Archive for the ‘literatura’ Category

Sobre Carnebruta

23 de novembro de 2012

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As editoras Apicuri e Oito e meio acabam de lançar Carnebruta, de Rodrigo Novaes de Almeida. A capa é cor-de-rosa, mas o livro, de rosa, não tem nada.
Logo no início, está epígrafe de Milan Kundera: “sexo é violação”. Depois, na página seguinte, vem a dedicatória: “para Chris, com amor”.
E o livro é todo assim, a rosa misturada com dor e amor.
Começa com valete-de-espadas e termina com valete-de-espadas. Valete-de-espadas é o avatar, Joaquim Proença de Rara-Sana. Eu me identifico com a ideia do avatar. Depois, quase no fim do livro, Joaquim Proença de Rara-Santa aparece de novo. Aí, dá pra ficar sabendo mais.
Gostei muito do “Carnebruta”, que está nas páginas 38 e 39. Adorei esse conto. A linguagem, o [VOCÊ] aparecendo várias vezes, o conto na primeira pessoa do plural, é curto e leio várias vezes. Fico com a frase: “[VOCÊ] fuma um Marlboro vermelho na varanda da sala”.
“Adeus ao paraíso” remeteu-me às cidades invisíveis de Ítalo Calvino e aos lugares imaginários descritos por Alberto Manguel. Também pensei nas viagens de Gulliver. Nesse conto, as mulheres reinam. Sereias de Ulisses.
Mesmo nos contos mais violentos as mulheres prevalecem: as fantasias masculinas.
“Queima de arquivo” é muito bom, lida com o escrever do próprio conto, mostra a importância dos textos ocultos: “O leitor precisa ser informado, antes de prosseguirmos, de que a tal questão delicada não será esclarecida no decorrer desta história” (p. 57). Na vida real, também não se sabe tudo. Raramente as questões delicadas são esclarecidas.
Vale notar, por último, a edição caprichada. As ilustrações de Julia Debasse são bem bonitas e a diagramação deixa o texto aparecer.
Gostei. Gostei e vou ler outras vezes porque a cada leitura percebo o inusitado.
Rodrigo Novaes de Almeida estará na Primavera dos Livros, em São Paulo, em mesa do dia 24, sobre “Conflitos humanos e conflitos literários”. Integram a mesa, também, Juliano Garcia e Marcelo Mirisola. A programação está aqui:
http://libre.org.br/noticias.asp?ID=359

Jorge Amado

20 de novembro de 2012

“Dona Flor e seus dois maridos” é minha primeira lembrança de Jorge Amado. Não o livro, mas o  filme de Bruno Barreto (1976).

Sônia Braga no cinema, José Wilker jovem desfilando na minha memória, Mauro Mendonça como o  segundo marido.

Eu era jovem para entender os costumes que o filme transformava, mas lembro que meus pais gostaram bastante, comentaram muito.

E a música, “O que será” (do Chico), fez sucesso.  A música foi composta em três versões: Abertura, À flor da pele, À flor da terra . Os adultos ficavam se perguntando, o que será que é o que será? É porque  a ditadura e a censura estavam por ali e as palavras e frases  podiam ter significados diversos. E que o que será era, mesmo, uma pergunta. Sem resposta. Ou cada imaginava uma resposta.

E, na mesma época, tinha Sônia Braga na TV, em Gabriela. E Gal Costa cantando Gabrieeeela.

Todas essas cenas,  histórias e canções, quebraram regras e tabus.

Mas chorar, mesmo, com Jorge Amado, foi quando li Capitães de Areia.

Tenho a coleção dos livros de Jorge Amado em vermelho (Livraria Martins Editora), era da minha mãe. Os livros estão em ordem. Abri “Mar morto” outro dia e a tempestade colou em mim. Começa assim:

Aí  surgiu da memória minha passagem pela Fundação Jorge Amado, em Salvador. Lá, tirei fotografias dos livros expostos.

Jorge Amado, grande escritor brasileiro, foi traduzido em  49  línguas. Eu nem sabia que existiam tantas línguas. Por que a gente não fala mais de Jorge Amado?

É porque ele é como se fosse a gente, deve ser por isso. Só isso justifica a gente não falar mais e sempre de Jorge Amado.

Hoje, Jorge Amado é publicado pela Companhia das Letras. Os livros estão bonitos e renovados, atualizados. Não o texto, que é o mesmo, mas a cor, o cheiro, o formato, são novos.

Os livros reeditados são livros novos, por isso dá vontade de tê-los todos, mesmo que o escrito seja exatamente igual. Tenho várias edições de Lolita, de  O Grande Gatsby, de Em busca do tempo perdido,  cada  uma em um lugar da casa. Às vezes penso que poderia dar um ou outro livro, mas desisto, porque gosto de ver as capas diferentes. Livros existem para serem vistos, também.

Vou ler Dona Flor na minha edição vermelha, que não adota o acordo ortográfico, de jeito nenhum. Ainda não tenho a edição nova. Quem sabe.

Luiz Tatit na Casa do Núcleo

31 de outubro de 2012

O Rumo marcou época. Luiz Tatit conta bem a história do grupo: http://www.luiztatit.com.br/grupo_rumo/.
Eles eram intelectuais e sofisticados, mas simples. Discursivos. Poéticos. Estruturados. Espirituosos. Soltos. E a voz da Ná Ozzetti. Continua. Linda.
Luiz Tatit é professor de semiótica. Tem muitos livros publicados sobre esse assunto hermético. Quando canta suas canções, nada poderia parecer mais fácil. É difícil escrever fácil.
A Casa do Núcleo (www.casadonucleo.com.br) promoveu três noites de música e conversa com Luiz Tatit.
Na primeira, exibiu gravação de show com grupo Rumo em 2004, no SESC.
Na segunda, Tatit cantou canções do Rumo. Na terceira noite, cantou diversas dos últimos CDs, algumas parcerias e outras ainda não gravadas.
Esteve no palco da Casa do Núcleo com seu filho Jonas, também músico.
Os livros dele estavam à venda e estou aqui com “Semiótica à luz de Guimarães Rosa” (Ateliê Editorial).

