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Vi Gerard Depardieu no Théâtre Antoine

29 de janeiro de 2014

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Quando fui ao Théâtre Antoine assistir “Love Letters”, com Gerard Depardieu e Anouk Aimée, em Paris, não sabia quem tinha sido André Antoine.

Depois, pesquisando, descobri que ele criou o Théâtre Libre e foi um dos que impulsionou, modernizando, a cena teatral parisiense.

Seu palco proporcionou à cidade apresentações originalíssimas por volta de entre 1890 e 1990 (http://www.theatre-antoine.com/theatre/historique.html).

“Love Letters” é peça escrita por A.R. Gurney. Os atores leem cartas e reflexões de personagens. É como se fosse um romance epistolar. Ficam sentados e as cartas estão sobre a mesa. Às vezes, olham-se. Mas, basicamente, leem.

Anouk Aimée estava de vermelho. Gosto dessa atriz que já esteve em filmes de Fellini (“A doce vida”, “8 1/2”), e que contracena com Jean Louis Trintignant em “Um homem, uma mulher”, filme que me marcou bastante.

E Gerard Depardieu é um autor maravilhoso. Ele prende a atenção e fascina o público.

Eu não falo e não entendo bem o francês falado. Não sei se isso foi um problema ou não, na verdade.

Estando em Paris, pensei que era até um alívio não entender a língua, assim pude me concentrar só em ver.

Ver Paris, ver as pessoas andando, os doces maravilhosos nas vitrines, olhar mapas, placas com nomes de ruas, vistas panorâmicas, esculturas, monumentos, foi mais do que suficiente.

Se eu precisasse conversar, seria demais e talvez eu até me desencantasse.

Quando vou a um país em que falam inglês, acabo cansada porque quero entender tudo e às vezes isso não é possível.

No teatro, uma senhora me perguntou algo e eu respondi “Je ne parle pas français”, uma das frases que sei.

Ela me pediu desculpas e na hora nem pensei se ela não estaria achando estranho o fato de eu estar disposta a passar duas horas ouvindo leitura de cartas em uma língua que não compreendo.

Provavelmente, ela adora Gerard Depardieu e compartilhamos esse gosto.

No restaurante “Bel Canto”, cantava-se ópera entre as refeições e havia alguns discursos intermediários, também. Não entendi nada. Foi ótimo. Só comi, ouvi a música, brindei junto com eles.

Percebi que as preleções eram interessantes, porque eles riam. Cantaram parabéns a você para uns três aniversariantes e o clima estava ótimo.

Quando necessário, eu falava inglês e eles falavam inglês. Um dia, pedi para um senhor no museu tirar uma foto nossa e ele fez que não entendeu e fiz o sinal “tirar uma foto” com as mãos e ele ficou super feliz em atender.

E assim foi.

Percebo que a palavra, em alguns momentos, não é tão importante. Hoje as imagens e sensações são muito fortes na comunicação. Conseguimos entender o metrô a partir de mapas e, sabendo o que significa “sortie”, é possível sair dos lugares, o que pode ser melhor do que entrar.

No teatro, estive em uma plateia nada turística. Alegres e bem vestidas, as pessoas estavam desfrutando um momento bom. A senhora que indicou nosso lugar insistiu em algo que não compreendi absolutamente.

Ela queria que eu fizesse alguma coisa e eu não sabia o que era. Aí ela falou: “tip, tip”. E então me veio que eu precisava dar uma gorjeta a ela, o que não é comum, aqui no Brasil. E eu lhe dei umas moedas e ela achou bom. Aí reparei que todos já chegavam com suas bolsas de moedas preparadas e davam algumas para quem tinha orientado o caminho até os lugares marcados.

Encantada com Paris, fui ao Masp ver a exposição “Passagens por Paris” (http://masp.art.br).

As pinturas de Renoir que o Masp tem são lindas, as mais bonitas que já vi dele, na verdade. Uma das esculturas de bronze da bailarina de Degas está lá, também. Vi no Museu de Orsay e vi no Masp.

Há várias espalhadas por museus no mundo e a bailarina original, em cera, está em Washington.

“Love Letters” foi escrita por um escritor americano.

Por que será que não traduziram o título para o francês? Achei curioso esse respeito ao título da peça diante da densidade do francês que ouvi.

Era tão discursivo, musical, tradicional.

Talvez perfeito.

Nossas férias em Paris

23 de janeiro de 2014

1)- Vimos a Monna Lisa três vezes;
2)- Vimos a bailarina de Degas uma vez. Foi pouco, adoro a bailarina;
3)- Esculturas de Rodin são grandiosas. No Museu de Orsay está a de Balzac: é linda. No Museu Rodin está também O pensador;
4)- Ficamos perto da Ópera. O teto pintado por Chagall é inesquecível. Assistimos Bolchoï, Ilusões Perdidas;

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5)- Vimos Gerard Depardieu e Anouk Aimée no Thèâtre Antoine (Love Letters);

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6)- O Louvre é maravilhoso e imenso. Descobri os nomes das alas: Denon, Richelieu, Sully.
A Monna Lisa fica no Denon (sala 6).

7)- Fomos ao Arco do Triunfo, ver Paris do alto é muito legal;
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8)- Fomos a um restaurante onde cantam ópera, Bel Canto: adoramos;

9)- Comemos muito bem, marron-glacé é uma delícia. O chocolate quente do Angelina, na Rue Rivoli, é muito gostoso;

10)-Vimos o quarto de Proust (www.carnavalet.paris.fr)) e o de Victor Hugo (www.maisondevictorhugo.fr). O de Proust é azul e o de Victor Hugo vermelho;

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11)- Vimos a janela através da qual Victor Hugo via a Place des Vosges;
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12)- Fomos à Shakespeare and Company (é a livraria). Ficamos lá um tempo e surgiu um pianista que tocou um jazz maravilhoso. O piano está à disposição e ele deixou todos encantados com a música. Tocou também Desafinado, de João Gilberto;

13)- Vimos uma exposição de fotografias dos Rolling Stones, no Marais;

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14)-Quem for a Paris pode consultar o blog Conexão Paris (www.conexaoparis.com.br), comprar um Paris Museum Pass (o passe garante entradas sem filas) e ler O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar. Pode também não fazer nada disso. Basta ver a Monalisa. Ela tem um sorriso para cada um.

Retrospectiva pessoal e literária ou “A vida secreta de Walter Mitty”, último filme de Ben Stiller

28 de dezembro de 2013

Estava aqui pensando que poderia escrever o último post de 2013. Escreveria sobre tantas coisas e, se resolvesse escrever sobre tudo o que vem à cabeça, terminaria um livro. E livro não posso escrever aqui. Então vou escrever sínteses, algumas listas, algo assim, sem ordem cronológica ou qualquer outra. Nem tudo esse ano esteve voltado à literatura. Houve fatos e incidentes. Foi um ano forte. Conto só a parte literária. Aliás, esse post meio que sintetiza outros, com exceção de algumas anotações.
1)- Publiquei “Viagem sentimental ao Japão” (Apicuri, 2013). Anette, a personagem, tem vida que vai muito além da minha, e isso foi bom de perceber. A Livraria da Vila da Fradique ficou lotada de amigos queridos, fiquei super contente com cada um, me lembro de todo mundo que estava lá. A Editora Apicuri fez um trabalho maravilhoso, agradeço Jozias e Rosangela por tudo.

