Conversando sobre Georges Simenon e o romance policial

8 de junho de 2014

20140603_195512

A Companhia das Letras está editando Georges Simenon no Brasil. Já publicou  cinco livros dele.

20140603_195549

A editora convidou o filho de Simenon para falar sobre o pai. A conversa aconteceu entre ele, John Simenon, Raphael Montes e Tony Bellotto, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, 3 de junho.

20140603_195609

Tony Bellotto é  escritor, inclusive de romances policiais. Ele criou Bellini,  ótimo personagem. Em Bellini e o demônio, o romance policial é discutido e faz parte da trama. Bellini procura um manuscrito de Dashiell Hammet. Hammett é um dos autores preferidos de Tony Bellotto. O livro é dedicado para Malu e o escritor.

20140603_195645
Raphael Montes fez sucesso com Suicidas (Saraiva-Benvirá). Companhia das Letras publicou seu segundo romance, Dias Perfeitos, que também faz sucesso. Os três conversaram e anotei algumas falas interessantes.

Maigret não é Simenon (ou Simenon não é Maigret), é quase o contrário dele. Maigret e sua mulher acabam formando uma dupla na investigação.  Ela tem papel importante nas histórias.  Simenon gastava muita energia escrevendo. Magret não julgava as pessoas,  ele as compreendia. Em suas histórias, entender a razão dos crimes é mais importante do que descobrir quem os cometeu (why is more important than who).

Foi bacana ouvir sobre o Simenon, um escritor que criou Maigret, personagem que vive nos livros e na inspiração. Pensei nele ao apelidar o delegado de meu romance policial de Dr. Magreza (Nove tiros em Chef Lidu, ainda não publicado). Na verdade, não fui eu que apelidei, foram seus investigadores, que viam os livros de Simenon nas bancas de jornal (há vários, editados pela L&PM).

Tony Bellotto disse,  a certa altura, que se diverte criando uma  história. Desvenda o final ao longo da escritura.

É assim pra mim também. No romance policial a narrativa, o modo de contar, é tão importante quanto o desfecho.

A conversa entre os três, de gerações bem diferentes, foi sobre Simenon, mas muito sobre romances policiais.

Acho que teremos cada vez mais romances policiais e leitores de romances policiais porque há interesse de todos na solução de um crime e na forma como a investigação pode acontecer. E, quando os detetives correm riscos, e são simpáticos, torcemos para que ele permaneça ileso, também. Às vezes não esperamos culpados ou inocentes, queremos participar da trama e entender como as coisas acontecem.

No romance policial, mesmo quando a punição não acontece, mesmo quando o detetive não é dos mais interessados na boa ordem das coisas, a narrativa põe a complexidade da vida no devido lugar.

Nove tiros em Chef Lidu (início do romance policial que escrevi, ainda não publicado)

31 de maio de 2014

Você deve ter ouvido falar de Chef Lidu. Aquele da Brasserie Lidu. Cozinha francesa. Também consta que pesquisava gastronomia molecular. Caviar de abóbora. Gelatina quente.

O restaurante ficava nos Jardins, em São Paulo. Perto da Rua Augusta.

Acabou. A mulher do Chef,  Darlene, ainda tentou manter um tempo,  não conseguiu. Ele tinha estilo, só ele tinha estilo. Conhecia os detalhes todos. Podia servir arroz com feijão e os clientes pediam mais. Claro que ele não servia arroz e feijão. Servia  le coq au vin. Poulet frites. French fries.

Chef Lidu estudava gastronomia para, quem sabe, mudar alguma coisa no restô. Ou mudar tudo. Ele tinha dúvidas.

Alguma transformação já começava, devagar, como a contratação do cozinheiro espanhol, por exemplo. Discípulo de Ferran Adrià (depois se descobriu que era mentira).

Chef Lidu pensava até em formigas no cardápio.

Chef Lidu era inquieto. Disseram também que gostava (pessoalmente) de uma boa macarronada. Era o que comia à noite, quando chegava em casa (se bem que seus hábitos estivessem mudando). Isso antes de Monalisa. Depois de Monalisa,  mudou o regime alimentar. Aí, só sopa de tomates.

Hábitos alimentares de um chefe de cozinha assassinado nunca interessaram tanto os curiosos. A imprensa explorou esse aspecto da história toda.

Viagem sentimental entre Huaca Pucclana, Asfalto e Japão

5 de maio de 2014

pirâmide

No sítio arqueológico Huaca Pucclana, no meio da cidade de Lima, no Peru, há construções de adobe, material que é mistura de terra, palha e água. A partir dessa mistura, a civilização anterior aos incas moldava tijolos de idêntico tamanho e com eles formava pirâmides (recheadas de pedras, também). Huaca Pucclana era um espaço para jogos e reuniões religiosas e políticas. As pessoas não moravam lá.

O homem registra ideias, preocupações, sentimentos e rotinas segundo conhecimentos e possibilidades de cada época. Sempre que visito lugares assim antigos, penso no imenso trabalho de reconstrução narrativa de arqueólogos e historiadores. Escavações em Huaca Pucclana trouxeram à tona pirâmide, praças, escadas de adobe em perfeito estado.

Creio que, não à toa, adobe é, também, o nome de empresa que, atualmente, programa registros digitais de dados. O nome adobe é associado, hoje, à construção digital.

Sendo eu uma pessoa ligada à escrita e à documentação, sendo ainda escritora, tendo publicado, em ficção, um romance (Viagem sentimental ao Japão, Apicuri, 2013) e um livro de contos (Asfalto, e-galáxia, 2014), o último em formato exclusivamente digital, é natural que reflita sobre o que é mais gratificante ou duradouro: o livro em papel ou o e-book?

tijolos

Imagino, então, bibliotecas antiquíssimas, talvez aquelas dos monges, em que exemplares únicos eram copiados à mão e guardados, arquivados, mantidos assim até hoje, em ambientes climatizados e algumas vezes sem possibilidade alguma de manuseio. Penso nesses livros enfileirados como os tijolos de adobe.

Penso em meu livro de contos, curiosamente denominado Asfalto, digitalizado, quase infinito. Não importa quantas pessoas o procurem, estará sempre à disposição – desde que mantidos pelas livrarias digitais cada vez mais fortes.

asfalto

Imagino, para o Viagem sentimental ao Japão, bibliotecas físicas bacanas, estantes de leitores interessados, mesmo que da Estante Virtual. Imagino o livro guardado em mochilas, o livro emprestado, comentado, lido. Imagino alguém que se divirta com as viagens de Anette, que se identifique com Anette.

Capa_Baixa

Para Asfalto, imagino vida larga, multiplicada, infinita como o número matemático Pi: 3,14141592653589… Sonhei, aliás, outro dia, com esses números enfileirados, grafados em uma parede de pedra, infinitamente.

Asfalto tem dez contos. Um deles fala de um GPS, outro de um quimono, outro de uma mulher com agenda lotada, outro de uma motociclista atarefada, outro de um rapaz que usa o primeiro smoking em um baile de formatura, outro sobre uma moça em dieta de emagrecimento, outro sobre uma vidente, outro sobre um jornalista e uma escritora em entrevista, outro sobre um depoimento em uma delegacia. São tantos assuntos, o livro é tão curto e tão longo.

Há quem ainda recuse a leitura digital, quem ache que o livro digital não é tão livro como o impresso. Cada leitor é um leitor, cada leitura é uma leitura.

As civilizações mais antigas comunicaram-se e comunicam-se com a nossa de diversas maneiras e nos cabe, também, aceitar nossas formas contemporâneas de expressão. Posso comparar bibliotecas de livros impressos às pirâmides de tijolos adobe, assim como posso comparar livros digitais aos mesmos tijolos.

