Amazônia, Alemanha, Ingo Schulze

8 de dezembro de 2009

Vi Ingo Schulze no Instituto Goethe semana passada em São Paulo. Lançou Vidas novas, Cosacnaify. O livro é consistente, tem  capa dura, ficou  lindo. O autor falou, o tradutor Marcelo Backes falou, as pessoas fizeram perguntas.

Adoro as histórias passadas na Alemanha oriental, na DDR.  Filmes como Adeus Lenin, A vida dos outros, Um amor além do muro, são muito legais. Vi outros sobre pessoas separadas pelo muro na Alemanha,  lembro-me de cenas e imagens, mas não dos nomes.  Minha memória falha tanto. As imagens ficam, e não são suficientes. Gostaria de lembrar nomes de diretores, atores, filmes, anos de filmagens, essas coisas. Mas não dá, não lembro.

Ingo Schulze ainda está claro na minha memória, foi semana passada. E eu fotografei, comprei livros que ele autografou, prestei atenção em tudo o que foi dito.

O romance Vidas novas é epistolar, um Briefromanz. Ingo disse que construiu o livro tendo como parâmetro a estrutura da memória. Cartas são reunidas e organizadas por Ingo Schulze, que não é, necessariamente, o Ingo Schulze que nos falava e que leu, em voz alta, trechos do romance. E o tradutor Marcelo Backes interferiu no livro porque acrescentou a ele notas explicativas de pessoa que foi ao lugar onde a história se passou, tornou-se testemunha e até mesmo personagem, um personagem de rodapé. É um tradutor interferente. Claro que o autor concordou com as interferências. Foi generoso ao aceitar a inserção das notas pelo tradutor brasileiro. Senti no ar, enquanto  ouvia os dois falarem, que havia uma curiosidade recíproca, uma atenção respeitosa. É difícil escrever. É difícil traduzir.

Não entendo muito de tradução, mas ouvi ali que as intervenções de Marcelo Backes foram consideradas inovadoras no meio literário.

Fiz ainda associações naquela noite. Lembrei-me do Jogo da amarelinha, de Julio Cortázar, um romance que o leitor ajuda a estruturar, ordenando capítulos de diversas maneiras. Lembrei-me também do romance A volta para casa, de Bernard Schlink, que escreveu O Leitor, também. E A volta para casa também fala de um homem que deixou um passado na Alemanha, escreveu histórias e estórias, e desapareceu, assim como o escritor das cartas de Ingo Schulze, Türmer, Enrico Türmer. E         recordei-me, ainda, de um conto de Paul Auster, Cidade de vidro, publicado em A trilogia de Nova York. No conto, Paul Auster é um personagem escritor, ele mesmo, talvez –  ou não -, assim como Ingo Schulze é o organizador das cartas de Enrico Türmer.

Os grandes escritores têm um repertório parecido, pois percebem os grandes conflitos.  O duplo é um tema que aparece sempre nas narrativas porque vivemos às voltas com a projeção do nosso eu em diversas situações, reais e imaginárias. O desaparecimento das pessoas é também um assunto e tanto (tem a ver com o duplo, também). Quem não tem vontade de evaporar e aparecer em outro contexto? Não  falo em morrer, mas em sumir, mudar, trocar de identidade. Essa é uma fantasia.

Estou por aqui tendo essas ideias e nem comecei a ler Vidas novas. A língua alemã se permite traduzir, mas não se deixa invadir. A tradução de Marcelo Backes pode ter acrescido um outro olhar à história, mas só. Parece que há um convite para que o leitor também participe do enredo. Mas gosto de ser uma leitora conformada e compreender o que é contado sem muitas pretensões. Entro no texto em forma e conteúdo e é isso o que vou fazer daqui a pouco. Espero me surpreender.

Ah, li no jornal que Ingo Schulze vai escreve sobre a Amazônia. Os europeus ficam muito encantados com a nossa selva, sempre ficaram. Senti um pouco de ciúmes ao ler sobre essa vontade, essa inspiração. Gostaria que a Amazônia ficasse intocada.

Brasília e Bob Dylan

1 de dezembro de 2009

Brasília e Bob Dylan têm alguma coisa em comum, pra mim. É que no avião ouço Bob Dylan e quando estou na capital geralmente estou sozinha e no hotel  sou eu mesma e nessas ocasiões geralmente  penso em algumas músicas vitais: Visions of Johanna, A simple twist of  fate , Like a rolling stone, Desolation row, Ballad of a thin man, Highway 61 revisited. Essas são as músicas que eu mais gosto. Gosto de Jokerman, também, mas Jokerman está em um cd que não ouço tanto. Ouço muito  Highway 61 revisited (1965), Blonde on blonde (1966) e  Blood on the tracks (1974).

Brasília é uma cidade da década de 60, foi inaugurada em 1960. Quando Bob Dylan gravou  Highway 61 revisited, a cidade tinha cinco anos. JK foi um presidente visionário, concretizou um sonho que parecia impossível. Em uma das vezes em que estive lá, comprei sua biografia. Está separada, vou ler antes da biografia de Walt Disney. Quando um lugar me impressiona, gosto de ler sobre quem o criou. Por isso tenho a bio de Disney, também.

