Ainda sobre Nabokov e Humbert Humbert

15 de julho de 2012

Dia 22 de junho  escrevi sobre Lolita e Nabokov e hoje, inspirada pela leitura do jornal, volto ao assunto.

No Caderno 2 (O Estado de São Paulo), Luis Fernando Verissimo contou que deu uma entrevista à Radio Batuta, do Instituto Moreira Salles, na Flip, dizendo que seu personagem literário inesquecível  é Humbert  Humbert, de Lolita,  Nabokov.  Humbert  Humbert é “uma figura monstruosa e fascinante”, ele disse.

Eu também acho. Humbert Humbert é um personagem totalmente verossímel, nós acreditamos nele. Seguimos  seus pensamentos com extrema curiosidade e espanto: como ele pôde ir tão longe?

Ele (Humbert Humbert) escreve  na prisão.  É,  paradoxalmente, e talvez por isso mesmo,   livre para escrever o que quiser e como quiser.  E ele até poderia ir mais longe. Ainda transcrevendo Verissimo, “os explicadores de Nabokov, com a mesma intensidade dos fundamentalistas, combatem a ideia de que Lolita seja pornográfico”.

Nabokov  também foi livre para escrever Lolita e sabemos que ele e seu personagem não têm nada em comum. Como lembrou Veríssimo, ele nunca diria, “Humbert Humbert  sou eu”.

A  revista Serrote 11, do Instituto Moreira Salles, publicou  ensaio “Nabokov & Machado”, de Brian Boyd.  O ensaio, que vem acompanhado de lindas ilustrações de borboletas, desenhadas por Nabokov,  é de uma profundidade intensa. Lerei e relerei para poder escrever sobre o texto que mostra pontos em comum entre dois grandes escritores: Machado de Assis e Nabokov.  Por enquanto, hoje, fico com as lindas borboletas.

Segue link para o vídeo da Rádio Batuta: http://ims.uol.com.br/Radio/D1048

Flip 2012 – Qual é meu livro de cabeceira?

11 de julho de 2012

Fui ao encerramento da Flip 2012 em Paraty no dia 8 de julho, domingo. Vi  Hanif Kureishi e Gary  Shteyngart no telão e assisti ainda ao último encontro em que convidados  leram seus textos prediletos.

Hanif Kureishi é um dos meus escritores favoritos. Li  “Tenho algo a te dizer” (Companhia das Letras) em uma fase importante da minha vida, achei avançado,  um retrato dos personagens em que nos tornamos todos, de um jeito ou de outro.

Não conhecia Gary Shteyngart  e quero ler um de seus livros, vou ainda decidir qual. Ele é sutilmente engraçado, me fez rir. Disse que importa escrever com honestidade. É o que procura transmitir a seus alunos. Fiquei me perguntando se escrevo com honestidade.

Hanif Kureishi também ensina e acha que pode ajudar os alunos a organizarem o material que têm. Pode dar dicas, ser um pouco editor. Falou de muitas coisas, mas que a escrita procurou resolver, para ele, uma questão de identidade. Havia uma pergunta vital: De onde você é? Isso foi dito no contexto de uma discussão sobre diferenças culturais. O tema da conversa, por sinal, era “Entre fronteiras”.

O último encontro da Flip, em que escritores leram escritores, foi memorável. Assisti ao vivo, sem intermediação da tela.  Autores presentes, autores passados, leitores, ouvintes – muitos  também escritores-, todos nos deslumbramos com récitas em diversas línguas.

Os convidados  leram autores preferidos nas próprias línguas e não nas línguas em que escritos e foi maravilhoso. Digo para mim mesma que isso está certo, meu texto preferido é o texto que leio e  li e não o texto  como foi escrito. Pode até ser o texto não traduzido. Mas na maioria das vezes minha própria língua me mostra o escrito do outro e me mobiliza e emociona. Foi gostoso  ouvir  Lygia Fagundes Telles na voz de Zoé Valdez, em espanhol. No fim fiquei com a impressão de que tinha confundido línguas, leituras e leitores. Não estaríamos todos inseridos em uma mesma língua? Teríamos ouvido o mesmo texto?

Javier Cercas leu Cervantes e Juan Gabriel Vásquez  leu Onetti. Onetti precisa ser lido com calma, digo eu. Não é uma leitura fácil, embora seja uma leitura linda. Na Colômbia se fala um espanhol claro, luminoso. Luis Fernando Verissimo leu Millôr em português, com a nossa cadência daqui, o nosso modo de pronunciar as palavras e cantar as frases.

Saí feliz de Paraty. Voltei para Ubatuba tarde, para a minha praia nublada e chuvosa. Que eu adoro.

Fiquei pensando no texto  que diria em voz alta, se chamada fosse a tanto. Fiquei pensando no texto que recitaria para mim mesma, na minha sala de estar.  Pensei nas Viagens de Gulliver. Aliás,  Gulliver também estava em Paraty.

Marçal Aquino no B_arco Centro Cultural

30 de junho de 2012

Marçal  Aquino

Hoje fui ao B_arco Centro Cultural, em São Paulo (www.obarco.com.br).

Marçal Aquino falou  para público que frequenta as oficinas literárias coordenadas por Marcelino Freire.

Gosto dos dois escritores. Marcelino entrevistou, Marçal contou.

Contou sobre suas experiências  como jornalista, repórter policial, depois como roteirista. Falou de Amparo, sua cidade, de seu pai, de cinema, de “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios” (Companhia das Letras), de como o título do romance foi bem recebido e eventualmente não tão bem recebido. A tradução para o alemão não segurou o título, por exemplo. Fiquei curiosa para saber como ficou o livro em alemão, vou pesquisar. Li  em português. A história de amor é palpitante e às vezes triste (ela é toda meio melancólica, não estou contando final do livro, de jeito nenhum, até que termina bem). Adorei a ironia do diálogo do texto com o texto do professor Schianberg (quem leu sabe, não vou falar para não tirar a graça). Gostei tanto do livro que não quis assistir ao filme de Beto Brant, mesmo sabendo que é ótimo. É que a escritura faz parte da história e não sei se o filme manteve a intimidade da narrativa em primeira pessoa.  Cauby é um grande personagem. Imagens mudam tudo.

Marçal disse que o escritor cria a partir da imaginação, da observação e da experiência.  Cada leitor lê de um jeito, recebe o livro de um jeito particular. Ao responder pergunta sobre seus autores prediletos, disse que são muitos.  Mas citou, especialmente, Graciliano Ramos.

Sempre que posso, assisto aos escritores, quando falam. Marçal Aquino pensa muito rápido, fala rápido.  Pensa e fala ao mesmo tempo, sempre criando e recriando. Do encontro, ficou, entre tantas impressões, a frase, “eu sou escritor”.

