Sobre eventos literários e escritores que foram espiões e um pouco sobre o escritor Eduardo Halfon no Emil e também sobre Leonardo Padura

15 de novembro de 2015

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Espião é o sujeito que observa secretamente para passar informações. Alguns escritores foram espiões e, de certa forma, isso não é estranho, já que escritores são bons observadores e bons observadores podem ser bons espiões.

Tenho visto e lido escritores durante muitos anos e hoje em dia eles precisam falar, também, explicar verbalmente como escrevem. Os diversos eventos literários mostram escritores nem sempre acostumados aos discursos esforçando-se para dizer. Sinceramente, não sei se hoje há escritores espiões e nem mesmo sei se há espiões como antes havia. Só o tempo para dizer isso.

Agora em São Paulo está havendo o 1º Encontro mundial de invenção literária (Emil) e eu não estava muito ligada em assistir porque o evento se pulverizou muito pela cidade e já irei à Balada Literária que começa agora quarta-feira porque nela lançaremos nosso Fancine (nós é o Coletivo Literário Martelinho de Ouro) e não quero transitar demais. Mas, por coincidência, passei pela Livraria da Vila da Fradique ontem enquanto o escritor Eduardo Halfon falava e sentei ali para ouvir porque quando um escritor fala e você por acaso passa no lugar, precisa parar. Eu não o conhecia. Comprei o livro (O boxeador polaco-Rocco) e já vou ler e conhecer, mas gostei quando ele contou que fala inglês muito bem porque mora nos Estados Unidos, mas só escreve na sua língua, espanhol.

Nabokov só escrevia em inglês. Isaac Beshevis Singer só escrevia em iídiche. Isso me faz pensar que a escrita ficcional vem de uma parte do cérebro que dá muita atenção à identidade afetiva, não sei se posso falar assim. A escrita ficcional brota e, se brota, ainda que com esforço, não pode haver outra etapa entre a ideia e o papel. Não deve haver uma tradução pelo próprio escritor no trajeto da ideia à tela, ao papel. Claro que isso não é uma regra. Eduardo Halfon diz que não traduz pessoalmente seus livros para o inglês. Não havia muitas pessoas assistindo, mas havia uma moça traduzindo tudo o que era dito para libras, a linguagem dos sinais. Imagino que essa tradução tenha sido constante no Emil, em todos os eventos.

Agora como vou juntar essas reflexões aos escritores espiões que me fizeram sentar e escrever neste domingo (e não gosto de domingos)? É um livro que eu tenho que fala sobre isso, de Fernando Martínez Laínez, da Relume Dumará, que me chamou. Faz tempo quero falar sobre esse livro. Chama-se Escritores e espiões. O autor escreve sobre muitos escritores que foram espiões: Francisco de Quevedo, Christopher Marlowe, John Le Carré, Pierre-Augustin Caron Beaumarchais, Miguel de Cervantes, Graham Greene, François Rabelais, Aphra Behn, Josep Pla, Voltaire, Daniel Defoe.

Imagine se esses escritores precisassem dar entrevistas sobre suas atividades, sua vida. Não teriam o que dizer, ou inventariam fatos e fotos, representariam personagens. Não é isso que vejo, hoje, nos eventos literários. A maioria dos escritores tenta ser sincero, leva as perguntas a sério. Há exceções, claro, mas os que tenho visto procuram ser verdadeiros. Ou tentam parecer verdadeiros.

E se o autor escreve sob pseudônimo? E se faz muito sucesso e, mesmo assim, não quer dizer quem é? Será que a identidade de um escritor é útil para a compreensão de sua obra? Fico pensando se não é melhor que a obra prevaleça sobre seu autor, que ele se desvaneça nela.

Às vezes não quero conhecer um escritor cuja obra admiro muito. Prefiro não falar com ele e nem mesmo ter o autógrafo se for ao lançamento (se não for amigo, de livro de amigo sempre gosto, e com autógrafo). Porque posso ficar confusa e o livro nunca será o mesmo se o escritor não tiver sido muito simpático, ou afetuoso, e não corresponder às minhas expectativas naquele momento. Ontem fiquei em dúvida se esperaria Eduardo Halfon para o autógrafo.

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Outro dia, no Colégio Santa Cruz,assisti ao escritor cubano Leonardo Padura, que tem feito muito sucesso com seus O homem que amava os cachorros e Hereges, os dois da Boitempo Editorial. Ele foi entrevistado por professores que super conheciam sua obra e ele mesmo é da academia, então a conversa foi bastante profunda. Ele estava tão compenetrado, foi tão cuidadoso nas respostas, falava em espanhol e era perguntado em português. Ele se colocou, ali, de uma maneira quase que impenetrável, embora simpática. Gostei desse jeito dele. Estou lendo O homem que amava os cachorros e não vejo o autor na leitura. O livro tem a própria identidade. Quero ler os romances policiais de Padura. Devem ser um pouco diferentes.