E tenho livros sobre Bob Dylan, embora  ele não tenha criado uma cidade. Mas criou inúmeros espaços mentais e sonoros; ele construiu, com sons e palavras,  caminhos que levam as pessoas a assumirem identidades e diferenças. Para Bob Dylan, suponho, não existe a igualdade ideológica entre as pessoas. Penso que ao descobrir isso ele se desligou da tentação dos discursos políticos e ativistas. Não sei. Não gosto de teorizar, de estabelecer pensamentos dogmáticos. Ele também não. Em dezembro de 65, deu uma entrevista coletiva famosa em que  negou, ou ignorou, que suas canções pudessem ter mensagens. Para ele, não são folk songs,  considerando-se que ele mesmo definiu folk music “as a constitutional re-play of mass production” (Television Press Conference, KQED, em Bob Dylan:The essential interviews).

Mas o que Brasília tem com  tudo isso? Tem no meu espaço mental. A cidade é aquele branco que fica separado de tudo, em que as pessoas não se comunicam, ou comunicam-se politicamente, em que vejo edifícios de Niemeyer sem que eles me enviem qualquer mensagem subliminar.

Acho os edifícios desenhados por Niemeyer puros, eles não querem impor conteúdos, permitem que sejam preenchidos por diferentes culturas, ideologias, grupos, ideias: são básicos, essenciais. Talvez não sejam funcionais, os edifícios. Mas são essenciais em suas linhas sintéticas e claras. Posso ouvir a música que quero ao olhar os espaços públicos de Brasília. E ouço Bob Dylan. E penso em JK, depois em JFK. E de novo em JK.

Balada Literária em São Paulo

21 de novembro de 2009

Fui duas vezes à Livraria na Vila, na Balada Literária. Marcelino Freire está muito bem recebendo as pessoas. É discreto, faz os comunicados necessários, as perguntas pertinentes quando vem um vazio e, melhor que tudo, deixa os convidados falarem.

Estive em duas mesas. Uma delas foi presidida por Ivana Arruda Leite e a outra por Xico Sá. Na primeira eram convidados Marcelo Coelho, Heloísa Buarque de Hollanda e Noemi Jaffe. Na segunda, Reinaldo Moraes, Matthews Shirts e Mário Prata.

Ivana lembrou-se de ter dado seu primeiro livro para Marcelo Coelho ler e criticar e ficou esperando a crítica e veio uma sobre Marcelo Mirisola.    Foi engraçado ela ter contado isso na lata. Naomi disse que é rígida demais com ela mesma ao escrever ficção e Heloísa disse que gostaria de ter estudado arquitetura e que pensa sempre no plano do espaço.            Marcelo Coelho falou dos grupos (não foi bem essa a palavra, mas o sentido era esse), do pessoal que escreve, das pessoas convidadas a viajar e palestrar aqui e ali e que desse movimento também se vive, independentemente dos livros vendidos. A grande pergunta da tarde foi: teremos ainda um grande escritor que transgrida formas e conteúdos?       Há espaço para alguém como Guimarães Rosa?

A conversa entre Xico Sá, Mário Prata, Matthew Shirts e Reinaldo Moraes foi divertida demais. Como eles sempre foram muito amigos, havia uma intimidade, uma familiaridade, que passou para quem estava assistindo.      A plateia tinha fãs, pessoas que levaram livros antigos para autógrafos, que sabiam tudo o que eles tinham escrito, que acompanharam a escritura de  Os anjos de Badaró  na internet.

Mário Prata sabe ser engraçado,  contar histórias com as pausas e os silêncios que premeditam a risada. Fazia tempo que eu não ria assistindo alguma coisa. E foi legal eles (Reinaldo Moraes e Mário Prata) contarem como escreviam tramas de novelas, mostrando como a escritura pode ser livre e como as tramas da imaginação tornam-se quase reais, porque uma novela,  agora digo eu, é quase real. Não assisto novela faz muito tempo, mas vejo que quem assiste vive aqueles dramas todos como se fossem seus. E às vezes são, mesmo. E Mário Prata e  Matthew Shirts falaram das crônicas que escreveram, do tempo em que acompanharam a copa do mundo nos Estados unidos. E eles falaram sobre a formação do escritor, sobre como, nos Estados Unidos, os cursos de escrita são valorizados, sobre os conhecimentos gerais importantes para quem escreve, discutindo tudo isso em clima de prós e contras: o escritor deve ser formado e bem informado, mas o livro não pode ser chato.

E gostei quando a mocinha, na platéia, estudante de jornalismo que prepara trabalho sobre a crônica, perguntou se a crônica vale tanto para o livro como para o jornal.

A resposta foi mais ou menos assim: a crônica é para o jornal, é um escrito que capta um momento, um sopro que ninguém viu. Mas pode ser publicada, e o livro pode até vender, desde que as crônicas sejam disfarçadas.

Disney

26 de outubro de 2009

Foi uma semana intensa, a Disney não é pra qualquer um. A gente se sente na cidade universitária, os parques são como as faculdades (a analogia é meio estranha, mais espacial que ideológica). É que as avenidas são largas e há verdes campos. Andamos de ônibus porque ficamos em um hotel dentro da Disney. Aí era muito fácil, os ônibus vinham e iam, a música que ouvíamos no caminho tinha a temática do hotel, Port Orleans Riverside. Se tivéssemos ficado no French Quarter as músicas provavelmente seriam francesas.