2)- Participei do Grupo Literário Martelinho de Ouro. Publicamos um livro juntas, de contos, “Achados e perdidos” (RDG, 2013, coord. Regina Junqueira). Escrevi três contos para o livro.
3)- Participei de algumas reuniões do Grupo de Crítica Jardim Alheio na Livraria Martins Fontes.
4)- Coordenei grupos de leitura no Pauliceia Literária. Muito legal.
5)- Participei da pré Balada Literária organizada por Marcelino Freire no B_arco. Falei sobre meu romance. Foi ótimo.
6)- Mergulhei na leitura digital. Tenho um Kobo e adoro. Minha leitura ficou mais rápida e mais volátil. Agora ando com muitos livros e posso escolher o que ler e em que língua. Às vezes leio o mesmo livro em português e em inglês, para sentir as diferenças e quebrar monotonia (ler é gostoso e necessário e importante, mas às vezes cansa). Chego à conclusão de que temos ótimos tradutores.
7)-Tenho muitos contos escritos e terminados e concluídos e estou pensando em publicá-los só em formato digital.
8)- Fiz cursos com John Vorhaus no B_arco que valeram muito a pena. Quero saber mais sobre escrita de comédia. Não é na Seleções que está que “rir é o melhor remédio?”. Fui leitora assídua da Seleções, minha avó colecionava e até hoje sou discípula de minha avó, Ieta Bajer.
9)- Aprendo muito com minha querida professora de espanhol, Mónica. Lemos juntas contos de Cortázar, Benedetti.
10)- Fui a Itacaré, Londres, Rio dw Janeiro, Paraty e Ubatuba Sempre Ubatuba.
11)- Fomos à inauguração de uma praça, em Santos, que tem o nome de minha mãe, Ana Maria Babette.
12)- Estou quase terminando meu segundo romance. Falta pouco. Ainda não descobri quem matou Chef Lidu. Tinha encontrado o assassino, mas mudei de ideia. Ou a ideia mudou sozinha, não sei bem. É um romance policial.
13)- Gostei do último filme de Ben Stiller, “A vida secreta de Walter Mitty”. Vou ver de novo. O tema do filme, como diria John Vorhaus, poderia ser “siga seu sonho”, ou “faça o que tem a fazer”, ou “seja você mesmo”. E na vida também é assim.
14)-Tomara que tudo se realize no ano que vai nascer.

Martelinho de Ouro publica Achados e Perdidos

1 de dezembro de 2013

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Participo de um grupo literário. Nós nos reunimos na casa da Regina. Lemos nossos textos, comentamos, fazemos elogios recíprocos, às vezes uma ou outra crítica – sempre construtiva.
Nosso grupo tem um nome: Coletivo Martelinho de Ouro.

O trabalho resultou em coletânea de contos: Achados e Perdidos. Acabamos de publicar, pela Editora RDG. Lançamos na Balada Literária 2013, coordenada por Marcelino Freire. Nós nos conhecemos nas Oficinas do Marcelino no Centro Cultural B_arco. Regina Junqueira é organizadora da publicação. Lourenço Mutarelli escreveu belo prefácio.

Os contos falam de qualquer achado e qualquer perdido, de tudo que nos esvazia e preenche. Falam de espaços, trânsitos, vácuos, desejos, plenitudes e sonhos. Do que poderia ser, se não tivesse sido.

Cada uma escreveu sem preocupação de manter unidade. Tínhamos só o tema: achados e perdidos. Porém, sem procurar exatamente, alcançamos uma publicação coerente, coerência essa produzida pela amizade, pelo companheirismo, pela convivência livre e festiva.

Concluído o projeto, percebemos que nossos contos conversam e formam o todo. Escrevemos um livro juntas, nossos personagens têm afinidades.

Depois de Viagem sentimental ao Japão, romance (Editora Apicuri, 2013), publico, ainda em 2013, três contos em Achados e Perdidos, agora com minhas amigas escritoras do Martelinho de Ouro. Meus contos são: A carteira vermelha, O poema e Uma viagem a Cancún, um motorista de táxi bigodudo e uma possível aventura.

Temos quase um movimento literário – um amigo, Francisco Dias Teixeira, também escritor, percebeu.

Vida longa ao Martelinho de Ouro e à literatura de Concha Celestino, Cris Gonzalez, Deborah Dornellas, Eliana Castro, Fatima Oliveira, Flávia Helena, Gabriela Colombo, Gabriela Fonseca, Izilda Bichara, Lucimar Mutarelli, Paula Bajer Fernandes, Regina Junqueira e Teresinha Theodoro.

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Londres é o lugar da ficção

3 de novembro de 2013

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Londres é o lugar perfeito para  ficção.  Sherlock Holmes, Hercule Poirot,  James Bond,  Harry Potter, vivem  lá.  Sherlock mora na  Baker Street 221 b.

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Edições dos livros de Agatha Christie estão nas livrarias no exato formato em que lançadas. Na época em que Agatha Christie era novidade, as capas dos livros explicavam quem ela era, informação que, hoje, não faz qualquer sentido. Mas é muito legal ver as capas originais. Elas dão mais vontade de ler, as histórias parecem novas.

Fui a Hogwarts. J.K Rowling criou um mundo e tanto para  Harry Potter, que o cinema reproduziu bem.  Figurinos, maquetes, mobiliário, tudo está lá. A fantasia não tem limites.

Mas há realidade, também. Na Biblioteca Britânica, está um documento jurídico importante: a Magna Carta, que em 1215 estabeleceu limites ao poder real. Fui lá e vi.

Vi também o primeiro Folio de Shakespeare (http://www.bl.uk/onlinegallery/onlineex/landprint/shakespeare/).

A Biblioteca Britânica é um lugar maravilhoso.

Vi a Pedra Rosetta, no Museu Britânico. E também a múmia de Cleópatra.

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Quase fui  ao lugar onde Winston Churchill  protegia-se dos bombardeios e fazia reuniões e discursos durante 2ª Guerra: Churchill War Rooms. Como diria Anette, a  personagem de “Viagem sentimental ao Japão”, uma viagem vale muito, e mais, pelos lugares não visitados. Memórias inventadas. Sinto como se  tivesse estado lá. Estive, mesmo,  na imaginação.

O que importa é que tanto os subterrâneos de Churchill como a belíssima maquete de Hogwarts   dão vontade de escrever e me fazem acreditar cada vez mais que a ficção faz todo sentido.