Aprende-se a falar e escrever sem a ajuda de computadores, mas, depois, não se vive sem eles, não se vive sem o registro digital, fora do sistema. Até se vive. Mas é necessário e divertido tentar pegar a nova onda e encontrar ouvintes, leitores, conexões.

Quem sabe um dia, em um futuro distante, um ser humano altamente especializado decifre, depois de muito esforço, os dez contos de Asfalto e, então, espalhe o conhecimento de que houve, em um passado remoto, um GPS, uma motocicleta, um quimono, uma vidente e um smoking apertado.

“50 anos daquele 64”- Martelinho 1 na Vigília pela Liberdade

3 de abril de 2014

Dia 30 de abril, domingo passado, no Satyros, na Vigília pela Liberdade,  nosso Coletivo Martelinho de Ouro lançou o fanzine “50 anos daquele 64”. É o Martelinho 01. Outros virão.

 O Coletivo, que já publicou o livro de contos “Achados e perdidos”,  é formado por Concha Celestino, Cris Gonzalez, Deborah Dornellas, Eliana Castro, Fatima Oliveira, Flávia Helena, Gabriela Colombo, Gabriela Fonseca, Izilda Bichara, Lucimar Mutarelli, Paula Bajer Fernandes, Regina Junqueira, Silvia Camossa e Teresinha Theodoro. 

Marcelino Freire  sugeriu que escrevêssemos sobre liberdade e nós fizemos  contos, textos, comentários. A publicação ficou linda e a diagramação, de Rodrigo Terra Vargas, ótima.

Os textos, alguns divertidos, outros mais tristes, mas todos muito ligados ao tema, estão maravilhosos. Não consigo deixar de pensar em superlativos para definir nosso fanzine.  Logo lançaremos em formato digital, pela e-galáxia. Assim todo mundo pode ler.

Participei de uma mesa na Vigília pela Liberdade – ou melhor,  de um sofá-, com as escritoras Beatriz Bracher e Ivanna Arruda Leite. Beatriz escreveu um livro sobre o período da repressão, “Não falei” (Editora 34). O personagem, Gustavo, professor, foi preso e torturado e, anos depois, precisa lidar com a memória para uma entrevista a uma escritora, que tem um personagem parecido com ele. Ele vai mudar de cidade, também, e lembra-se da relação com a mãe, o pai, a mulher, os irmãos, o trabalho. Super bonito o livro.

E nós falamos dos nossos livros, também, dos livros que escrevemos. Falei do meu “Viagem sentimental ao Japão” (Apicuri, 2013) e Ivanna falou de “Falo de mulher”. Nessa conversa, Marcelino perguntou o que é liberdade, se nós nos censuramos ou somos censuradas, qual a lembrança que temos da ditadura, mil coisas. Foi um diálogo  meio profundo, filosófico, sincero. Fora que as pessoas que estavam ali com a gente eram todas muito legais, o Martelinho de Ouro estava em peso lá.

Depois, Marcelino convidou para a fala o escritor Marcelo Rubens Paiva (homenageado), o escritor Wilson Freire, o poeta Binho e a escritora Izilda Bichara. Izilda integra o Martelinho de Ouro. Publicou  muitos contos e o romance Térreo (2012). A conversa, assim como a anterior, girou sobre o período negro da nossa história. Marcelo falou bastante sobre seu “Feliz ano velho”. Izilda também falou sobre nosso fanzine.

No fim de tudo, Wilson Freire  lançou o livro “A única voz”.  Editado pela Mariposa Cartonera, o livro é feito de um jeito artesanal, as capas são de cartões bem grossos e cada capa é pintada – uma cor diferente para cada exemplar. A edição é numerada e assinada. O tema também é 64.

Acho que a escrita é solitária, o escritor é mesmo um cara sofrido.

Marcelino Freire escreveu, no seu romance “Nossos ossos” (Record, 2013): “um autor só é autor, digamos, quando é vítima de um crime, de um atentado, um desprezo, um exílio, um corte, um esquecimento”.

É isso. Mas, por outro lado, a literatura proporciona encontros e conexões  e o vazio acaba preenchido, de um jeito ou de outro.

Pelo menos por um tempo.

Escrita e humor

16 de março de 2014

Na época da ditadura, dizia-se muito nas entrelinhas (isso não é fácil). Havia toda uma arte para não dizer, dizendo (ou dizer, não dizendo?). Com humor.

No Zero, Ignácio de Loyola Brandão (Rio de Janeiro, Codecri, 1980, primeira edição de 75), cria um personagem triste e sofrido e miserável. Trágico. Ele só se ferra, vamos dizer assim. Mas os textos são irônicos, seriam mesmo cômicos.

Um dos textos começa assim: “Documento pras otoridade”. E então está: “José terminou levado para a Delegacia. Faltava um documento: o da frequência escolar dos filhos. Mas eu não tenho filhos.Mas, o senhor é casado. Mas, não deu tempo de ter filhos. Sua mulher tem usado a pílula. Tem. É proibido (Determinação do Incremento ao Aumento da Família nacional, Nº 7896576) ? E agora. Dois meses de prisão para cada um” (p. 117).

É sarcástico.

Sarcasmo é, segundo o Houaiss, ironia cáustica, riso amargo. Gosto do riso amargo.

É um absurdo alguém ser preso por usar anticoncepcional. Ao mostrar o absurdo da proibição da pílula, Zero fala do absurdo de toda e qualquer invasão à intimidade.

Sem dizer, diz, provocando o riso amargo.

Esse recurso aparece em outras passagens do livro. Aqui, por exemplo: “O arauto subiu no palanque: De hoje em diante, cartórios só registrarão crianças cujos nomes estejam de acordo com a lista fornecida pelo governo. Fora dela não é alternativa. A medida visa acabar com o abuso de nomes pagãos, de invenções malucas, de prenomes que envergonham o indivíduo e a nação. Ordenação 6574893456Yhg” (p. 73). Olhem só a ironia: as leis de Portugal aplicadas no Brasil depois de 1500 chamavam-se Ordenações do Reino. Havia as Ordenações Filipinas, Afonsinas e Manuelinas.

A exigência de que cartórios só registrem nomes autorizados pelo governo é ridícula. Chega ao extremo do ridículo e provoca riso. O leitor alcança. Está nas entrelinhas.
Fiquei pensando nas relações entre essa forma de fazer humor e o teatro do absurdo que surgiu da peça Ubu Rei em 1896, de Alfred Jarry. O teatro do absurdo aperfeiçoou-se com Ionesco (http://www.desvendandoteatro.com/teatrodoabsurdo.htm). Vale a pena ler A cantora careca.

O teatro do absurdo surge depois da segunda guerra mundial e, segundo a Enciclopédia Itaú Cultural, “une a comicidade ao trágico sentimento de desolação e de perda de referências do homem moderno. Tal sentimento deriva não apenas do horror da Segunda Guerra como também da Guerra Fria e do estágio atingido em meados do século XX pela filosofia, especialmente a existencialista, que afirma definitivamente a solidão e a responsabilidade do homem por seu destino em um mundo sem Deus” (http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_teatro/index.cfm?fuseaction=conceitos_biografia&cd_verbete=13538).

Estou aqui associando Zero ao teatro do absurdo livremente e sem pretensão de rigor acadêmico. Simplesmente passei a pensar nisso a partir do momento em que quis investigar a razão de alguns textos serem engraçados e outros não. O que é o humor? Como ser engraçado?

Humor está sempre junto de sofrimento e verdade e isso foi dito muitas vezes em um curso que fiz com John Vorhaus no B_arco Centro Cultural (Escrevendo Comédia). Newton Cannito, em outro curso que fiz também no B_arco (Autobiografia, fabulação e humor), também falou sobre a relação entre humor e dor.