Vladimir Nabokov e Lolita

22 de junho de 2012

 

Faz tempo quero escrever sobre Vladimir Nabokov e sobre Lolita.

Esperava o momento, que chegou quando  vi a maravilhosa edição francesa (Gallimard) na Livraria Cultura. A caixa que guarda o livro é aveludada e cor de rosa. Imagem e texto finalmente se complementam para mim, embora com alguma distorção, pois não tenho de Lolita imagem tão cintilante. Prefiro Humbert Humbert.

O livro parece um sonho de valsa.

Em francês, a primeira frase, que eu adoro, ficou assim: “Lolita, lumière de ma vie, feu de mês reins. Mon péché, mon ame. Lo-lii-ta: le bout de la langue fait trois petits pás le long du palais pour taper, à trois, centre le dents. Lo. Lii. Ta.”

Em português, na tradução de Jorio Dauster (Companhia das Letras e depois Folha de São Paulo), está: “Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo.Li.Ta.”

Há uma tradução anterior, de Brenno Silveira (Biblioteca Universal Popular). E recentemente a Alfaguara publicou tradução de Sergio Flaksman que ainda não vi.

A frase ficou bem nas palavras de Brenno Silveira: “Lolita, luz de minha vida, fogo de meus lombos. Meu pecado, minha alma. Lolita: a ponta da língua fazendo uma viagem de três passos pelo céu da boca, a fim de bater de leve, no terceiro, de encontro aos dentes. LO.LI.TA”.

Em inglês,  é assim: “Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin,  my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo. Lee. Ta.”

Em  português, os tradutores não repetem o i ao escreverem Lolita pela última vez, como faz Nabokov e o tradutor para o francês. E, na edição anterior, Lolita está em letras maiúsculas. Será que houve muita reflexão até se alcançar  um  Lo.Lee.Ta, ou LO.LI.TA, ou Lo.Lii.Ta?

Há uma breve biografia de Vladimir Nabokov escrita por Jane Grayson (Penguin Books). Ele nasceu em 1899. A biblioteca de seu pai tinha mais ou menos 5.000 livros.

Li o livro de Jane Grayson.  Nabokov foi professor  de literatura e dava muitas conferências. Escrevia-as, não falava de improviso. Lia, mas não percebiam – ele lia muito bem. Ilustrava suas aulas com desenhos divertidos. Era cientista, amava estudar borboletas, era bem humorado e usava as palavras com precisão. As línguas migrantes eram importantes para ele. Foi russo, foi inglês, foi americano e foi tudo junto.

Continuando a pesquisa, encontrei em minha biblioteca os seguintes livros de Nabokov: O Original de Laura (Alfaguara), Lolita – em inglês (Olympia Press), Lolita (Biblioteca Universal Popular), Lolita (Companhia das Letras), Lolita (Folha de São Paulo), Fogo Pálido (Editora Guanabara), Gargalhada na Escuridão (Boa Leitura S.A), O Olho Vigilante (José Olympio), Coisas Transparentes (Imago), A Pessoa em Questão (Companhia das Letras), Perfeição:contos (Companhia das Letras).  São poucos os livros, porque Nabokov escreveu 17 romances e muitos outros escritos.

Clarice Lispector disse a José Castello uma vez. “E com medo ninguém consegue escrever”  (José Castello, Inventário das Sombras, p. 20). Nabokov parece não ter tido o medo que impede a imaginação de registrar os  devaneios contorcidos da alma.

A  primeira pessoa de Humbert Humbert, seu discurso meticuloso, petulante e pouco incomodado com o leitor, com o ouvinte, são cativantes. Mergulhamos nessa realidade dele.

É como ele mesmo diz, quase no fim: “Esta, pois, é minha história. Acabo de relê-la. Tem pedaços de medula ainda presos a seus ossos, e sangue, e belas e reluzentes moscas verdes”.

Belas moscas verdes.

capa do livro de Jane Grayson (Penguin Books)

Correspondentes de guerra

13 de junho de 2012

A Revista de Fotografia ZUM 2, editada pelo Instituto Moreira Salles, discute, entre outros assuntos, todos muito interessantes, jornalismo de guerra.

Em “A guerra conectada” (Balazs Gardi, Teru Kuwayama, Rita Leistner, Omar Mullick e Leão Serva, p. 32-49), as fotos no Afeganistão foram feitas com Iphone e aplicativo Hipstamatic. Os comentários são de Leão Serva. O projeto independente é o Basetrack,  formado por repórteres de guerra. Cotidiano dos soldados é registrado.

A matéria na Revista Zum 2 é sobre fotojornalismo, mídia independente, e não sobre guerra propriamente dita. As fotos mostram afegãos, fardas, pó, capacetes, crianças e tatuagens. Duas páginas inteiras trazem retratos de desenhos tatuados. Imaginam-se solidão, estranhamento, distância, diferenças. Ao lado de uma foto, está comentário da autora: “Os afegãos ainda encaram a fotografia com certa formalidade e posam de acordo. A reação dos americanos é quase oposta” (Rita Leistner, p. 41).

A revista é de fotografia e, assim, as imagens impressionam não só pelo que mostram e denunciam, mas pela estética realista e, ao mesmo tempo, distante.

O blog do Instituto Moreira Salles traz vídeo com conferência do repórter húngaro Balazs Gardi sobre jornalismo no Afeganistão e sobre o Basetrack. Ele fala com detalhes e muita sinceridade sobre transparência no jornalismo de guerra e limites à divulgação de imagens. Vale a pena ver o vídeo da conferência em que ele mostra cenas, barulhos e, também, o silêncio da guerra.

Balazs Gardi é húngaro, assim como Robert Capa, conhecido fotógrafo que retratou algumas guerras, inclusive a 2ª mundial, também era.

Em “Ligeiramente fora de foco” (Cosac Naify), Capa fala do fotojornalismo na guerra  com  simplicidade que só os grandes gênios e os grandes mestres alcançam.

A certa altura, ele diz: “No trem para Londres, com aqueles bem sucedidos rolos de filme, senti ódio de mim mesmo e de minha profissão. Esse tipo de fotografia era para agentes funerários, e eu não gostava de ser um deles. Se eu tinha de participar do funeral, jurei, teria de participar da procissão” (p. 65). E ainda: “Na manhã seguinte, depois de dormir com essa sensação, me senti melhor. Enquanto me barbeava, tive uma conversa comigo mesmo sobre a incompatibilidade de ser um repórter e ter uma alma sensível ao mesmo tempo. As fotos dos sujeitos sentados no campo de pouso sem as fotos deles feridos e mortos teriam dado a impressão errada. As fotos dos mortos e feridos é que iam mostrar às pessoas o aspecto real da guerra, e fiquei contente de ter feito aquele rolo de imagens antes de afrouxar” (p. 65).