Tudo é falso na Disney, menos a Disney. A realidade é palpável: eles conseguiram criar um ambiente onde tudo- menos o calor e os quilômetros que andamos a pé- é agradável, simpático, amável e arriscado: no limite. Quando queria uma informação da telefonista do hotel, à noite, ela se despedia dizendo “have magical dreams”. E de manhã ela dizia “have a magical day”. Não me lembro de ter ouvido vozes masculinas atendendo telefone. Mas vi mulheres dirigindo ônibus; uma mulher, na verdade.

Nesses dias voei por montanhas de neve, mares, com o vento batendo no rosto e nos meus pés pendurados. Andei de avião, fui a Marte, a Atlanta, ao México, à África, à Ásia (não entrei no elevador assombrado e não enfrentei a montanha russa de ponta cabeça). Vi foguetes e almocei com um astronauta de verdade no Kennedy Space Center.

Vi a querida orca Shamu, os golfinhos, o Cirque de Soleil. Remy cozinhou pra mim, entrei no Japão e adquiri lindos adesivos japoneses e cartões postais de Hiroshige. Jantei com as princesas todas no castelo norueguês. Vi elefantes, girafas, tubarões malignos.

Os americanos estavam todos lá, gentis, amáveis, às vezes não, dependendo. Comi waffle com maple syrup quase todos os dias, quebrando a dieta de todos os dias. Sabia que o maple syrup é um xarope extraído de seiva de árvore? Pensei que fosse totalmente artificial, mas não é. Tomei iogurte, contrariando minha nutricionista preferida e nossa recusa à lactose.

Cheese cake e cookies, muitos cookies, entraram na minha alimentação. Nada concedi aos ovos e as lingüiças, no entanto. Havia cenourinhas e pepinos em caixinhas plásticas, mas quem ousaria? O máximo que admiti foram as pequenas uvas sem caroço, lavadas, que levava para o quarto. E morangos. Comi muito camarão, também.

Senti falta do Mickey e da Minie, não apareceram no meu caminho. Mas vi Alice no país das maravilhas e Mulan. O castelo da Cinderella estava impávido, mas não pudemos entrar, não entendi bem. E falei inglês, muito inglês. Poderia ter falado espanhol, mas deixei as palavras em casa. De manhã eu ficava confusa, trocava as frases. Depois ia melhorando.

Fiz pouquíssimas compras, fiquei nas lembranças de viagem e arrisquei uma máquina fotográfica. Não visitei outlets. Ouvi que as roupas americanas são resistentes (máquinas de lavar e passar) e baratas, mas gosto de comprar perto da minha casa e parceladamente. Em viagens não sou consumista.

Tenho dado muita risada desde que cheguei, mas já estou ficando preocupada outra vez. Ah, também adquiri um massageador de costas no aeroporto. Não passou no raio x, precisou ser verificado. Tudo bem, era um inocente objeto de consumo de uma brasileira mais tensa.

Sei que sobrevivi e ainda estou digerindo a diversidade experimentada, tão confusa e tão igual, na verdade. Fiquei com vontade de conhecer mais os Estados Unidos.

Ubatuba

21 de setembro de 2009

Ubatuba é uma cidade que fica no litoral norte de São Paulo. A cidade tem um centro movimentado, lojas, bancos, um comércio mais ou menos animado. Há um centrinho com sorveterias, um aquário muito frequentado, um ponto do Projeto Tamar, pizzarias, pousadas, restaurantes. E, no mais, mata atlântica e praias.

Há praias de muitos tipos: areias fofas, areias duras, tombo, ondas, mar bravo, mar manso. Há algumas cachoeiras. Faz alguns anos que vou para Ubatuba e não conheço muitos lugares de lá. Ubatuba é quase que infinita. Tem comunidades remanescentes de quilombo, tem comunidade indígena. É simples e sofisticada, é clara e misteriosa, é escura, às vezes, por causa de nuvens e chuva. Mas quando há sol, há o sol.

Às vezes a cidade me deixa melancólica. Ela faz com que eu entre dentro de mim e encare uma tristezinha de frente. É assim, não tem jeito. Eu poderia até desistir de ir pra lá. Mas ainda nem comecei a conhecer Ubatuba. Faltam tantas trilhas, tantos mares, tantas vistas, tantos morros…Como vou parar de ir se ainda nem comecei? E se eu ficar um pouco chateada, o que é que tem? Quando está sol e entro no mar com água no joelho e vejo meus pés e os minúsculos peixes em volta, penso que nenhum lugar, no mundo, se compara a uma praia em Ubatuba.

Os moradores de Ubatuba andam muito de bicicleta. Outro dia fiquei sabendo que as bicicletas, lá, são especiais: o breque fica na roda. Antigamente as bicicletas monark tinham o breque na roda. Há um restaurante lá que eu adoro, o Papagalli. É caro, mas muito gostoso, com mesas voltadas para o calçadão, de frente para a praia.

Ubatuba não tem muito charme, é uma cidade de praias autêntica, um pouco seca, bruta, até. Pessoas diferentes umas das outras vão pra lá e as pessoas que moram lá são todas muito determinadas a viverem lá, ainda que a opção signifique aceitar o fato de que a vida, em si, é um pouco monótona, mesmo, mas sentir o tempo passar devagar pode ser bom. Talvez um dia eu more em Ubatuba.