Para fazer rir, você precisa compreender o próprio sofrimento, que é um sofrimento com o qual muitas pessoas podem se identificar. E por isso rimos. E quando o riso aparece, vem junto uma libertação. Ainda não entendo muito bem como isso funciona. Quero entender mais.

Pesquisando Ubu Rei, reencontro o Teatro do Ornitorrinco e Cacá Rosset. E aí lembro de “Eu não tô legal. Sei lá. Mil coisas”.

Está no Youtube:

Vi Gerard Depardieu no Théâtre Antoine

29 de janeiro de 2014

IMG_0060

Quando fui ao Théâtre Antoine assistir “Love Letters”, com Gerard Depardieu e Anouk Aimée, em Paris, não sabia quem tinha sido André Antoine.

Depois, pesquisando, descobri que ele criou o Théâtre Libre e foi um dos que impulsionou, modernizando, a cena teatral parisiense.

Seu palco proporcionou à cidade apresentações originalíssimas por volta de entre 1890 e 1990 (http://www.theatre-antoine.com/theatre/historique.html).

“Love Letters” é peça escrita por A.R. Gurney. Os atores leem cartas e reflexões de personagens. É como se fosse um romance epistolar. Ficam sentados e as cartas estão sobre a mesa. Às vezes, olham-se. Mas, basicamente, leem.

Anouk Aimée estava de vermelho. Gosto dessa atriz que já esteve em filmes de Fellini (“A doce vida”, “8 1/2”), e que contracena com Jean Louis Trintignant em “Um homem, uma mulher”, filme que me marcou bastante.

E Gerard Depardieu é um autor maravilhoso. Ele prende a atenção e fascina o público.

Eu não falo e não entendo bem o francês falado. Não sei se isso foi um problema ou não, na verdade.

Estando em Paris, pensei que era até um alívio não entender a língua, assim pude me concentrar só em ver.

Ver Paris, ver as pessoas andando, os doces maravilhosos nas vitrines, olhar mapas, placas com nomes de ruas, vistas panorâmicas, esculturas, monumentos, foi mais do que suficiente.

Se eu precisasse conversar, seria demais e talvez eu até me desencantasse.

Quando vou a um país em que falam inglês, acabo cansada porque quero entender tudo e às vezes isso não é possível.

No teatro, uma senhora me perguntou algo e eu respondi “Je ne parle pas français”, uma das frases que sei.

Ela me pediu desculpas e na hora nem pensei se ela não estaria achando estranho o fato de eu estar disposta a passar duas horas ouvindo leitura de cartas em uma língua que não compreendo.

Provavelmente, ela adora Gerard Depardieu e compartilhamos esse gosto.

No restaurante “Bel Canto”, cantava-se ópera entre as refeições e havia alguns discursos intermediários, também. Não entendi nada. Foi ótimo. Só comi, ouvi a música, brindei junto com eles.

Percebi que as preleções eram interessantes, porque eles riam. Cantaram parabéns a você para uns três aniversariantes e o clima estava ótimo.

Quando necessário, eu falava inglês e eles falavam inglês. Um dia, pedi para um senhor no museu tirar uma foto nossa e ele fez que não entendeu e fiz o sinal “tirar uma foto” com as mãos e ele ficou super feliz em atender.

E assim foi.

Percebo que a palavra, em alguns momentos, não é tão importante. Hoje as imagens e sensações são muito fortes na comunicação. Conseguimos entender o metrô a partir de mapas e, sabendo o que significa “sortie”, é possível sair dos lugares, o que pode ser melhor do que entrar.

No teatro, estive em uma plateia nada turística. Alegres e bem vestidas, as pessoas estavam desfrutando um momento bom. A senhora que indicou nosso lugar insistiu em algo que não compreendi absolutamente.

Ela queria que eu fizesse alguma coisa e eu não sabia o que era. Aí ela falou: “tip, tip”. E então me veio que eu precisava dar uma gorjeta a ela, o que não é comum, aqui no Brasil. E eu lhe dei umas moedas e ela achou bom. Aí reparei que todos já chegavam com suas bolsas de moedas preparadas e davam algumas para quem tinha orientado o caminho até os lugares marcados.

Encantada com Paris, fui ao Masp ver a exposição “Passagens por Paris” (http://masp.art.br).

As pinturas de Renoir que o Masp tem são lindas, as mais bonitas que já vi dele, na verdade. Uma das esculturas de bronze da bailarina de Degas está lá, também. Vi no Museu de Orsay e vi no Masp.

Há várias espalhadas por museus no mundo e a bailarina original, em cera, está em Washington.

“Love Letters” foi escrita por um escritor americano.

Por que será que não traduziram o título para o francês? Achei curioso esse respeito ao título da peça diante da densidade do francês que ouvi.

Era tão discursivo, musical, tradicional.

Talvez perfeito.

Nossas férias em Paris

23 de janeiro de 2014

1)- Vimos a Monna Lisa três vezes;
2)- Vimos a bailarina de Degas uma vez. Foi pouco, adoro a bailarina;
3)- Esculturas de Rodin são grandiosas. No Museu de Orsay está a de Balzac: é linda. No Museu Rodin está também O pensador;
4)- Ficamos perto da Ópera. O teto pintado por Chagall é inesquecível. Assistimos Bolchoï, Ilusões Perdidas;

IMG_0064

5)- Vimos Gerard Depardieu e Anouk Aimée no Thèâtre Antoine (Love Letters);

IMG_0053

6)- O Louvre é maravilhoso e imenso. Descobri os nomes das alas: Denon, Richelieu, Sully.
A Monna Lisa fica no Denon (sala 6).

7)- Fomos ao Arco do Triunfo, ver Paris do alto é muito legal;
IMG_0020

8)- Fomos a um restaurante onde cantam ópera, Bel Canto: adoramos;

9)- Comemos muito bem, marron-glacé é uma delícia. O chocolate quente do Angelina, na Rue Rivoli, é muito gostoso;

10)-Vimos o quarto de Proust (www.carnavalet.paris.fr)) e o de Victor Hugo (www.maisondevictorhugo.fr). O de Proust é azul e o de Victor Hugo vermelho;

IMG_0029IMG_0015

11)- Vimos a janela através da qual Victor Hugo via a Place des Vosges;
IMG_0004
12)- Fomos à Shakespeare and Company (é a livraria). Ficamos lá um tempo e surgiu um pianista que tocou um jazz maravilhoso. O piano está à disposição e ele deixou todos encantados com a música. Tocou também Desafinado, de João Gilberto;

13)- Vimos uma exposição de fotografias dos Rolling Stones, no Marais;

IMG_0041

14)-Quem for a Paris pode consultar o blog Conexão Paris (www.conexaoparis.com.br), comprar um Paris Museum Pass (o passe garante entradas sem filas) e ler O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar. Pode também não fazer nada disso. Basta ver a Monalisa. Ela tem um sorriso para cada um.

Retrospectiva pessoal e literária ou “A vida secreta de Walter Mitty”, último filme de Ben Stiller

28 de dezembro de 2013

Estava aqui pensando que poderia escrever o último post de 2013. Escreveria sobre tantas coisas e, se resolvesse escrever sobre tudo o que vem à cabeça, terminaria um livro. E livro não posso escrever aqui. Então vou escrever sínteses, algumas listas, algo assim, sem ordem cronológica ou qualquer outra. Nem tudo esse ano esteve voltado à literatura. Houve fatos e incidentes. Foi um ano forte. Conto só a parte literária. Aliás, esse post meio que sintetiza outros, com exceção de algumas anotações.
1)- Publiquei “Viagem sentimental ao Japão” (Apicuri, 2013). Anette, a personagem, tem vida que vai muito além da minha, e isso foi bom de perceber. A Livraria da Vila da Fradique ficou lotada de amigos queridos, fiquei super contente com cada um, me lembro de todo mundo que estava lá. A Editora Apicuri fez um trabalho maravilhoso, agradeço Jozias e Rosangela por tudo.

