Jorge Amado

20 de novembro de 2012

“Dona Flor e seus dois maridos” é minha primeira lembrança de Jorge Amado. Não o livro, mas o  filme de Bruno Barreto (1976).

Sônia Braga no cinema, José Wilker jovem desfilando na minha memória, Mauro Mendonça como o  segundo marido.

Eu era jovem para entender os costumes que o filme transformava, mas lembro que meus pais gostaram bastante, comentaram muito.

E a música, “O que será” (do Chico), fez sucesso.  A música foi composta em três versões: Abertura, À flor da pele, À flor da terra . Os adultos ficavam se perguntando, o que será que é o que será? É porque  a ditadura e a censura estavam por ali e as palavras e frases  podiam ter significados diversos. E que o que será era, mesmo, uma pergunta. Sem resposta. Ou cada imaginava uma resposta.

E, na mesma época, tinha Sônia Braga na TV, em Gabriela. E Gal Costa cantando Gabrieeeela.

Todas essas cenas,  histórias e canções, quebraram regras e tabus.

Mas chorar, mesmo, com Jorge Amado, foi quando li Capitães de Areia.

Tenho a coleção dos livros de Jorge Amado em vermelho (Livraria Martins Editora), era da minha mãe. Os livros estão em ordem. Abri “Mar morto” outro dia e a tempestade colou em mim. Começa assim:

Aí  surgiu da memória minha passagem pela Fundação Jorge Amado, em Salvador. Lá, tirei fotografias dos livros expostos.

Jorge Amado, grande escritor brasileiro, foi traduzido em  49  línguas. Eu nem sabia que existiam tantas línguas. Por que a gente não fala mais de Jorge Amado?

É porque ele é como se fosse a gente, deve ser por isso. Só isso justifica a gente não falar mais e sempre de Jorge Amado.

Hoje, Jorge Amado é publicado pela Companhia das Letras. Os livros estão bonitos e renovados, atualizados. Não o texto, que é o mesmo, mas a cor, o cheiro, o formato, são novos.

Os livros reeditados são livros novos, por isso dá vontade de tê-los todos, mesmo que o escrito seja exatamente igual. Tenho várias edições de Lolita, de  O Grande Gatsby, de Em busca do tempo perdido,  cada  uma em um lugar da casa. Às vezes penso que poderia dar um ou outro livro, mas desisto, porque gosto de ver as capas diferentes. Livros existem para serem vistos, também.

Vou ler Dona Flor na minha edição vermelha, que não adota o acordo ortográfico, de jeito nenhum. Ainda não tenho a edição nova. Quem sabe.

Perfil de Dylan

6 de novembro de 2012

Bob Dylan – Blonde on Blonde

Em 1966, Bob Dylan sofreu acidente de motocicleta em Woodstock. Não se sabe bem, até hoje, se ele se machucou muito, pouco ou quase nada. Houve boatos em todos os sentidos. Seu empresário tinha marcado 64 shows nos Estados Unidos – que ele não fez. Voltou às turnês só em 1974. No meio tempo, participou do festival da Ilha de Wight em 1969 e do Concerto para Bangladesh em 1971. Há, na internet, em Dylanesco (http://dylanesco.com/drifters-escape-o-acidente-de-1966), informações bem completas sobre o acidente.
Bob Dylan era sempre muito pressionado, cobrado por ter adotado a guitarra elétrica e transformado, em rock, a música folk que o levara ao sucesso. Era cobrado por ser político, por negar a política, por falar o que pensava, por não falar nada. Não parecia se incomodar muito. Sempre fez a música que quis.
Na introdução ao livro Bob Dylan: The essencial interviews, (Wenner Books, New York, 2006), Jonathan Cott, editor, observa que a frase de Rimbaud, “I is another” (Je est un autre, ou Eu é um outro), define o músico. Quem acompanha a carreira de Dylan sabe que não há nada mais verdadeiro. Ele é, todo o tempo, ele mesmo, ele e outro, ele e eu, nós, você, todos. Sua identidade está sempre se desfazendo. Sua música desfragmenta o tempo.
Declarou, certa vez, ao repórter da Newsweek, David Gate, que não seria uma pessoa tangível, mas mutante: acordava um e dormia outro. Outra característica sua é a de não remoer equívocos: pensa sempre no que está por acontecer. Assume tudo o que faz, seja bom ou ruim. E é conhecido e reconhecido como gênio, visionário, poeta.
Embora as canções de Dylan sejam extremamente discursivas, longas, repletas de imagens complexas, até mesmo proféticas, não ensinam nada a ninguém. Muitas delas foram cantadas na defesa de direitos humanos, como “Masters of war”. Mas o músico sempre negou a militância explícita.
Ao receber o prêmio de direitos humanos Tom Paine em 13 de dezembro de 1963, Dylan fez declarações inusitadas. Disse que não pensava em política e que via algo dele mesmo em Lee Oswald, que matara o presidente Kennedy pouco tempo antes (No Direction Home, de Robert Shelton, p.287). Foi vaiado, o discurso foi considerado ultrajante e ele se ofereceu, inclusive, a devolver o prêmio. Explicou, depois, que não elogiara o assassinato de Kennedy, mas falara em Oswald como reflexo de uma época. E que simplesmente não queria fazer parte de organizações e grupos.
A relação de Bob Dylan com a imprensa sempre foi muito complicada. Ao não aceitar o papel de formador de opinião, deixou de responder assertivamente a perguntas de repórteres em diversas entrevistas. Era vago, irônico, ou sincero demais. Em uma das cenas do filme de Martin Scorcese (No Direction Home), ele mesmo retrata, com sua própria câmera, jornalistas que o fotografavam, invertendo papéis. Outra vez, em 1965, em entrevista coletiva em Los Angeles, disse: “Estou apenas tentando responder às suas perguntas como você é capaz de fazê-las” (Robert Shelton, No Direction Home, p. 400). Também: “Eu não preciso explicar meus sentimentos! Isso aqui não é um julgamento!” (p. 401). Definiu-se como um artista do entretenimento. E só.
Artista do entretenimento, sem dúvida. Mas também um músico que se renova sempre, distorcendo e recriando as próprias canções, como mostrou em recente show em São Paulo (2012). Algumas músicas pareceram outras. Mas ”Ballad of a thin man” e “Like a rolling stone”, cantadas por um outro Dylan, que tem voz mais grave do que quando as compôs, emocionam sempre e uma vez mais.
Seu último disco, Tempest, lançado em setembro, tem sido elogiado por fãs e críticos. O CD gerou certo debate sobre citações, nas canções, de frases do poeta Henry Timrod e do escritor japonês Junichi Saga, sem indicação da fonte. E, mais uma vez, Dylan polemizou: se não fosse ele, ninguém saberia da existência de Henry Timrod. E mais: na escrita das canções, importam ritmo e melodia: vale tudo.
Em tempos em que a comunicação é regida pela internet, debates em torno de direitos autorais são os mais acirrados. As declarações de Bob Dylan fazem pensar. Depois de 50 anos de carreira, acompanhando e adiantando-se a novos tempos, sendo, sempre, um outro, Dylan continua fazendo política. Querendo, ou não.

