Notas breves sobre Piglia, Bach, Joyce, Dimos Goudaroulis e Antonio Torres

1)- Formas breves é um livro de Ricardo Piglia em que ele reflete sobre literatura em textos curtos. Breves. Acabo de reler, do livro,  “Os sujeitos trágicos (literatura e psicanálise)”.

Piglia conta um caso: Joyce visitou Jung na Suíça e mostrou  escritos de sua filha Lucia, que teria morrido psicótica. Ele mostrou a Jung textos dela, comparando-os aos seus, especialmente a Finnegans Wake. Jung teria dito:”Mas onde você nada, ela se afoga” (p. 55,56).

Coincidentemente, li, na página da Revista Cult na internet, entrevista que Fábio Durão deu ali, por ocasião de um curso agora em fevereiro, no Espaço Cult.

Ele diz, sobre o fluxo de consciência como modo narrativo: “A importância foi um salto admirável na verossimilhança psicológica. Os personagens passam a se parecer muito mais com você ou comigo. Mas, no Ulysses, o Joyce faz algo surpreendente: ele não se contenta com essa conquista narrativa, que expande o horizonte do representável na literatura, mas no decorrer do livro a desmancha. A partir de certo ponto (e é difícil precisar exatamente onde) aquilo que queria ser o veículo da antropormorfização, a representação acurada do funcionamento da mente, surge como um mecanismo narrativo. Cria-se, assim, uma interessante tensão entre homem e máquina, orgânico e inorgânico” (HTTP://revistacult.uol.com.br/home/2013/02/metamorfose-literaria/ ).

2)- Cheguei a aprender um pouco de piano. Toquei sete músicas simples, todas esquecidas. Mas guardei o esforço e a alegria de      tocá-las.   Depois desisti. Achei que tinha alcançado meu limite. O que me deixava aflita era tocar as notas do piano até o final da música, não sabia se eu ia conseguir completar a sequência nos tempos certos. Muitas vezes parava e  começava de novo. Muitas vezes. A música era imprevisível; como falar em público.Lembrei  disso agora.

Como falar em público: queda livre. Aprendi a seguir a partitura: paraquedas.

3)-Outro dia ouvi Dimos  Goudaroulis na Casa do Núcleo. Violoncelo. Ele tocava e explicava. Falou muito da música como discurso. Bach. Ouço o CD dele, 6 suites a violoncello solo. No texto do encarte ele diz claramente que a música de Bach é uma música falada, que obedece às leis da retórica, como  um discurso. O ouvinte participa do fazer a música. Dimos Goudaroulis  toca fielmente o manuscrito de Anna Magdalena Bach. Foi maravilhoso ouvi-lo na Casa do Núcleo, assim como a música do CD surpreende a cada tempo.

4)- Acabo de assistir a este filme, divulgado no facebook por Antonio Torres, ele mesmo entrevistado por Marcelo Moutinho: http://www.youtube.com/watch?v=gO49pJ31-YU.

Essa terra, que li há muitos anos e ainda releio, me impressionou e impressiona muito, de um jeito que só O jogo da amarelinha, de Cortázar, tinha feito.

Só depois li Grande Sertão: Veredas  e aí fiquei com uma ideia segura da literatura que cola em mim. Li  todos com deslumbramento (embora  os estilos sejam completamente diferentes).

Li  Essa terra sem indicação ou referências;  passei na livraria, vi,  comprei o livro, e li. Tudo o que o escritor  conta na entrevista é sincero, absolutamente profundo e ao mesmo tempo simples,  delicado. A influência da música, do jazz, no ritmo de seu texto, está declarada na entrevista. Tempos, espaços, pontos.

Como a música é importante.

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