A imaginação é tudo, como diria Willy  Wonka, personagem  de Road  Dahl  em  Charlie and the Chocolate Factory. Assisti ao musical no Royal Theatre Dury Lane, na última fila do Balcão. Vi muito de cima, mas vi tudo. A certa altura, Mr. Wonka diz a Charlie que ele insiste sempre em fazer alguma coisa do nada, algo como “make something of nothing”, pelo que me lembro. Isso foi na sala em que havia um caderno onde Willy Wonka anotava suas ideias, sala que só Charlie visitou.

E então penso no romance policial que estou escrevendo, em como minha história pode ficar mais interessante, em como meus personagens podem ter vida e  um endereço certo, como Shelock: Baker Street, 221b.

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Leitor digital

22 de outubro de 2013

Quem não passa tempo livre na frente de uma tela? De TV, computador, Ipad, celular, leitor digital. Estou conectada ao meu leitor digital. Tão ligada que, às vezes, tenho o livro e, mesmo assim, baixo, como fiz com O Aleph, de Borges, que leio em espanhol. Quando terminar, vou à edição brasileira, comparar e compreender melhor algumas partes. Porque O Aleph não é fácil.

O  leitor digital é perfeito para uma primeira  leitura de O Aleph porque torna o texto meio volátil, como Borges pode ter imaginado. No leitor, o livro não é concreto. Não dá para apertar, passar a mão, amassar, contar páginas. Não dá para saber quanto se leu. Só em porcentagem.  Por outro lado, é possível fazer destaques e, incrível, eu, pelo menos, leio mais rápido. Não sei se é porque meu cérebro já está habituado à tela do computador, do celular, às muitas telas de hoje.

Li um livro que não teria lido em edição impressa, Bel Canto, de Ann Patchett. Quero vê-lo ao vivo, não tenho a menor ideia sobre sua textura, suas cores, o número de páginas. E gostei.

Gostei da história do sequestro de autoridades em uma comemoração de aniversário de um empresário japonês em um país da América Latina. A casa foi tomada por sequestradores, que lá permaneceram por longo período. Os personagens principais são um intérprete japonês que falava muitas línguas, uma cantora de ópera maravilhosa, o homenageado, uma sequestradora moça que queria aprender outras línguas e se apaixonou. A comunicabilidade parece ter sido o tema central do romance, ou a adaptação  a novos contextos. Pessoas se amaram, algumas passaram a fazer em público o que antes faziam em segredo, como cantar e tocar piano (atividades aparentemente tão simples).

Ann Patchett tem uma livraria em Nashville, Parnassus Books (http://www.parnassusbooks.net/). No site, está escrito:  An independent bookstore for independent people.

A leitura de um livro em edição digital pode suscitar  ideias completamente diferentes das inspiradas pela edição impressa. Um autor como Borges teria gostado, penso, de ser lido em meio digital.

Não tenho o costume de filosofar e nem sei se estou pensando direito, mas tenho a impressão de que a leitura digital pode  levar a pensamentos mais livres e desapegados de fórmulas e compartimentos.

Esse é só o início de uma reflexão, mas,por enquanto, posso dizer que  aderi ao leitor digital como mais uma forma de ler. Pelo menos satisfaço, rapidamente, o impulso de ter o livro que quero.

E por um preço menor (só um pouco menor).

 

Esquentando a Balada Literária, no B_arco

7 de outubro de 2013

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Sábado, dia 5 de outubro, o Centro Cultural B_arco  mostrou um pouco da Balada Literária que acontece todo ano em São Paulo e está marcada para 20 a  24 de novembro. A Balada é realizada desde 2006   por Marcelino Freire.

Aqui está entrevista de Marcelino:  http://barco.art.br/marcelino-freire-fala-proxima-balada-literaria/

No sábado, tudo começou com o documentário  SP-Solo Pernambucano, de   Wilson Freire e Leandro Goddinho.

Já vi duas vezes o filme e veria muitas mais.  Quem escreve não pode deixar de ver. O jeito que Marcelino fala da literatura e das palavras e da poesia e da sua escrita faz com que a gente queira continuar traçando esse caminho da literatura.    E a gente fica conhecendo Sertania e Dona Maria do Carmo, mãe de Marcelino. E o mar de Recife.

Depois do filme, Marcelino chamou ao microfone escritores que lançaram livros recentemente ou que têm desenvolvido projetos literários.

Estiveram lá Lucimar Mutarelli, Renan Inquérito, Anna Zêpa, João Vereza, Sergio Mello, Sin Ha, Patricia Chmielewski Candido, Luis Rafael Monteiro e eu também, Paula Bajer Fernandes.

Cada um falou um pouco e leu poemas ou textos.

Lucimar falou de “Férias na prisão”, seu novo romance (Prumo). A fantasia da prisão ronda a maioria das pessoas e o livro mexe com essa sensação. É como está na orelha: “No entanto, dentro ou fora, estão todos aprisionados. Mesmo acompanhados, estão todos sós”.

Lucimar anunciou, também, o lançamento, em breve, de “Achados e perdidos”, livro que reúne contos de 13 escritoras: Concha Celestino, Cris Gonzalez, Deborah Dornellas, Eliana Castro, Fatima de Oliveira, Flávia Helena, Gabriela Colombo, Gabriela Fonseca, Izilda Bichara, Lucimar Mutarelli, Paula Bajer Fernandes, Regina Junqueira e Teresinha Theodoro

João Vereza, cujo ótimo livro de contos, “Noveleletas”, obteve 1º lugar no Prêmio Sesc 2012-2013 e foi publicado pela Record, falou sobre a repercussão do prêmio em sua vida.

Sérgio Mello leu poemas lindos. É autor de “Inimigo em testamento” (Soul Kitchen). Encontrei o book trailer no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=VQARSuE55Mc.

Renan é letrista de rap e deu um show. Contou um pouco de seu trabalho com os adolescentes na Fundação Casa. O livro de Renan, Poucas Palavras, é bem bacana.

Patricia (Japa Tratante) falou sobre criação de alternativas táteis de leitura. Em “De propósito” está: arte conceitual + poesia visual + intervenção urbana + alma + vida . Olha aqui: http://deproposito.com/about/

Luis falou sobre Boca Santa, literatura em estado vivo e bruto, como está na internet, aqui, em apresentação de Marcelino Freire: http://www.boca-santa.com/fala-marcelino.

Sin Ha recitou belos poemas de um jeito belo.

Conversei com Marcelino sobre meu “Viagem sentimental ao Japão” (Apicuri). Disse que a narrativa de Anette, querida personagem, tem a ver com o espanto de viajar e a dificuldade de conviver.

Tive ainda oportunidade de conhecer o livro lindo de Anna Zêpa, “Primeiro corte”. As páginas vêm com pontilhados de destaque, é poesia pra dividir. Anna diz: “Vamos praticar o desapego, hein?”

Transcrevo alguns, aqui:

palavras
são armas
difíceis de acreditar

alguém
me guarde
por favor

Não consigo dividir, Anna, desculpa.
Me apeguei.

Pauliceia Literária e Lêdo Ivo: reflexões em torno do enigma

20 de setembro de 2013

A Pauliceia Literária realizada pela AASP (Associação dos Advogados de São Paulo)  começou com êxito.