Tatit examina escrita de Guimarães Rosa a partir de semiótica de Algirdas Julien Greimas.
A proposta é analisar a narrativa a partir de seus momentos de tensão, compreendendo, assim, como o interesse de um conto é preservado.
Tatit destaca, na introdução, aspectos que serão desenvolvidos, entre eles “interação entre surpresa e espera”, “importância do conceito de espera” e “intensidade como parâmetro musical de análise dos textos” (p. 16 e 17).
Guimarães Rosa é o grande escritor brasileiro e não consigo compreender como se pode traduzi-lo.
A língua portuguesa é o grande personagem em tudo o que escreve. Justamente por isso, lê-lo nem sempre é simples. A atenção deve estar dirigida à palavra em si e não só à história. Grande Sertão: Veredas, é meu livro preferido. Minha edição está gasta, amassada, porque demorei muito tempo andando com o livro pra lá e pra cá. Custei a me acostumar com a leitura.
De vez em quando, releio alguns trechos e é sempre uma surpresa, como se nunca tivesse lido.
Lendo o livro de Tatit, complexo, profundo e simples ao mesmo tempo, detenho-me na análise de “A terceira margem do rio” (p. 107-125). Gosto desse conto porque a história, não obstante estranha, me parece tão real. Muitas pessoas vivem na terceira margem do rio. Eu mesma, muitas vezes, estou nela, em espaço e tempo não determinados, ausente.
Este blog, por exemplo, está na terceira margem do rio.

As memórias do Sr. Nabokov

24 de outubro de 2012

Tem vezes que a gente lê prosa e é como se lesse poesia. Não importa a história, a coerência do relato, importa o som que as palavras produzem no pensamento. E a gente imagina o que está sendo dito.
Isso aconteceu agora comigo quando folheava o livro de Nabokov, A pessoa em questão, da Companhia das Letras (1994). É mais ou menos uma autobiografia, sem compromisso de ser uma autobiografia. Em inglês, o título é Speak, memory. E é isso mesmo.
Quando a gente começa a lembrar o passado, surgem falas, penumbras, ventos, ondas emotivas. A certa altura, ele diz: “Confesso que não acredito muito no tempo. Gosto de dobrar meu tapete mágico, depois de usá-lo, de modo a superpor uma parte do desenho a outra. Os visitantes que tropecem” (p. 123). Ninguém tropeça. Pelo contrário. O leitor desliza devagar.
Encontrei, dentro do livro, uma resenha do próprio Nabokov de seu livro, publicada na Folha de São Paulo, no Mais, em 18 de abril de 1999. Ele fala das memórias como se escritas por outro, pelo Sr. Nabokov. É muito interessante. Diz, por exemplo: “Com a permissão do autor, menciono aqui um de meus contatos acidentais com sua família”. E também: “O Sr. Nabokov deve achar estranha essa rememoração das extravagâncias literárias dos anos de sua juventude”.
O jornal dentro do livro está amarelado, mas intacto.
Imaginei, imediatamente, meu querido sogro, Tomás, destacando a resenha do suplemento para encartá-la no livro de modo que eu a lesse mais de 12 anos depois, hoje, exatamente.
E assim as memórias de Nabokov encontraram as minhas.

Flip 2013 Graciliano Ramos

2 de outubro de 2012

Graciliano Ramos será o homenageado da Flip em 2013. Quando penso no estilo seco, curto e intenso de Graciliano, principalmente em Vidas Secas e São Bernardo, eu me suspendo. Tudo fica no ar.

Falando em Graciliano, li outro dia, em “O conto brasileiro contemporâneo”, organizado por Alfredo Bosi, dois contos de Ricardo Ramos, seu filho. Circuito fechado (4) e Circuito fechado (5). Lindos, os dois. Vou até transcrever um pouco do último: “Não foi o amor, a certeza, o amanhã, foram as ideias de, o conceito, enfim a sua redução. Não foi pouco nem muito, foi igual. Não foi sempre, nem faltou, foi mais às vezes. Não foi o que, e onde, e quando. Não, não foi”.

Escritura e leitura: espantando a mosca

19 de setembro de 2012

Não sei o que começou primeiro, se a escritura ou a leitura. Acho que foi a escritura, porque me lembro da minha avó me ensinando a desenhar a letra P de meu nome. Foi difícil. Eu queria fazer o P bem redondinho, bonitinho. Aí não parei mais. Consegui desenhar o nome inteiro, escrevi bilhetes, diários, pequenas canções sobre o tema da rosa. Rosa flor. E veio a leitura. A primeira imagem da leitura é eu sentada no sofá marrom de casa lendo um livro, sozinha. E tinha uma mosca. Eu espantava a mosca e lia, lia e espantava a mosca. E depois li os livros todos do Tesouro da Juventude. Os Livros dos Porquês. Como se pode calcular a idade da terra? Os Livros dos Contos, as Lições Recreativas, a importância das pausas na música. E li A Ilha do Tesouro. Todo Monteiro Lobato. Os Diários de Sofia, Winnetou, As Mulherzinhas, O Diário de Anne Frank, Tom Sawyer, As Aventuras de Huckleberry Finn, as detetives de E.V.Cunningham. Agatha Christie. Marçal Aquino. Antônio Torres e Raduan Nassar. Maximo Gorki, Anna Kanerina, A Morte de Ivan Ilitch, D. Quixote, Os Miseráveis. Haruki Murakami e todas as suas Sputniks, Mishima, Kenzaburo Oe. O sertão de Guimarães Rosa, veredas. Os braços de Machado de Assis. Livros e personagens se misturam, hoje em dia todos me rodeiam, já não sei dizer se Tolstoi escreveu Anna Karenina ou Anna Karenina escreveu Tolstoi. Os livros ficam em volta, sempre tenho com quem pensar junto. Diálogos silenciosos acontecem e meu universo fica universal. Estar aqui ou na África, com Karen Blixen, é indiferente. De vez em quando ainda preciso espantar aquela primeira mosca voando.