Luiz Tatit na Casa do Núcleo

31 de outubro de 2012

O Rumo marcou época. Luiz Tatit conta bem a história do grupo: http://www.luiztatit.com.br/grupo_rumo/.
Eles eram intelectuais e sofisticados, mas simples. Discursivos. Poéticos. Estruturados. Espirituosos. Soltos. E a voz da Ná Ozzetti. Continua. Linda.
Luiz Tatit é professor de semiótica. Tem muitos livros publicados sobre esse assunto hermético. Quando canta suas canções, nada poderia parecer mais fácil. É difícil escrever fácil.
A Casa do Núcleo (www.casadonucleo.com.br) promoveu três noites de música e conversa com Luiz Tatit.
Na primeira, exibiu gravação de show com grupo Rumo em 2004, no SESC.
Na segunda, Tatit cantou canções do Rumo. Na terceira noite, cantou diversas dos últimos CDs, algumas parcerias e outras ainda não gravadas.
Esteve no palco da Casa do Núcleo com seu filho Jonas, também músico.
Os livros dele estavam à venda e estou aqui com “Semiótica à luz de Guimarães Rosa” (Ateliê Editorial).

Tatit examina escrita de Guimarães Rosa a partir de semiótica de Algirdas Julien Greimas.
A proposta é analisar a narrativa a partir de seus momentos de tensão, compreendendo, assim, como o interesse de um conto é preservado.
Tatit destaca, na introdução, aspectos que serão desenvolvidos, entre eles “interação entre surpresa e espera”, “importância do conceito de espera” e “intensidade como parâmetro musical de análise dos textos” (p. 16 e 17).
Guimarães Rosa é o grande escritor brasileiro e não consigo compreender como se pode traduzi-lo.
A língua portuguesa é o grande personagem em tudo o que escreve. Justamente por isso, lê-lo nem sempre é simples. A atenção deve estar dirigida à palavra em si e não só à história. Grande Sertão: Veredas, é meu livro preferido. Minha edição está gasta, amassada, porque demorei muito tempo andando com o livro pra lá e pra cá. Custei a me acostumar com a leitura.
De vez em quando, releio alguns trechos e é sempre uma surpresa, como se nunca tivesse lido.
Lendo o livro de Tatit, complexo, profundo e simples ao mesmo tempo, detenho-me na análise de “A terceira margem do rio” (p. 107-125). Gosto desse conto porque a história, não obstante estranha, me parece tão real. Muitas pessoas vivem na terceira margem do rio. Eu mesma, muitas vezes, estou nela, em espaço e tempo não determinados, ausente.
Este blog, por exemplo, está na terceira margem do rio.

As memórias do Sr. Nabokov

24 de outubro de 2012

Tem vezes que a gente lê prosa e é como se lesse poesia. Não importa a história, a coerência do relato, importa o som que as palavras produzem no pensamento. E a gente imagina o que está sendo dito.
Isso aconteceu agora comigo quando folheava o livro de Nabokov, A pessoa em questão, da Companhia das Letras (1994). É mais ou menos uma autobiografia, sem compromisso de ser uma autobiografia. Em inglês, o título é Speak, memory. E é isso mesmo.
Quando a gente começa a lembrar o passado, surgem falas, penumbras, ventos, ondas emotivas. A certa altura, ele diz: “Confesso que não acredito muito no tempo. Gosto de dobrar meu tapete mágico, depois de usá-lo, de modo a superpor uma parte do desenho a outra. Os visitantes que tropecem” (p. 123). Ninguém tropeça. Pelo contrário. O leitor desliza devagar.
Encontrei, dentro do livro, uma resenha do próprio Nabokov de seu livro, publicada na Folha de São Paulo, no Mais, em 18 de abril de 1999. Ele fala das memórias como se escritas por outro, pelo Sr. Nabokov. É muito interessante. Diz, por exemplo: “Com a permissão do autor, menciono aqui um de meus contatos acidentais com sua família”. E também: “O Sr. Nabokov deve achar estranha essa rememoração das extravagâncias literárias dos anos de sua juventude”.
O jornal dentro do livro está amarelado, mas intacto.
Imaginei, imediatamente, meu querido sogro, Tomás, destacando a resenha do suplemento para encartá-la no livro de modo que eu a lesse mais de 12 anos depois, hoje, exatamente.
E assim as memórias de Nabokov encontraram as minhas.