Esses comentários foram pinçados aleatoriamente do livro entre tantos outros dizeres tocantes do fotógrafo. Está dito ali, na introdução, que Capa queria ser romancista. Escreveu romance com imagens reais.

Como disse o cineasta Errol Morris ao jornalista Lawrence Weschler em conversa publicada em “Crer para ver”, outro texto da excelente Zum 2 (p. 127), “as fotos fazem algo complicado. Elas descontextualizam as coisas. Arrancam imagens do mundo e, por isso, nos deixam livres para pensar o que quiser sobre elas”.

Literatura de viagem em viagem

8 de junho de 2012

Ainda falando sobre  literatura de viagem, vi na livraria do aeroporto de Congonhas outro dia um livro que me interessou: “A construção do Brasil na literatura de viagem dos séculos XVI, XVII e XVIII”, de Jean Marcel Carvalho França, publicado pela José  Olympio.

Gosto de olhar os livros de livrarias que não frequento porque a forma como são expostos é diferente e isso modifica meu modo de olhar para eles. Percebo temas e autores que não perceberia normalmente. E foi assim que aconteceu.

Fotografei a capa para não  esquecer do nome – não comprei na hora porque minha bolsa já estava pesada.

As narrativas de viagem dessa época mostram um Brasil deslumbrante. O  livro se propõe a  investigar em que medida o discurso contribuiu  para a formação de uma identidade brasileira.

Terminada a minha curta viagem a Brasília, finalmente tenho o livro comigo. O rigor da pesquisa me chamou a atenção, os textos estão todos publicados na Parte II, a antologia das narrativas é bastante extensa.

Quando estive na Amazônia, fiquei encantada  com a exuberância da floresta. E, por isso, fui logo ler a parte do livro que trata da descoberta do rio Amazonas. Segue breve trecho de relato de William Davies: “Os homens trazem, também, enfiado em ambas as orelhas, um toco ou caniço, aproximadamente da espessura de uma pena de cisne e com cerca de meia polegada de comprimento; ornamento semelhante é colocado no meio do lado inferior. Até mesmo no osso do nariz eles metem um pequeno caniço, onde penduram uma pérola ou uma conta que cai diretamente sobre a boca e balança de um lado para outro enquanto falam – o que é motivo de grande orgulho e satisfação. Os seus cabelos são longos, mas, nas proximidades da orelha, há uma parte arrendodada que é cprtada bem curta, rente à cabeça- à semelhança do corte de cabelo de um monge” (p. 353, 354).

Literatura de viagem

3 de junho de 2012

Depois das câmeras digitais, fotografar ficou muito fácil.

Todo mundo tira foto de tudo e o risco de ser flagrado em uma situação incoveniente aumentou. Inconcoveniente pode ser quase tudo, desde uma dose de álcool a mais até uma gargalhada em local imporóprio, uma festa entre amigos ou entre inimigos, uma bermuda mais curta no facebook de um colega de trabalho. E se a pessoa não tem facebook e não quer estar na internet, azar. Não vê a própria fotografia na rede.

Todo celular tem uma câmera fotográfica. Todo mundo tem celular. E todo mundo fica clicando no celular durante almoços, festas, reuniões, jantares,  restaurantes,  cinema,  hospital,  enterro.

Não sei se isso é ruim ou não, o fato é que é.

Isso tem a ver com literatura de viagens porque os  escritos nas viagens, os diários, são complementados pelas centenas de fotografias. Os diários não acabaram porque a escrita é irresistível. Quem escreve, escreve. Escreve e fotografa, eventualmente, mas sobretudo escreve.  Quem sabe desenhar, desenha também.

Talvez o texto seja diferente. Mais curto.  Mais pessoal. Mais íntimo. Mais fotográfico.

Relatos de viagens existem há muito tempo. Pero  Vaz de Caminha relatou nossas terras, nossa natureza e nossos índios. Jean Baptiste Debret desenhou e escreveu “Viagem pitoresca e histórica do Brasil”. Os desenhos são perfeitos. Ele devia passar horas bordando os relatos. Parece que o tempo deles, naquela época, era mais longo.

Não tenho muita paciência para escrever  diários nas viagens  Às vezes, anoto os lugares que visito, as impressões que tive, se discuti com alguém ou não, não muito mais. Tem gente que escreve tudo, o relato é parte da viagem.

Os estilos são variados. Hoje escrevo sobre um dos livros de viagem que andei lendo.

– Apontamentos de viagem, Penguin & Companhia das Letras, J.A. Leite Moraes, publicado em 2011. A introdução é de Antonio Candido. Leite Moraes foi advogado, político, professor, jornalista, liberal, escritor. A viagem, de São Paulo a Goiás e depois a Belém do Pará, começou no fim de 1880. Transcrevo  parte da intodução de Antonio Candido: “O motivo da viagem foi, como vimos, a nomeação para o cargo de presidente daquela província central, de acesso muito difícil no tempo. A sua missão consistia em presidir as eleições de acordo com a nova lei eleitoral, conhecida na história como lei Saraiva, que modernisou e liberalizou a legislação, estabelecendo o voto direto por distritos, com um deputado para cada um” (p. 12).

Os tempos da viagem fluvial eram outros.

Olha só: “Neste dia, achei-me sempre sentado ao pé do leme, junto ao piloto, o prático basílio, no tombadilho, com a minha espingarda atravessada sobre o colo, e de momento a momento atirava ora um pato, ou uma marreca, ou uma gaivota, ou um mergulhão, ou um socó, ou uma arara, enfim todo pássaro que passava-me pela frente” (p. 90).

Haruki Murakami

22 de maio de 2012

 

Haruki Murakami, Kenzaburo Oe, Yasunari Kawabata, Jun’Ichiro Tanizaki, Mishima: escritores japoneses. São complicados e simples, antigos e modernos, às vezes tudo junto, só sei que entendo quase tudo o que eles dizem e querem dizer e o que não compreendo fica naquele espaço da leitura que não quer ser descoberto.

Li “Do que eu falo quando eu falo de corrida” (Alfaguara), de Murakami, corredor de longuíssimas distâncias. Gosto de correr e não corria fazia tempo porque me machuquei. A corrida fica me cutucando, quero voltar, sei que está na hora de voltar a correr, antes que eu não consiga mais, enquanto ainda posso correr.