(escrevi este texto instigada por publicação de primeiro livro da Editora Vagamundo, História Íntima da Leitura. Foi publicado em http://editoravagamundo.com.br/historiasdosleitores/historia-intima-da-leitura-paula-fernandes/)

Quem nunca se sentiu sozinho no deserto extremo?

5 de setembro de 2012

Livros ardem. Davi acorda. Não tem ninguém. Só as coisas. Os DVDs, fogos de artifício, os lugares, existem. A Avenida Paulista existe.  As pessoas, não. Só as roupas ficaram. Mas ele nunca gostou das pessoas, mesmo. Com exceção de Vivian, eu acho.

Outros  sobreviveram, espalhados: um bebê, um prisioneiro político na China, uma passageira em um avião, uma maníaco-depressiva em Nova York, um pesquisador na Antártida.

E ele, Davi. Um homem comum. Sem qualidades.

Davi e os personagens de seus livros. Mas ele ainda pode ver as pessoas em DVD. E a certa altura, ele diz: “A verdade é que não existe arte quando há apenas uma pessoa no mundo. Sem interlocução não existe poesia. Todos os filmes que Davi assistiu, até mesmo as produções mais requintadas, dirigidas com maestria, perderam o poder de transfigurar. Kurosawa, Bergman, Wenders…” (p. 101).

Faz tempo eu penso sobre isso, sobre a existência da arte. Essa é só uma das indagações que o livro de Luiz Bras (http://luizbras.wordpress.com) , “Sozinho no deserto extremo”, publicado pela  Prumo, suscita. A gente lê o livro junto com as lembranças de Kafka, Canetti, Musil, Nietzsche. Nietzsche e o eterno retorno.

Uma das primeiras lembranças que eu tenho de meu pensamento era um exercício de imaginação que me dava aflição: e se nada existir, nem mesmo eu? Meu pensar surgiu a partir da ideia do nada. Para Davi, ainda sobrou ele mesmo. E a pergunta inversa é: será que ele existe, sem os outros?

Onde está o deserto extremo?

Deserto extremo?

O deserto é aqui.

( livros ardem)

Ainda sobre Nabokov e Humbert Humbert

15 de julho de 2012

Dia 22 de junho  escrevi sobre Lolita e Nabokov e hoje, inspirada pela leitura do jornal, volto ao assunto.

No Caderno 2 (O Estado de São Paulo), Luis Fernando Verissimo contou que deu uma entrevista à Radio Batuta, do Instituto Moreira Salles, na Flip, dizendo que seu personagem literário inesquecível  é Humbert  Humbert, de Lolita,  Nabokov.  Humbert  Humbert é “uma figura monstruosa e fascinante”, ele disse.

Eu também acho. Humbert Humbert é um personagem totalmente verossímel, nós acreditamos nele. Seguimos  seus pensamentos com extrema curiosidade e espanto: como ele pôde ir tão longe?

Ele (Humbert Humbert) escreve  na prisão.  É,  paradoxalmente, e talvez por isso mesmo,   livre para escrever o que quiser e como quiser.  E ele até poderia ir mais longe. Ainda transcrevendo Verissimo, “os explicadores de Nabokov, com a mesma intensidade dos fundamentalistas, combatem a ideia de que Lolita seja pornográfico”.

Nabokov  também foi livre para escrever Lolita e sabemos que ele e seu personagem não têm nada em comum. Como lembrou Veríssimo, ele nunca diria, “Humbert Humbert  sou eu”.

A  revista Serrote 11, do Instituto Moreira Salles, publicou  ensaio “Nabokov & Machado”, de Brian Boyd.  O ensaio, que vem acompanhado de lindas ilustrações de borboletas, desenhadas por Nabokov,  é de uma profundidade intensa. Lerei e relerei para poder escrever sobre o texto que mostra pontos em comum entre dois grandes escritores: Machado de Assis e Nabokov.  Por enquanto, hoje, fico com as lindas borboletas.

Segue link para o vídeo da Rádio Batuta: http://ims.uol.com.br/Radio/D1048

Flip 2012 – Qual é meu livro de cabeceira?

11 de julho de 2012

Fui ao encerramento da Flip 2012 em Paraty no dia 8 de julho, domingo. Vi  Hanif Kureishi e Gary  Shteyngart no telão e assisti ainda ao último encontro em que convidados  leram seus textos prediletos.

Hanif Kureishi é um dos meus escritores favoritos. Li  “Tenho algo a te dizer” (Companhia das Letras) em uma fase importante da minha vida, achei avançado,  um retrato dos personagens em que nos tornamos todos, de um jeito ou de outro.

Não conhecia Gary Shteyngart  e quero ler um de seus livros, vou ainda decidir qual. Ele é sutilmente engraçado, me fez rir. Disse que importa escrever com honestidade. É o que procura transmitir a seus alunos. Fiquei me perguntando se escrevo com honestidade.