Perfil de Ana

17 de outubro de 2012

Com 38 anos, a vida de Ana Maria Babette Bajer Fernandes estaria apenas começando. Mas foi aí que a morte chegou, de surpresa: o coração parou sem aviso prévio.
Deixou tese de pós-graduação em direito penal por terminar, uma mãe aflita, um marido triste, três filhos meio perdidos e muito mais.
Nasceu em São Paulo, no dia 26 de dezembro de 1941, logo depois do Natal. Morreu em Santos, em 18 de março de 1980.
O pai era alemão e a mãe filha de italianos, combinação que, na época da 2ª guerra, não era das mais admiradas na sociedade. E, além de tudo, os pais tinham temperamentos muito diferentes, o que talvez dificultasse um pouco as coisas para ela. Criada à moda europeia, sem luxo, mas com incentivo ao estudo e à leitura, viajou muito pouco, não saiu do Brasil. Ana Maria nunca foi à Europa.
Estudou em colégio de freiras. Tornou-se perfeccionista em uma infância atormentada pela asma e pela necessidade diária de vencer uma timidez insuportável. Mesmo assim, teve aulas de declamação, francês, etiqueta, bordado, teatro. O bordado deveria ser perfeito: um bom bordado se conhece pelo avesso, dizia. Por isso os lençóis de linho do enxoval ainda são os mais belos.
Casou-se muito cedo, aos 18 anos, com advogado igualmente moço, que só queria a especialidade criminal. E a vida foi um pouco difícil até que ele se estabelecesse, anos depois. Logo vieram filhos. Ana Maria teve o privilégio de ter duas filhas nascidas no mesmo dia, com intervalo de dois anos exatos, em 62 e em 64. Concebidas na noite de Natal. Ou do aniversário?
Embora o casal tivesse um apartamento dado pelo pai de Ana Maria, as despesas eram pagas sem regularidade ou constância, já que advogado criminal às vezes ganha bem, às vezes ganha mal; e a programação de receitas e despesas não era o forte do marido de Ana Maria. Nem dela, que gostava de viver com perfeição.
Era uma mãe exigente que sabia ser flexível, também. Os filhos podiam fazer quase tudo, menos mentir, furtar e fazer fofoca. Mas eles sempre gostaram de ficar por perto.
Na década de 70, Ana Maria quis cursar a Faculdade de Direito. Entrou em primeiro lugar. Tirou 10 em quase todas as provas, todos os anos. Um mês antes da semana dos exames, trancava-se no quarto para estudar. Terminado o curso, logo entrou para o pós-graduação, em São Paulo, no Largo de São Francisco. Subia a serra duas vezes por semana, com o marido, que ficava esperando a aula terminar no corredor. Tirou conceito A em todas as disciplinas. Formada, tornou-se professora na Faculdade de Direito de Santos.
A dissertação, iniciada no fim da década de 70, era sobre tortura, tema que desafiava a ditadura ainda remanescente. Mas Ana Maria nunca teve receio. Se teve, não falou. Tinha medo de tirar nota baixa, de não concluir as pesquisas necessárias, de fazer um trabalho imperfeito, menos rigoroso – passava horas semanais em bibliotecas anotando referências e citações em cadernos e blocos. Não parecia ter medo de repressão. O desafio de fazer algo grandioso era maior. Sua mãe contava que, quando criança, teve uma febre muito forte e gritava “eu sou de vida ou de morte!”.
Ana Maria gostava de cinema. Adorava os filmes de Lina Wertmüller: “Por um destino insólito”, “Mimi, o Metalúrgico”, “Pasqualino Sete Belezas”, todos com Giancalo Giannini. Assistiu Regina Duarte em Réveillon. Gostava de ir a concertos, de ver as mãos do pianista e não seu rosto. Essa era uma dúvida que tinha. Era melhor ver as mãos ou o rosto? Antes de começar a faculdade, gostava de cozinhar e cozinhava muito bem. Depois, parou. Mas continuou a colecionar receitas elaboradas que eram executadas por auxiliares domésticas dedicadas. Colecionava fascículos de revistas de arte, também. E de moda. Tinha vontade de fazer coisas diferentes: na última festa de ano novo, aboliu o peru e a farofa. Serviu coquetel de camarão e camafeus. Gostava de Nhá Benta e curau. E de carpano, uma bebida um pouco amarga.
Depois que morreu, seu nome virou nome de escola municipal na cidade de Praia Grande: Escola Municipal Dra. Ana Maria Babette Bajer Fernandes. A escola é grande, foi ampliada. É uma escola pública muito boa, reconhecida na comunidade. E o marido de Ana Maria terminou e publicou sua dissertação em 1982. O livro tem o nome “Aspectos jurídico-penais da tortura”.
É um clássico, o primeiro livro jurídico que enfrentou a violência estatal no Brasil. Talvez Ana Maria tivesse terminado a tese de outra forma. Nunca se sabe. Mas o livro ficou muito bom do jeito que está. Está aí. É o primeiro livro sobre tortura.

Keith Jarrett vem ao Brasil.

15 de outubro de 2012

Estará na Sala São Paulo no dia 29 de outubro.
Meus pianistas prediletos: Glenn Gould, Bill Evans, Brad Mehldau, Keith Jarrett. Gosto de outros, mas dos quatro especialmente. Afetuosamente. Sentimentalmente.
Ouvi Keith Jarrett pela primeira vez por volta de 1983. Ouvi The Köln Concert, acho que na época todo mundo ouvia esse concerto. Era de arrepiar. Para a gente, que ouvia muito rock, Keith Jarrett foi transformador.A Wikipedia traz a história do concerto: http://en.wikipedia.org/wiki/The_Köln _Concert.
Keith Jarrett não mudou meu pelo gosto pelos Rolling Stones e por Bob Dylan e por Talking Heads e David Bowie. Só enriqueceu meu modo de ouvir música. Uma pérola destacada ali no meu conjunto de prediletos. Eu começava a gostar de jazz, também. Django Reinhardt, Alberta Hunter, Duke Ellington – bem mais tarde.
Hoje eu gosto de tudo.
Não obstante os concertos de Keith Jarrett gravados em muitas cidades do mundo sejam lindos, The Köln Concert ainda é o melhor, para mim.
Também me emociono quando ele toca Bach. E canções melódicas, não improvisadas, como no álbum The melody at night, with you, que ele dedicou à mulher.
Sobre o disco, vale ler texto de Arthur Nestrovski -hoje diretor artístico da OSESP- em “Notas musicais” (Publifolha, 2000,p. 127-129). Ali, ele diz, de Keith Jarrett: “Foi em 1997 que ele começou a gravar as primeiras canções, um presente de Natal para sua mulher. Sentia-se tão fatigado que “não tinha força para ser inteligente”, como declarou numa entrevista (Time, 15.11.99). Sem as defesas da inteligência, sem as melancolias do músico estudado, ele chega ao “espaço vital da canção”. Em quase todos os casos, o piano entra na música do jeito mais difícil e mais fácil: pela primeira nota, sem introdução. Em quase todos, acaba do jeito mais fácil e difícil também, concluindo a linha com o mínimo de esforço” (p. 128).

Tomara que o concerto em São Paulo seja publicado em CD, depois.

***

Complementando o post, o Valor publicou matéria bem legal sobre Keith Jarrett. Segue link: http://www.valor.com.br/cultura/2877148/keith-jarrett-retorna-ao-brasil-com-improvisos

Flip 2013 Graciliano Ramos

2 de outubro de 2012

Graciliano Ramos será o homenageado da Flip em 2013. Quando penso no estilo seco, curto e intenso de Graciliano, principalmente em Vidas Secas e São Bernardo, eu me suspendo. Tudo fica no ar.

Falando em Graciliano, li outro dia, em “O conto brasileiro contemporâneo”, organizado por Alfredo Bosi, dois contos de Ricardo Ramos, seu filho. Circuito fechado (4) e Circuito fechado (5). Lindos, os dois. Vou até transcrever um pouco do último: “Não foi o amor, a certeza, o amanhã, foram as ideias de, o conceito, enfim a sua redução. Não foi pouco nem muito, foi igual. Não foi sempre, nem faltou, foi mais às vezes. Não foi o que, e onde, e quando. Não, não foi”.

