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Sobre oficinas de escrita criativa

16 de fevereiro de 2013

livros

Escrevia diários, desabafos, cartas, inícios de contos, reflexões. Modo de organizar ideias.

De uns dez anos pra cá, exercito o impulso de escrever ficção. Imagino cenas.

E procuro meus leitores. Amigos e parentes são leitores exigentes. Leem a pessoa e não o texto, ou a pessoa + o texto. Às vezes são generosos. Interpretam o escrito a partir do nosso contexto pessoal. Quando um amigo gosta do que a gente escreve é maravilhoso. Pode acontecer que não, e ninguém tem culpa disso. Pode acontecer que o texto precise ser melhorado, mesmo, e daí?

Quando o texto ganha o próprio espaço, quando  se liberta do autor, aparece a literatura.

Acabei encontrando uma professora que passou a ler  meus escritos de uma maneira mais profissional, com  distanciamento: Malu Zoega. Foi uma fase legal, em que me afastei de mim e pude inventar. Lemos autores brasileiros com atenção de escritor e não só para desfrutar. Porque uma coisa é  ler por puro prazer e outra é ler decifrando.

Aí criei coragem e me inscrevi em uma oficina de escrita criativa. Procurando leitores desconhecidos. Escolhi o b_arco (barco.art.br), com  Marcelino Freire (autor de , “Balé ralé”, “Amar é crime”, “Contos negreiros”, “Angu de sangue”).  Marcelino capta, exatamente, o que está nos textos que lemos para o grupo em voz alta – e o que não está, também. Não basta escrever. Precisamos  ler os próprios escritos com atitude,  como se fôssemos o outro, para os outros.

Quem lê alto? (outro dia encontrei um programa de computador que é leitor automático, robótico. A gente ilumina o texto e ele lê, com voz feminina ou masculina, dá pra escolher. Meio esquisito, sempre esqueço de pegar o CD do programa).

Acho que já fiz três módulos da oficina de Marcelino e, no último, tive o maior prazer de ter aulas, também, com Luiz Bras, cuja literatura é instigante e contemporânea. Luiz não só escreve ficção (publicou, entre outros, “Sozinho no deserto extremo”) como escreve sobre a ficção (http://rascunho.gazetadopovo.com.br/tipoautor/colunista).  Escreve muito,  sabe muito.

Fiz, também, um módulo na Oficina de Escrita Criativa, em um andar bem alto do Edifício Itália, em jornalismo literário, com o jornalista Ivan Marsiglia. Lemos e conversamos sobre  Hunter Thompson, Matinas Suzuki, Truman Capote, Gay Talese, Norman Mailer, Christian Cruz e sobre  textos do próprio Ivan, super jornalista- escritor. Escrevi o Perfil de Dylan, publicado aqui, durante o curso.

Vi que dá pra escrever sobre realidade de um jeito pessoal; aprendi a brincar com a escrita na primeira pessoa, a pular para a terceira sem perder a coerência. No livro “A luta”, de Norman Mailer (Cosac Naify), ele às vezes se coloca na história como um terceiro. Refere-se a ele mesmo como Norman. É divertido.

Agora, no início do ano, fiz outro curso no b_arco: “Autobiografia, fabulação e humor”, com Newton Cannito e Eduardo Benaim.  Já sabia, mas tinha só a intuição, não a técnica, que ficção se escreve a partir da própria vida transformada, virada do avesso. É legal fazer os outros darem risada. Onde está escrito que ler é o melhor remédio?

É claro que quem escreve, escreve, e não precisa fazer oficina para escrever. Cada escritor é um escritor, não adianta. E cada leitor é um leitor, escreve mentalmente a história que lê. Imaginação é assim.

Mas, ouvindo o profissional que coordena a oficina, ouvindo o outro, dá pra perceber que há semelhantes no mundo, e fica mais fácil encontrar a persistência necessária para que o texto siga seu caminho até o ponto final. Efeitos do diálogo.

Às vezes a gente se complica nos grupos; nem sempre os ouvintes gostam do nosso texto, nem sempre compreendem, nem sempre nos fazemos entender. Mas, pelo menos,  estamos em um espaço  de discussão interessada. É bom estar em um grupo. Mas é bom silenciar, também. Dependendo do tempo. E da chuva.


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