Hanif Kureishi também ensina e acha que pode ajudar os alunos a organizarem o material que têm. Pode dar dicas, ser um pouco editor. Falou de muitas coisas, mas que a escrita procurou resolver, para ele, uma questão de identidade. Havia uma pergunta vital: De onde você é? Isso foi dito no contexto de uma discussão sobre diferenças culturais. O tema da conversa, por sinal, era “Entre fronteiras”.

O último encontro da Flip, em que escritores leram escritores, foi memorável. Assisti ao vivo, sem intermediação da tela.  Autores presentes, autores passados, leitores, ouvintes – muitos  também escritores-, todos nos deslumbramos com récitas em diversas línguas.

Os convidados  leram autores preferidos nas próprias línguas e não nas línguas em que escritos e foi maravilhoso. Digo para mim mesma que isso está certo, meu texto preferido é o texto que leio e  li e não o texto  como foi escrito. Pode até ser o texto não traduzido. Mas na maioria das vezes minha própria língua me mostra o escrito do outro e me mobiliza e emociona. Foi gostoso  ouvir  Lygia Fagundes Telles na voz de Zoé Valdez, em espanhol. No fim fiquei com a impressão de que tinha confundido línguas, leituras e leitores. Não estaríamos todos inseridos em uma mesma língua? Teríamos ouvido o mesmo texto?

Javier Cercas leu Cervantes e Juan Gabriel Vásquez  leu Onetti. Onetti precisa ser lido com calma, digo eu. Não é uma leitura fácil, embora seja uma leitura linda. Na Colômbia se fala um espanhol claro, luminoso. Luis Fernando Verissimo leu Millôr em português, com a nossa cadência daqui, o nosso modo de pronunciar as palavras e cantar as frases.

Saí feliz de Paraty. Voltei para Ubatuba tarde, para a minha praia nublada e chuvosa. Que eu adoro.

Fiquei pensando no texto  que diria em voz alta, se chamada fosse a tanto. Fiquei pensando no texto que recitaria para mim mesma, na minha sala de estar.  Pensei nas Viagens de Gulliver. Aliás,  Gulliver também estava em Paraty.

Marçal Aquino no B_arco Centro Cultural

30 de junho de 2012

Marçal  Aquino

Hoje fui ao B_arco Centro Cultural, em São Paulo (www.obarco.com.br).

Marçal Aquino falou  para público que frequenta as oficinas literárias coordenadas por Marcelino Freire.

Gosto dos dois escritores. Marcelino entrevistou, Marçal contou.

Contou sobre suas experiências  como jornalista, repórter policial, depois como roteirista. Falou de Amparo, sua cidade, de seu pai, de cinema, de “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios” (Companhia das Letras), de como o título do romance foi bem recebido e eventualmente não tão bem recebido. A tradução para o alemão não segurou o título, por exemplo. Fiquei curiosa para saber como ficou o livro em alemão, vou pesquisar. Li  em português. A história de amor é palpitante e às vezes triste (ela é toda meio melancólica, não estou contando final do livro, de jeito nenhum, até que termina bem). Adorei a ironia do diálogo do texto com o texto do professor Schianberg (quem leu sabe, não vou falar para não tirar a graça). Gostei tanto do livro que não quis assistir ao filme de Beto Brant, mesmo sabendo que é ótimo. É que a escritura faz parte da história e não sei se o filme manteve a intimidade da narrativa em primeira pessoa.  Cauby é um grande personagem. Imagens mudam tudo.

Marçal disse que o escritor cria a partir da imaginação, da observação e da experiência.  Cada leitor lê de um jeito, recebe o livro de um jeito particular. Ao responder pergunta sobre seus autores prediletos, disse que são muitos.  Mas citou, especialmente, Graciliano Ramos.

Sempre que posso, assisto aos escritores, quando falam. Marçal Aquino pensa muito rápido, fala rápido.  Pensa e fala ao mesmo tempo, sempre criando e recriando. Do encontro, ficou, entre tantas impressões, a frase, “eu sou escritor”.

Vladimir Nabokov e Lolita

22 de junho de 2012

 

Faz tempo quero escrever sobre Vladimir Nabokov e sobre Lolita.

Esperava o momento, que chegou quando  vi a maravilhosa edição francesa (Gallimard) na Livraria Cultura. A caixa que guarda o livro é aveludada e cor de rosa. Imagem e texto finalmente se complementam para mim, embora com alguma distorção, pois não tenho de Lolita imagem tão cintilante. Prefiro Humbert Humbert.

O livro parece um sonho de valsa.

Em francês, a primeira frase, que eu adoro, ficou assim: “Lolita, lumière de ma vie, feu de mês reins. Mon péché, mon ame. Lo-lii-ta: le bout de la langue fait trois petits pás le long du palais pour taper, à trois, centre le dents. Lo. Lii. Ta.”

Em português, na tradução de Jorio Dauster (Companhia das Letras e depois Folha de São Paulo), está: “Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo.Li.Ta.”

Há uma tradução anterior, de Brenno Silveira (Biblioteca Universal Popular). E recentemente a Alfaguara publicou tradução de Sergio Flaksman que ainda não vi.

A frase ficou bem nas palavras de Brenno Silveira: “Lolita, luz de minha vida, fogo de meus lombos. Meu pecado, minha alma. Lolita: a ponta da língua fazendo uma viagem de três passos pelo céu da boca, a fim de bater de leve, no terceiro, de encontro aos dentes. LO.LI.TA”.

Em inglês,  é assim: “Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin,  my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo. Lee. Ta.”