E o Rio de Janeiro (2)

30 de setembro de 2012

Aconteceu de estarmos no Rio de Janeiro na época do Festival de Cinema (http://2012.festivaldorio.com.br).
Aconteceu de assistirmos Elefante Branco, com Ricadro Darín, de Pablo Trapero, diretor de Abutres, também.
Não gostei de Abutres, muito pesado.
Elefante Branco é pesado, mas de um outro jeito, não tem só cenas fortes. Os diálogos são bons, os personagens são complexos, têm conflitos que a gente compreende bem. Gostei. Não conhecia o grupo de rock argentino Intoxicados. O filme termina com a música Las cosas que no se tocan. Dá pra assistir no youtube. Muito legal.
Darín representa um padre. Fazia tempo não ouvia falar de padres e no filme há dois muito interessantes. Ele mesmo representa o Padre Julián. E Rérémie Renier representa o Padre Nicolás. Ele é obstinado pelo trabalho no Elefante Branco, construção imensa em Buenos Aires ocupada por grupos de pessoas bastante sofridas. Há traficantes, rixas entre grupos do narcotráfico, aquele mundo cão que a gente sabe como é ou deveria saber. E os padres tentam ajudar a comunidade, interferem para que as pessoas morem melhor, para que verbas sejam liberadas, essas coisas. E fazem, fazem, e o resultado é quase nenhum. Mas provavelmente tudo seria muito pior se eles não estivessem lá. Nicolás gosta de ser padre, mas também gosta de ser homem e envolve-se com a assistente social (Martina Gusman). Esse envolvimento é um dos pontos interessantes do filme. Darín já é mais convicto do celibato e da vocação.
O outro filme a que assisti foi Smashed, americano. Dirigido por James Ponsoldt, conta a história de uma moça alcoólatra (Mary Elizabeth Winstead) que começa um programa de recuperação. O filme é sobre a resistência que ela encontra para se livrar da bebida. Tem problemas com casamento, emprego, tudo. É verdade que o filme passa a mensagem de que o alcoolismo é muito ruim e prejudica as pessoas. Mas o alcoolismo é mesmo muito ruim e prejudica as pessoas. Então o filme é realista.
O filme discute as dificuldades que a pessoa que quer parar um vício encontra, dificuldades que estão nela mesma e nos outros.
O triste é que, muitas vezes, a família e os amigos não querem que a pessoa mude.
Isso acontece com pessoas que usam drogas, com pessoas gordas que querem emagrecer, com qualquer tipo de mudança.
Assistimos também A Partilha, com Arlete Salles, Susana Vieira, Patrycia Travassos e Thereza Piffer. A peça é dirigida por Miguel Falabella, que também escreveu o roteiro. Termina dia 30 de setembro. Que bom que consegui ver. Ri bastante e até chorei um pouco, no final. Quando percebi, estava chorando.
Já passei por partilha semelhante e é assim, mesmo, no fim a gente briga por coisas de valor sentimental e não econômico. No fim de tudo, a grande questão é: e quem vai ficar com o joguinho do Toddy?
O Rio de janeiro continua lindo. Sol, mar bravo em Ipanema, Sushi Leblon é um excelente restaurante japonês. O Bar Lagoa continua o bar Lagoa, comi salsicha e salada de batata, muito bom. O Gula Gula é legal, as sobremesas são bem atraentes (brownie com sorvete?).
Na praia, cada um vive como quer, quem vende esfiha se veste de sheik, tem massagem na praia, todo mundo é campeão e abençoado.
Tem muita praia bacana pelo mundo, mas duvido que exista uma como a de Ipanema: gostosa e divertida. Até leitor de Dostoievski eu vi. E o biscoito Globo é muito bom, doce ou salgado. Tinha esquecido do biscoito Globo.
Passeando por Copacabana, passei pelo Largo do Poeta. Fotografei. Não sabia desse lugar, não conhecia esses dizeres do poeta (precisa clicar na foto para ler a carta), nada sabia sobre Rei Alberto. Foi assim, passando, que eu vi.

E o Rio de Janeiro

27 de setembro de 2012

A Livraria da Travessa em Ipanema está mesmo lugar. Tem jeito de Livraria da Vila. A música era jazz. Procurei um livro específico, “Fotografia e Império: paisagens para um Brasil moderno”, de Natalia Brizuela (Cia das Letras Instituto Moreira Salles). Vi o livro no hotel e fiquei com vontade de ler. Tirei até foto de uma página que me encantou especialmente. E a foto. O olhar triste e sofrido da moça pregou em mim. Ela não imaginaria jamais que estaria conectada a mim e a tantas pessoas por essa fotografia.

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Bravo – Paula Fernandes

25 de setembro de 2012

A moça entrou atrasada na sala de concerto.
A sala de concerto recebeu a moça atrasada.
Atrasada estava a moça quando entrou na sala de concerto.
Entrou a moça atrasada na sala.
O concerto começou sem que a moça tivesse entrado.
Quando ela entrou a música já estava longe.
Silenciando.
Ela entrou.
Ela sentou.
Ela ficou.
O maestro de costas mexia os braços e sorria com eles e com a sua batuta.
A sua batuta.
Os músicos bateram os pés no chão junto com as palmas da plateia.
Levantaram também os violinos.
As flores foram dadas.
Bravo
Bravo.
A moça chorou no bis.
Tocaram uma música que ela gostava muito.

Mangá no Paladar (O Estado de S.Paulo)

20 de setembro de 2012

A edição especial de aniversário do Paladar (estadao.com.br/paladar) publicada hoje está deliciosa: mangá, restaurantes japoneses, comidas típicas japonesas, vinho e cerveja. Tudo escrito e desenhado. Para ser lido de trás para frente, quando der.

Estou com o Japão na cabeça. Essa semana fui ao restaurante que mais adoro em São Paulo, o Sushi Guen (Brigadeiro Luiz Antonio, 2367) e, lá pelas duas da tarde, depois de preparar os mais maravilhosos sushis, sashimis, tirashis, o sushiman Mitsuaki Shimizu sentou-se no balcão e começou a ler uma revista japonesa linda e colorida: de trás para a frente.

Aí hoje eu vejo, no Paladar, elogio ao amendoim japonês empanado, que adoro. Segundo a matéria assinada por Neide Rigo (p. 6), bom é o amendoim japonês cozido, ainda desconhecido para mim, mas que vou tentar fazer (a receita está publicada).