E o livro me inspirou, me convenci de que precisava tentar de novo. Ouvi algumas das músicas de Murakami (Stones e Clapton), transferi para o Ipod, comprei um bom tênis novo, uma bolsa de levar chaves.

Pus bateria em  um velho GPS, os de hoje com certeza são mais modernos, mas o meu funcionou bem. Hoje consegui correr  40 minutos. 5 quilômetros. Na verdade eu trotei, não corri. Eu chego lá. O importante foi dar voltas no Parque Villa Lobos, passar 2  vezes pela Marginal Pinheiros e olhar os carros longe, da pista de corrida, correndo no sol, com um pouco de vento no rosto.

Eu me senti bem.

Antes de ler “Do que eu falo quando eu falo de corrida”, li “Minha querida Sputnik” (Alfaguara). Uma cena me me impressionou muito: a da roda gigante. Quem leu  entende. Nunca vou esquecer da imagem que Murakami passou pra mim naquela narrativa.

Antes, ainda, li, também de Murakami, Caçando Carneiros (Estação Liberdade). Foi publicado antes dos outros, foi escrito antes, também. Comprei, outro dia, também dele, Dance, Dance, Dance (Estação Liberdade).

Agora estou lendo As irmãs Marioka, de Tanizaki (Estação Liberdade). Estou na página 159, economizando, porque o livro é muito bom, ele não perde a paciência para contar a história, vai contando devagar e não é nada monótono, parece que eu vejo as cenas, os personagens, ouço as conversas.

A casa da minha avó-Paula Fernandes

20 de maio de 2012

Eu me lembro de detalhes da casa da minha avó, me lembro até do som do elevador que subia até o 7º andar de um edifício sem garagem que ficava no meio da Rua Ângelo Guerra, em Santos. Da janela se via o mar.

Atrás da porta estava uma estante baixa de livros e eu me lembro até da ordem dos livros nas prateleiras. Ela tinha uma coleção enorme de livros que contavam a vida de uma  certa Angélica. Angélica e o rei, Angélica e não sei mais quem. Tenho todos esses livros guardados  na parte de cima do guarda-roupa. Nunca abro, mas eles não saem de lá, quero que  conservem o cheiro da casa da minha avó. Fui a  herdeira dos livros da minha avó. Romances  de A.J. Cronin, Érico Veríssimo, Somerset Maugham, Pearl  Buck. Li quase todos os livros de Pearl Buck e  já tive o sonho de conhecer a China. Esses foram os meus livros. Que eram dela. Eu não me lembro de    levá-los pra casa, acho que lia lá, mesmo, na casa da minha avó.

Ela tinha uns sofás que viravam cama na sala, o tecido era gostoso, quente. E uma mesa de centro retangular de vidro entre eles. E um quadro enorme, mais de 1 metro quadrado, com uma floresta densa e escura, incrível como aquele quadro era grande e poderoso, ainda bem que não ficou pra mim. Eu queria um quadrinho pequeno que ficava no corredor, uma casa de campo no final de uma estrada em curvas. Mas não me foi dado.

E o banheiro tinha um cheiro especial, de sabonete. O box era de plástico e a gente tomava banho e o chuveirinho  escapava toda hora da mangueira. Na geladeira sempre tinha coca-cola, meu avô comprava para o mês inteiro e a gente podia tomar quando quisesse. Tinha uva, quando era época, e figo. E torta de frango. E na sexta-feira santa tinha bacalhau e ela  espirrava um pouco de água benta para abençoar antes do almoço, e falava algumas palavras carinhosas e bem humoradas. Nada para a minha avó era pesado, nem as palavras mais santas. Só quando ela ficava aflita era chato, ela se preocupava sempre, nunca se acostumou com a fatalidade da vida. Ela dizia que aceitava a vontade de Deus, mas eu sinceramente duvido, ela nunca aceitou.

Quando ventava em Santos, quando ventava muito e as esquadrias das janelas batiam, minha avó ficava muito nervosa. A gente precisava colocar um calço para as janelas ficarem quietas. Eu lembro ela falando essa palavra, calço.

E a agenda de telefone ficava em uma mesinha pequena e a gente sentava no banco baixo pra falar no telefone. Tenho saudades das mãos da minha avó manuseando aquela agenda, procurando devagar os números de telefone, folheando com seus dedos e unhas bem feitas e bem pintadas. Minha avó usou a vida toda  um mesmo esmalte, uma mesma cor, rosa pálido, o nome era fog.  A manicure ia lá todas as semanas, foi durante anos, era bem mau humorada aquela manicure. Mas até dela eu tenho saudades, da Maria José. E da Carmelita. E da minha avó.

Literárias e Ubatuba

16 de maio de 2012

Literatura e Ubatuba têm muito ou pouco em comum. Passei domingo lá e o dia estava lindo de tão feio. Ninguém na praia. Quer dizer. Passou um carro na areia, uma caminhonete. Eu andando e aquele carro grande vindo na minha direção. É proibido, quis gritar. E se ele me atropelar? Não resisti ao pensamento. Fui para o canto. Primeiro para a beira, no mar. Depois para a beira, na grama. Ele continuou devagar. Mas que impulsos não pode ter  um motorista de caminhonete dirigindo na areia em uma praia longa e absolutamente vazia, com exceção de uma caminhante solitária? No dia das mães? Ficções.

E a Virada Cultural. Marcelino Freire e Evandro Affonso Ferreira na Casa das Rosas. Às 2 da manhã. Amigos. Divertidos. Profundos. Complexos. Literatura.

E Valter Hugo Mãe na Livraria da Vila, Fradique, 12 de maio.  Valter Hugo Mãe é legal. O discurso dele é sedutor. Fala bem, pensa bem, vai direto no coração. Atinge. Daniel Benevides, da Cosac Naify, ciceroneou, recebeu, coordenou, fez as perguntas. Ele é muito inteligente.

Leituras: Haruki Murakami. Minha querida Sputnik e Do que eu falo quando falo de corrida. Eu queria escrever como Murakami. Queria correr como Murakami.

Viajando nas Viagens de Gulliver

3 de abril de 2012

Resolvi encarar Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift. Estou aqui com a edição Ediouro/Publifolha, 1998. A tradução é de Octavio Mendes Cajado e  há texto de Rui Barbosa completando tudo.

A narrativa é em primeira pessoa. O período das viagens: dezesseis anos e sete meses. Publicação do livro: 1726.

O narrador é sutilmente irônico, astuto observador e analista da política de seu tempo.  Escreve como se estivesse vendo o leitor e nos sentimos parte das histórias, visualizando Lilipute e seus diminutos habitantes, assim como Brobdingnag e seus gigantes. Ele visita outros lugares, mas ainda não fui a todos. Passa por aventuras e desventuras, é grande e pequeno, inocente e esperto, amigo e ladino.