Em  português, os tradutores não repetem o i ao escreverem Lolita pela última vez, como faz Nabokov e o tradutor para o francês. E, na edição anterior, Lolita está em letras maiúsculas. Será que houve muita reflexão até se alcançar  um  Lo.Lee.Ta, ou LO.LI.TA, ou Lo.Lii.Ta?

Há uma breve biografia de Vladimir Nabokov escrita por Jane Grayson (Penguin Books). Ele nasceu em 1899. A biblioteca de seu pai tinha mais ou menos 5.000 livros.

Li o livro de Jane Grayson.  Nabokov foi professor  de literatura e dava muitas conferências. Escrevia-as, não falava de improviso. Lia, mas não percebiam – ele lia muito bem. Ilustrava suas aulas com desenhos divertidos. Era cientista, amava estudar borboletas, era bem humorado e usava as palavras com precisão. As línguas migrantes eram importantes para ele. Foi russo, foi inglês, foi americano e foi tudo junto.

Continuando a pesquisa, encontrei em minha biblioteca os seguintes livros de Nabokov: O Original de Laura (Alfaguara), Lolita – em inglês (Olympia Press), Lolita (Biblioteca Universal Popular), Lolita (Companhia das Letras), Lolita (Folha de São Paulo), Fogo Pálido (Editora Guanabara), Gargalhada na Escuridão (Boa Leitura S.A), O Olho Vigilante (José Olympio), Coisas Transparentes (Imago), A Pessoa em Questão (Companhia das Letras), Perfeição:contos (Companhia das Letras).  São poucos os livros, porque Nabokov escreveu 17 romances e muitos outros escritos.

Clarice Lispector disse a José Castello uma vez. “E com medo ninguém consegue escrever”  (José Castello, Inventário das Sombras, p. 20). Nabokov parece não ter tido o medo que impede a imaginação de registrar os  devaneios contorcidos da alma.

A  primeira pessoa de Humbert Humbert, seu discurso meticuloso, petulante e pouco incomodado com o leitor, com o ouvinte, são cativantes. Mergulhamos nessa realidade dele.

É como ele mesmo diz, quase no fim: “Esta, pois, é minha história. Acabo de relê-la. Tem pedaços de medula ainda presos a seus ossos, e sangue, e belas e reluzentes moscas verdes”.

Belas moscas verdes.

capa do livro de Jane Grayson (Penguin Books)

Literatura de viagem em viagem

8 de junho de 2012

Ainda falando sobre  literatura de viagem, vi na livraria do aeroporto de Congonhas outro dia um livro que me interessou: “A construção do Brasil na literatura de viagem dos séculos XVI, XVII e XVIII”, de Jean Marcel Carvalho França, publicado pela José  Olympio.

Gosto de olhar os livros de livrarias que não frequento porque a forma como são expostos é diferente e isso modifica meu modo de olhar para eles. Percebo temas e autores que não perceberia normalmente. E foi assim que aconteceu.

Fotografei a capa para não  esquecer do nome – não comprei na hora porque minha bolsa já estava pesada.

As narrativas de viagem dessa época mostram um Brasil deslumbrante. O  livro se propõe a  investigar em que medida o discurso contribuiu  para a formação de uma identidade brasileira.

Terminada a minha curta viagem a Brasília, finalmente tenho o livro comigo. O rigor da pesquisa me chamou a atenção, os textos estão todos publicados na Parte II, a antologia das narrativas é bastante extensa.

Quando estive na Amazônia, fiquei encantada  com a exuberância da floresta. E, por isso, fui logo ler a parte do livro que trata da descoberta do rio Amazonas. Segue breve trecho de relato de William Davies: “Os homens trazem, também, enfiado em ambas as orelhas, um toco ou caniço, aproximadamente da espessura de uma pena de cisne e com cerca de meia polegada de comprimento; ornamento semelhante é colocado no meio do lado inferior. Até mesmo no osso do nariz eles metem um pequeno caniço, onde penduram uma pérola ou uma conta que cai diretamente sobre a boca e balança de um lado para outro enquanto falam – o que é motivo de grande orgulho e satisfação. Os seus cabelos são longos, mas, nas proximidades da orelha, há uma parte arrendodada que é cprtada bem curta, rente à cabeça- à semelhança do corte de cabelo de um monge” (p. 353, 354).

Literatura de viagem

3 de junho de 2012

Depois das câmeras digitais, fotografar ficou muito fácil.

Todo mundo tira foto de tudo e o risco de ser flagrado em uma situação incoveniente aumentou. Inconcoveniente pode ser quase tudo, desde uma dose de álcool a mais até uma gargalhada em local imporóprio, uma festa entre amigos ou entre inimigos, uma bermuda mais curta no facebook de um colega de trabalho. E se a pessoa não tem facebook e não quer estar na internet, azar. Não vê a própria fotografia na rede.

Todo celular tem uma câmera fotográfica. Todo mundo tem celular. E todo mundo fica clicando no celular durante almoços, festas, reuniões, jantares,  restaurantes,  cinema,  hospital,  enterro.

Não sei se isso é ruim ou não, o fato é que é.

Isso tem a ver com literatura de viagens porque os  escritos nas viagens, os diários, são complementados pelas centenas de fotografias. Os diários não acabaram porque a escrita é irresistível. Quem escreve, escreve. Escreve e fotografa, eventualmente, mas sobretudo escreve.  Quem sabe desenhar, desenha também.

Talvez o texto seja diferente. Mais curto.  Mais pessoal. Mais íntimo. Mais fotográfico.

