Miranda, estão entre as minhas prediletas relacionadas no post anterior.
O guia é de 2006 e, depois, muitas escritoras novas surgiram no Brasil. Vale muito a pena ver como a autora colecionou informações relevantes para a caracterização de literatura escrita por mulheres no Brasil.
Antes eu não achava importante caracterizar especialmente a literatura de autoria feminina. Mas tenho pensado sobre isso sob outros pontos de vista, entre eles o da valorização da nossa presença na cena literária. Gostei de encontrar o guia de Luiza Lobo.

Escritoras e personagens

29 de maio de 2016

Aqui está uma lista afetiva de escritoras que me influenciaram. Entre parênteses estão os livros que ligaram nelas (tem um conto, também):

1)- Ana Miranda (Boca do inferno);

2)-Gertrude Stein (A autobiografia de Alice B. Toklas);

3)- Isabel Allende (Eva Luna);

4)- Patricia Cornwell (Corpo de delito);

5)- Ana Cristina Cesar (A teus pés);

6)- Simone de Beuvoir (Os mandarins);

7)-Karen Blixen (Fazenda africana);

8)- Jane Austen (Razão e sensibilidade);

9)- Marguerite Duras (O amante);

10)- Marilene Felinto (Muslim: woman)

Tem uma coisa na discussão atual sobre igualdade, sobre feminismo, sobre os espaços que nós, mulheres,  ocupamos, que me escapa. Eu não sei precisar bem o que falta, não consigo muito falar sobre isso.

Sou de uma geração intermediária, nasci em 62. Fui educada para acreditar  que o mundo tinha mudado e me surpreendi quando vi que nem tanto. Tomei um susto, um choque.

Há mais escritores publicados que escritoras publicadas. Tenho achado que publicar é muito importante, mesmo textos não tão bons ou bem avaliados sob um ponto de vista mais literário. Eu sei que há muitos livros publicados, que o mercado está saturado, que é difícil ter livros em livrarias, dizem que brasileiros leem pouco (li que as brasileiras leem muito), que encontrar uma editora é mais difícil ainda.

Mesmo assim, é importante publicar. A internet facilita, sempre se pode fazer um blog, um fanzine impresso em casa, um folhetim em xerox, um e-book em uma plataforma gratuita.

O ideal seria ter milhares de leitores,  mas ter um leitor que responda a um texto  é maravilhoso. Um leitor  que  leia com atenção, grife uma frase, ria de uma piada, que se identifique com um mistério, uma tristeza, um sentimento de inadequação da personagem.

Comecei a falar de minhas autoras preferidas e acabei falando de mim e esse foi um devaneio suscitado pela minha condição feminina.

Quando eu era pequena, estava na livraria com a minha avó, era uma livraria que frequentávamos, nós duas. Havia um livro na estante  e no título estava a palavra sexo. Eu perguntei a ela o que era sexo. Ela me respondeu que era algo como masculino e feminino, uma palavra que reunia os gêneros. A resposta não foi a mais adequada, talvez, mas não estava errada. Eu me lembro que, na hora, achei a explicação um pouco estranha, mas me identifiquei com aquele título, ele me incluía. Não sei por que me lembrei disso agora. Outro devaneio.

Pensando nas escritoras, lembrei de personagens femininas muito vivas: Macabéa, Lady Chatterley, Emma Bovary, Anna Karenina. Só uma delas criada por uma escritora: Macabéa, por Clarice Lispector.

Clarice Lispector não pode faltar em nenhuma lista. Gosto e respeito, mas não sou totalmente envolvida por ela. Sua escrita é tão forte que me incomoda e leio pouco para não me machucar. Preciso de distância na leitura e tenho a impressão de que o texto de Clarice não concorda com o afastamento.

Não sei exatamente por que as escritoras mulheres são menos publicadas que os homens (isso está mudando). O que eu sei é que as mulheres ainda não escrevem tudo. Há muitas opiniões, sentimentos, versões, ficções, invenções, não verbalizadas.

A literatura transforma as pessoas e podemos transformar sempre e cada vez mais, escrevendo uma história sem qualquer intenção de fazer a cabeça, ou politizar, ou mudar o mundo, ou tendo a intenção, tanto faz, cada uma ou cada um escreve o que quer (e pode) para quem quiser ler.

Mas cada escrita reflete seu tempo e seu contexto e se descola da pessoa que escreve e da que lê, também. Implementando diálogos diversos, representando, o romance muda o mundo. Os romances de minhas escritoras prediletas mudaram meus mundos. Até Corpo de delito. Kay Scarpetta é uma senhora personagem.