Swift brinca com verdades e mentiras, ficção e realidade, com a verossimilhança. E brinca com a linguagem, inventando nomes esquisitos para pessoas e lugares onde as línguas são estranhas – e mesmo assim ele é bem sucedido ao aprendê-las – o suficiente para a comunicação.

Viagens de Gulliver é um livro sobre viagens fictícias e reais. Ele acredita nas viagens que fez. E nós também queremos ir a Lilipute, Laputa, Luggnagg. De navio.

Sobre Diário da Guerra do Porco- Adolfo Bioy Casares

4 de março de 2012

Fui ao Clube de Prosa promovido pela Cosac Naify na Livraria Cultura em 28 de fevereiro.  A conversa girou em torno do  livro de Bioy Casares, Diário da Guerra do Porco (Cosac, 2010). Júlio Pimentel Pinto, professor da USP, foi mediador.

Um clube de prosa, ou de leitura,  é  reunião  em que o mediador discorre um pouco sobre o escritor e sobre o livro previamente sugerido, introduzindo contextos. As pessoas  falam, se querem. Quem estava lá, no dia 29,  conhecia o livro, o autor, ou gostava de literatura. O bom desses encontros é que você  não tem a menor obrigação de falar. Simplesmente está.

Tirando o calor insuportável daquele fim de tarde, passei momentos agradáveis na Livraria Cultura. Eu tinha lido metade do livro; terminei depois, em casa. O mediador teve o grande mérito de não falar o óbvio. Foi absolutamente bem sucedido em enfatizar o caráter ficcional do romance, em que real e fantástico se misturam para mostrar como é duro envelhecer. Arnaldo Antunes compôs uma canção sobre isso.

Júlio Pimentel Pinto  lembrou que um bom romance deve ter “fios meio soltos”, que toda ficção tem papel revelador que ilumina experiências de vida.  A ficção lida com mundos alternativos, com o que poderia ter ocorrido e não ocorreu. Na ficção, nem tudo precisa ser resolvido; o contexto ficcional é instável, incerto. Para mim, que escrevo, quero escrever melhor,  foi importante.

Sobre o livro, completaria a conversa dizendo que o romance pode ser examinado, também, sob o contexto do conflito entre pais que não se sentem velhos e filhos que já são mais velhos. Uns e outros não sabem lidar com essa aparente igualdade e a comunicação demora a se acostumar com a mudança. Há quem nunca ultrapasse o estranhamento. Esse é só um dos aspectos. Outro – e agora formal – é que o narrador, o escritor do diário,  não está na história, mas existe. O diário é do narrador onisciente que não faz parte da história, e no  entanto conversa com o leitor, referindo-se a si mesmo na primeira pessoa. Isso não acontece sempre. O recurso permite refinamento da linguagem, certas digressões e reflexões que não seriam possíveis se o próprio Isidoro Vidal- o personagem principal – fosse o narrador. E como o narrador acompanha Isidoro muito de perto, logo a narrativa retoma o curso para o final, pacificador. A história tinha tudo para dar errado. Terminou bem.

 

 

Torres García e Eliseu Vistonti na Pinacoteca

27 de fevereiro de 2012

Fui à Pinacoteca sábado ver a exposição do artista  uruguaio Joaquín Torres García. Em Montevideo,  havia ido ao museu e gostei demais.

Na Pinacoteca, estavam reunidas obras importantes que para mim, deslocadas de seu espaço, perderam um pouco o encanto.

É que o deslumbramento de ver Torres -García no Uruguai foi substituído por  curiosidade de saber mais para melhor compreender. Fiquei mais exigente, acho.

Porque aprofundar-se em Torres -García pode ser  difícil. É preciso estudar para compreender seus trabalhos no contexto de sua  particular visão de mundo e de si mesmo. E, por isso, ter o catálogo produzido para a exposição na Pitacoteca e para a que aconteceu em Porto Alegre na Fundação Iberê Camargo foi essencial.  O catálogo foi produzido por Alejandro Diaz e Jimena Perera, membros da direção do Museu Torres García.

Os trabalhos expostos na Pinacoteca apresentam  aspectos primitivos e básicos mesclados com sofisticações geométricas, deixando a impressão de que pode ser possível, para qualquer mortal,  exprimir  estranhamento diante do mundo em linhas, quaisquer linhas, escritas ou desenhadas. Porque Torres  García usa também  a palavra para complementar as colagens e desenhos. Suas capas de cadernos são lindas. Não sei por que, me lembrei da arte egípcia. Fiquei com vontade de produzir capas para meus cadernos.

Saindo da exposição, entrei na de Eliseu Visconti. Maravilhei-me.  Torres García me deu  sensação de que posso me expressar. Eliseu Visconti, não. Está totalmente separado de mim, seus trabalhos deslumbram, estão ali para serem absorvidos, admirados. Pude fotografar  (sem flash) e insiro algumas imagens  aqui.

Amazonas

23 de fevereiro de 2012

Passei uma semana no Amazonas agora no carnaval. Fazia tempo que queria conhecer a floresta. Primeiro, Manaus; depois, Anavilhanas.

Manaus é uma cidade interessante. Tem congestionamento, não é nada planejada, as construções parecem estão meio  amontoadas. Só que as pessoas são agradáveis,  a cidade vista do Rio Negro é linda, o encontro das águas é bonito e o teatro Amazonas é formoso demais. A cúpula colorida sobre a construção rosada encanta os olhos.

Na floresta,  fiquei no  Anavilhanas Jungle Lodge (www.anavilhanaslodge.com). Atendimento correto, adequado,  na medida certa. Passeios agradáveis, com alguma emoção (muito barco, muito rio). Apartamentos modernos, bonitos. Nunca pensei que tomar banho no Rio Negro fosse tão gostoso. Os guias são bacanas. E a comida é muito boa, sem temperos excessivos, variada e gostosa. Voltei bastante feliz. Voltaria muitas vezes para lá.