Na abertura, Manuel da Costa Pinto discorreu, de maneira muito articulada e inteligente,  sobre a literatura  de Patrícia Melo, a escritora  em foco do festival.

Depois, Patrícia subiu ao palco. Falou bem. Disse que não pode ser considerada, até o momento, escritora de romances policiais. Escreve sobre crimes, paixões humanas, mas isso não significa, tecnicamente,  que sua literatura seja policial. Seu próximo romance, porém, será.

Hoje, em O Estado de São Paulo, Raphael Montes, autor de Suicidas, romance muito comentado, diz: “Tento explorar o que me parece o futuro do romance policial: histórias mais ágeis, sem o detetive como personagem principal” ( Caderno 2, C3).

Os temas debatidos na Pauliceia Literária giram – não só – em torno da literatura que discute crime e justiça.

Leio  romances policiais, especialmente Agatha Christie, Patricia Cornwell, Lawrence Block e Raymond Chandler. Chandler é meu preferido. Neles, os investigadores são  céticos e ambíguos.

Os personagens me conduzem ao fim do livro. A solução do mistério não importa tanto. Se bem que, em Agatha Christie, a solução é importante, porque quase sempre inusitada. Mas, nos outros, quero saber  como Marlowe, Bernard Rhodenbarr, Scudder  e Scarpetta, terminarão. Torço por eles, assim como torço por mim.

Estou escrevendo um romance policial em que dois personagens pesquisam um homicídio.

Dr. Magreza  e Elvis,  escrivão inexperiente que o auxilia e acompanha, têm uma relação  de subordinação hierárquica irreverente.

O morto é Chef Lidu, dono de restaurante envolvido em tramas amorosas e alimentares. Ele também é um personagem interessante, embora póstumo.

Mudando um pouco de assunto, mas ainda no assunto, li “O aluno relapso – Afastem-se das hélices”, que a Editora Apicuri publicou recentemente, de Lêdo Ivo.

O livro reedita, com importante acréscimo (Afastem-se das hélices), livro publicado em 1991 por Nemar e Massao Ohno.

Em uma parte, Lêdo Ivo fala: “A função da literatura não é a de refletir a realidade,  sim a de criar uma realidade que só a linguagem tem condições de produzir. A literatura é a realidade da linguagem, e não a realidade da vida, que se exprime através de uma des-linguagem”. (p. 35).

Está no livro, ainda,  breve poema:

Mistério policial

A chave do enigma

Não decifra nada.

Abre para a porta

Sem ferrolho e chave.

Leva ao labirinto

Desenhado  na água.

 Escrevo tudo isso para dizer que, na literatura policial, é esse labirinto desenhado na água que me chama. Além dos detetives: insisto  neles. Eles têm aquela chave que não decifra nada e sabem disso.

A vida de verdade é outra história. A vida  de verdade está no campo da des-linguagem, como disse Lêdo Ivo (ou das hélices, penso eu).

 

 

 

 

 

 

 

A que horas você escreve?

15 de setembro de 2013

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As pessoas têm curiosidade de saber a que horas o escritor escreve. Ninguém pergunta para o médico a que horas ele trabalha, nem para o advogado, muito menos para o engenheiro. Mas o escritor acaba respondendo essa pergunta.

É que é difícil encontrar tempo para escrever. A escrita exige concentração, algum silêncio,  comunicação entre o eu do escritor e o eu dos personagens, comunicação entre o escritor e os livros pesquisados, fotografias, recortes de jornal, tanta coisa. Leitura.

E tem o facebook,  o celular,  a internet,  as conversas com os amigos, os eventos literários nos quais é importante estar para saber o que está acontecendo e estar com outros escritores.

Os devaneios também ajudam e atrapalham. Escrevemos tudo ao mesmo tempo, lemos tudo ao mesmo tempo, pensamos assim, também.

Quem tem outra profissão, além da escrita ficcional, precisa trabalhar. Não se diz por aí que poucos vivem dos livros  publicados? E também é possível gostar de escrever e de trabalhar com outras coisas. Primo Levi, por exemplo, gostava de seu trabalho como químico. Há muitos exemplos assim. Eu mesma, por exemplo. Estudei direito, escrevo sobre direito, trabalho com direito. E escrevo ficção. Adoro escrever ficção. Precisei de muito tempo pra entender que é possível conciliar tudo. É claro que as linguagens são outras e estão em partes diferentes do cérebro. Como falar línguas diferentes, talvez. Não sei, preciso refletir mais e melhor sobre isso.

Mas voltando ao horário da escrita,  pode acontecer bem cedo, de manhã. De madrugada.

Eu gosto de escrever bem cedo,  quando estou bem concentrada e livre. E gosto de escrever domingo, como estou fazendo agora (não é cedo). Não gosto de escrever aos sábados.  E escrevo  no meu escritório, em casa. Só escrevo em casa.

Mas às vezes demoro para encontrar a escrita. Mesmo em casa.

Leio um livro chamado “O segredo dos grandes artistas”, de Mason Currey (Elsevier/Campus, 2013). Ele colecionou informações sobre rotinas de escrita.

Em Chawton, na Inglaterra, Jane Austen escrevia na sala, em folhas de papel pequenas. Acordava cedo e tocava piano. Depois, escrevia na sala. Curioso é que, quando pessoas de fora entravam, ela escondia os papéis e começava a costurar. À noite, lia para a família os romances que escrevia.

Thomas Mann trabalhava das nove ao meio dia, em seu estúdio. Depois, almoçava e lia até quatro da tarde. Dormia uma hora. Às cinco, tomava chá com a família. Depois, escrevia cartas, artigos para jornal. Caminhava antes do jantar. Antes de dormir, lia ou ouvia música com sua mulher.

Gosto de ler essas curiosidades.

Para escrever sempre, é importante ter alguma rotina. É como fazer ginástica. Um dia de cada vez, algumas horas de cada vez.

Eu, na verdade, não escrevo durante muito tempo. Meia hora, no máximo.

Pode parecer que escrevo de um jeito simples.

Minha simplicidade exige um certo esforço.

 

Divórcio, de Ricardo Lísias

1 de setembro de 2013

Terminei de ler “Divórcio”, de Ricardo Lísias.

Estava bem curiosa para ler o romance porque inserido entre aqueles que permitem  debate  em torno do foco narrativo. Gosto de ler sobre autoficção.

Em J.M. Coetzee, sobre o qual já escrevi aqui, a discussão vai ao extremo porque Coetzee escritor é narrador e personagem ao mesmo tempo (em Juventude e Verão, livros que li). E, mesmo assim, não se sabe se a narrativa é real ou inventada.

Com “Divórcio” acontece mais ou menos a mesma coisa. Ele mesmo, Ricardo Lísias, é o personagem e o narrador do romance. Conta todo o doloroso processo de separação de sua ex-mulher  – é assim que ele se refere à  personagem  cuja voz  aparece nos pequenos trechos de um diário.