Relatos de viagens existem há muito tempo. Pero  Vaz de Caminha relatou nossas terras, nossa natureza e nossos índios. Jean Baptiste Debret desenhou e escreveu “Viagem pitoresca e histórica do Brasil”. Os desenhos são perfeitos. Ele devia passar horas bordando os relatos. Parece que o tempo deles, naquela época, era mais longo.

Não tenho muita paciência para escrever  diários nas viagens  Às vezes, anoto os lugares que visito, as impressões que tive, se discuti com alguém ou não, não muito mais. Tem gente que escreve tudo, o relato é parte da viagem.

Os estilos são variados. Hoje escrevo sobre um dos livros de viagem que andei lendo.

– Apontamentos de viagem, Penguin & Companhia das Letras, J.A. Leite Moraes, publicado em 2011. A introdução é de Antonio Candido. Leite Moraes foi advogado, político, professor, jornalista, liberal, escritor. A viagem, de São Paulo a Goiás e depois a Belém do Pará, começou no fim de 1880. Transcrevo  parte da intodução de Antonio Candido: “O motivo da viagem foi, como vimos, a nomeação para o cargo de presidente daquela província central, de acesso muito difícil no tempo. A sua missão consistia em presidir as eleições de acordo com a nova lei eleitoral, conhecida na história como lei Saraiva, que modernisou e liberalizou a legislação, estabelecendo o voto direto por distritos, com um deputado para cada um” (p. 12).

Os tempos da viagem fluvial eram outros.

Olha só: “Neste dia, achei-me sempre sentado ao pé do leme, junto ao piloto, o prático basílio, no tombadilho, com a minha espingarda atravessada sobre o colo, e de momento a momento atirava ora um pato, ou uma marreca, ou uma gaivota, ou um mergulhão, ou um socó, ou uma arara, enfim todo pássaro que passava-me pela frente” (p. 90).

Haruki Murakami

22 de maio de 2012

 

Haruki Murakami, Kenzaburo Oe, Yasunari Kawabata, Jun’Ichiro Tanizaki, Mishima: escritores japoneses. São complicados e simples, antigos e modernos, às vezes tudo junto, só sei que entendo quase tudo o que eles dizem e querem dizer e o que não compreendo fica naquele espaço da leitura que não quer ser descoberto.

Li “Do que eu falo quando eu falo de corrida” (Alfaguara), de Murakami, corredor de longuíssimas distâncias. Gosto de correr e não corria fazia tempo porque me machuquei. A corrida fica me cutucando, quero voltar, sei que está na hora de voltar a correr, antes que eu não consiga mais, enquanto ainda posso correr.

E o livro me inspirou, me convenci de que precisava tentar de novo. Ouvi algumas das músicas de Murakami (Stones e Clapton), transferi para o Ipod, comprei um bom tênis novo, uma bolsa de levar chaves.

Pus bateria em  um velho GPS, os de hoje com certeza são mais modernos, mas o meu funcionou bem. Hoje consegui correr  40 minutos. 5 quilômetros. Na verdade eu trotei, não corri. Eu chego lá. O importante foi dar voltas no Parque Villa Lobos, passar 2  vezes pela Marginal Pinheiros e olhar os carros longe, da pista de corrida, correndo no sol, com um pouco de vento no rosto.

Eu me senti bem.

Antes de ler “Do que eu falo quando eu falo de corrida”, li “Minha querida Sputnik” (Alfaguara). Uma cena me me impressionou muito: a da roda gigante. Quem leu  entende. Nunca vou esquecer da imagem que Murakami passou pra mim naquela narrativa.

Antes, ainda, li, também de Murakami, Caçando Carneiros (Estação Liberdade). Foi publicado antes dos outros, foi escrito antes, também. Comprei, outro dia, também dele, Dance, Dance, Dance (Estação Liberdade).

Agora estou lendo As irmãs Marioka, de Tanizaki (Estação Liberdade). Estou na página 159, economizando, porque o livro é muito bom, ele não perde a paciência para contar a história, vai contando devagar e não é nada monótono, parece que eu vejo as cenas, os personagens, ouço as conversas.

Literárias e Ubatuba

16 de maio de 2012

Literatura e Ubatuba têm muito ou pouco em comum. Passei domingo lá e o dia estava lindo de tão feio. Ninguém na praia. Quer dizer. Passou um carro na areia, uma caminhonete. Eu andando e aquele carro grande vindo na minha direção. É proibido, quis gritar. E se ele me atropelar? Não resisti ao pensamento. Fui para o canto. Primeiro para a beira, no mar. Depois para a beira, na grama. Ele continuou devagar. Mas que impulsos não pode ter  um motorista de caminhonete dirigindo na areia em uma praia longa e absolutamente vazia, com exceção de uma caminhante solitária? No dia das mães? Ficções.

E a Virada Cultural. Marcelino Freire e Evandro Affonso Ferreira na Casa das Rosas. Às 2 da manhã. Amigos. Divertidos. Profundos. Complexos. Literatura.

E Valter Hugo Mãe na Livraria da Vila, Fradique, 12 de maio.  Valter Hugo Mãe é legal. O discurso dele é sedutor. Fala bem, pensa bem, vai direto no coração. Atinge. Daniel Benevides, da Cosac Naify, ciceroneou, recebeu, coordenou, fez as perguntas. Ele é muito inteligente.

Leituras: Haruki Murakami. Minha querida Sputnik e Do que eu falo quando falo de corrida. Eu queria escrever como Murakami. Queria correr como Murakami.

Viajando nas Viagens de Gulliver

3 de abril de 2012

Resolvi encarar Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift. Estou aqui com a edição Ediouro/Publifolha, 1998. A tradução é de Octavio Mendes Cajado e  há texto de Rui Barbosa completando tudo.