O escritor gago – Paula Fernandes

13 de fevereiro de 2012

Quase sempre a história começa devagar, pega fôlego, se apressa e chega ao fim. Gostaria de se demorar um pouco mais no meio do caminho, mas é como se descesse a ladeira, não consegue brecar.
Suas histórias terminam razoavelmente bem. São esperançosas, mostram uma luz no fim do túnel-como se diz por aí.
Para ele, qualquer fim de frase, falada ou escrita, cantada, é uma vitória.
As frases escritas são rápidas, percorrem a ideia sem  obstáculos.
E ele, ainda por cima, consegue viver de literatura.
Escreve um livro por ano. Publica um livro por ano.
Tem sido chamado para entrevistas,  debates. Recusa todos por um simples motivo: é gago.
É um sujeito bem apessoado -dizem por aí. Mas gago.
Então se esconde na escrita e se realiza na escrita. Tem horror a que conheçam  sua fraqueza. Em suas narrativas é soberano,  dono, regente, mestre, condutor, comandante, general.
Nunca  autografa seus livros. Não aparece. Dizem por aí que é um sujeito misterioso, um eremita. Não é nada disso. Ele só é gago.
Mora  sozinho em um apartamento. Acorda de manhã, faz café de coador, come cereais com frutas, lê o jornal e escreve até anoitecer. Almoça muito frugalmente, um sandwich.  Por isso  é tão magro.
À noite pede uma pizza, um sushi;  pede pelo telefone. Nessa hora toma uma cerveja.  Às vezes duas cervejas. E liga a televisão, assiste um monte de bobagens.
Não faz exercícios.
Quando o telefone toca, a secretária eletrônica atende. Depois ele retorna, se for importante.
Atualmente, escreve um romance sobre um paciente terminal, um homem que teve um derrame e parou de se comunicar.  A narradora é a mulher desse homem. Ela conta em detalhes os dias dele no hospital. Conta seus pensamentos, suas angústias, e, principalmente, seu tédio. O tédio de quem acompanha um doente por longo tempo no hospital e espera que ele morra, querendo, no entanto, que se recupere.
Ele gosta desse livro que escreve. Gosta demais. Gosta tanto que não quer  terminar. Quer deixar como uma frase não concluída, uma ideia  gaguejada.
Tem uma filha, que mora com a mãe, uma ex-quase-mulher. Grande figura (mas não foi o bastante). Parou no meio do caminho. Com ela – com a filha – ele não é gago. Ou gagueja  muito pouco. Às vezes.
Ele detesta Natal, e agora é época de Natal. Por isso está  nervoso, inquieto. Gostaria de dar algum frescor na vida dele, mas é impossível. É meu personagem mais relutante, verdadeiro. Ele vive em um mundo só dele, geralmente escuro.  Já  quis fazer com que ele levasse  a vida de um jeito mais leve, só que ele não tem energia para mudar.
Ele não tem depressão. Ele é gago, só isso, como o personagem de Mishima em O Pavilhão Dourado. Aquele personagem  sofre.
Ele não se identifica nem um pouco com o personagem de Mishima. Com Mishima, talvez um pouco. Mas nunca morreria como ele morreu, não faria um general de refém e  não cometeria haraquiri em seguida, para ser decapitado por um sabre empunhado por um jovem  que o venerava.
Uma coisa é ser gago em 1945  no Japão, outra é ser gago em 2011 em São Paulo, no Brasil: situações bem diferentes.
Não, ele ainda controla seus impulsos e tem limites. Se não fosse gago, seria um  publicitário bem sucedido, estaria aí ganhando dinheiro com campanhas de carros e cigarros, morando em um condomínio fechado e  seguro. Agora ele é escritor.
No dia 20 de dezembro , sai para  comprar o presente de Natal da filha. Sai cedo de casa, modificando totalmente sua rotina. Fica nervoso com isso.
Vai até uma loja de eletrônicos  bastante frequentada. Estaciona o carro, caminha até a loja, lotada. Ele está atordoado. Perdido no meio de games, computadores, músicas, telas. Anda por ali procurando ajuda, mas ninguém o socorre. Pensa em chamar um vendedor,  retrocede. Vai gaguejar e não terão paciência com ele. Ou o olharão com pena. As pessoas, quando vendem e compram, ficam muito ansiosas. Ele deveria ter comprado pela internet,  agora não dá tempo.
Escolhe o equipamento. Olha para o vendedor que, por uma coincidência extrema, está olhando pra ele naquele exato instante.
-E e e u que que quero le le var  esse.
O vendedor não hesita. Vai  para a caixa  formalizar o documento de venda. Ele o acompanha, mais calmo. Dali será  tudo mais fácil: levar o papel à caixa do segundo andar, pagar, pegar o computador no balcão, acompanhado da nota fiscal.
Faz  tudo isso mudo e, quando chega ao balcão, vê sua cantora preferida na fila. Linda,  fora do palco. É difícil um homem amar muito uma cantora. Sua voz limpa e clara  lhe dá  esperança de  que, um dia, falará  em linha reta.  E ela ali na frente dele  dá  vontade de desviar. Não quer  se decepcionar. Não quer  se desiludir. Quando a gente admira muito um artista e o encontra na vida real, pode se decepcionar. E, aí, o que faz com a admiração toda? Uma coisa é o que o artista  produz, outra o que ele é. Duas coisas diferentes.
Mas ele não precisa  se preocupar. É  só ignorar a cantora, que não o conhece. Ele não é conhecido e, mesmo que fosse, ela não saberia que era sua cantora preferida.
Mas acontece  algo ali, que o surpreende. Ela o encara. Ele disfarça. Ela o encara mais. Ele desvia o olhar. E ela pergunta:
-Você não é Anton Martins?
Ele nega.
-Desculpe, eu não gosto de invadir, mas você se parece muito com Anton Martins, meu escritor preferido.
Ele nega, com a cabeça, com os olhos. Chega a ser grosseiro. Melhor que ela continue  com uma boa lembrança dele, a lembrança dos retratos nas  orelhas dos livros, em que ele parece um escritor de best seller americano.
Ela fica muito sem graça e, tendo chegado sua vez de pegar a  compra, vira-se para o balcão, para  de olhá-lo. Pede  desculpas de novo, com a voz limpa e cristalina que o guia nos  momentos em que ele canta e deixa de ser gago, quando está sozinho.
Um pouco triste, vai  para casa escrever seu livro, trabalhar na história do paciente terminal.

Arquivos e impressões

11 de dezembro de 2011

Essa semana  fui ao banco. A agência é pequena. Embora  haja diversos guichês, só um funcionário atende. É verdade que é um funcionário muito competente, digita rápido.

A fila andava depressa. O problema é que, quando eu estava quase lá, surgia um idoso para atendimento preferencial.

Aí ele atendia o idoso.

Isso aconteceu umas três vezes.

Fico quase querendo que meus dias de idosa cheguem rápido, para eu merecer um lugar melhor na fila do banco.

Não faltam tantos anos assim. Percebo isso quando abro o armário do escritório para organizar jornais que coleciono. Há  jornais da década de 80, da década de 90.