No início,  fiquei um pouco incomodada com a exposição do diário encontrado. Faz tempo não escrevo diários. Quando criança, escrevia muitos. Desapareceram  e, até hoje, fico preocupada com seu destino. Esse é um assunto que me incomoda, o destino dos escritos secretos.

Mas o diário da ex-mulher foi encontrado (não estava  trancado e nem escondido). Tinha revelações que provocaram a saída do marido de casa e ele passou por momentos bem desconfortáveis. E me marcou muito o fato de dizer, sempre, que ficou sem pele. Essa é uma descrição extrema e tocante, faz com que a gente imagine a infelicidade total do narrador. Ardência.

Logo me desliguei desse incômodo e passei a prestar atenção na técnica narrativa, na maneira como o processo doloroso é associado aos treinos de corrida, especificamente para a prova de São Silvestre.

Haruki Murakami  já escreveu sobre corrida e escrita (Do que eu falo quando falo de corrida, Alfaguara) e Ricardo Lísias também faz isso, associando a corrida e o treino à recuperação pessoal.

Há alguns anos eu corria e cheguei a completar duas meias maratonas, do Rio de janeiro e da Praia Grande. A sensação de terminar uma prova de rua é indescritível. Correr ao lado de pessoas desconhecidas (irmãos corredores, eu dizia)  que querem, todas,  passar a linha de chegada, correndo, é muito gostoso.

Quando a gente termina os quilômetros, e são todos muito sofridos, tem a compreensão exata e concreta do dever cumprido.  Acredito que isso seja importante para todo mundo, mas para quem trabalha lendo e escrevendo e pensando, é  inusitado. Sempre estranhei isso em mim. Aí me machuquei e parei de correr, mas tive bons momentos.

Outro aspecto super interessante do livro é a maneira como o autor lida com o discurso do sistema da justiça, com a perspectiva de um processo judicial, com a documentação jurídica do conflito entre ele e a ex-mulher.

O discurso do direito é um discurso que fica sempre à margem do discurso literário ou do discurso da convivência. Ricardo Lísias resolve enfrentar esse outro mundo, paralelo,  no livro. Não há termos jurídicos, nada disso, mas há um debate interno sobre a eventualidade daquela separação ser discutida em outro plano, em um plano oficial. E isso não deixa o narrador com medo, pelo contrário. Ele não está nem aí. Ele se diverte com a outra escrita.

É muito interessante, também, a maneira como o narrador fala sobre seu processo literário. Conta como escreveu. Primeiro à mão, depois passou tudo para o computador. Diz que é comum os escritores misturarem realidade e ficção. O leitor acompanha a escritura de perto. O discurso literário está ali, vivo, no livro.

Ouvi  Ricardo Lísias falar no Jardim Alheio, na Livraria Martins Fontes. Até escrevi sobre esse dia, aqui. Ele parece ter domínio total sobre sua literatura.  Deve ter escrito o livro com extrema consciência literária. Ainda que essa consciência possa ter nascido no desespero (não sei), é resultado de reflexão e total domínio do escritor sobre a narrativa.

Nunca verei “Divórcio” como autobiografia.

É um grande romance.

Ainda sobre autoficção: visita ao Jardim Alheio

16 de agosto de 2013

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Gosto cada vez mais da programação do Jardim Alheio: Grupo de Crítica Literária (https://www.facebook.com/jardim.alheio e http://jardimalheiogcl.wordpress.com/).

Muitos vídeos dos debates que organizam estão no Youtube.

Segunda-feira, dia 12, fui à Livraria Martins Fontes participar de mais um encontro.

Carlos Felipe Moisés e Frederico Barbosa conversaram sobre as interferências das biografias e das autobiografias na ficção.

A mediação de Vivian H. Schlesinger é sempre suave e oportuna. O grupo Jardim Alheio prepara cuidadosamente cada debate. Suscita questões relevantes.

Jardim Alheio propôs as seguintes perguntas: “De que forma a leitura é modificada pela presença de dados autobiográficos do autor em um romance? É possível separar fato e ficção? É desejável vestir um com outro? Por que tantos autores utilizam esse recurso?”

Como tinha acabado de reler Recordações do Escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto, de ler Diário da Queda, de Michel Laub, assim como Verão, de J.M.Coetzee, estava com as indagações na cabeça.
Quando leio um livro, raramente me pergunto se o narrador é o próprio autor. Entro na história e pronto porque, ainda que houvesse identidade entre as personas, o narrador/autor/personagem seria, sempre, um outro.

Há pouco tempo, assisti mesa literária instigante no Centro Cultural Rio Verde (Sempre Cabe + 1). Lucimar Mutarelli, Thiago Che Romaro, Felipe Arruda, Tiago Barbalho e Mari Portela falaram sobre sua literatura (Lucimar é autora do ótimo Entre o trem e a plataforma, da Prumo) e, a certa altura, Lourenço Mutarelli, que estava na plateia, problematizou: o escritor, ao escrever, não seria, sempre, um outro?

Penso que o escritor é, sempre, um outro, quando escreve. Nem mesmo a autobiografia é capaz de circunscrever a personalidade em seus exatos termos.

E, na conversa no Jardim Alheio, falou-se de Flaubert (Madame Bovary sou eu), de Oscar Wilde (a vida imita a arte e não o contrário), da conotação de fingere, que, em latim, não significa exatamente fingir, mas imaginar, inventar, modelar, dar forma. Em latim, fingere não tem uma conotação negativa. Foi o que explicou Carlos Felipe Moisés.

Frederico Barbosa trouxe importante questão: afinal, o que pode e o que não pode ser dito, hoje, na escrita? A pergunta é importante e ele tem razão ao afirmar sua atualidade.

Minha preocupação com a autoficção está focada no estilo literário. Autoficção é um recurso literário. Acho interessante quando o personagem tem o nome do autor e não é o autor.

J.M. Coetzee é brilhante ao usar o recurso. O narrador pode, até, ser o autor. Ou fragmentos do autor, o que é ainda mais interessante. Mas, também, irrelevante na ficção.

Meu romance Viagem sentimental ao Japão (Apicuri) não é autobiográfico. Adoro quando perguntam se eu já fui ao Japão. Eu mesma me faço essa pergunta, às vezes.

Será que já fui ao Japão?

J.M.Coetzee

10 de agosto de 2013

Terminei Verão, de J.M. Coetzee (Companhia das Letras). De Coetzee li Juventude (indicado por Roberto Taddei).

Coetzee leva a autoficção ao extremo. Ele é o personagem dele mesmo. É entrevistado, entrevista. E Coetzee personagem é um homem totalmente comum. Um escritor cujos textos devem ser maravilhosos, mas os próprios textos só aparecem no livro na forma de diários (nem tão maravilhosos). A escrita do personagem deve ser brilhante porque há uma biografia em construção no romance e não se escreve biografia de uma personalidade desinteressante. E o que se descobre, nas versões dos entrevistados, é que Coetzee personagem pode não ser encantador (mas tem muitas mulheres). Não é o Coetzee autor. Ou é. Não importa. Ou importa?

