Escrita e humor

Na época da ditadura, dizia-se muito nas entrelinhas (isso não é fácil). Havia toda uma arte para não dizer, dizendo (ou dizer, não dizendo?). Com humor.

No Zero, Ignácio de Loyola Brandão (Rio de Janeiro, Codecri, 1980, primeira edição de 75), cria um personagem triste e sofrido e miserável. Trágico. Ele só se ferra, vamos dizer assim. Mas os textos são irônicos, seriam mesmo cômicos.

Um dos textos começa assim: “Documento pras otoridade”. E então está: “José terminou levado para a Delegacia. Faltava um documento: o da frequência escolar dos filhos. Mas eu não tenho filhos.Mas, o senhor é casado. Mas, não deu tempo de ter filhos. Sua mulher tem usado a pílula. Tem. É proibido (Determinação do Incremento ao Aumento da Família nacional, Nº 7896576) ? E agora. Dois meses de prisão para cada um” (p. 117).

É sarcástico.

Sarcasmo é, segundo o Houaiss, ironia cáustica, riso amargo. Gosto do riso amargo.

É um absurdo alguém ser preso por usar anticoncepcional. Ao mostrar o absurdo da proibição da pílula, Zero fala do absurdo de toda e qualquer invasão à intimidade.

Sem dizer, diz, provocando o riso amargo.

Esse recurso aparece em outras passagens do livro. Aqui, por exemplo: “O arauto subiu no palanque: De hoje em diante, cartórios só registrarão crianças cujos nomes estejam de acordo com a lista fornecida pelo governo. Fora dela não é alternativa. A medida visa acabar com o abuso de nomes pagãos, de invenções malucas, de prenomes que envergonham o indivíduo e a nação. Ordenação 6574893456Yhg” (p. 73). Olhem só a ironia: as leis de Portugal aplicadas no Brasil depois de 1500 chamavam-se Ordenações do Reino. Havia as Ordenações Filipinas, Afonsinas e Manuelinas.

A exigência de que cartórios só registrem nomes autorizados pelo governo é ridícula. Chega ao extremo do ridículo e provoca riso. O leitor alcança. Está nas entrelinhas.
Fiquei pensando nas relações entre essa forma de fazer humor e o teatro do absurdo que surgiu da peça Ubu Rei em 1896, de Alfred Jarry. O teatro do absurdo aperfeiçoou-se com Ionesco (http://www.desvendandoteatro.com/teatrodoabsurdo.htm). Vale a pena ler A cantora careca.

O teatro do absurdo surge depois da segunda guerra mundial e, segundo a Enciclopédia Itaú Cultural, “une a comicidade ao trágico sentimento de desolação e de perda de referências do homem moderno. Tal sentimento deriva não apenas do horror da Segunda Guerra como também da Guerra Fria e do estágio atingido em meados do século XX pela filosofia, especialmente a existencialista, que afirma definitivamente a solidão e a responsabilidade do homem por seu destino em um mundo sem Deus” (http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_teatro/index.cfm?fuseaction=conceitos_biografia&cd_verbete=13538).

Estou aqui associando Zero ao teatro do absurdo livremente e sem pretensão de rigor acadêmico. Simplesmente passei a pensar nisso a partir do momento em que quis investigar a razão de alguns textos serem engraçados e outros não. O que é o humor? Como ser engraçado?

Humor está sempre junto de sofrimento e verdade e isso foi dito muitas vezes em um curso que fiz com John Vorhaus no B_arco Centro Cultural (Escrevendo Comédia). Newton Cannito, em outro curso que fiz também no B_arco (Autobiografia, fabulação e humor), também falou sobre a relação entre humor e dor.

Para fazer rir, você precisa compreender o próprio sofrimento, que é um sofrimento com o qual muitas pessoas podem se identificar. E por isso rimos. E quando o riso aparece, vem junto uma libertação. Ainda não entendo muito bem como isso funciona. Quero entender mais.

Pesquisando Ubu Rei, reencontro o Teatro do Ornitorrinco e Cacá Rosset. E aí lembro de “Eu não tô legal. Sei lá. Mil coisas”.

Está no Youtube:

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