A narrativa é em primeira pessoa. O período das viagens: dezesseis anos e sete meses. Publicação do livro: 1726.

O narrador é sutilmente irônico, astuto observador e analista da política de seu tempo.  Escreve como se estivesse vendo o leitor e nos sentimos parte das histórias, visualizando Lilipute e seus diminutos habitantes, assim como Brobdingnag e seus gigantes. Ele visita outros lugares, mas ainda não fui a todos. Passa por aventuras e desventuras, é grande e pequeno, inocente e esperto, amigo e ladino.

Swift brinca com verdades e mentiras, ficção e realidade, com a verossimilhança. E brinca com a linguagem, inventando nomes esquisitos para pessoas e lugares onde as línguas são estranhas – e mesmo assim ele é bem sucedido ao aprendê-las – o suficiente para a comunicação.

Viagens de Gulliver é um livro sobre viagens fictícias e reais. Ele acredita nas viagens que fez. E nós também queremos ir a Lilipute, Laputa, Luggnagg. De navio.

Sobre Diário da Guerra do Porco- Adolfo Bioy Casares

4 de março de 2012

Fui ao Clube de Prosa promovido pela Cosac Naify na Livraria Cultura em 28 de fevereiro.  A conversa girou em torno do  livro de Bioy Casares, Diário da Guerra do Porco (Cosac, 2010). Júlio Pimentel Pinto, professor da USP, foi mediador.

Um clube de prosa, ou de leitura,  é  reunião  em que o mediador discorre um pouco sobre o escritor e sobre o livro previamente sugerido, introduzindo contextos. As pessoas  falam, se querem. Quem estava lá, no dia 29,  conhecia o livro, o autor, ou gostava de literatura. O bom desses encontros é que você  não tem a menor obrigação de falar. Simplesmente está.

Tirando o calor insuportável daquele fim de tarde, passei momentos agradáveis na Livraria Cultura. Eu tinha lido metade do livro; terminei depois, em casa. O mediador teve o grande mérito de não falar o óbvio. Foi absolutamente bem sucedido em enfatizar o caráter ficcional do romance, em que real e fantástico se misturam para mostrar como é duro envelhecer. Arnaldo Antunes compôs uma canção sobre isso.

Júlio Pimentel Pinto  lembrou que um bom romance deve ter “fios meio soltos”, que toda ficção tem papel revelador que ilumina experiências de vida.  A ficção lida com mundos alternativos, com o que poderia ter ocorrido e não ocorreu. Na ficção, nem tudo precisa ser resolvido; o contexto ficcional é instável, incerto. Para mim, que escrevo, quero escrever melhor,  foi importante.

Sobre o livro, completaria a conversa dizendo que o romance pode ser examinado, também, sob o contexto do conflito entre pais que não se sentem velhos e filhos que já são mais velhos. Uns e outros não sabem lidar com essa aparente igualdade e a comunicação demora a se acostumar com a mudança. Há quem nunca ultrapasse o estranhamento. Esse é só um dos aspectos. Outro – e agora formal – é que o narrador, o escritor do diário,  não está na história, mas existe. O diário é do narrador onisciente que não faz parte da história, e no  entanto conversa com o leitor, referindo-se a si mesmo na primeira pessoa. Isso não acontece sempre. O recurso permite refinamento da linguagem, certas digressões e reflexões que não seriam possíveis se o próprio Isidoro Vidal- o personagem principal – fosse o narrador. E como o narrador acompanha Isidoro muito de perto, logo a narrativa retoma o curso para o final, pacificador. A história tinha tudo para dar errado. Terminou bem.

 

 

James Wood: Como funciona a ficção (Cosac Naify)

26 de novembro de 2011

Fui ao Clube de Prosa da Cosac Naify na Livraria Cultura em 23 de novembro. O livro escolhido: Como funciona a ficção, de James Wood, publicado pela editora  em 2011.

O mediador,  Daniel   Benevides,  estava super bem preparado. Falou sobre James Wood, crítico americano que escreve para a New Yorker e já publicou outros livros.

Pena que precisei sair mais cedo. Até o momento em que fiquei, a conclusão era a de que o livro desmistifica leitura, aproximando livros e pessoas.

É verdade. E o livro é importante, também,  para quem escreve e quer escrever mais e melhor. Gosto de ler a parte em que ele fala da  personagem de ficção.

James Wood reflete sobre  Jean Brodie, personagem criada por Muriel Spark,  que nunca li. A Srta. Brodie é uma professora que aparece por meio de seus alunos. Olha só: “Ao reduzir a Srta. Brodie a uma simples coleção de máximas, Spark nos obriga a virar alunos de Brodie. No decorrer do romance, nunca deixamos a escola ou vamos para casa com ela. Nunca a vemos em sua vida particular, fora de cena. A Srta. Brodie é sempre uma personagem em ação, mantendo uma face pública. Supomos que há alguma frustração e mesmo certo desespero nela, mas a romancista nos nega  acesso ao interior do personagem” (p. 107).

Fiquei curiosa para conhecer Muriel Spark e a Srta. Brodie. Mesmo sem ler The prime of  miss Jean Brodie,  já gosto da Srta. Brodie.

Agora essa frase de James Wood – Spark estava profundamente interessada no quanto podemos conhecer de alguém –  refere-se, no meu ponto de vista, ao assunto principal da literatura.

Segue link para texto de Daniel Benevides sobre o livro no blog da Cosac: http://editora.cosacnaify.com.br/blog/?p=9946.