Eu sempre acho que o nosso olhar traz os lugares pra dentro da gente, como um prolongamento, uma extensão variável. Estar em Ubatuba é ser um pouco aquele vazio.

Ficção e folhetins e imprensa e internet

15 de setembro de 2009

Estou lendo muitos livros ao mesmo tempo, mas o principal é Justine (Quarteto de Alexandria, Lawrence Durrell). Há outros circundantes, como os policiais de Lawrence Block e os livros de ideias, histórias, relatos, ensaios, reflexões. Gosto sempre de escrever sobre eles porque não me emocionam, mas me instigam, me fazem trocar ideias de lugar. Já disse isso. Poderia escrever sobre Justine e sua personalidade volátil, sobre Justine e sua insegurança adolescente, sobre Justine e o feitiço, sobre Alexandria e magia, sobre o escritor que realiza a história que escreve.

Escritores  gostam de ser, eles mesmos, os personagens da narrativa no contexto da própria escrita. O narrador é o personagem. Será isso? A história dentro da história? Proust e o desejo de escrever de seu narrador encontram-se com meu desejo de escrever que some enquanto se realiza, como o chocolate derretendo na boca. A angústia de tentar escrever algo completo é imensa.

Mudando para alguma coisa mais concreta, digo que gosto muito de ler estudos sobre jornalismo e relatos de jornalistas. Os relatos de correspondentes estrangeiros me encantam, como se diria em espanhol. Leio desde John Reed na Rússia até Michael Herr no Vietnã, até Lourival Sant’Anna no Afeganistão, e mais. E também passo pelo jornalismo em folhetins. Encontrei um livro interessante guardado na estante: “Imprensa e ficção no século XIX: Edgar Allan Poe e a narrativa de Arthur Gordon Pym” (Unesp, 1996). É sobre o romance publicado em folhetim. É um texto acadêmico, então um pouco hermético. Porém, o autor preocupa-se em sintetizar as ideias expostas, facilitando a leitura de quem quer conhecer sem necessariamente estudar. E enumera técnicas de construção da narrativa ficcional nos folhetins. E ressalto as mais interessantes: 1)- Títulos atraentes; 2)- Inícios de histórias sensacionalistas; 3)- Muitos diálogos; 4)- Intriga (tensão e distensão); 5)- Acaso; 6)- Herói e heroína  simplificados; 6)- Vilões satânicos; 7)- Finais inconsistentes (p. 44, 45).

A narrativa de Arthur Gordon Pym, de Poe, foi publicada em 1837. As duas primeiras partes foram publicadas na revista Southern Literary Messenger (janeiro e fevereiro de 1837). Depois Poe terminou a história e a publicou em livro. José Alcides Ribeiro analisa o texto de Poe em detalhes, dissecando personagens e suas ações.  E depois expõe  reflexões conclusivas (Capítulo 5, Parte 2). Arthur G. Pym é o autor fictício do romance. Mas há três autores. O outro narrador é anônimo e o terceiro é o próprio Edgar Allan Poe. Criam-se, assim, diversas possibilidades de leitura. Poe escreve para a imprensa periódica e a específica maneira de publicar influencia a criação literária.

Atualizando a discussão, reflito eu que a publicação na internet, a fluidez na leitura de textos em diferentes meios (livros, jornais, revistas, blogs, sítios específicos), a comunicação rápida e volátil de ideias, contribuem para uma produção escrita curta, cifrada,  que muitas vezes só pode ser bem compreendida e digerida por quem também participa e compartilha dos mesmos processos de comunicação. Mas sempre haverá clássicos, aqueles que ultrapassam os limites e as regras estabelecidas pela comunidade.

Modernismo: o fascínio da heresia, de Peter Gay

29 de agosto de 2009

Gosto de ler ficção, mas gosto também de ler ensaios, estudos, descrições, textos que não me emocionam explicitamente. A ficção me toma muita energia e, quando estou cansada, simplesmente não consigo começar um livro e me envolver na história. Aí leio partes de discursos sobre variados assuntos, mas geralmente sobre a própria literatura, ou sobre arte, ou sobre como escrever, ou…sei lá. Pode ser qualquer coisa, mesmo textos sobre informática e gramática.

Livros de não ficção  lembram-me o tempo em que eu estudava, em que estava ligada à Universidade (não faz tanto tempo), em que lia, anotava e transformava idéias em novas idéias em combinações que eu acreditava inovadoras. Hoje em dia não me preocupo com isso porque sei que para ir além do que eu fui é preciso ser muito dedicado e  concentrado na técnica humanista e eu não sou assim. Fui até onde era possível, até onde minha honestidade intelectual permitia. Um passo a mais e eu estaria no campo da hipocrisia. Decidi enfrentar a vontade de escrever ficção. E é o que faço, embora nunca tenha publicado. Acho que vou publicar um dia, talvez, se eu quiser muito. Por enquanto me exercito. E leio.

E é mais fácil escrever sobre os livros de não ficção porque os romances despertam sentimentos difíceis de serem explicados. Então, quando quero escrever sobre o que leio, volto-me para as reflexões mais objetivas.

A Companhia das Letras publicou Modernismo: o fascínio da heresia, neste ano de 2009. No prefácio, Peter Gay diz: “Este é um estudo sobre o modernismo, seu nascimento, crescimento e declínio”.  Não vou tentar explicar aqui o que é o fenômeno cultural do modernismo, o livro tem mais de quinhentas páginas.  Se bem que o livro não trata propriamente do modernismo, mas dos modernistas, dos diversos artistas que quebraram padrões, na música, na literatura, na arquitetura, na pintura. Esses artistas não tinham ideologia em comum, afinidades políticas.

