Sobre “A vida de outra mulher”

Ontem assisti “A vida de outra mulher”, com Juliette Binoche e  Mathieu Kassovitz , filme de  Sylvie Testud.  Juliette é uma de minhas atrizes preferidas. Ela sempre se transforma durante os filmes. Em Aproximação, de Amos Gitai, a personagem vai mudando, cresce, torna-se outra e a mesma. Em “A vida de outra mulher”  acontece algo parecido, mas só vemos a personagem antes e depois do ponto de virada. A história é mais ou menos assim: Marie se casa com Paul,  filho de um grande empreendedor, para quem passa a trabalhar, em sua organização.  Romance e  trabalho iniciam-se simultaneamente. Ele desenha quadrinhos. Ela torna-se importante executiva: rica, manipuladora, ambiciosa,  autoritária, chique. Nós não vemos isso, só sabemos que assim foi. O único momento em que podemos ter uma ideia de como ela ficou é por meio da televisão: uma entrevista em inglês que ela deu passa na tela. Ela acorda no dia de seu aniversário de 41 anos  sem nenhuma lembrança do que aconteceu depois de outro aniversário, 15 anos antes: dia em que ela começa o relacionamento com Paul. Ela acorda em um quarto que não reconhece, apaixonada, e ele  não corresponde. Percebe, aos poucos, que quinze anos de trabalho secaram sua vida e tudo em torno. O filme não discute, propriamente, as consequências de dedicação profissional extrema da mulher. Eu não senti assim. Discute experiência e memória. O que eu senti é que, por mais que mudemos, remanesce uma inocência que nos mobiliza. Em uma fase da vida em que tudo o que se quer é conquistar o espaço público, é duro  resistir.  Esforço pode ser feito para que a experiência não deixe de lado a leveza, a espontaneidade.  E, no fim, não escapamos muito de nós mesmos. É interessante como Marie se esquece de tudo e ainda assim pode avaliar relatórios complexos e seus números, integrando o passado que desconhece com  percepções  sobre si mesma identificadas com sensações da juventude. Ela pega o que a experiência tem de bom, junta com autenticidade e passa a ser uma pessoa inteira. Eu vi assim o filme, que permite, talvez, outras leituras.  Às vezes, perder a memória é conveniente.

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