Gosto cada vez mais da programação do Jardim Alheio: Grupo de Crítica Literária (https://www.facebook.com/jardim.alheio e http://jardimalheiogcl.wordpress.com/).
Muitos vídeos dos debates que organizam estão no Youtube.
Segunda-feira, dia 12, fui à Livraria Martins Fontes participar de mais um encontro.
Carlos Felipe Moisés e Frederico Barbosa conversaram sobre as interferências das biografias e das autobiografias na ficção.
A mediação de Vivian H. Schlesinger é sempre suave e oportuna. O grupo Jardim Alheio prepara cuidadosamente cada debate. Suscita questões relevantes.
Jardim Alheio propôs as seguintes perguntas: “De que forma a leitura é modificada pela presença de dados autobiográficos do autor em um romance? É possível separar fato e ficção? É desejável vestir um com outro? Por que tantos autores utilizam esse recurso?”
Como tinha acabado de reler Recordações do Escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto, de ler Diário da Queda, de Michel Laub, assim como Verão, de J.M.Coetzee, estava com as indagações na cabeça.
Quando leio um livro, raramente me pergunto se o narrador é o próprio autor. Entro na história e pronto porque, ainda que houvesse identidade entre as personas, o narrador/autor/personagem seria, sempre, um outro.
Há pouco tempo, assisti mesa literária instigante no Centro Cultural Rio Verde (Sempre Cabe + 1). Lucimar Mutarelli, Thiago Che Romaro, Felipe Arruda, Tiago Barbalho e Mari Portela falaram sobre sua literatura (Lucimar é autora do ótimo Entre o trem e a plataforma, da Prumo) e, a certa altura, Lourenço Mutarelli, que estava na plateia, problematizou: o escritor, ao escrever, não seria, sempre, um outro?
Penso que o escritor é, sempre, um outro, quando escreve. Nem mesmo a autobiografia é capaz de circunscrever a personalidade em seus exatos termos.
E, na conversa no Jardim Alheio, falou-se de Flaubert (Madame Bovary sou eu), de Oscar Wilde (a vida imita a arte e não o contrário), da conotação de fingere, que, em latim, não significa exatamente fingir, mas imaginar, inventar, modelar, dar forma. Em latim, fingere não tem uma conotação negativa. Foi o que explicou Carlos Felipe Moisés.
Frederico Barbosa trouxe importante questão: afinal, o que pode e o que não pode ser dito, hoje, na escrita? A pergunta é importante e ele tem razão ao afirmar sua atualidade.
Minha preocupação com a autoficção está focada no estilo literário. Autoficção é um recurso literário. Acho interessante quando o personagem tem o nome do autor e não é o autor.
J.M. Coetzee é brilhante ao usar o recurso. O narrador pode, até, ser o autor. Ou fragmentos do autor, o que é ainda mais interessante. Mas, também, irrelevante na ficção.
Meu romance Viagem sentimental ao Japão (Apicuri) não é autobiográfico. Adoro quando perguntam se eu já fui ao Japão. Eu mesma me faço essa pergunta, às vezes.
Será que já fui ao Japão?
Tags: autoficção; Jardim Alheio; Viagem sentimental ao Japão, Livraria Martins Fontes, Vivian H. Schlesinger; Lucimar Mutarelli; Lourenço Mutarelli
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