A matéria sobre o Anthony Bourdain está muito divertida. Ele, Antony Bourdain, é divertido. Fiquei sabendo do Get Jiro, HQ dele e de Joel Rose, publicado pela Vertigo, que conta conflito entre o sushiman Jiro e um chef francês. Fiquei curiosa e procurei na internet: http://www.vertigocomics.com/graphic-novels/get-jiro.
E há muitas histórias sobre mangás e vinhos, cervejas, restaurantes, comida. E desenhos.

Nunca tinha ouvido falar do mangá As Gotas de Deus, de Tadashi Agi (na verdade os irmãos Yuko e Shin Kibayashi), mangá popular sobre vinhos publicado em oito países. Está na página 8, texto de Luiz Horta e Patrícia Ferraz: “A história é a da disputa entre dois jovens irmãos pela herança deixada pelo pai, Kanzaki Yutaka, um dos maiores e mais respeitados críticos de vinho do mundo: uma adega colossal”.

Um dos pratos típicos em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, é o sobá, macarrão artesanal de Okinawa, que tem uma culinária bem específica, mesmo no Japão. Eu já sabia que a culinária de Okinawa é destacada, e sabia, também, que em Campo Grande o sobá é tradicional.
Foi bom ler a notícia.

É isso. Só lendo o Paladar pra ver (http://blogs.estadao.com.br/paladar/)

Escritura e leitura: espantando a mosca

19 de setembro de 2012

Não sei o que começou primeiro, se a escritura ou a leitura. Acho que foi a escritura, porque me lembro da minha avó me ensinando a desenhar a letra P de meu nome. Foi difícil. Eu queria fazer o P bem redondinho, bonitinho. Aí não parei mais. Consegui desenhar o nome inteiro, escrevi bilhetes, diários, pequenas canções sobre o tema da rosa. Rosa flor. E veio a leitura. A primeira imagem da leitura é eu sentada no sofá marrom de casa lendo um livro, sozinha. E tinha uma mosca. Eu espantava a mosca e lia, lia e espantava a mosca. E depois li os livros todos do Tesouro da Juventude. Os Livros dos Porquês. Como se pode calcular a idade da terra? Os Livros dos Contos, as Lições Recreativas, a importância das pausas na música. E li A Ilha do Tesouro. Todo Monteiro Lobato. Os Diários de Sofia, Winnetou, As Mulherzinhas, O Diário de Anne Frank, Tom Sawyer, As Aventuras de Huckleberry Finn, as detetives de E.V.Cunningham. Agatha Christie. Marçal Aquino. Antônio Torres e Raduan Nassar. Maximo Gorki, Anna Kanerina, A Morte de Ivan Ilitch, D. Quixote, Os Miseráveis. Haruki Murakami e todas as suas Sputniks, Mishima, Kenzaburo Oe. O sertão de Guimarães Rosa, veredas. Os braços de Machado de Assis. Livros e personagens se misturam, hoje em dia todos me rodeiam, já não sei dizer se Tolstoi escreveu Anna Karenina ou Anna Karenina escreveu Tolstoi. Os livros ficam em volta, sempre tenho com quem pensar junto. Diálogos silenciosos acontecem e meu universo fica universal. Estar aqui ou na África, com Karen Blixen, é indiferente. De vez em quando ainda preciso espantar aquela primeira mosca voando.

(escrevi este texto instigada por publicação de primeiro livro da Editora Vagamundo, História Íntima da Leitura. Foi publicado em http://editoravagamundo.com.br/historiasdosleitores/historia-intima-da-leitura-paula-fernandes/)

Museu Afro Brasil no Ibirapuera

15 de setembro de 2012

Vi o Museu Afro Brasil  (http://www.museuafrobrasil.org.br) , no Ibirapuera, pela segunda vez. É o museu de que mais gosto no parque. Tem a proposta de guardar a memória do Brasil e da África, mas não só. As exposições permanentes e temporárias suscitam reflexões não dogmáticas sobre nosso lugar no mundo. No contexto, a exposição de trabalhos inspirados em Marilyn Monroe amplia nosso modo de perceber o universo brasileiro.

livros sobre Marilyn Monroe em exposição no Museu Afro Brasil

A loira mais loira no contexto cultural do negro no Brasil e na África está muito bem. Tudo brilha no Museu.

Não foi à toa que Norman Mailer  sentiu-se  tomado  por  Muhammad Ali e Marilyn Monroe a ponto de escrever, sobre eles, dois livros muito bons (A Luta e Marilyn).

A Luta foi publicado pela Companhia das Letras em 1998 e relançado em 2011 em edição de bolso. O livro relata a luta de Ali com George Foreman no Zaire em 1974. O estilo de Mailer é literário. Às vezes escreve em primeira pessoa, já que esteve no Zaire e acompanhou Ali e a luta; às vezes escreve em terceira pessoa, aparecendo como personagem, também.

Marilyn, de Mailer, foi publicado, no Brasil, pela Civilização Brasileira, assim como pelo Círculo do Livro, na década de 70.  A biografia é em capa dura e tem muitas fotografias.

Voltando ao Museu Afro Brasil, a exposição “A sedução de Marilyn Monroe” é de obras inspiradas em Marilyn Monroe. Há trabalhos de A. Silveira, Claudio Tozzi, Nelson Leirner, Ivald Granato, Maribel Domenech, Andy Warhol, e muitos outros.

Emanoel Araújo, diretor e curador da exposição, escreveu,  em painel: “A globalização nos absolveu do complexo de culpa, de poder olhar o mundo como coisa nossa, sendo assim a exposição sobre os cinquenta anos da atriz norte americana Marilyn Monroe e o drama de sua vida pertence a todos como grande fenômeno pop do inconsciente coletivo nos quatro cantos do mundo. Isso responde a todos aqueles que acham estranho essa exposição no Museu Afro Brasil”.

O Museu tem outras exposições muito bem montadas, além do acervo permanente,  sobre a África, sobre escravidão no Brasil, sobre cultura negra.   A exposição de fotografias de Militão Augusto de Azevedo sobre São Paulo e cidadãos negros livres é muito bonita, assim como a sobre Mário de Andrade: “Mário – Eu sou um Tupi tangendo um alaúde – 90 anos da semana de arte moderna”.

Exposição no Museu Afro Brasil-Mário de Andrade


Agora, em época de Bienal, vale visitar o museu ao lado, o Museu Afro Brasil.

Quem nunca se sentiu sozinho no deserto extremo?