Vou ressaltar aqui alguns pontos que eu considerei  curiosos, neste livro que não li inteiro, adianto, um pouco sem jeito, mas com sinceridade. Não tenho pretensão de criticar o livro, ou de escrever uma resenha séria. Quero só expor alguns apontamentos para organizar as ideias.

Charles Baudelaire (1821-1867) foi um dos primeiríssimos modernistas. Objeto e sujeito estão unidos, para ele. As flores do mal fizeram-no responder a um processo: os poemas eram lascivos. E eram formalmente estruturados, também. A forma era importante. Flaubert também foi processado pela ousadia erótica de Madame Bovary, na mesma época.

O modernismo ultrapassa os anos. Peter Gay chega ao arquiteto Frank Gehry e o Museu Guggenheim em Bilbao (1997), esculturado para reluzir, impressionar.  E no meio do caminho estão Garcia Marques, Le Corbusier, Frank Lloyd Wright, Kandinski, Stravínski, T.S.Eliot, Kafka, Virginia Woolf, Proust, Joyce. Encontra-se, nas fotografias, serigrafia de Andy Warhol que mostra Marilyn Monroe mais Marilyn Monroe do que nunca: bela e fake.

O que todos esses artistas, e outros tantos, têm em comum? Não sei dizer bem, mas acho que exploram  autenticidade que se expõe com muita liberdade. Preocupam-se com o modo de mostrar, sendo ele, também, e principalmente, o moderno. Há no livro uma fotografia de “O balanço”, de Renoir. O sol passa entre as folhas das árvores e ilumina a moça, a criança, os rapazes. Estamos em um parque encantado e quase que sentimos a conversa dos personagens. É tudo tão luminoso. E é tudo tão aparentemente falso, também. O modernismo permite que o falso seja, ele mesmo, personagem da arte e do mundo. Falso não é o termo exato. Representação vai melhor.

The Great Gatsby- F.Scott Fitzgerald

17 de agosto de 2009

I know it is risky to write about The Great Gatsby. But I liked the novel very much and want to write about in English, the language it has been written.

I think that F. Scott Fitzgerald was  motivated when he wrote the novel. He found the rigtht characters and discouvered intelligent ways to link their lives. The narrator is smart and tells the story of Gatsby without leaving his own point of view apart. We get acquainted with his feelings about the relationship between Gatsby and Daisy and we know that, although he wants them to be together, he knows that their love is true, but almost impossible. The relationship between Daisy and her husband is real and able to survive. He saves her from being accused of a very bad act and she accepts his lie. It is better to stay with someone who  keeps you safe than with someone you love. What is love, anyway?

The narrator is a romantic man. And the great Gatsby is the man who believed in the green ligth, in the future that escapes. No problem: “to-morrow we will run faster, stretch out our arms farther…”

A montanha de moluscos de Leonardo da Vinci, de Stephen Jay Gould

10 de agosto de 2009

Este livro, publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2003,  é constituído por ensaios sobre história natural. O livro fica na estante atrás do computador e eu olho pra ele sempre que quero encontrar alguma coisa diferente nessa prateleira que guarda assuntos diversos que estimulam o meu pensamento.

Gosto dos naturalistas, pesquisadores pacientes e minuciosos. Gostaria de ter método para as análises e observações científicas, mas sou generalista e tenho compulsão pela síntese. Aprendi a fazer resumos na escola e sempre tenho a tentação de falar muito em pouca escrita. Às vezes dá certo e às vezes não.

Na introdução, o autor explica: “Na maioria dos casos, não descrevo observações inéditas, mas, antes, tento colocar informações pouco familiares (ou mesmo bem conhecidas) num contexto novo, justapondo-as a outros assuntos com os quais antes elas não eram relacionadas – sempre com o objetivo de iluminar uma questão geral sobre a prática da ciência, a estrutura da natureza ou a construção do conhecimento” (p. 19).

O exercício de  deslocar as informações de seu contexto habitual e misturá-las em raciocínios destinados a descobertas diversas é difícil, mas valioso. Pensamos em compartimentos e os limites são obstáculos a ideias novas.

O ensaio sobre a arte nas cavernas (Contra a parede, p. 197) analisa cronologia das pinturas encontradas, apontando dificuldades nas datações. E ele fala do deslumbramento ao ver pinturas feitas por homens que viveram há 30.000 anos atrás, pessoas como nós, ele diz. E continua: “Em outras palavras, não é o caso de pensarmos no Paleolítico como um período de antigo primitivismo, mas como um momento de vigorosa juventude para a nossa espécie (ao passo que hoje em dia representamos provavelmente a sua respeitável velhice)” (p. 217).

Essa admiração pelo começo senti quando vi pinturas rupestres na Serra das Paridas, na Chapada Diamantina (já relatei esse encontro neste espaço). Os desenhos de mulheres parindo me emocionaram (insiro fotografia ao terminar o post). E as figuras ainda não foram datadas, não sei em que fase estão os estudos.

Há muitos outros textos no livro, que misturam arte, biologia, literatura. Jay Gould fala de Darwin, Da Vinci, evolução, história e, em síntese, fala sobre a humanidade.