2)- Participei do Grupo Literário Martelinho de Ouro. Publicamos um livro juntas, de contos, “Achados e perdidos” (RDG, 2013, coord. Regina Junqueira). Escrevi três contos para o livro.
3)- Participei de algumas reuniões do Grupo de Crítica Jardim Alheio na Livraria Martins Fontes.
4)- Coordenei grupos de leitura no Pauliceia Literária. Muito legal.
5)- Participei da pré Balada Literária organizada por Marcelino Freire no B_arco. Falei sobre meu romance. Foi ótimo.
6)- Mergulhei na leitura digital. Tenho um Kobo e adoro. Minha leitura ficou mais rápida e mais volátil. Agora ando com muitos livros e posso escolher o que ler e em que língua. Às vezes leio o mesmo livro em português e em inglês, para sentir as diferenças e quebrar monotonia (ler é gostoso e necessário e importante, mas às vezes cansa). Chego à conclusão de que temos ótimos tradutores.
7)-Tenho muitos contos escritos e terminados e concluídos e estou pensando em publicá-los só em formato digital.
8)- Fiz cursos com John Vorhaus no B_arco que valeram muito a pena. Quero saber mais sobre escrita de comédia. Não é na Seleções que está que “rir é o melhor remédio?”. Fui leitora assídua da Seleções, minha avó colecionava e até hoje sou discípula de minha avó, Ieta Bajer.
9)- Aprendo muito com minha querida professora de espanhol, Mónica. Lemos juntas contos de Cortázar, Benedetti.
10)- Fui a Itacaré, Londres, Rio dw Janeiro, Paraty e Ubatuba Sempre Ubatuba.
11)- Fomos à inauguração de uma praça, em Santos, que tem o nome de minha mãe, Ana Maria Babette.
12)- Estou quase terminando meu segundo romance. Falta pouco. Ainda não descobri quem matou Chef Lidu. Tinha encontrado o assassino, mas mudei de ideia. Ou a ideia mudou sozinha, não sei bem. É um romance policial.
13)- Gostei do último filme de Ben Stiller, “A vida secreta de Walter Mitty”. Vou ver de novo. O tema do filme, como diria John Vorhaus, poderia ser “siga seu sonho”, ou “faça o que tem a fazer”, ou “seja você mesmo”. E na vida também é assim.
14)-Tomara que tudo se realize no ano que vai nascer.

Martelinho de Ouro publica Achados e Perdidos

1 de dezembro de 2013

capa_achados_e_perdidos_baixa
Participo de um grupo literário. Nós nos reunimos na casa da Regina. Lemos nossos textos, comentamos, fazemos elogios recíprocos, às vezes uma ou outra crítica – sempre construtiva.
Nosso grupo tem um nome: Coletivo Martelinho de Ouro.

O trabalho resultou em coletânea de contos: Achados e Perdidos. Acabamos de publicar, pela Editora RDG. Lançamos na Balada Literária 2013, coordenada por Marcelino Freire. Nós nos conhecemos nas Oficinas do Marcelino no Centro Cultural B_arco. Regina Junqueira é organizadora da publicação. Lourenço Mutarelli escreveu belo prefácio.

Os contos falam de qualquer achado e qualquer perdido, de tudo que nos esvazia e preenche. Falam de espaços, trânsitos, vácuos, desejos, plenitudes e sonhos. Do que poderia ser, se não tivesse sido.

Cada uma escreveu sem preocupação de manter unidade. Tínhamos só o tema: achados e perdidos. Porém, sem procurar exatamente, alcançamos uma publicação coerente, coerência essa produzida pela amizade, pelo companheirismo, pela convivência livre e festiva.

Concluído o projeto, percebemos que nossos contos conversam e formam o todo. Escrevemos um livro juntas, nossos personagens têm afinidades.

Depois de Viagem sentimental ao Japão, romance (Editora Apicuri, 2013), publico, ainda em 2013, três contos em Achados e Perdidos, agora com minhas amigas escritoras do Martelinho de Ouro. Meus contos são: A carteira vermelha, O poema e Uma viagem a Cancún, um motorista de táxi bigodudo e uma possível aventura.

Temos quase um movimento literário – um amigo, Francisco Dias Teixeira, também escritor, percebeu.

Vida longa ao Martelinho de Ouro e à literatura de Concha Celestino, Cris Gonzalez, Deborah Dornellas, Eliana Castro, Fatima Oliveira, Flávia Helena, Gabriela Colombo, Gabriela Fonseca, Izilda Bichara, Lucimar Mutarelli, Paula Bajer Fernandes, Regina Junqueira e Teresinha Theodoro.

2013-12-01 16 32 10

Londres é o lugar da ficção

3 de novembro de 2013

hogwarts

Londres é o lugar perfeito para  ficção.  Sherlock Holmes, Hercule Poirot,  James Bond,  Harry Potter, vivem  lá.  Sherlock mora na  Baker Street 221 b.

baker

Edições dos livros de Agatha Christie estão nas livrarias no exato formato em que lançadas. Na época em que Agatha Christie era novidade, as capas dos livros explicavam quem ela era, informação que, hoje, não faz qualquer sentido. Mas é muito legal ver as capas originais. Elas dão mais vontade de ler, as histórias parecem novas.

Fui a Hogwarts. J.K Rowling criou um mundo e tanto para  Harry Potter, que o cinema reproduziu bem.  Figurinos, maquetes, mobiliário, tudo está lá. A fantasia não tem limites.

Mas há realidade, também. Na Biblioteca Britânica, está um documento jurídico importante: a Magna Carta, que em 1215 estabeleceu limites ao poder real. Fui lá e vi.

Vi também o primeiro Folio de Shakespeare (http://www.bl.uk/onlinegallery/onlineex/landprint/shakespeare/).

A Biblioteca Britânica é um lugar maravilhoso.

Vi a Pedra Rosetta, no Museu Britânico. E também a múmia de Cleópatra.

rosetta

Quase fui  ao lugar onde Winston Churchill  protegia-se dos bombardeios e fazia reuniões e discursos durante 2ª Guerra: Churchill War Rooms. Como diria Anette, a  personagem de “Viagem sentimental ao Japão”, uma viagem vale muito, e mais, pelos lugares não visitados. Memórias inventadas. Sinto como se  tivesse estado lá. Estive, mesmo,  na imaginação.

O que importa é que tanto os subterrâneos de Churchill como a belíssima maquete de Hogwarts   dão vontade de escrever e me fazem acreditar cada vez mais que a ficção faz todo sentido.

A imaginação é tudo, como diria Willy  Wonka, personagem  de Road  Dahl  em  Charlie and the Chocolate Factory. Assisti ao musical no Royal Theatre Dury Lane, na última fila do Balcão. Vi muito de cima, mas vi tudo. A certa altura, Mr. Wonka diz a Charlie que ele insiste sempre em fazer alguma coisa do nada, algo como “make something of nothing”, pelo que me lembro. Isso foi na sala em que havia um caderno onde Willy Wonka anotava suas ideias, sala que só Charlie visitou.

E então penso no romance policial que estou escrevendo, em como minha história pode ficar mais interessante, em como meus personagens podem ter vida e  um endereço certo, como Shelock: Baker Street, 221b.

sherlock

Leitor digital

22 de outubro de 2013

Quem não passa tempo livre na frente de uma tela? De TV, computador, Ipad, celular, leitor digital. Estou conectada ao meu leitor digital. Tão ligada que, às vezes, tenho o livro e, mesmo assim, baixo, como fiz com O Aleph, de Borges, que leio em espanhol. Quando terminar, vou à edição brasileira, comparar e compreender melhor algumas partes. Porque O Aleph não é fácil.