São Francisco

3 de agosto de 2011

Quando a gente chega em uma cidade estrangeira, fica meio que patinando no gelo. Tenho uma sensação deslocamento nesse primeiro momento de trânsito. É uma bobagem essa instabilidade, as pessoas são todas muito parecidas em todo e qualquer lugar. O frio na barriga só diminui quando chego ao quarto do hotel e o quarto é bom. Quando eu uso o cartão de crédito pela primeira vez e ele funciona, também fico mais tranquila.
Em São Francisco, a impressão inicial foi boa, porque o aeroporto é bonito e já não precisávamos fazer alfândega, resolvida em Dallas. Em Dallas também passamos por revistas pessoais e de bagagem de mão antes embarcarmos. Eles são bem treinados e conduzem as coisas de um jeito muito prático, quando a gente menos espera já tirou sapato, passou pelo raio x e tudo bem. Alguns passam por aquele scanner de corpo, mas não todos. Eles selecionam por sexo, idade, estilo, eu acho. Eu não passei pelo scanner, ainda bem.
As lojas de aluguel de carro não ficam no mesmo setor, é preciso pegar um trenzinho para ir até lá. É um pouco chato isso, mas é rápido.
Estou mudando um pouco a ordem das coisas na narrativa, mas tudo bem. Tive vontade de falar sobre os primeiros estranhamentos em um país estrangeiro.
Em São Francisco fomos à City Lights (www.citylights.com), livraria e editora com lugar marcado no debate de ideias que, na década de 50, abriram espaço para a geração beat. Fica perto do Zoetrope. Lawrence Ferlinghetti e Peter D. Martins fundaram a livraria em 1953 e ela passou a ser ponto de encontro literário. A editora publicou Howl and other poems, de Allen Ginsberg. Ferlinghetti e o gerente da editora foram processados por publicarem material obsceno.
A livraria tem um andar meio que em um porão, um subsolo, onde ficam livros diversos. No andar em que se entra, térreo, estão livros sobre a cidade, movimento beat, geração beat, revistas especializadas em literatura, poesia. O espaço não é grande, mas tem muitos livros bacanas. O problema é que a gente precisa deixar a bolsa na entrada, com o menino que fica no balcão, e eles não têm armários com chaves, então é chato, não dá vontade de ficar um tempão lá com medo do furto de passaporte, bolsa, dinheiro, carteira. Mas mesmo preocupada consegui escolher alguns livros que parecem ser ótimos: 1)- White hand Society: The Psychodelic Partnership of Thimoty Leary and Allen Ginsberg; 2)- Bob Dylan in America; 3)- Reclaiming San Francisco: History, politics, culture.
Depois, ainda naquela tarde, fomos ao SFMOMA. Chegamos quase na hora de fechar, faltava uma hora e pouco, na verdade. Mas entramos assim mesmo. Só que me decepcionei, porque acabamos comprando ingresso para a exposição geral e não entramos na exposição com obras da Gertrude Stein (The Steins Collect: Matisse, Picasso and the Parisian Avant-Garde). Aí não vimos Picasso e outras maravilhas. Mas deu pra ver Andy Warhol. E na loja do museu comprei dois livros sobre escrita: Maps of imagination: the writer as a cartographer e The creativity book. O último dá muitas dicas para a escrita, entre elas uma biografia com 2.500 palavras.

Viagens imaginárias

26 de junho de 2011

Vou  para a Califórnia em dez dias e estou ansiosa, arrumando  papéis, livros,   textos, meu escritório. Já me conheço e sei que essas neuras acontecem antes de sair de casa. Enquanto estou em casa, fico em casa; e quando sei que vou viajar quero organizar tudo, tenho medo de voltar e não me lembrar de por que cada coisa estava em um determinado canto, tenho medo de perder os textos e as coisas que representam as minhas ideias, todas abstratas como são as ideias, intocáveis. Preciso muito de representações: livros, revistas, ipad, netbook, notebook, desktop, smartphone.

Vou começar relacionando as idéias que eu tive e não desenvolvi: 1)- Escritor Howard Fast, pseudônimo E.V. Cunningham. Escreveu diversos livros policiais em que as personagens principais são  mulheres: Penélope, Lidia, Samantha…      Olha que  site   legal: http://www.trussel.com/hf/women.htm. Não é demais um cara escrever sob pseudônimo com iniciais e sobre mulheres,  e dar os nomes delas aos livros? Eu acho demais; 2)- Vila-Matas: Li  Doutor Pasavento e estou lendo Bartleby e companhia. Os dois são da Cosac Naify, que publicou outros tantos livros dele. Gosto da escrita dele sobre a não escrita, sobre as escrituras imaginárias, sobre os ditos não ditos. O discurso dele me agrada muito. Eu mesma sou uma escritora imaginária. Mas tenho escrito tanto que não me reconheço. Será que vou virar escritora de verdade? Não sei, não sei. Assim espero (alguém espirrou aqui em casa); 3)- Livros de viagens: quero escrever sobre viagens, inclusive as não viajadas. Lugares aos quais não fui, por exemplo. Não sou uma viajante muito expressiva ou aventureira, mas uma ida de ônibus a Santos já estimula os meus sentidos. Ainda estou pensando em como seria esse livro, não sei se seria um diário de viagens. O problema é que quando viajo reúno tantas informações sobre o lugar quando já estou lá e depois, na volta, compro tantos livros, que fico com preguiça. Não posso idealizar tanto assim o livro, não é pra ser uma enciclopédia. Antes não pesquiso nada sobre o lugar; arrumo as minhas coisas, como já disse. Minha mente é um liquidificador potência máxima. Uma centrífuga seria mais útil.

Reli agora um post antigo deste blog (Soul Kitchen e o peso do corpo). Fala sobre o Doutor Pasavento, de Vila-Matas. Estou no mesmo lugar. Ideias recorrentes.