Vou jogar tudo fora, encontrar espaço para outras memórias. Aí vejo um caderno sobre idosos da Folha de São Paulo, publicado em 26 de setembro de 1999, dia em que, por coincidência, fiz anos-não direi quantos. O caderno está intitulado  “Mais velhos”. Naquele ano, o Brasil tinha 13,5 milhões de idosos. Previu-se que, em 2050, teria 56 milhões.

Está escrito, em um dos artigos, “idade não define a fronteira da velhice” (escrito por Marcelo Leite). O caderno traz inúmeras informações úteis, tenta nos convencer de que ficar velho não deve ser um problema.

Quero acreditar. Tenho preguiça de ler, tudo muito intenso e complicado. Dobro e fecho. Seleciono e coloco o jornal na pilha dos guardados. Em poucos anos será bem útil, eu chego lá. Descartarei outros.

Aí passo para outro caderno, dessa vez de O Estado de São Paulo, novembro de 1998. O jornal nem amarelou. O artigo fala de um livro sobre o bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, de Moacyr Andrade. Guardo ou não guardo? Será que eu me interesso pelo bairro em que Portinari teve um ateliê, em que Manuel Bandeira morou? Acho que sim. Guardados.

Olhando os jornais velhos, penso em como os títulos dos artigos são afirmações reducionistas pretensiosas e ao mesmo tempo fugidias.

Olha essa: “Rita Pavone lança autobiografia e volta ao teatro” (Caderno 2, O Estado de São Paulo, 28 de novembro de 1998).

Fico pensando em como Rita Pavone ousou estrelar a peça de Fellini, em como o jornal brasileiro deu tanta importância ao fato e na importância que eu, mera  leitora de jornais guardados, dou a essa matéria jornalística 13 anos depois. Descarto.

O problema não é dos jornais,  feitos para serem lidos e jogados fora no dia seguinte. É impossível guardá-los como se guardam livros. As manchetes são, mesmo, peremptórias, feitas para nos convencer de qualquer  coisa de maneira definitiva e ao mesmo tempo muito transitória.

Eu é que não deveria ter conservado  tantos jornais que agora hesito em jogar fora. Fiquei de ler ou usar depois as informações e não fiz nada. Guardei papéis  em sacolas de plástico. Agora Rita Pavone incomoda  minha lembrança de Giulietta Masina.

No meio de tanta confusão, encontrei um caderno da Folha de São Paulo de 6 de agosto de 1998, sobre “Biologia desenha a cara do século 21”.

Depois de assistir ao último Almodóvar,  mais avançado que o mais avançado dos cineastas,  sinto  que gostaria de me transformar em outra pessoa, não sei bem quem. Não faria tanta diferença.

Afinal, o que A pele que habito mostra é que não importam as transformações todas, continuamos com a mesma essência intangível, onde tudo é possível.

James Wood: Como funciona a ficção (Cosac Naify)

26 de novembro de 2011

Fui ao Clube de Prosa da Cosac Naify na Livraria Cultura em 23 de novembro. O livro escolhido: Como funciona a ficção, de James Wood, publicado pela editora  em 2011.

O mediador,  Daniel   Benevides,  estava super bem preparado. Falou sobre James Wood, crítico americano que escreve para a New Yorker e já publicou outros livros.

Pena que precisei sair mais cedo. Até o momento em que fiquei, a conclusão era a de que o livro desmistifica leitura, aproximando livros e pessoas.

É verdade. E o livro é importante, também,  para quem escreve e quer escrever mais e melhor. Gosto de ler a parte em que ele fala da  personagem de ficção.

James Wood reflete sobre  Jean Brodie, personagem criada por Muriel Spark,  que nunca li. A Srta. Brodie é uma professora que aparece por meio de seus alunos. Olha só: “Ao reduzir a Srta. Brodie a uma simples coleção de máximas, Spark nos obriga a virar alunos de Brodie. No decorrer do romance, nunca deixamos a escola ou vamos para casa com ela. Nunca a vemos em sua vida particular, fora de cena. A Srta. Brodie é sempre uma personagem em ação, mantendo uma face pública. Supomos que há alguma frustração e mesmo certo desespero nela, mas a romancista nos nega  acesso ao interior do personagem” (p. 107).

Fiquei curiosa para conhecer Muriel Spark e a Srta. Brodie. Mesmo sem ler The prime of  miss Jean Brodie,  já gosto da Srta. Brodie.

Agora essa frase de James Wood – Spark estava profundamente interessada no quanto podemos conhecer de alguém –  refere-se, no meu ponto de vista, ao assunto principal da literatura.

Segue link para texto de Daniel Benevides sobre o livro no blog da Cosac: http://editora.cosacnaify.com.br/blog/?p=9946.

Novo Blog

10 de setembro de 2011

Este blog estava em outro endereço wordpress. Não sei o que aconteceu que, num impulso,  eliminei o blog antigo e fiz  upload dos arquivos para este aqui.

Depois ficou tudo estagnado por um tempo. Aí pensei que era uma pena deixar os textos abandonados. Pensei em criar ainda outro blog, chamado Literalia, um nome que mistura literatura com marginalia. Marginalia são anotações que ficam fora do texto principal, nas margens.

Só que gosto do nome Lolita e gosto de Nabokov. Não consegui me desvencilhar deles. Então ficou assim.

Neste espaço organizo minhas ideias, registro impressões que se perderiam ou ficariam em cadernos guardados em armários.