O  leitor digital é perfeito para uma primeira  leitura de O Aleph porque torna o texto meio volátil, como Borges pode ter imaginado. No leitor, o livro não é concreto. Não dá para apertar, passar a mão, amassar, contar páginas. Não dá para saber quanto se leu. Só em porcentagem.  Por outro lado, é possível fazer destaques e, incrível, eu, pelo menos, leio mais rápido. Não sei se é porque meu cérebro já está habituado à tela do computador, do celular, às muitas telas de hoje.

Li um livro que não teria lido em edição impressa, Bel Canto, de Ann Patchett. Quero vê-lo ao vivo, não tenho a menor ideia sobre sua textura, suas cores, o número de páginas. E gostei.

Gostei da história do sequestro de autoridades em uma comemoração de aniversário de um empresário japonês em um país da América Latina. A casa foi tomada por sequestradores, que lá permaneceram por longo período. Os personagens principais são um intérprete japonês que falava muitas línguas, uma cantora de ópera maravilhosa, o homenageado, uma sequestradora moça que queria aprender outras línguas e se apaixonou. A comunicabilidade parece ter sido o tema central do romance, ou a adaptação  a novos contextos. Pessoas se amaram, algumas passaram a fazer em público o que antes faziam em segredo, como cantar e tocar piano (atividades aparentemente tão simples).

Ann Patchett tem uma livraria em Nashville, Parnassus Books (http://www.parnassusbooks.net/). No site, está escrito:  An independent bookstore for independent people.

A leitura de um livro em edição digital pode suscitar  ideias completamente diferentes das inspiradas pela edição impressa. Um autor como Borges teria gostado, penso, de ser lido em meio digital.

Não tenho o costume de filosofar e nem sei se estou pensando direito, mas tenho a impressão de que a leitura digital pode  levar a pensamentos mais livres e desapegados de fórmulas e compartimentos.

Esse é só o início de uma reflexão, mas,por enquanto, posso dizer que  aderi ao leitor digital como mais uma forma de ler. Pelo menos satisfaço, rapidamente, o impulso de ter o livro que quero.

E por um preço menor (só um pouco menor).

 

Esquentando a Balada Literária, no B_arco

7 de outubro de 2013

1383900_615564618505588_1583640617_n

Sábado, dia 5 de outubro, o Centro Cultural B_arco  mostrou um pouco da Balada Literária que acontece todo ano em São Paulo e está marcada para 20 a  24 de novembro. A Balada é realizada desde 2006   por Marcelino Freire.

Aqui está entrevista de Marcelino:  http://barco.art.br/marcelino-freire-fala-proxima-balada-literaria/

No sábado, tudo começou com o documentário  SP-Solo Pernambucano, de   Wilson Freire e Leandro Goddinho.

Já vi duas vezes o filme e veria muitas mais.  Quem escreve não pode deixar de ver. O jeito que Marcelino fala da literatura e das palavras e da poesia e da sua escrita faz com que a gente queira continuar traçando esse caminho da literatura.    E a gente fica conhecendo Sertania e Dona Maria do Carmo, mãe de Marcelino. E o mar de Recife.

Depois do filme, Marcelino chamou ao microfone escritores que lançaram livros recentemente ou que têm desenvolvido projetos literários.

Estiveram lá Lucimar Mutarelli, Renan Inquérito, Anna Zêpa, João Vereza, Sergio Mello, Sin Ha, Patricia Chmielewski Candido, Luis Rafael Monteiro e eu também, Paula Bajer Fernandes.

Cada um falou um pouco e leu poemas ou textos.

Lucimar falou de “Férias na prisão”, seu novo romance (Prumo). A fantasia da prisão ronda a maioria das pessoas e o livro mexe com essa sensação. É como está na orelha: “No entanto, dentro ou fora, estão todos aprisionados. Mesmo acompanhados, estão todos sós”.

Lucimar anunciou, também, o lançamento, em breve, de “Achados e perdidos”, livro que reúne contos de 13 escritoras: Concha Celestino, Cris Gonzalez, Deborah Dornellas, Eliana Castro, Fatima de Oliveira, Flávia Helena, Gabriela Colombo, Gabriela Fonseca, Izilda Bichara, Lucimar Mutarelli, Paula Bajer Fernandes, Regina Junqueira e Teresinha Theodoro

João Vereza, cujo ótimo livro de contos, “Noveleletas”, obteve 1º lugar no Prêmio Sesc 2012-2013 e foi publicado pela Record, falou sobre a repercussão do prêmio em sua vida.

Sérgio Mello leu poemas lindos. É autor de “Inimigo em testamento” (Soul Kitchen). Encontrei o book trailer no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=VQARSuE55Mc.

Renan é letrista de rap e deu um show. Contou um pouco de seu trabalho com os adolescentes na Fundação Casa. O livro de Renan, Poucas Palavras, é bem bacana.

Patricia (Japa Tratante) falou sobre criação de alternativas táteis de leitura. Em “De propósito” está: arte conceitual + poesia visual + intervenção urbana + alma + vida . Olha aqui: http://deproposito.com/about/

Luis falou sobre Boca Santa, literatura em estado vivo e bruto, como está na internet, aqui, em apresentação de Marcelino Freire: http://www.boca-santa.com/fala-marcelino.

Sin Ha recitou belos poemas de um jeito belo.

Conversei com Marcelino sobre meu “Viagem sentimental ao Japão” (Apicuri). Disse que a narrativa de Anette, querida personagem, tem a ver com o espanto de viajar e a dificuldade de conviver.

Tive ainda oportunidade de conhecer o livro lindo de Anna Zêpa, “Primeiro corte”. As páginas vêm com pontilhados de destaque, é poesia pra dividir. Anna diz: “Vamos praticar o desapego, hein?”

Transcrevo alguns, aqui:

palavras
são armas
difíceis de acreditar

alguém
me guarde
por favor

Não consigo dividir, Anna, desculpa.
Me apeguei.

Pauliceia Literária e Lêdo Ivo: reflexões em torno do enigma

20 de setembro de 2013

A Pauliceia Literária realizada pela AASP (Associação dos Advogados de São Paulo)  começou com êxito.

Na abertura, Manuel da Costa Pinto discorreu, de maneira muito articulada e inteligente,  sobre a literatura  de Patrícia Melo, a escritora  em foco do festival.

Depois, Patrícia subiu ao palco. Falou bem. Disse que não pode ser considerada, até o momento, escritora de romances policiais. Escreve sobre crimes, paixões humanas, mas isso não significa, tecnicamente,  que sua literatura seja policial. Seu próximo romance, porém, será.

Hoje, em O Estado de São Paulo, Raphael Montes, autor de Suicidas, romance muito comentado, diz: “Tento explorar o que me parece o futuro do romance policial: histórias mais ágeis, sem o detetive como personagem principal” ( Caderno 2, C3).

Os temas debatidos na Pauliceia Literária giram – não só – em torno da literatura que discute crime e justiça.

Leio  romances policiais, especialmente Agatha Christie, Patricia Cornwell, Lawrence Block e Raymond Chandler. Chandler é meu preferido. Neles, os investigadores são  céticos e ambíguos.

Os personagens me conduzem ao fim do livro. A solução do mistério não importa tanto. Se bem que, em Agatha Christie, a solução é importante, porque quase sempre inusitada. Mas, nos outros, quero saber  como Marlowe, Bernard Rhodenbarr, Scudder  e Scarpetta, terminarão. Torço por eles, assim como torço por mim.