5 de setembro de 2012

Livros ardem. Davi acorda. Não tem ninguém. Só as coisas. Os DVDs, fogos de artifício, os lugares, existem. A Avenida Paulista existe.  As pessoas, não. Só as roupas ficaram. Mas ele nunca gostou das pessoas, mesmo. Com exceção de Vivian, eu acho.

Outros  sobreviveram, espalhados: um bebê, um prisioneiro político na China, uma passageira em um avião, uma maníaco-depressiva em Nova York, um pesquisador na Antártida.

E ele, Davi. Um homem comum. Sem qualidades.

Davi e os personagens de seus livros. Mas ele ainda pode ver as pessoas em DVD. E a certa altura, ele diz: “A verdade é que não existe arte quando há apenas uma pessoa no mundo. Sem interlocução não existe poesia. Todos os filmes que Davi assistiu, até mesmo as produções mais requintadas, dirigidas com maestria, perderam o poder de transfigurar. Kurosawa, Bergman, Wenders…” (p. 101).

Faz tempo eu penso sobre isso, sobre a existência da arte. Essa é só uma das indagações que o livro de Luiz Bras (http://luizbras.wordpress.com) , “Sozinho no deserto extremo”, publicado pela  Prumo, suscita. A gente lê o livro junto com as lembranças de Kafka, Canetti, Musil, Nietzsche. Nietzsche e o eterno retorno.

Uma das primeiras lembranças que eu tenho de meu pensamento era um exercício de imaginação que me dava aflição: e se nada existir, nem mesmo eu? Meu pensar surgiu a partir da ideia do nada. Para Davi, ainda sobrou ele mesmo. E a pergunta inversa é: será que ele existe, sem os outros?

Onde está o deserto extremo?

Deserto extremo?

O deserto é aqui.

( livros ardem)

Sobre “A vida de outra mulher”

29 de agosto de 2012

Ontem assisti “A vida de outra mulher”, com Juliette Binoche e  Mathieu Kassovitz , filme de  Sylvie Testud.  Juliette é uma de minhas atrizes preferidas. Ela sempre se transforma durante os filmes. Em Aproximação, de Amos Gitai, a personagem vai mudando, cresce, torna-se outra e a mesma. Em “A vida de outra mulher”  acontece algo parecido, mas só vemos a personagem antes e depois do ponto de virada. A história é mais ou menos assim: Marie se casa com Paul,  filho de um grande empreendedor, para quem passa a trabalhar, em sua organização.  Romance e  trabalho iniciam-se simultaneamente. Ele desenha quadrinhos. Ela torna-se importante executiva: rica, manipuladora, ambiciosa,  autoritária, chique. Nós não vemos isso, só sabemos que assim foi. O único momento em que podemos ter uma ideia de como ela ficou é por meio da televisão: uma entrevista em inglês que ela deu passa na tela. Ela acorda no dia de seu aniversário de 41 anos  sem nenhuma lembrança do que aconteceu depois de outro aniversário, 15 anos antes: dia em que ela começa o relacionamento com Paul. Ela acorda em um quarto que não reconhece, apaixonada, e ele  não corresponde. Percebe, aos poucos, que quinze anos de trabalho secaram sua vida e tudo em torno. O filme não discute, propriamente, as consequências de dedicação profissional extrema da mulher. Eu não senti assim. Discute experiência e memória. O que eu senti é que, por mais que mudemos, remanesce uma inocência que nos mobiliza. Em uma fase da vida em que tudo o que se quer é conquistar o espaço público, é duro  resistir.  Esforço pode ser feito para que a experiência não deixe de lado a leveza, a espontaneidade.  E, no fim, não escapamos muito de nós mesmos. É interessante como Marie se esquece de tudo e ainda assim pode avaliar relatórios complexos e seus números, integrando o passado que desconhece com  percepções  sobre si mesma identificadas com sensações da juventude. Ela pega o que a experiência tem de bom, junta com autenticidade e passa a ser uma pessoa inteira. Eu vi assim o filme, que permite, talvez, outras leituras.  Às vezes, perder a memória é conveniente.

De Hanami a Clowns de Shakespeare, passando por Ricardo Hertz: São Paulo

19 de agosto de 2012

Um dia vou ao Japão ver Hanami. Quero ver as cerejeiras em flor em Kyoto, em Tóquio, no Parque Ueno, em Okinawa. As flores vivem tão pouco. E são tantas. E as festas durante a florada são tão intensas. Tenho o sonho de ir ao Japão só para ver esse evento que mobiliza todo mundo, Hanami.

Fui  à 34ª Festa das Cerejeiras em Flor do Parque do Carmo, em São Paulo. Em junho de 1977, instalou-se, no Parque do Carmo, o Bosque das Cerejeiras. Plantaram-se 300 mudas de “sakura”. Desde então, as árvores florescem e, todos os anos, há festa em que se apresentam danças japonesas, em que há barracas com comida típicas. Eu não sabia que, em São Paulo, havia o Bosque das Cerejeiras. Moro aqui há tantos anos e sei tão pouco sobre a cidade.

E por falar em festa, o bairro de Pinheiros comemora 452 anos em agosto. Assisti a dois espetáculos nas praças de Pinheiros. Ontem, sábado, o violinista Ricardo Hertz tocou em frente à FNAC. Foi lindo.

Hoje, na Praça Victor Civita, Clowns de Shakespeare, grupo de Natal, Rio Grande do Norte, representou Sua Incelença, Ricardo III. Foi lindo.

Programação dos 452 anos do bairro de Pinheiros está em vilamundo.org.br.

Scallops em Nova York, ceviche em São Paulo

14 de agosto de 2012

O restaurante  Balthazar, em Nova York,  é bastante popular.

Parece um bistrô,  a gente pensa que está em Paris. O cardápio é em inglês, mas em francês, também – difícil entender os nomes dos pratos.

O garçom não tem aquela paciência para explicar e eu não tenho aquela outra paciência para perguntar. E escolho pelo som, pela palavra: scallops. Penso em carne, escalopes, bifes finos com salada. Quando a gente viaja, pensa muito rápido, a palavra entra em uma língua e sai em outra, o cérebro processa a ideia em imagens e às vezes as sinapses se confundem.

Espero, comendo pão.

Espero, olhando as pessoas.

Espero.

E a carne vem redondinha, branca. Várias bolinhas de escalope. Experimento. Mole, macio. Parece peixe. Carne. Só que do mar.

Aí compreendo melhor: scallops são vieiras.

E a salada veio com milho e bacon.

Prato nada dietético. Gostoso, mas esquisito.

Vou fazer scallops domingo. Só penso neles. Ou nelas.

Encomendei as vieiras.

Vieram congeladas e procurei uma receita viável.