Sobre Goleiros

6 de agosto de 2009

Peguei  na estante o livro “Goleiros: herois e anti-herois da camisa 1″, do jornalista Paulo Guilherme, publicado pela Alameda em 2006. O livro fala sobre a função do goleiro no time, sobre as dificuldades do goleiro no jogo e conta muita coisa sobre os muitos goleiros na história do futebol. Che Guevara gostava de jogar na posição de goleiro,  era um goleiro barulhento e provocador (p. 20).

Quando o futebol foi criado, em 1863, não previa a posição do goleiro, que só apareceu em 1871. E o livro relata, com bom humor   e estilo – lembrando inclusive o fato de que uma revista francesa achou as pernas de Leão as mais belas do futebol mundial- a história do jogo no Brasil, falando de todos os nossos goleiros, das partidas e dos frangos, já que ” todo goleiro consagrado tem seu frango guardado no fundo da gaveta da memória” (p. 195).

O livro traz fotografias bonitas e coloridas, relação de todos os goleiros da seleção e curiosidades como médias de gols sofridos, vitórias. Taffarel foi o goleiro que mais vezes jogou pela seleção, foi o que mais tempo ficou sem levar gols. Leão foi o que ficou mais tempo sem levar gols em copas do mundo, e assim vai.

Eu gosto desse livro, embora não goste de assistir futebol na tv. Mas gosto de assistir aqueles programas na hora do almoço e de madrugada, em que comentaristas analisam passes, jogadas, política do futebol. É um assunto e tanto, move todo mundo.

Lugares onde nunca estive

29 de julho de 2009

Embora já conheça a Escandinávia, boa parte da Europa, bastante do Brasil, nunca fui a alguns lugares meio óbvios e muito visitados. A Disney, em Orlando, Flórida, é um desses lugares. Tem gente que eu conheço que já foi até lá duas ou três vezes. Adultos amam a Disney. Ouço falar em parques temáticos, resorts de luxo, hotéis dentro e fora da Disney, aluguel de carros, gps nos veículos, castelo da Cinderela, jantar com o ursinho Pooh, Epcot, Sea World, Universal, montanhas russas de variadas formas e modelos,  como se tudo isso fosse uma coisa só e estivesse logo aqui na esquina.  E me pergunto como nunca fui lá. É que sempre achei caro, complicado e talvez  não merecido ir a um lugar onde a fantasia pudesse me desligar de minhas angústias tão comuns. Se eu for a lugares tão maravilhosos e sentir emoções tão fortes, o que mais poderei fazer? Aonde mais poderei ir? É bom deixar a Disney por último, para uma outra oportunidade, como uma estrela guia. Será isso? Pode ser que eu não tenha a menor vontade de conhecer a Disney e Orlando, pode ser que tudo aquilo me canse, que eu não goste de andar sob o sol escaldante e muito menos de ficar em filas, como ouvi dizer que ficam.  A verdade é: nunca fui à Disney. Também nunca fiz uma coisa que muita gente já fez: nunca esquiei. E nunca vi neve caindo. Já vi neve no chão, na Noruega e em Bariloche. Conheci Bariloche no verão e a paisagem é muito linda. Mas aquela coisa branca e fofa caindo eu não vi. Fui a um resort de neve quando não havia neve, na Noruega, e era como um clube no fim da festa, esquisito. Tenho essas duas frustrações, a de nunca ter visto neve e a de não ter visto a Disney. Talvez, mas só talvez, eu vá a Orlando ainda este ano. Agora a neve vou deixar guardada na imaginação,  porque pode ser que eu veja, e sinta muito frio.

Livros que nunca li

28 de julho de 2009

Os livros que não li são quase tão importantes quanto os livros que li. Há livros que quero ler logo, outros que sei que não lerei, mas que admiro de longe.  Um livro que quero ler e não tenho coragem é Ulysses, de Joyce. Não tenho coragem porque acho que é um pouco hermético e vou acabar não terminando. Quem sabe um dia…Outro que quero ler, está ao meu lado, já iniciei algumas vezes, é  O quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell. Posso começar hoje mesmo. Pastoral americana, de Philip Roth, é outro que está para ser iniciado há tempos. Já comprei duas vezes, sem querer, de tanto que quero ler. Seu rosto amanhã, de Javier Marías, tem uma das primeiras páginas mais lindas que já li. Parei nela e sonho em recomeçar. Um autor que não consigo ler é Rubem Fonseca. Sei que é excelente, mas não fico envolvida. Adoro policiais, no entanto, especialmente Chandler e Simenon.  Gosto de Patricia Cornwell. E não consigo ler Rubem Fonseca, embora tenha todos os  livros que escreveu.

A Fazenda Africana

28 de julho de 2009

Terminei de ler A fazenda africana, de Karen Blixen, em edição da Cosac Naify de capa dura (2005). Gostei tanto que demorei lendo, pra não acabar. Mas a última página chegou. Não leio outra vez porque não gosto de reler livros. Ainda não gosto. Parece que quando as pessoas ficam mais velhas começam a reler. Duvido que eu faça isso. Um livro lido é quase que uma página virada, reler é como voltar pra casa pra ver se o fogão ficou ligado ou pra pegar uma chave esquecida. Poderia comentar muitas passagens, especialmente aquelas em que a autora fala das pessoas de cultura diferente da dela com quem conviveu, ou as passagens em que o tempo é o personagem, o tempo lento em que muita coisa acontece, em que os relacionamentos se desenvolvem, as pessoas se conhecem. Silencio, no entanto, guardando a emoção da leitura pra mim. Os capítulos mais bonitos do livro são aqueles em que ela fala de Denys, de seus momentos juntos e sua morte. As passagens são curtas, delicadas e muito intensas. O livro me fez ter vontade de aprender a fazer tudo mais devagar, se for possível. Talvez um bom exercício fosse ler o livro outra vez.