Estou escrevendo um romance policial em que dois personagens pesquisam um homicídio.

Dr. Magreza  e Elvis,  escrivão inexperiente que o auxilia e acompanha, têm uma relação  de subordinação hierárquica irreverente.

O morto é Chef Lidu, dono de restaurante envolvido em tramas amorosas e alimentares. Ele também é um personagem interessante, embora póstumo.

Mudando um pouco de assunto, mas ainda no assunto, li “O aluno relapso – Afastem-se das hélices”, que a Editora Apicuri publicou recentemente, de Lêdo Ivo.

O livro reedita, com importante acréscimo (Afastem-se das hélices), livro publicado em 1991 por Nemar e Massao Ohno.

Em uma parte, Lêdo Ivo fala: “A função da literatura não é a de refletir a realidade,  sim a de criar uma realidade que só a linguagem tem condições de produzir. A literatura é a realidade da linguagem, e não a realidade da vida, que se exprime através de uma des-linguagem”. (p. 35).

Está no livro, ainda,  breve poema:

Mistério policial

A chave do enigma

Não decifra nada.

Abre para a porta

Sem ferrolho e chave.

Leva ao labirinto

Desenhado  na água.

 Escrevo tudo isso para dizer que, na literatura policial, é esse labirinto desenhado na água que me chama. Além dos detetives: insisto  neles. Eles têm aquela chave que não decifra nada e sabem disso.

A vida de verdade é outra história. A vida  de verdade está no campo da des-linguagem, como disse Lêdo Ivo (ou das hélices, penso eu).

 

 

 

 

 

 

 

A que horas você escreve?

15 de setembro de 2013

SONY DSC

As pessoas têm curiosidade de saber a que horas o escritor escreve. Ninguém pergunta para o médico a que horas ele trabalha, nem para o advogado, muito menos para o engenheiro. Mas o escritor acaba respondendo essa pergunta.

É que é difícil encontrar tempo para escrever. A escrita exige concentração, algum silêncio,  comunicação entre o eu do escritor e o eu dos personagens, comunicação entre o escritor e os livros pesquisados, fotografias, recortes de jornal, tanta coisa. Leitura.

E tem o facebook,  o celular,  a internet,  as conversas com os amigos, os eventos literários nos quais é importante estar para saber o que está acontecendo e estar com outros escritores.

Os devaneios também ajudam e atrapalham. Escrevemos tudo ao mesmo tempo, lemos tudo ao mesmo tempo, pensamos assim, também.

Quem tem outra profissão, além da escrita ficcional, precisa trabalhar. Não se diz por aí que poucos vivem dos livros  publicados? E também é possível gostar de escrever e de trabalhar com outras coisas. Primo Levi, por exemplo, gostava de seu trabalho como químico. Há muitos exemplos assim. Eu mesma, por exemplo. Estudei direito, escrevo sobre direito, trabalho com direito. E escrevo ficção. Adoro escrever ficção. Precisei de muito tempo pra entender que é possível conciliar tudo. É claro que as linguagens são outras e estão em partes diferentes do cérebro. Como falar línguas diferentes, talvez. Não sei, preciso refletir mais e melhor sobre isso.

Mas voltando ao horário da escrita,  pode acontecer bem cedo, de manhã. De madrugada.

Eu gosto de escrever bem cedo,  quando estou bem concentrada e livre. E gosto de escrever domingo, como estou fazendo agora (não é cedo). Não gosto de escrever aos sábados.  E escrevo  no meu escritório, em casa. Só escrevo em casa.

Mas às vezes demoro para encontrar a escrita. Mesmo em casa.

Leio um livro chamado “O segredo dos grandes artistas”, de Mason Currey (Elsevier/Campus, 2013). Ele colecionou informações sobre rotinas de escrita.

Em Chawton, na Inglaterra, Jane Austen escrevia na sala, em folhas de papel pequenas. Acordava cedo e tocava piano. Depois, escrevia na sala. Curioso é que, quando pessoas de fora entravam, ela escondia os papéis e começava a costurar. À noite, lia para a família os romances que escrevia.

Thomas Mann trabalhava das nove ao meio dia, em seu estúdio. Depois, almoçava e lia até quatro da tarde. Dormia uma hora. Às cinco, tomava chá com a família. Depois, escrevia cartas, artigos para jornal. Caminhava antes do jantar. Antes de dormir, lia ou ouvia música com sua mulher.

Gosto de ler essas curiosidades.

Para escrever sempre, é importante ter alguma rotina. É como fazer ginástica. Um dia de cada vez, algumas horas de cada vez.

Eu, na verdade, não escrevo durante muito tempo. Meia hora, no máximo.

Pode parecer que escrevo de um jeito simples.

Minha simplicidade exige um certo esforço.

 

Divórcio, de Ricardo Lísias

1 de setembro de 2013

Terminei de ler “Divórcio”, de Ricardo Lísias.

Estava bem curiosa para ler o romance porque inserido entre aqueles que permitem  debate  em torno do foco narrativo. Gosto de ler sobre autoficção.

Em J.M. Coetzee, sobre o qual já escrevi aqui, a discussão vai ao extremo porque Coetzee escritor é narrador e personagem ao mesmo tempo (em Juventude e Verão, livros que li). E, mesmo assim, não se sabe se a narrativa é real ou inventada.

Com “Divórcio” acontece mais ou menos a mesma coisa. Ele mesmo, Ricardo Lísias, é o personagem e o narrador do romance. Conta todo o doloroso processo de separação de sua ex-mulher  – é assim que ele se refere à  personagem  cuja voz  aparece nos pequenos trechos de um diário.

No início,  fiquei um pouco incomodada com a exposição do diário encontrado. Faz tempo não escrevo diários. Quando criança, escrevia muitos. Desapareceram  e, até hoje, fico preocupada com seu destino. Esse é um assunto que me incomoda, o destino dos escritos secretos.

Mas o diário da ex-mulher foi encontrado (não estava  trancado e nem escondido). Tinha revelações que provocaram a saída do marido de casa e ele passou por momentos bem desconfortáveis. E me marcou muito o fato de dizer, sempre, que ficou sem pele. Essa é uma descrição extrema e tocante, faz com que a gente imagine a infelicidade total do narrador. Ardência.

Logo me desliguei desse incômodo e passei a prestar atenção na técnica narrativa, na maneira como o processo doloroso é associado aos treinos de corrida, especificamente para a prova de São Silvestre.

Haruki Murakami  já escreveu sobre corrida e escrita (Do que eu falo quando falo de corrida, Alfaguara) e Ricardo Lísias também faz isso, associando a corrida e o treino à recuperação pessoal.

Há alguns anos eu corria e cheguei a completar duas meias maratonas, do Rio de janeiro e da Praia Grande. A sensação de terminar uma prova de rua é indescritível. Correr ao lado de pessoas desconhecidas (irmãos corredores, eu dizia)  que querem, todas,  passar a linha de chegada, correndo, é muito gostoso.

Quando a gente termina os quilômetros, e são todos muito sofridos, tem a compreensão exata e concreta do dever cumprido.  Acredito que isso seja importante para todo mundo, mas para quem trabalha lendo e escrevendo e pensando, é  inusitado. Sempre estranhei isso em mim. Aí me machuquei e parei de correr, mas tive bons momentos.

Outro aspecto super interessante do livro é a maneira como o autor lida com o discurso do sistema da justiça, com a perspectiva de um processo judicial, com a documentação jurídica do conflito entre ele e a ex-mulher.

O discurso do direito é um discurso que fica sempre à margem do discurso literário ou do discurso da convivência. Ricardo Lísias resolve enfrentar esse outro mundo, paralelo,  no livro. Não há termos jurídicos, nada disso, mas há um debate interno sobre a eventualidade daquela separação ser discutida em outro plano, em um plano oficial. E isso não deixa o narrador com medo, pelo contrário. Ele não está nem aí. Ele se diverte com a outra escrita.