Gosto demais de entrevistas e as que Coetzee simula são sensacionais. Em uma delas, o entrevistador fala: “Não dá para confiar no que Coetzee escreve, não como registro factual-não porque ele fosse mentiroso, mas porque ele era um ficcionista. Nas cartas, ele inventa uma ficção de si mesmo para seus correspondentes; nos diários ele faz a mesma coisa para os próprios olhos, ou talvez para a posteridade” (p. 234).

O mais divertido é que há até críticas a Desonra, considerado um de seus melhores romances. A certa altura, alguém diz, sobre Desonra: “Em nenhum ponto você tem a sensação de um escritor que deforma sua mídia a fim de dizer o que nunca foi dito, o que, para mim, é a marca da grande literatura. Muito impassível, muito organizado, eu diria” (p. 251).

Achei esse comentário sobre o próprio livro um grande lance no jogo literário desse autor que ganhou Prêmio Nobel em 2003.

Sobre Desonra, há crítica literária aqui, escrita por J.C. Guimarães. http://www.revistabula.com/113-desonra-de-j-m-coetzee/.

E, sobre Coetzee, há esse endereço na internet, Lendo Coetzee: http://lendocoetzee.com/o-autor/
Agora vou ler Desonra.

Viagem sentimental ao Japão

9 de agosto de 2013

Viagem sentimental ao Japão

Máquina Macunaíma, de Luiz Bras

11 de julho de 2013

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“Geração 90: manuscritos de computador” (Boitempo, 2001), organizado por Nelson de Oliveira, é um clássico – ou uma referência. Traz contos de autores destacados em fase da literatura brasileira – e universal- que compreende o tempo da tecnologia e da informação (e da TV).

Nelson de Oliveira reuniu contos de Marçal Aquino, Amilcar Bettega Barbosa, Fernando Bonassi, João Carrascoza, Sérgio Fantini, Rubens Figueiredo, Marcelino Freire, Altair Martins, João Batista Melo, Marcelo Mirisola, Cíntia Moscovich, Jorge Pieiro, Mauro Pinheiro, Carlos Ribeiro, Luiz Ruffato, Pedro Salgueiro, Cadão Volpato.

Ele mesmo, organizador do livro e da ideia que o particulariza, não se incluiu entre os autores.
Se, naquela época, o organizador do livro era Nelson de Oliveira, agora ele é também Luiz Bras, autor de “Sozinho no deserto extremo” (Prumo, 2012) e de “Máquina Macunaíma” (Edição do Autor, 2013), entre outros muitos livros.

A apresentação que Luiz Bras escreveu em 2001 para “Geração 90: manuscritos de computador” tem título que não poderia ser mais profético: “Contistas do fim do mundo”.

Hoje, ele publica “Máquina Macunaíma”, livro de contos com tiragem de cinqüenta exemplares (com trema, mesmo, porque os textos estão revisados parcialmente segundo o novo acordo ortográfico e essa advertência é feita logo no início, com dois vivas: ao trema e ao acento agudo no pára).

Máquina Macunaíma traz os contos do fim do mundo de Luiz Bras.

A edição do autor é super bem acabada, a capa é verde e amarela e cheia de símbolos gráficos, matemáticos, científicos (capa de Teo Adorno e Teresa Yamashita).

Os contos falam, ficcionando, de máscaras sociais, superglobalização, cidades sencientes, fanatismo religioso, distúrbios urbanos, conflitos conjugais, cyberpunk, mergulhos subjetivos, engenharia genética, indústria cultural, ciborgues, inteligência artificial, psicopatas e sociopatas, implantes neurológicos, viagens no tempo, países imaginários, steampunk, guerra dos sexos, física quântica, aliens e tudo o mais que você possa imaginar.

Luiz Bras, com o novo livro, que ele mesmo editou, como quis, segundo suas próprias regras, caminhou para além da visão e da razão e afastou – pelo menos aqui e agora – as possibilidades da impressão em massa. A tecnologia foi usada para alcançar a edição precisa e exata.

Os contos são: Virtuais, Heidegger não voltará jamais, Onde vivem os monstros, Impostor?, Mecanismos precários, O índio no abismo do eu, Coisas que a gente não vê todo dia, Humana, demasiado humana, Distrito Federal, Os olhos do gato, Galáxias, Primeiro de Abril: Corpus Christi.

Algumas frases são geniais:

“Onde estará o desintegrador de almas? Com quem estará?” (Heidegger não voltará jamais).
Tem outro parágrafo que eu acho muito bom: “O idioma falado também não importa muito. Mesmo se ela for japonesa, indiana, queniana, alemã ou argentina e mesmo se ele for australiano, chinês, egípcio, francês ou mexicano, para o propósito desta narrativa os dois falarão português” (Mecanismos precários).

A frase diz algo que eu li assim (a leitura é sempre muito pessoal): as línguas importam muito pouco, cada vez mais entramos em um mesmo discurso. É claro que sempre haverá as diferenças todas, mas há um plano com mesmos códigos: a internet.

No mesmo conto, os personagens surpreendem-se personagens. Ela pergunta: “Você planeja nos matar?” A resposta: “Infelizmente sim. Porém farei de um jeito que todos pensam que foram vocês que se mataram. Como eu disse, movidos pelo ciúme e pelo rancor. É mais interessante assim” (Mecanismos precários).

O conto que eu mais gosto é o último: “Primeiro de Abril: Corpus Christi”.

Nele está: “Esmiucei as últimas horas de vida de meus mortos prediletos: encarnei a Mulher-Maravilha, o gato de Botas, o Chapeleiro Louco, o Homem de Lata, todos eles. recuperei suas inquietações, suas dúvidas. Seu desespero. Suas palavras derradeiras. Morreram em combate.”

E continua. Não vou contar o fim. É literatura.

E ainda há um parênteses que tudo subverte:

(Também dizem que o Homem de Lata nunca foi encontrado).

Sobre “Nabokov e a felicidade”, de Lila Azam Zanganeh (Alfaguara, 2013)

2 de julho de 2013

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Ela vem à Flip, Lila Azam Zanganeh (dia 5, mesa 6, às 12 horas).
Vem conversar com Francisco Bosco sobre o prazer do texto.
Roland Barthes tem um livro muito lindo com esse título, “O prazer do texto” (Perspectiva, 1987).
E o livro de Lila é sobre a euforia da leitura.
Adorei o livro que descreve o deslumbramento recíproco entre o leitor, o autor e o texto.
A literatura vive, o escritor vive no texto, o texto fala, o leitor transforma, fantasia, cria, recria, multiplica; finalmente escreve.
E outro leitor – agora eu – lê. Estamos todos na nuvem da imaginação, das palavras, das impressões.
Lila passa para o leitor seu encanto com Vladimir Nabokov, a quem ela chama, carinhosamente, às vezes, de VN.
O livro não é uma biografia, não é uma autobiografia, não é ensaio, mas é quase tudo isso.
Ao terminar, o leitor conhece, de Nabokov, só o que ele e seus textos têm de bom.
A autora fez rigorosa pesquisa e tudo o que há no livro é verdade (há precisa indicação de fontes).
Porém, como ela não se propôs a escrever uma biografia, teve a liberdade de falar só sobre a felicidade de Nabokov e sobre a sua própria felicidade ao desvendá-lo.
Sobre sua obsessão, como ela mesma assume, sem medo.
É uma escritora corajosa e generosa.