Ainda California: Carmel, Monterrey, Highway 1

14 de agosto de 2011

Depois de São Francisco, fomos a Carmel (Carmel by the sea), uma cidade onde nada está fora do lugar. Clint Eastwood foi prefeito lá e isso é o que mais se ouve quando se ouve falar de Carmel. As vitrines das lojas são lindas, objetos bonitos são dispostos de maneira muito organizada, sob iluminação adequada. Não há prédios, só casas com jardins coloridos, bem aparados. A praia parece selvagem, mas está ali no seu lugar, tranquila. Pena que não estava sol.
Em Carmel há muitos cafés e em um deles comi, pela primeira vez na vida, carrot cake. Foi engraçado porque eu tinha visto na internet um vídeo na TV UOL ensinando a fazer essa torta e aí eu vi e quis logo provar . É uma delícia, mesmo. Jantamos em dois restaurantes legais: Grassing’s e Nico Ristorante.
Fomos super bem recebidos nos dois. Nos EUA os garcons são super adequados ao estilo do lugar. Eles devem ter recursos humanos muito bem preparados para selecionar o pessoal. Cada restaurante tem o garçom perfeito pra ele: contido, se o lugar é mais formal; alegre, se é para crianças, ou se a comida é leve. E assim vai.
Carmel é muito perto de Monterey, onde está um aquário super mencionado nos guias de viagem. É bacana, mas não achei assim espetacular. Em São Francisco, já havíamos visto um aquário bonito na California Academy o Sciences (http://www.calacademy.org ), então não nos espantamos com o de Monterrey. O que nos agradou em Monterey foi o almoço no Bubba Gump, o restaurante do Forrest Gump. Vimos ali pela primeira vez, mas há deles em muitos lugares (http://www.bubbagump.com/locations). É prático, rápido, eficiente, os camarões são gostosos. As sobremesas são imensas. Uma de sorvete sobre um cookie gigante e macio é das melhores que experimentei.
As comidas chamam atenção nas viagens. Os momentos em que paramos de nos movimentar, em nos sentamos à mesa e descansamos para conversar e saborear são dos melhores. E os garçons são as pessoas com quem falamos sempre, se não temos amigos ou conhecidos. E os americanos fazem tudo para que nos sintamos bem. Se eles estão interessados na parte que lhes cabe no tanto que gastamos, não importa. É horrível chegar em um restaurante e ficar esperando horas para ser atendido, desconfiando se o serviço é ruim ou se eles estão nos discriminando por qualquer motivo. Isso não acontece nos Estados Unidos.
Encontramos nosso hotel no Hoteis.com. Pagamos adiantado, pela internet, e deu tudo certo. O hotel é acolhedor, com wireless free no apartamento, tem uma salinha, uma pequena cozinha, quarto e banheiro. O problema era que o banheiro tinha duas portas e ficava entre o quarto e a sala. Quem estava na sala não podia passar para o quarto sem passar antes pelo banheiro. Tudo o mais era confortável. O hotel chama-se Wayside Inn. Não é bem hotel, é um Inn, daqueles em que não há lobby ou áreas comuns.
De Carmel fomos, pela Highway 1, passando por Big Sur, até Santa Barbara. A viagem durou 1 dia, chegamos lá no fim do dia. Em Big Sur paramos, para o almoço, em um restaurante super famoso, Nepenthe, parecido um pouco como o Recanto Santa Bárbara, na Rodovia Tamoios, estrada que vai para Ubatuba. O garçom era muito falante, falava tudo como se estivesse dando aula, discursando. Um cara alto, interessado em falar sobre tudo com um tom sabido. Ele deu pra gente um menu comemorativo do aniversário do restaurante, com os pratos servidos na época. A comida é estilo natural, saudável.
Na estrada foi tudo bem. Poderíamos ter parado nas cabanas de Big Sur, visto lobos ou elefantes marinhos, poderíamos ter visto o Hearst Castle, mas não quisemos, queríamos chegar. A estrada é bonita. Mas não sei… gosto mais de estar nas cidades, e não de ir até elas. Cada um tem sua percepção específica dos lugares e, embora a estrada seja linda e tudo o mais, não me tocou tanto. E chegamos em Santa Barbara, em um hotel pequeno reservado pela internet, muito diminuto e longe da praia. Mas as donas – não sei se eram donas ou não – eram muito simpáticas, prestativas, quase amorosas. O hotel chama-se Agave Inn. O quarto era ótimo, grande, espaçoso, decorado com bom gosto. Mas o lugar era tão esquisitamente solitário e longe da praia que não deu vontade de ficar. Santa Barbara me pareceu um Guarujá, ou Santos. Não tive a menor curiosidade de conhecer e constatei que eu gosto mesmo é das cidades grandes.

São Francisco

3 de agosto de 2011

Quando a gente chega em uma cidade estrangeira, fica meio que patinando no gelo. Tenho uma sensação deslocamento nesse primeiro momento de trânsito. É uma bobagem essa instabilidade, as pessoas são todas muito parecidas em todo e qualquer lugar. O frio na barriga só diminui quando chego ao quarto do hotel e o quarto é bom. Quando eu uso o cartão de crédito pela primeira vez e ele funciona, também fico mais tranquila.
Em São Francisco, a impressão inicial foi boa, porque o aeroporto é bonito e já não precisávamos fazer alfândega, resolvida em Dallas. Em Dallas também passamos por revistas pessoais e de bagagem de mão antes embarcarmos. Eles são bem treinados e conduzem as coisas de um jeito muito prático, quando a gente menos espera já tirou sapato, passou pelo raio x e tudo bem. Alguns passam por aquele scanner de corpo, mas não todos. Eles selecionam por sexo, idade, estilo, eu acho. Eu não passei pelo scanner, ainda bem.
As lojas de aluguel de carro não ficam no mesmo setor, é preciso pegar um trenzinho para ir até lá. É um pouco chato isso, mas é rápido.
Estou mudando um pouco a ordem das coisas na narrativa, mas tudo bem. Tive vontade de falar sobre os primeiros estranhamentos em um país estrangeiro.
Em São Francisco fomos à City Lights (www.citylights.com), livraria e editora com lugar marcado no debate de ideias que, na década de 50, abriram espaço para a geração beat. Fica perto do Zoetrope. Lawrence Ferlinghetti e Peter D. Martins fundaram a livraria em 1953 e ela passou a ser ponto de encontro literário. A editora publicou Howl and other poems, de Allen Ginsberg. Ferlinghetti e o gerente da editora foram processados por publicarem material obsceno.
A livraria tem um andar meio que em um porão, um subsolo, onde ficam livros diversos. No andar em que se entra, térreo, estão livros sobre a cidade, movimento beat, geração beat, revistas especializadas em literatura, poesia. O espaço não é grande, mas tem muitos livros bacanas. O problema é que a gente precisa deixar a bolsa na entrada, com o menino que fica no balcão, e eles não têm armários com chaves, então é chato, não dá vontade de ficar um tempão lá com medo do furto de passaporte, bolsa, dinheiro, carteira. Mas mesmo preocupada consegui escolher alguns livros que parecem ser ótimos: 1)- White hand Society: The Psychodelic Partnership of Thimoty Leary and Allen Ginsberg; 2)- Bob Dylan in America; 3)- Reclaiming San Francisco: History, politics, culture.
Depois, ainda naquela tarde, fomos ao SFMOMA. Chegamos quase na hora de fechar, faltava uma hora e pouco, na verdade. Mas entramos assim mesmo. Só que me decepcionei, porque acabamos comprando ingresso para a exposição geral e não entramos na exposição com obras da Gertrude Stein (The Steins Collect: Matisse, Picasso and the Parisian Avant-Garde). Aí não vimos Picasso e outras maravilhas. Mas deu pra ver Andy Warhol. E na loja do museu comprei dois livros sobre escrita: Maps of imagination: the writer as a cartographer e The creativity book. O último dá muitas dicas para a escrita, entre elas uma biografia com 2.500 palavras.