Sobre o julgamento de Zé Bebelo em Grande Sertão: Veredas

20 de abril de 2016

 

20160417_162550(0)_resized

 

Essa é a vista da sala de aula do anexo da Casa Guilherme de Almeida. O domingo estava lindo e, pelas janelas, entrava uma brisa agradável. O curso com Berthold Zilly sobre a tradução de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa,  abriu a memória e caminhos para outras leituras e reflexões.

Lembrei, na aula, de minha defesa de mestrado em processo penal, Ação penal condenatória, na década de 90. Eu estava explicando para a banca como eu via a ação penal condenatória, sempre a partir da acusação porque, sem acusação, não há defesa. Kafka, em O processo, fala justamente disso, do horror de não se conhecer a acusação.

É claro que era uma particular maneira de ver que eu aprendi, não inventei nada. Mas eu quis dar uma explicação vertida para a minha linguagem. E me ocorreu, naquele momento, falar da cena de julgamento de Zé Bebelo em Grande Serão: Veredas. Aquela cena explica o processo penal.

Guimarães Rosa mostra, ali, profundo conhecimento de como deve ser um processo público e justo. No início do julgamento, Joca Ramiro diz: “A gente pode principiar a acusação”. E Joca Ramiro deixou para opinar depois, porque iria “baixar sentença”. E quem quisesse podia “propor condena”. Hermógenes fala com raiva: “Acusação, que a gente acha, é que se devia amarrar este cujo, feito porco. O sangrante…Ou então botar atravessado no chão, a gente todos passava a cavalo por riba dele-aver se vida sobrava, para não sobrar”. Zé Bebelo quer falar e diz: “Mas, para falar, careço que não me deixem com as mãos amarradas…”. E Joca Ramiro concorda. E Zé Bebelo fala algo muito certo e racional: “Rompo embargos! Porque acusação tem de ser com sensatas palavras-não é com afrontas de ofensa de insulto…”. E Joca Ramiro pergunta para Sô Candelário, que desafia: quer resolver à faca. Ao que Joca Ramiro responde: “Resultado e condena, a gente deixa para o fim, compadre. Demore, que logo vai ver. Agora é a acusação das culpas. Que crimes o compadre indica neste homem?”. Sô Candelário não vê crime. Zé Bebelo não havia traiu ninguém, não foi ladrão de cavalos. E Zé Bebelo grita: “Sempre eu cumpro a palavra dada”. Houve conversas e debates, Riobaldo finalmente fala, “O que eu tenho é uma verdade forte para dizer, que calado não posso ficar…”. Riobaldo foi um advogado de defesa ali naquele momento. Falou com intensidade: “Por tanto, que digo, ele merece um absolvido escorreito, mesmo não merece de morrer matado à toa…”. E chega o momento de Zé Bebelo se defender: “Altas artes que agradeço, senhor chefe Joca Ramiro, este sincero julgamento, esta bizarria…” Depois ele se apresenta, agradece aos que por ele falaram e puniram. E defende-se e Joca Ramiro diz, como um juiz, porque o juiz diz o direito. Ele diz: “O julgamento é meu, sentença que dou vale em todo este norte. Meu povo me honra. Sou amigo dos meus amigos políticos, mas não sou criado deles. A sentença vale. A decisão. O senhor reconhece”. E Zé Bebelo diz: “Reconheço”. Zé Bebelo se compromete a cumprir a decisão, que acaba sendo a ida para Goiás.

Essa cena descreve todas as fórmulas de um julgamento justo: a acusação impessoal, a defesa, a fala sem amarras, o juiz decidindo o conflito só no final, sem interferir. Há um roteiro de prestação de justiça muito adequado nessa cena.

Quando li Grande sertão e estava escrevendo minha dissertação, fiquei muito impressionada com o julgamento de Zé Bebelo. E falei na defesa, para a banca, com a mesma sinceridade com que Riobaldo fala por Zé Bebelo. Fui muito espontânea, não me lembro de ter ensaiado ou pensado nessa fala antes da defesa. Eu tinha anotações jurídicas e não literárias. Mas a literatura me socorreu, naquele momento.

Esse falar que surpreende e rompe alguma fronteira e mostra outros pontos de vista em uma conversa, um debate, um julgamento, é sempre um ponto de virada na vida da gente.

 


%d blogueiros gostam disto: