Entrevistas com escritores

Conversas entre escritores (Arte & Letra Editora, Curitiba, 2009), reúne 21 entrevistas publicadas na revista Believer. Escritores entrevistam escritores.
Sobre a conversa entre Sean Wisley e Haruki Murakami- O entrevistado é Murakami, mas é bom saber um pouco sobre Sean Wisley e fiz breve pesquisa no Google, porque nunca tinha ouvido falar dele. Descobri que escreveu um livro, Oh the glory of it all, que fala sobre sua família de certa importância em São Francisco. Parece que o livro é divertido. Segundo a Wikipedia, ele nasceu em 1970 e escreveu outro livro com Matt Weiland, chamado State by state: a panoramic view of America.
Haruki Murakami é escritor japonês que faz o maior sucesso, é muito contemporâneo. Já li, dele, Minha querida Sputnik, Do que eu falo quando falo de corrida e estou lendo, agora, Norwegian Wood. Seus personagens são jovens e todos assustados, perplexos. Vivem meio que no ar, tentando encontrar equilíbrio. Resumindo: 1)- Opiniões do escritor são diferentes das opiniões pessoais do autor sobre política ou qualquer outro assunto: é preciso ter cuidado ao emiti-las; 2)- Mulheres são condutoras de suas narrativas; 3)- A música é importante para ele; 4)- Gosta de procurar lojas de discos usados; 5)- Ele teve um bar de jazz por muito tempo; 6)- Humor é caminho para seriedade.
Recentemente, Murakami publicou, no Brasil, 1Q84. Ainda não li, mas está aqui perto e logo começo.
Murakami não diz muito, como era de se esperar. Ele é do tipo que vive nas histórias e, provavelmente, quando é ele mesmo, não gosta de falar com estranhos. Ele mesmo esclarece, no começo da entrevista, que não costuma responder às perguntas da mídia. E diz: “É assustador pensar que de muitas maneiras nós enxergamos o mundo através da mídia e nos comunicamos usando o vocabulário da mídia” (p. 160).
Sobre conversa entre Jonathan Lethem e Paul Auster- Também não conheço o primeiro. A entrevista aconteceu em 2004. No preâmbulo, lembra-se que Paul Auster foi poeta ( A Companhia das Letras acaba de lançar livro com seus poemas). A prosa de Paul Auster é instigante e envolvente porque ele escreve sobre o ato de escrever, sobre individualidade e sobre os diversos papéis representados no contexto social, não se esquecendo da importância da fantasia e do fantástico em tudo isso.
Jonathan Lethem é romancista americano e a Wikepedia traz inúmeras informações sobre ele. Seu texto mistura ficção científica e histórias com detetives. Gostaria de desenvolver esses gêneros na minha ficção, para mim o mundo não passa de um enorme ponto de interrogação sobre acontecimentos relativamente fantásticos e, às vezes, fantasmagóricos. Talvez haja monstros por toda parte e é preciso detectá-los antes que ataquem. Mas Paul Auster conta o seguinte: 1)- Tem um escritório perto de casa; 2)- Cuida de burocracias, como pagar contas, por exemplo; 3)- Gosta de trabalhar todos os dias; 4)- Escreveu roteiro de O Mistério de Lulu para Wim Wenders, que no fim não dirigiu o filme. Paul Auster assumiu o trabalho; 5)- O que mais me interessou, na entrevista, foi: “Ao longo dos anos, tenho me interessado intensamente pela artificialidade dos livros. Quero dizer, afinal de contas, quem está brincando com quem, Sabemos que, ao abrir um livro de ficção, estamos lendo algo que é imaginário. E sempre tive interesse em explorar esse fato, usá-lo, torná-lo parte da obra. Não de uma forma seca, acadêmica, ou metaficcional, mas simplesmente como uma parte orgânica da palavra escrita Quando eu era criança, pegava um romance escrito na terceira pessoa e perguntava a mim mesmo:”Quem está falando? Quem estou ouvindo aqui? Quem está contando esta história?” Posso ver um nome na capa, que diz Ernest Hemingway ou Tolstoi, mas é de fato Tolstoi ou Hemingway que estão falando?” (p. 32).
Aqui ele toca em um ponto que para mim é essencial: quem fala na ficção? Qual a diferença entre o escritor e o narrador? Como fazer com que o narrador seja completamente outro?
Pensando nisso, por coincidência, agora há pouco, li uma entrevista do escritor Luiz Bras no blogue Estudos Lusófonos: http://etudeslusophonesparis4.blogspot.fr/2013/03/luiz-bras-entra-em-cena.html.
Autor do ótimo Sozinho no deserto extremo (Prumo, 2012), Luiz Bras é um dos escritores mais destacados da literatura brasileira contemporânea. Lendo a entrevista, só posso concluir que a questão de quem fala talvez não deva ser respondida. O essencial, talvez, seja descobrir e concretizar, no texto, a voz imaginária de uma identidade que é inominável, como disse, um dia Beckett, e não sei nem se nesse preciso contexto. De qualquer forma, o escritor é quem melhor se explica: “Luiz Bras sempre morou no terceiro planeta do sistema solar. Com os gatos aprendeu a acreditar em telepatia e universos paralelos”.
No fim, percebo que Haruki Murakami, Paul Auster e Luiz Bras, em tempos e lugares diferentes, falaram a mesma coisa. Pelo menos foi como ouvi; e outras leituras são, certamente, possíveis.

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