É muito interessante, também, a maneira como o narrador fala sobre seu processo literário. Conta como escreveu. Primeiro à mão, depois passou tudo para o computador. Diz que é comum os escritores misturarem realidade e ficção. O leitor acompanha a escritura de perto. O discurso literário está ali, vivo, no livro.

Ouvi  Ricardo Lísias falar no Jardim Alheio, na Livraria Martins Fontes. Até escrevi sobre esse dia, aqui. Ele parece ter domínio total sobre sua literatura.  Deve ter escrito o livro com extrema consciência literária. Ainda que essa consciência possa ter nascido no desespero (não sei), é resultado de reflexão e total domínio do escritor sobre a narrativa.

Nunca verei “Divórcio” como autobiografia.

É um grande romance.

Ainda sobre autoficção: visita ao Jardim Alheio

16 de agosto de 2013

20130812_203004

Gosto cada vez mais da programação do Jardim Alheio: Grupo de Crítica Literária (https://www.facebook.com/jardim.alheio e http://jardimalheiogcl.wordpress.com/).

Muitos vídeos dos debates que organizam estão no Youtube.

Segunda-feira, dia 12, fui à Livraria Martins Fontes participar de mais um encontro.

Carlos Felipe Moisés e Frederico Barbosa conversaram sobre as interferências das biografias e das autobiografias na ficção.

A mediação de Vivian H. Schlesinger é sempre suave e oportuna. O grupo Jardim Alheio prepara cuidadosamente cada debate. Suscita questões relevantes.

Jardim Alheio propôs as seguintes perguntas: “De que forma a leitura é modificada pela presença de dados autobiográficos do autor em um romance? É possível separar fato e ficção? É desejável vestir um com outro? Por que tantos autores utilizam esse recurso?”

Como tinha acabado de reler Recordações do Escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto, de ler Diário da Queda, de Michel Laub, assim como Verão, de J.M.Coetzee, estava com as indagações na cabeça.
Quando leio um livro, raramente me pergunto se o narrador é o próprio autor. Entro na história e pronto porque, ainda que houvesse identidade entre as personas, o narrador/autor/personagem seria, sempre, um outro.

Há pouco tempo, assisti mesa literária instigante no Centro Cultural Rio Verde (Sempre Cabe + 1). Lucimar Mutarelli, Thiago Che Romaro, Felipe Arruda, Tiago Barbalho e Mari Portela falaram sobre sua literatura (Lucimar é autora do ótimo Entre o trem e a plataforma, da Prumo) e, a certa altura, Lourenço Mutarelli, que estava na plateia, problematizou: o escritor, ao escrever, não seria, sempre, um outro?

Penso que o escritor é, sempre, um outro, quando escreve. Nem mesmo a autobiografia é capaz de circunscrever a personalidade em seus exatos termos.

E, na conversa no Jardim Alheio, falou-se de Flaubert (Madame Bovary sou eu), de Oscar Wilde (a vida imita a arte e não o contrário), da conotação de fingere, que, em latim, não significa exatamente fingir, mas imaginar, inventar, modelar, dar forma. Em latim, fingere não tem uma conotação negativa. Foi o que explicou Carlos Felipe Moisés.

Frederico Barbosa trouxe importante questão: afinal, o que pode e o que não pode ser dito, hoje, na escrita? A pergunta é importante e ele tem razão ao afirmar sua atualidade.

Minha preocupação com a autoficção está focada no estilo literário. Autoficção é um recurso literário. Acho interessante quando o personagem tem o nome do autor e não é o autor.

J.M. Coetzee é brilhante ao usar o recurso. O narrador pode, até, ser o autor. Ou fragmentos do autor, o que é ainda mais interessante. Mas, também, irrelevante na ficção.

Meu romance Viagem sentimental ao Japão (Apicuri) não é autobiográfico. Adoro quando perguntam se eu já fui ao Japão. Eu mesma me faço essa pergunta, às vezes.

Será que já fui ao Japão?

J.M.Coetzee

10 de agosto de 2013

Terminei Verão, de J.M. Coetzee (Companhia das Letras). De Coetzee li Juventude (indicado por Roberto Taddei).

Coetzee leva a autoficção ao extremo. Ele é o personagem dele mesmo. É entrevistado, entrevista. E Coetzee personagem é um homem totalmente comum. Um escritor cujos textos devem ser maravilhosos, mas os próprios textos só aparecem no livro na forma de diários (nem tão maravilhosos). A escrita do personagem deve ser brilhante porque há uma biografia em construção no romance e não se escreve biografia de uma personalidade desinteressante. E o que se descobre, nas versões dos entrevistados, é que Coetzee personagem pode não ser encantador (mas tem muitas mulheres). Não é o Coetzee autor. Ou é. Não importa. Ou importa?

Gosto demais de entrevistas e as que Coetzee simula são sensacionais. Em uma delas, o entrevistador fala: “Não dá para confiar no que Coetzee escreve, não como registro factual-não porque ele fosse mentiroso, mas porque ele era um ficcionista. Nas cartas, ele inventa uma ficção de si mesmo para seus correspondentes; nos diários ele faz a mesma coisa para os próprios olhos, ou talvez para a posteridade” (p. 234).

O mais divertido é que há até críticas a Desonra, considerado um de seus melhores romances. A certa altura, alguém diz, sobre Desonra: “Em nenhum ponto você tem a sensação de um escritor que deforma sua mídia a fim de dizer o que nunca foi dito, o que, para mim, é a marca da grande literatura. Muito impassível, muito organizado, eu diria” (p. 251).

Achei esse comentário sobre o próprio livro um grande lance no jogo literário desse autor que ganhou Prêmio Nobel em 2003.

Sobre Desonra, há crítica literária aqui, escrita por J.C. Guimarães. http://www.revistabula.com/113-desonra-de-j-m-coetzee/.

E, sobre Coetzee, há esse endereço na internet, Lendo Coetzee: http://lendocoetzee.com/o-autor/
Agora vou ler Desonra.