E olhei livros, revistas, internet.

Encontrei o ceviche.

E me lembrei dos vários ceviches que já comi no Suri, restaurante em São Paulo também bastante popular.

Olhando o pacote congelado, descobri que a peixaria enviou vieiras vencidas. Prazo de validade terminou em maio. Ainda bem que vi em tempo. Alertada por meu inconsciente aflito e preocupado.

Telefonei.

O moço foi rápido. Em uma hora as novas vieiras chegaram. Branquinhas e lindas. Muito melhores que as outras, estateladas no tempo.

Descongeladas, expremi uns doze limões e deixei.

Hoje cedo, coloquei leite de coco, tabasco, pimenta daquela vermelha que parece um pimentão pequeno, cebola roxa, um dente de alho diminuto – não gosto muito de alho-, coentro, cheiro verde, cebolinha e sal. E aquele leite ficou ali, com as vieiras, marinando, como se diz.

Essa é a primeira vez que escrevo sobre comida, sobre a execução de uma receita alimentar.

Quem diria. Vieiras. Minha preferência indicaria brigadeiro ou pot de crème. Scallops me trouxeram aqui.

Os cabides de Jasper Johns

9 de agosto de 2012

Quem escreve  está concentrado na transformação, em palavras,  dos sentimentos  que as imagens provocam. Fotografias, retratos, filmes, passam. É impossível registrar  tudo. O esforço para memorizar  cansa.

O inconsciente guarda em algum lugar.

(aí eu, pelo menos, me pego, muitas vezes, tentando lembrar onde guardei tal livro, tal documento, tal recibo,  ideia, informação. E me perco em mim. Procuro em gavetas, arquivos de computador, cadernos, recortes de jornal, bolsas,  revistas, no meu cérebro. Até achar. E  em algum momento encontro. E começo a procurar  outras coisas. Tenho tentado sossegar com as informações inexatas ou mesmo perdidas).

As imagens não se transformam, imediatamente, em narrativa. Elas precisam de um tempo; ou a gente precisa de um tempo.

A comunicação, hoje, é, preponderantemente, visual. É raro assistirmos a conferências ou palestras sem power  point. Os slides dão segurança ao orador e ao espectador. Não faz mal se a gente não captar tudo: estará escrito. A informação foi registrada e não precisamos prestar tanta atenção.  Um slide em power point  é  imagem de escrita. Acho que por isso as pessoas gostam tanto de  fotografar  em museus. Para possuir  a imagem, ficar com ela, ver melhor depois, um dia, se tiver tempo.

No Whitney Museum, em Nova York, está um dos trabalhos de Jasper Johns  sobre a imagem da bandeira americana   (Three Flags) e a legenda explica que, por volta de 1950, ele começou a usar símbolos conhecidos (alvos, letras, a bandeira americana), ou, em suas palavras, “things the mind already knows”.

Achei tão interessante isso que fui procurar e descobri, tanto na página do Whitney Museum, como na página do Metropolitan na internet, explicações mais detalhadas que indico aqui: http://www.metmuseum.org/toah/hd/john/hd_john.htm, http://whitney.org/WatchAndListen/Artists?play_id=677.

O vídeo da página do Whitney é bárbaro porque a explicação está na linguagem de sinais, com legendas. Aí não ouvimos, mas vemos e lemos, processando a informação de uma maneira estritamente visual.

Fui à exposição de Jasper Johns no Tomie Ohtake, em São Paulo (http://www.institutotomieohtake.org.br): Pares, Trios, Álbuns.

Os alvos, as letras, estão todos lá, the things we already know.  Ele desconstrói o discurso, assim como Bob Dylan desconstrói a música, não sei se posso  juntar essas ideias, mas acho que sim. Até hoje penso nos cabides de Jasper Johns (Coat Hanger I, Coat Hanger II). Por que fiquei tão impressionada com aqueles cabides?

Aí  me ocorreu dar uma olhada no livro de Alberto Manguel (Lendo Imagens, Companhia das Letras).  Ele se  pergunta: “Qualquer imagem admite tradução em uma linguagem compreensível, revelando ao expectador aquilo que podemos chamar de Narrativa da imagem, com N maiúsculo?”

Eu não sei se essa pergunta tem resposta e acho que nem ele mesmo sabe. Mas ele tenta e escreve sobre a leitura de imagens.

É claro que ele não conclui muita coisa, e nem se propõe a tanto. No fim, é como ele mesmo diz, ao terminar o livro: “De todo modo, tais reduções não oferecem explicações nem pistas sobre o que se constela em nossa mente quando vemos uma obra de arte que, implacavelmente, parece exigir uma reação, uma tradução, um aprendizado de algum tipo – e talvez, se tivermos sorte, uma pequena epifania. Essas coisas parecem estar além do alcance de quase qualquer livro, e com certeza deste, feito de notas ao acaso e de indecisões” (p. 316).

E agora volto às minhas anotações de viagem a Nova York, aos folhetos que guardei, ao Whitney Museum.

A exposição Sharon Hayes: “There’s so much I want to say to you”, é interessante. Por meio de imagens e vídeos, capas de discos de vinil, são mostrados o que ela denomina “speech acts”. Recortes de movimentos sociais  são apresentados de maneira que ultrapassa o jornalismo. O que me chamou a atenção foi a frase, there’s so much I want to say to you. Penso na incomunicabilidade coletiva e na individual, também. Poucas vezes falamos e escrevemos o que verdadeiramente importa. There’s so much I want to say.

Nova York (2)

1 de agosto de 2012

The  New York  Palace.

Por que esse hotel?

Porque foi bem avaliado no booking.com,  no tripadvisor.com e  outros semelhantes. Apresentado como hotel de luxo, estava  com preço bem razoável. E parecia impessoal.  E neutro. E me impressionei com as fotografias da sala de ginástica. E bem localizado, na Madison.

Perto da  5ª Avenida,  em frente à  Saint Patrick Church.  Reservamos apartamento em um andar   alto.

Foi bem melhor do que o esperado. O lobby é espaçoso, bom lugar para ouvir música, olhar as pessoas indo e vindo, concentradas em seus computadores. É isso que todos fazem por aqui e no mundo todo: olham telas de notebooks, Ipads, Iphones, Itouchs.

A sala de ginástica do Palace fica em um tipo de SPA, no 8º andar. É grande e há muitas esteiras, muitos transports, equipamentos para musculação consistentes e bem conservados. Os vestiários têm chuveiros fortes, toalhas e roupões brancos. Parece que há uma sauna. Que não experimentei. E muitas maçãs vermelhas estão oferecidas, para antes  ou depois do treino, ou da sauna, ou da massagem.