Representações de Fabíola na Pinacoteca

22 de junho de 2013

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As imagens do mesmo rosto estão lá, na parede vermelha (depois de escrever olhei as fotografias e percebi que a parede é azul) .

Primeiro tive a impressão de que eram todas iguais, a mesma imagem da mesma moça (Santa Fabíola).

E fui ler as explicações.

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Descobri que as imagens correspondiam a retratos pintados por pessoas diferentes de uma mesma pintura, que se perdeu.

E o artista que concebeu a exposição (Francis Alÿs) recolheu essas imagens em lugares diferentes. E formou a coleção, que agora está na Pinacoteca, em São Paulo, e lá ficará até 7 de julho.

Fiquei um tempo na sala observando as muitas diferenças. Em um primeiro olhar, pareciam iguais. Depois, percebi que eram muito desiguais. Porém, cada pintor acreditou estar fazendo uma cópia, talvez até uma cópia fiel. A sua versão.

Ou, ainda, desenhou de memória.

Ou, ainda, quis representar.

Sua memória provavelmente trabalhou como a minha quando imaginei a parede vermelha da sala da exposição. Que era azul.

A grande questão é que a imagem original de Fabíola desapareceu. Perdeu-se a matriz. O parâmetro. E, assim, cada imagem ficou outra. Ainda assim, todas muito semelhantes.

Está escrito, na explicação na Pinacoteca, que o artista discute, também, autoria e originalidade. Eu, sinceramente, não sei se é só isso. Ele deve discutir, também, homogeneidade. A mesma devoção pela mesma santa. Devoções distintas.

Em um dos retratos, quase se podem ver os olhos do pintor refletindo a beleza.

beleza

É comum ouvirmos dizer que as ideias efetivamente originais, na verdade, são poucas. Nossas ideias são transformações de fragmentos de outras e, assim, tornamo-nos contemporâneos, eu acho.

Contemporâneos autênticos.

Se eu me fechasse por meses no quarto, sem assistir TV, ler jornal, ler facebook e internet em geral,
sem ler romance ou livro algum, acabaria escrevendo outro tipo de texto. Ou, quem sabe, eu não escrevesse de jeito nenhum.

Se tivesse uma caneta e cadernos, desenharia casinhas e árvores com maçãs, minhas primeiras expressões.

Diversas casas com jardins, caminhos até a porta de entrada, e muitas macieiras, infinitas macieiras.

E eu que não sei desenhar.

Romance policial (3): Grupo de leitura na Pauliceia Literária – Em defesa de Jacob, de William Landay (Record)

11 de junho de 2013

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Em setembro acontece, em São Paulo, a Pauliceia Literária 2013 (www.pauliceialiteraria.com.br), realização da Associação dos Advogados de São Paulo com curadoria de Christina Baum.

A programação inclui prévios grupos de leitura sobre livros de escritores que participarão de mesas e debates. Estive na AASP ontem para o primeiro grupo de leitura.

Discutimos Em defesa de Jacob, do norte-americano William Landay (http://www.williamlanday.com).

A Pauliceia Literária é realização de importante associação de advogados e é natural que, no contexto, sejam debatidos romances policiais de diversos estilos. E a conversa em torno dessa literatura interessante e especial proporciona, evidentemente, reflexão sobre sistemas jurídicos de punição.

Há várias razões para se ler um bom romance policial. Renato Mezan, em artigo publicado na coletânea Escritas do desejo: crítica literária e psicanálise, “Por que lemos romances policiais?” (Ateliê Editorial, p. 127-158), discorre longamente sobre o assunto.

O prazer de ler o romance policial está na curiosidade, na participação do leitor em um jogo que transforma o crime em problema intelectual cuja resolução lida com medo e angústia sublimados na investigação.

Renato Mezan relata conclusões da psicanalista francesa Sophie de Mijolla-Mellor relacionadas ao estudo da obra de Agatha Christie: quem gosta do gênero sabe que a história é de ficção, mas ainda assim a leitura mexe com dúvidas latentes sobre sexo, vida e morte. Ele escreve: “Talvez resida aí o apelo mais forte do gênero: por meio do que propõe em cena, ele mobiliza elementos psíquicos há muito esquecidos, mas que nem por isso perderam sua eficácia dinâmica- e a arte do escritor nos permite desfrutar deles sem risco nem culpa” (p. 158).

Ontem, no grupo de leitura, muitos temas vieram à tona: relação entre pai e filho, entre marido e mulher, dinâmica familiar, relação entre autoridade que investiga e colegas de trabalho, entre autoridades e advogados, sistemas de punição brasileiro e norte-americano, importância da defesa no processo penal, comunicação em redes sociais, adolescência, bullying.

Tudo isso está no livro e foi debatido pelo grupo formado por coordenador competente – Leonardo Sica – e leitores sensíveis e atentos.

Há alguns anos atrás, advogados e agentes políticos da persecução penal falavam muito pouco com a sociedade. Quando o faziam, usavam conceitos técnicos complexos e nem sempre bem compreendidos. Hoje, a situação é bem diferente. As pessoas querem saber como são feitas as investigações e os julgamentos e querem dar sua opinião.

Ao realizar a Pauliceia Literária, a AASP integra literatura e direito, mundos diferentes, mas focados, ambos, na difícil arte de conviver.

Domingo à tarde no Espaço Parlapatões: Cantos Negreiros

26 de maio de 2013

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Domingo à tarde. Espaço Parlapatões, Praça Roosevelt. Documentário: SP-Solo Pernambucano (Wilson Freire e Leandro Goddinho): trajetória do escritor Marcelino Freire de Sertânia a São Paulo. A mãe de Marcelino. A casa. Aquela cidade com nada e  tudo,  tudo e nada. Voltar e recontar, descobrir o que tinha lá. Marcelino foi a Sertânia com sua mãe, fizeram o caminho com coragem. Coragem é importante para eternizar as pessoas eternas.

Depois do filme, participação poética especial de Nelson Maca e o grande show Cantos Negreiros: Marcelino Freire e Aloísio Menezes. Marcelino sempre fez o show com a cantora Fabiana Cozza. Agora em São Paulo ele fez com Aloisio Menezes, de Salvador, Salvador do mundo todo. Ele e seus músicos maravilhosos cantando e fazendo percussão. Marcelino  falando seus Cantos Negreiros. Fala e canto intercalados.  Sempre a música. A voz de Aloisio Menezes é linda e poderosa.

Cheguei em casa e fui procurar na internet porque queria ouvir mais. Encontrei um CD gravado com Guga Stroeter e Orquestra HB:  http://www.aloisiomenezes.com/discografia.