Viagem sentimental ao Japão

9 de agosto de 2013

Viagem sentimental ao Japão

Grupo de Leitura na Pauliceia Literaria: Diário da queda

28 de julho de 2013

Amanhã vou coordenar grupo de leitura na Pauliceia Literária, na Associação dos Advogados de São Paulo (www.pauliceialiteraria.com.br). O livro é Diário da queda, de Michel Laub (Companhia das Letras, 2011).
Antes de falar sobre o livro, é importante falar sobre o autor. Nada melhor que transcrever a apresentação que está em seu blog (michellaub.wordpress.com):
“Michel Laub nasceu em Porto Alegre, em 1973. Escritor e jornalista, foi editor-chefe da revista Bravo e coordenador de publicações e internet do Instituto Moreira Salles. Hoje é colunista da Folha de S.Paulo e da revista Vip, além de colaborar com diversas editoras e veículos. Publicou cinco romances, todos pela Companhia das Letras: Música Anterior (2001), Longe da água (2004, lançado também na Argentina), O segundo tempo (2006), O gato diz adeus (2009) e Diário da queda (2011), que teve os direitos vendidos para onze países e virará filme. Seu novo romance, A maçã envenenada, sairá em agosto de 2013. Recebeu os prêmios Bienal de Brasília (2012), Bravo Prime (2011) e Erico Verissimo (2001) e foi finalista dos prêmios Portugal Telecom (2005, 2007 e 2012), Zaffari&Bourbon (2005 e 2012), Jabuti (2007) e São Paulo de Literatura (2012). Também tem contos publicados em antologias no Brasil e no exterior. É um dos integrantes da edição Os melhores jovens escritores brasileiros, da revista inglesa Granta”.
 A leitura de Diário da queda suscita muitas reflexões e especifico, aqui, alguns pontos para debate:
1)- Crimes contra a humanidade (antissemitismo, banalidade do mal, Hannah Arendt, genocídio, Tribunal Internacional). Primo Levi: É isto um homem?;
2)- Discriminação;
3)- Adolescência. Construção da identidade;
4)- A festa de 13 anos de João, em que os convidados não o seguram depois de o lançarem ao ar na 13ª vez;
5)- Culpa individual pela queda de João, culpa coletiva. Confronto com a ideia de culpa que está também no livro Longe da água, de Michel Laub;
6)- Silêncio dos que sofreram presos nos campos de concentração e sobreviveram (memória);
7)- Identidade judaica. Identidade. Pertencimento.
8)- Pai com Alzheimer. Examinar junto com o filme argentino O filho da noiva, em que a mãe tem Alzheimer;
9)- A memória que se esvai com Alzheimer, o desejo de lembrar.
10)- Registros escritos do avô. Escrevia verbetes anódinos. O diário do pai, o diário do narrador. O diário para organizar, o diário da revolta, o diário da redenção, discurso ao filho;
11)- Estilo literário. Relação de causa e efeito entre os fatos da vida. Movimentos circulares no enredo e na construção dos parágrafos;
12)- Refletir sobre autobiografia, autoficção, ficção (J.M.Coetzee).
Textos também consultados:
-“O gosto de areia na boca- sobre Diário da queda”, de Michel Laub, por Stefania Chiarelli, em O futuro pelo retrovisor: Inquietudes da literatura brasileira contemporânea (organizado por Stefania Chiarelli, Giovanna Dealtry e Paloma Vidal, Rio de Janeiro, Rocco, 2013, p. 17-32).
-A arte de ler, ou como resistir à adversidade , Michèle Petit ( São Paulo, Editora 34, 2009).
-Autores e ideias, Mona Dorf (São Paulo, Saraiva, 2010, p. 191-196);
-Origens do totalitarismo, Hannah Arendt (São Paulo, Companhia das Letras, 1989).
-Entre nós: um escritor e seus colegas falam de trabalho, de Philip Roth ( Roth entrevista Primo Levi – São Paulo, Companhia das Letras, 2008, p. 9-26)
Biblioteca vertical, blog de Guilherme Sobota: http://bibliotecavertical.blogspot.com.br/2013/04/e-isto-um-homem-primo-levi.html
Em um grupo de leitura, tudo pode acontecer. Pode haver participantes que leram o livro diversas vezes, outros que leram uma só vez, os que leram mais ou menos, os que leram resenhas, os que não leram trecho algum, só ouviram falar, os que leram outros livros do autor, mas não o livro em questão.
A presença de todos é importante, assim como as contribuições, inclusive os silêncios. O diálogo sobre o livro, o diálogo com o próprio livro, o momento em que os interessados, reunidos, ouvem e falam e silenciam sobre os os temas da vida às quais o texto remete, são, sempre, memoráveis.
Gosto de participar de grupos de leitura.

Máquina Macunaíma, de Luiz Bras

11 de julho de 2013

maquinajpeg

“Geração 90: manuscritos de computador” (Boitempo, 2001), organizado por Nelson de Oliveira, é um clássico – ou uma referência. Traz contos de autores destacados em fase da literatura brasileira – e universal- que compreende o tempo da tecnologia e da informação (e da TV).

Nelson de Oliveira reuniu contos de Marçal Aquino, Amilcar Bettega Barbosa, Fernando Bonassi, João Carrascoza, Sérgio Fantini, Rubens Figueiredo, Marcelino Freire, Altair Martins, João Batista Melo, Marcelo Mirisola, Cíntia Moscovich, Jorge Pieiro, Mauro Pinheiro, Carlos Ribeiro, Luiz Ruffato, Pedro Salgueiro, Cadão Volpato.

Ele mesmo, organizador do livro e da ideia que o particulariza, não se incluiu entre os autores.
Se, naquela época, o organizador do livro era Nelson de Oliveira, agora ele é também Luiz Bras, autor de “Sozinho no deserto extremo” (Prumo, 2012) e de “Máquina Macunaíma” (Edição do Autor, 2013), entre outros muitos livros.

A apresentação que Luiz Bras escreveu em 2001 para “Geração 90: manuscritos de computador” tem título que não poderia ser mais profético: “Contistas do fim do mundo”.

Hoje, ele publica “Máquina Macunaíma”, livro de contos com tiragem de cinqüenta exemplares (com trema, mesmo, porque os textos estão revisados parcialmente segundo o novo acordo ortográfico e essa advertência é feita logo no início, com dois vivas: ao trema e ao acento agudo no pára).

Máquina Macunaíma traz os contos do fim do mundo de Luiz Bras.

A edição do autor é super bem acabada, a capa é verde e amarela e cheia de símbolos gráficos, matemáticos, científicos (capa de Teo Adorno e Teresa Yamashita).

Os contos falam, ficcionando, de máscaras sociais, superglobalização, cidades sencientes, fanatismo religioso, distúrbios urbanos, conflitos conjugais, cyberpunk, mergulhos subjetivos, engenharia genética, indústria cultural, ciborgues, inteligência artificial, psicopatas e sociopatas, implantes neurológicos, viagens no tempo, países imaginários, steampunk, guerra dos sexos, física quântica, aliens e tudo o mais que você possa imaginar.

Luiz Bras, com o novo livro, que ele mesmo editou, como quis, segundo suas próprias regras, caminhou para além da visão e da razão e afastou – pelo menos aqui e agora – as possibilidades da impressão em massa. A tecnologia foi usada para alcançar a edição precisa e exata.

Os contos são: Virtuais, Heidegger não voltará jamais, Onde vivem os monstros, Impostor?, Mecanismos precários, O índio no abismo do eu, Coisas que a gente não vê todo dia, Humana, demasiado humana, Distrito Federal, Os olhos do gato, Galáxias, Primeiro de Abril: Corpus Christi.

Algumas frases são geniais:

“Onde estará o desintegrador de almas? Com quem estará?” (Heidegger não voltará jamais).
Tem outro parágrafo que eu acho muito bom: “O idioma falado também não importa muito. Mesmo se ela for japonesa, indiana, queniana, alemã ou argentina e mesmo se ele for australiano, chinês, egípcio, francês ou mexicano, para o propósito desta narrativa os dois falarão português” (Mecanismos precários).

A frase diz algo que eu li assim (a leitura é sempre muito pessoal): as línguas importam muito pouco, cada vez mais entramos em um mesmo discurso. É claro que sempre haverá as diferenças todas, mas há um plano com mesmos códigos: a internet.

No mesmo conto, os personagens surpreendem-se personagens. Ela pergunta: “Você planeja nos matar?” A resposta: “Infelizmente sim. Porém farei de um jeito que todos pensam que foram vocês que se mataram. Como eu disse, movidos pelo ciúme e pelo rancor. É mais interessante assim” (Mecanismos precários).

O conto que eu mais gosto é o último: “Primeiro de Abril: Corpus Christi”.

Nele está: “Esmiucei as últimas horas de vida de meus mortos prediletos: encarnei a Mulher-Maravilha, o gato de Botas, o Chapeleiro Louco, o Homem de Lata, todos eles. recuperei suas inquietações, suas dúvidas. Seu desespero. Suas palavras derradeiras. Morreram em combate.”

E continua. Não vou contar o fim. É literatura.

E ainda há um parênteses que tudo subverte:

(Também dizem que o Homem de Lata nunca foi encontrado).