Amós Oz

16 de julho de 2009

Houve uma época em que eu lia muito Amós Oz. É um escritor que me desconcerta, me sensibiliza tanto quanto Kenzaburo Oe. Mas faz tempo que não o leio e, tendo resolvido falar sobre meus livros, achei que deveria enfrentar o relato de Pantera no porão (Panter bamartef), de que tanto gostei há alguns anos. Li o livro e preciso consultá-lo outra vez para comentá-lo, porque aspectos objetivos da história me escapam. A sensação que o escrito me causou permanece íntegra, no entanto. Senti uma afinidade enorme com o narrador, Prófi, que teve uma conexão forte com um militar britânico em Jerusalém, antes da criação de Israel. Uma conexão forte pode ser aquela em que duas pessoas trocam conhecimentos, impressões e experiências em contexto de sinceridade. O relacionamento entre os dois não era bem compreendido na época em que se lutava para que a Grã-Bretanha deixasse Israel e o país ficasse independente e reconhecido perante a comunidade internacional. E Prófi foi chamado de traidor. E explicou que nunca sequer disse seu nome ao inglês: ”A única coisa que fiz foi ler a Bíblia com ele em hebraico e lhe ensinar algumas palavras modernas que não estão na Bíblia, e em troca ele me ajudou a aprender os rudimentos do inglês” (Companhia das Letras, 1999, p. 35). E então o livro trata da influência que o coletivo exerce sobre as pessoas, principalmente em épocas de silêncios e opressões. E o livro trata da linguagem, dos conceitos, e de livros. E trata da amizade e dos costumes rotineiros que todos nós temos, decorrentes do temperamento que nos leva, irremediavelmente, a ser aquilo que já poderia ter sido previsto, ou que era esperado. E pensei que o livro suscita as perguntas: O que faz com que um escritor torne-se, realmente, um escritor? O que o impulsiona a contar a história? Amós Oz enfrentaria o assunto da criação da história depois, em Rimas da vida e da morte, também publicado pela Companhia das Letras.

Jornalistas em entrevista

15 de julho de 2009

Por trás da entrevista, de Carla Mühlhaus, publicado pela Record em 2007, vale como retrato do jornalismo brasileiro. Mas não só isso. Reproduz boas conversas entre a autora e pessoas acostumadas a fazer as perguntas, e  não a respondê-las.  Na introdução,  explica-se a importância da entrevista, analisando-a no contexto da história do jornalismo e de seus modelos. Embora se possa ver, no trabalho, principalmente na introdução, que o discurso acadêmico está por ali, as entrevistas podem e devem ser lidas por quem se interessa pela conversa e pela comunicação sincera entre as pessoas. Jornalistas brasileiros de destaque são entrevistados sobre seu trabalho, sua formação, suas entrevistas. Ana Arruda, Artur Xexéo, Benicio Medeiros, Carlos Heitor Cony, Joaquim Ferreira dos Santos, Joel Silveira, José Castello, Paulo Roberto Pires, Sérgio Cabral e Zuenir Ventura falam no livro. Ouve-se Joel Silveira dizendo, no ano 2000, com 81 anos, que gosta de entrevistar a pessoa na casa dela, que o entrevistador deve saber tudo sobre a pessoa que vai entrevistar, que entrevistou Monteiro Lobato na casa dele e ele o recebeu de pijama, que Monteiro Lobato quis falar de política e não de literatura e, em 1944, a  publicação da conversa causou a ocupação da revista Diretrizes, dirigida por Samuel Wainer. José Castello conta a Carla que Clarice Lispector foi sua entrevistada mais marcante e que se recusou a falar com o gravador ligado: ela mesma trancou o gravador no armário. E fala que o jornalista não pode criticar o entrevistado, reprovar suas posturas. Carlos Heitor Cony diz que, na investigação policial, o jornalista não deve perguntar como promotor ou advogado de defesa, deve, apenas, mostrar a verdade. E há muito mais do que isso. As entrevistas são todas muito interessantes e fica-se com a impressão, depois de tê-las lido, de ter encontrado pessoalmente os jornalistas, de ter conversado com eles e compartilhado dos momentos relatados.Para quem gosta de entrevistas em geral, para quem as coleciona, inclusive, como eu, o livro reproduz as melhores, aquelas em que o diálogo é franco e sincero. Deve ser uma experiência curiosa, para um jornalista, ser entrevistado.