O serviço de concierge se destacou. Indica e reserva restaurantes, espetáculos, shows. As pessoas que trabalham ali são  bem informadas, telefonam prontamente aos lugares para saber mais; dá tudo certo e ninguém fica perdido. Quando concluída qualquer reserva, eles imprimem e aí a gente vai direitinho. E o que é melhor, quem reserva é o The  New York Palace  e as portas se abrem com  facilidade. Até ao  Public,  brunch de sábado sempre lotado, conseguimos ir.

Restaurantes legais: Fig & Olive (figos adocicados em saladas e pratos quentes), Aquavit Dining Room,  Balthazar (todo mundo indica), Bar Pitti (Village), Katz’s Delicatessen  (sandwich de pastrami, lugar confuso e popular, Harry e Sally se encontraram por lá). Que mais…

O Balthazar é bem recomendado e não mais caro que os outros. É informal,  principalmente na hora do almoço, ou à tarde. Fica  aberto a tarde toda.  Ouve-se jazz, lá.

Falando em jazz, fomos ao Blue Note ouvir Latin Side of Joe Henderson, por Conrad  Herwig, Ronnie Cuber & Joe Lovano. Nunca tinha ido ao Blue Note e poderia ter escolhido o Village Vanguard ou o Birdland. Quis ver o Blue Note, tenho muitos discos de vinil gravados lá. Comi lá uma  salada gostosa, antes do show. Sentamos em uma mesa grudada no palco e nunca vi músicos tocarem tão perto de mim. As mesas são compartilhadas, logo chegou um rapaz solitário e se sentou na nossa. Comeu um filé e tomou uma cerveja. E ficou no Iphone enquanto o show não começava. Ninguém mais fica sozinho hoje em dia. Aliás, vi pelo menos duas pessoas lendo livros de verdade, em Cafés. Mas só vi uma livraria.

Fomos ao High Line e depois ao Chelsea Market, Lobster Place.  High Line é um jardim suspenso plantado  em uma passarela elevada. Há galerias de arte nas ruas e o lugar ficou  na moda.  No mercado, sashimi, sushi e lagosta. Barato.  Bom. É um pouco confuso porque no mercado não há  janelas, é difícil encontrar lugar para sentar. Com paciência,  a coisa funciona e no fim compensa. Andamos à tarde às  margens do Hudson. Sol, moças de biquini, lendo. Casais dançando tango. Domingo é domingo em qualquer lugar.

Fomos ao Museu de História Natural. Lotado. Esqueletos de dinossauro para tudo quanto é lado. Não entendi bem se eram verdadeiros ou falsos. Ignorância minha, mas é que, embora o museu seja, sem dúvida, bacana, muita coisa é representação e não real, e aí fiquei  um pouco confusa. Na Patagônia os dinos são mais verdadeiros. Assistimos a um filme breve no planetário. Não posso ir a planetário que durmo. Cochilei um pouco. Acho essa história de big bang interessante, só que não fico muito envolvida. Já sei que sou, mesmo,  uma partícula do nada, a via láctea não me atrai tanto. Preciso me sentir importante.

Passando pelo Lincoln Center, resolvemos comprar ingresso para um espetáculo. Escolhemos War Horse. Embora muito premiado, é um pouco chato. Escolhemos esse porque era um musical e podia ser compreendido por toda a turma. Meu pessoal tem idades diferentes, nem sempre dava para conciliar interesses e possibilidades.

No Metropolitan,  um dos museus mais lindos do mundo, vimos muita coisa do Egito antigo. Ficamos um tempão  nessa parte e acabamos perdendo alguma coisa, porque ficar mais de 6 horas em qualquer lugar é desesperador.

Lá  está um Monet que eu amo, Regatta at Sainte – Adresse                                (http://www.metmuseum.org/Collections/search-the-collections/110001584).

Vi em 1997 e ainda bem que ele não entrou para a reserva técnica. Estava do mesmo jeito, até mais bonito.  Não sei por que não consigo me apaixonar por outros  trabalhos,  gosto de ver e rever os mesmos. Identificação. Familiaridade (tomávamos café da manhã no café Europa todos os dias e depois me lembraram  que as pessoas que atendiam falavam espanhol).

Andy Warhol, Nine Jackies, no Metropolitan (http://www.metmuseum.org/Collections/search-the-collections/210013901. O  rosto de Jackie minutos antes de ele ser assassinado.

Essa palavra, instante, define tudo. O tempo passa e é preenchido por inúmeros fragmentos de felicidade, de horror, de nada.

Em um momento estamos em viagem, na viagem, e depois ficamos com as lembranças esfumaçadas e os recibos de cartões de crédito e ingressos utilizados e folhetos, muitos folhetos. E fotografias.

Um click. O tempo para nesse click. Um click na entrada da Tiffany, um click ao lado de um Monet, de uma dançarina de Degas, uma figura magra de Giacometti. E depois estamos em casa.

Quando viajamos, levamos os guias, as sugestões de diversas pessoas. Algumas recomendações combinam com a gente, outras não. Isso só se descobre experimentando. Eu tinha listas de três amigos diferentes, mas perdi no aeroporto. Recuperei alguma coisa, não tudo. Tinha memorizado outras dicas e já sabia os lugares que queria rever, dos quais tinha gostado na primeira vez em que fui a Nova York, em 1997.  E há os lugares de sempre.

Muito de uma viagem é o que não se vê. O que se imagina. Os guias nunca são suficientes. Por isso não leio quase nada antes de chegar a um lugar. Mas gosto de escrever, depois, para organizar  a memória, registrar, construir uma narrativa. Com palavras.

Por último, neste post, quero dizer que vi um pedaço do Muro de Berlim em Nova York, na rua. Fiquei surpresa e, procurando, encontrei, na Wikipedia, a relação das cidades que receberam fragmentos do muro. Em Nova York há três, um deles este  que vi.

Nova York

27 de julho de 2012

Dez dias em Nova York. Hoje vou ao Blue Note assistir Joe Lovano. A cidade no verão é bem quente, mas não está tão quente. Fui ao Metropolitan, ao MoMa, ao New Museum, ao Whitney Museum. Queria ver as cenas do Edo de Hiroshige no Brooklyn Museum, mas não estão expostas. Muito de uma viagem é o que a gente quer ver e não consegue. As expectativas. Agora estou na loja NBC no Rockfeller Center. O imaginário de cada um. Quem se identifica com House, Simpsons, Dr. Who, fica horas. Não me identifico com ninguém. House até já acabou.

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