Ouvir Marcelino falando e interpretando sua escrita é sempre surpreendente. Os textos lidos e relidos são sempre inéditos, chacoalham cada vez de um jeito.

Aí tive vontade de escrever.

Romance policial (2): algumas características, segundo P.D.James

19 de maio de 2013

policial

É claro que os romances policiais são escritos a partir de algumas fórmulas. Que não precisam ser seguidas sempre, é óbvio. Mas é divertido conhecer as regras.

Li, faz pouco tempo, Segredos do romance policial: história das histórias de detetive, de P.D.James (São Paulo, Três estrelas, 2012).

Em um dos capítulos finais, intitulado “Contar a história: canário, ponto de vista, gente”, está:

1)- O cenário torna a história crível na literatura de crime;

2)- Histórias de detetive desenrolam-se bem em comunidades fechadas;

3)- Arquitetura e casas precisam ser descritas porque as pessoas são influenciadas pelo ambiente;

4)- Descrição do encontro do corpo é uma das partes mais importantes do romance policial, o leitor precisa sentir o desconforto, o horror, o choque da morte drástica; 

5)- O detetive deve estar inserido em um ambiente facilmente identificado pelo leitor;

6)- O ponto de vista é importante, o leitor não pode acompanhar pensamentos do assassino;

7)- Narrativa em primeira pessoa dá credibilidade à história;

8)- A vítima não precisa ser simpática, pois ela provocou o ódio do assassino;

9)- Gosto dessa frase: “Assassinato é o crime ao qual nenhum outro se compara, e sua investigação dilacera a privacidade tanto dos vivos como dos mortos. Esse estudo de seres humanos sob o estresse desse teste autorrevelador é que constitui para um escritor a maior atração do gênero” (p. 136).

Comecei a escrever um romance que quer ser policial. Será meu segundo romance.

O primeiro, “Viagem sentimental ao Japão”, será publicado no segundo semestre. Não é uma história de detetive.

É uma narrativa sobre as narrativas de viagens, reais e imaginárias.

É a narrativa de Anette.

Importância do livro para registrar pensamento e arte

13 de maio de 2013

A Editora Apicuri publica duas coleções de livros que documentam e refletem  arte : Pensamento em Arte e Cosmocopa + Apicuri.

Jozias Benedicto, coordenador das Coleções Pensamento e Arte e Ficção, da Apicuri, também artista,  Hugo Houayek e Felipe Barbosa, autores de livros que registram e refletem arte contemporânea,  estiveram na Livraria Martins Fontes da Avenida Paulista em  11 de maio para conversar sobre “Livro: Registro e disseminação de Arte Contemporânea”.

A sinopse apresentada para o encontro é: “O livro ainda é um importante veículo para registro e disseminação de trabalhos de artistas contemporâneos. Duas iniciativas da Editora Apicuri em termos de livros de artista são as Coleções Pensamento em Arte, com ênfase em textos acadêmicos e de debates, e a Coleção Cosmocopa+Apicuri, que apresenta monografias sobre o trabalho de artistas. Hugo Houayek, editor da Coleção Pensamento em Arte, e Felipe Barbosa, curador e organizador da Coleção Cosmocopa+Apicuri, falaram sobre sua experiência com estas coleções, os trabalhos publicados e em projeto, e também de seus trabalhos como artistas e, no caso do Felipe, sua experiência como galerista”.

A Livraria Martins Fontes tem um auditório novo. A conversa aconteceu ali.  Felipe, Hugo e Jozias,  artistas que já estão no futuro, sabem que não há mais lugar para pensamentos e ideias setorizadas. Acreditam que arte, escrita e literatura estão entrelaçadas, assim como todas as formas de expressão.

Nós podemos transitar de um mundo a outro, fazemos parte de mundos diferentes, é permitido alterá-los, também. Nossas personalidades têm diversas faces, somos vários ao mesmo tempo, temos  liberdade de trocar de lugar e experimentar caminhos novos.

Pensei, durante a tarde: tudo é e pode, ao mesmo tempo, não ser. Podemos recusar exclusividade em   tribos que um dia escolhemos ou que nos foram impostas ou onde caímos por acaso. Queremos pertencer a outros grupos, também, e, quem sabe, um dia, as fronteiras fiquem diluídas. Isso pode acontecer. Acho que, com a crescente importância da imagem na comunicação, ficou mais fácil compreender diferenças. A arte tem essa possibilidade: mostra modos de ser sem juízo de valor.

Na conversa, muitos livros da Editora Apicuri foram expostos.

Felipe Barbosa mostrou dois livros: Estranha Economia, com muitas fotografias (Apicuri/Cosmocopa, 2012), registra seu trabalho. O livro traz, ainda, textos de Alvaro Seixas, Luciano Vinhosa e Sheila Cabo Geraldo. Outro livro de Felipe Barbosa: Matemática imperfeita (Apicuri/Cosmocopa). O livro também documenta seu trabalho.

Hugo Houayek é autor de Pintura como ato de fronteira: o confronto entre a pintura e o mundo (Apicuri, 2011).  O livro instiga nossas indagações mais sérias. Eu me pergunto, lendo: Porque as bailarinas de Degas me encantam? Porque adoro olhar Vermeer?

A Editora Apicuri, ao publicar esses e outros livros sobre arte e texto, arte e literatura, enfrenta os grandes temas do nosso tempo: o que nos encanta, hoje? O que nos preocupa? Como nos expressamos? Como transitamos de um lugar ao outro, de um pensamento a outro? Como saímos da imagem para o texto e do texto para a imagem? Como nos preservamos e modificamos, ao mesmo tempo? O registro do pensamento artístico possibilita continuidade e, ao mesmo tempo, mudança.

Em seu Estranha Economia, Felipe Barbosa expõe objetos comuns em  contexto diferente. Forma nova ordem, nova função, ou nada disso. Bolas, palitos de fósforo, garrafas de refrigerante, cédulas de dinheiro picado, suscitam, para quem olha as novas organizações estabelecidas,  interpretações que alargam o pensamento. Ele classifica suas coleções de um jeito peculiar. Faz desenhos geométricos com agrupamento de símbolos concretos da nossa vida: escada, bola de futebol, casa de cachorro, disco de vinil, tampa de garrafa. Dá até para fazer um poema com as palavras das coisas, assim como as imagens das mesmas coisas formam poemas.

Sou uma pessoa ligada, sempre, no texto. O livro, para mim, é muito importante, ajuda a compreender o que eu vejo. Quando vou a uma exposição, preciso do catálogo,  do livro escrito para a ocasião. Por isso  gostei tanto da conversa: todo mundo ali estava de acordo: o livro registra a arte para o futuro. A mesma arte que é, hoje, será vista amanhã, de um outro jeito.

Agora, escrevendo este texto, vendo as imagens dos livros, pensei no poema de Cecília Meireles, Ou isto ou aquilo. Tem uma estrofe assim: “Quem sobe nos ares não fica no chão, quem fica no chão não sobe nos ares”.

Tenho quase certeza. Hoje, ela quis dizer o contrário.