Philip Roth por David Remnick

13 de julho de 2009

O perfil de Philip Roth que David Remnick publicou na The New Yorker, que está no livro da Companhia das Letras intitulado Dentro da Floresta: Perfis e outros escritos da revista The New Yorker (2006-Coleção Jornalismo Literário coordenada por Matinas Suzuki Jr.), vai além da escrita. A leitura continua depois de terminada. Lê-se o que está ali, narrado por uma pessoa que parece muito próxima, e também tudo o mais que se puder enxergar e interpretar, dependendo do leitor. É um texto aberto. É aberto porque a obra de Roth suscita inúmeras constatações e indagações, porque os Estados unidos continuam a influenciar e a ter importância no mundo. Os personagens de Roth têm problemas maduros, sérios e decorrentes de um contexto político e social que não preserva os indivíduos: cada um que viva sua vida como puder, sem clemência. Fica-se sabendo, entre tramas lidas e contadas, que Roth veste-se “como um acadêmico do final dos anos 1950”, faz ginástica, caminha, mora sozinho, escreve o dia inteiro e, às vezes, à noite e quando mais quiser. Tornou-se estrela quando publicou O complexo de Portnoy, em 1969. O livro vendeu, no lançamento, mais de 400.000 exemplares. O protagonista, rapaz judeu que quer se libertar da família e ao mesmo tempo não consegue plenamente, tem cenas cômicas narradas em sessões de análise e revoltou a comunidade judaica. Os livros posteriores de Roth vêm fazendo muito sucesso. O perfil de Remnick fala de muita coisa, inclusive da profunda admiração de Roth por Saul Bellow, grande escritor americano com quem aprendeu a escrever, sem comiseração, sobre a geração que, depois da guerra, foi da Europa para a América. O aprendizado não captou o estilo, mas a liberdade de escrever. E é essa liberdade – ausência de medo- que faz um bom escritor, ou um escritor pelo menos razoável. Essa a mensagem do perfil de Philip Roth, se é que um perfil pode ter alguma mensagem.

Roland Barthes

13 de julho de 2009

A preparação do romance I e II, publicado pela Martins Fontes em 2005, reproduz cursos e seminários de Roland Barthes no Collège de France entre 1978 e 1980. A tradução é de Leyla Perrone-Moisés. O texto cativa porque informal, na linguagem oral, da aula, ou ainda na linguagem das notas preparatórias de uma aula. Barthes fala primeiro do querer escrever. Proust e Em busca do tempo perdido falam do desejo  de escrever. Refletindo sobre como se passa das notas ao romance propriamente dito, Barthes introduz, nas conversas, o haicai. O haicai é ato mínimo de enunciação e encanta ao não permitir análise alguma do que diz. Há um desejo de haicai. Entre um haicai e a narrativa existe uma forma intermediária:  a cena. E ele trata das formas breves, da frase, das anotações, para chegar ao romance, que mistura a verdade das anotações ao falso do imaginário. Para conseguir escrever um romance é preciso conseguir mentir, misturar o verdadeiro com o falso. O volume II disseca o ato de escrever e o ato de ler, indagando se é possível, enquanto se escreve, ler, também. Ler o livro de Roland Barthes é mergulhar na escrita (por meio de falas em aulas), procurando desvendar os mistérios da compulsão por escrever, a localização do assunto, o modo como ele  toma conta do escritos. Barthes usa Proust durante quase todo o tempo e o livro, nesta edição, termina com anotações para seminário sobre “Proust e a fotografia”, em que são analisadas fotografis de pessoas que inspiraram os personagens de Em busca do tempo perdido.

Italo Calvino

12 de julho de 2009

Hoje escrevo sobre  Assunto encerrado-Discursos sobre literatura e sociedade, de Italo Calvino (Companhia das Letras, 2009). Está dividido em capítulos que podem ser lidos separadamente.

Sintetizo, de Calvino, o escrito Para quem se escreve? (A prateleira hipotética). O texto foi publicado na Rinascita nº 46 de 24 de novembro de 1967. Ele responde às perguntas “para quem se escreve um romance?” e “para quem se escreve uma poesia?”. E seguem as respostas: “Escrevemos romances para um leitor que finalmente terá compreendido que já não deve  ler romances”. Ele diz que, embora se espere que os romances estejam adequados a uma determinada concepção de mundo, e possam ser colocados entre outros análogos em prateleiras, sua verdadeira função é despertar novas indagações, destruindo constatações.  Não é possível pressupor que o leitor seja menos culto que o escritor e deva ser ensinado, porque o paternalismo acentua desníveis culturais. Calvino diz ainda que a literatura tem peso político modesto e que a própria obra é território de luta e está em constante movimento.

Bom, posso sintetizar outro escrito de Calvino, do mesmo livro. Em 1967, ele proferiu conferência intitulada Cibernética e fantasmas (nota sobre a narrativa como processo combinatório).  O texto é muito interessante porque enfrenta a descontinuidade do discurso e do sujeito que o formula. Hoje, narrar não é só contar uma história, mas dizer que se conta uma história, transformando-se, o narrador, no próprio objeto do discurso, assumindo personalidades diferentes. A linguagem é desmontada. Surge o eu que escreve e o eu que está escrito. E Calvino afirma que o momento da vida literária é a leitura. O autor desaparece e a obra, julgada e comentada, vive e sobrevive. A máquina poderia, então, tendo aprendido as combinações possíveis, substituir o homem na escrita. A literatura é jogo combinatório. Só que a máquina poderia combinar e trocar elementos em um jogo, mas o impacto dessas trocas só repercute no homem e na sociedade, fantasmas ocultos na escrita. E a literatura pode confirmar ou questionar. Cabe ao leitor compreendê-la, independentemente da intenção do autor.