Entrevistas com escritores

17 de outubro de 2015

Se um dia me perguntarem o que coleciono, direi: entrevistas com escritores. Sempre gostei.
Em uma entrevista, o escritor pode dizer qualquer coisa porque a resposta nunca será checada. Não é uma informação que ele dá. É um estado de espírito, um devaneio, uma luz qualquer que pode iluminar outros escritores.
Não sei exatamente quem lê essas entrevistas, se são leitores ou escritores. Acho que os primeiros, já que os segundos gostam de mergulhar na ficção.
Gosto de ler entrevistas bem longas.
A Companhia das Letras publicou muitas da Paris Review (“As históricas entrevistas da Paris Review”, “As entrevistas da Paris Review”). São quatro livros (1988, 1989,2006, 2006).
No primeiro estão E.M. Forster, Dorothy Parker, Faulkner, Simenon, Pound, T.S.Eliot, Céline, Evelyn Waugh, William Burroughs, Saul Bellow, John Dos Passos, Borges, Isaac Bashevis Singer, John Cheever, Gore Vidal, Nadine Gordimer, Kundera.
Simenon disse que segue conselho de Colette: não escrever de um jeito muito literário e isso significa tirar do texto advérbios, adjetivos, “a frase que está lá só por si mesma”. Não revê o enredo, mas muda nomes de personagens e depois uniformiza. Tem sempre algumas ideias e, antes de começar a escrever, escolhe uma. Aí procura uma atmosfera (um sol, uma primavera). Uma cidade, personagens e um mundo se forma. E aquela ideia primeira se junta ao ambiente. E, com o problema, surge o romance. Um dos problemas recorrentes é o da comunicação. É trágico, para ele, que, entre milhões de pessoas, a comunicação completa é impossível entre duas delas. Outro é o da fuga: mudar de vida totalmente.
Eu me identifico com essa fala de Simenon. Também me interesso pela mudança de rumo na vida, pelo desaparecer das pessoas, por morte ou outro motivo. E a impossibilidade de comunicação completa, o não compreender o outro, me afligem.
Outra entrevista bacana é a de Milan Kundera. Diz muitas coisas interessantes, e uma delas é “todos os meus romances são variantes de uma arquitetura baseada no número sete”. Capítulos são independentes, como compassos de uma partitura musical: moderato, presto, andante. “A festa do adeus”, porém, tem cinco partes, assim como “Risíveis amores”. E ele diz mais: a verossimilhança não é necessária. A farsa é permitida. O divertimento é importante. Seus romances unem elementos heterogêneos (polifonia) e há também, em alguns, a farsa, que chega ao inverossímil.
Entre Simenon e Kundera não há nada em comum. Mas aprendo, com os dois, a respeitar meu próprio modo de imaginar situações e personagens, concretizando-os no mundo da ficção, que certamente existe.

Sobre as cartas de Mário de Andrade no Centro Cultural Correios

23 de setembro de 2015

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Sábado o centro de São Paulo fica diferente, as pessoas andam mais devagar. Não fosse o calor forte e o dia seria perfeito para visita ao Centro Cultural Correios, na Avenida São João, sem número.

Estava curiosa porque nunca tinha estado lá e sabia que o edifício era bonito. Queria ir à abertura da exposição Mário de Andrade: Cartas do Modernismo.

A curiosidade não era para ver as cartas em si. Tenho alguns livros com coleções de cartas de Mário de Andrade a Drummond e a Manuel Bandeira e Anita Malfatti. Queria ver o edifício,  estava com saudades de cartas, selos e envelopes, uma atração antiga.

Havia, logo na entrada, a escrivaninha com máquina de escrever e muitas cartas no chão, impressas (instalação  de Guilherme Isnard e Rafael Renzo). Denise Mattar, a curadora, estava lá e logo disse que podíamos pegar algumas cartas.

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Gosto de ir a aberturas de exposições, há toda uma energia de primeiro dia, as obras ainda parecem meio desconfortáveis nos lugares onde postas. A sensação é totalmente diferente da dos dias intermediários ou finais, em que tudo já se acomodou, já se escreveu sobre, fotografias já foram divulgadas e os trabalhos estão descansados.

Vi desenhos originais do próprio Mário de Andrade, de Manuel Bandeira – dedicado a ele -,de Portinari. Havia reproduções, também, que não me incomodaram. O importante era ver o contexto de Mário de Andrade e isso foi possível por meio de fotografias, do espaço físico, dos desenhos e pinturas.

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Era possível interagir e escrever para Mário. Havia uma mesa com folhas e envelopes e talvez algumas cartas sejam publicadas em um livro sobre a exposição, foi o que entendi. Não escrevi carta, até gostaria, mas, ali, não me inspirei.
O que mais me impressionou foi a correspondência com Portinari. Achei sincera e tive a impressão de que, entre eles, havia poucas dissonâncias e muita compreensão.

Fico pensando que não há mais cartas hoje, mas mensagens eletrônicas em que as conversas podem ser extensas, mas geralmente não são. Quando se fala muito em um e-mail, logo se tem a sensação do exagero, surge uma culpa de ter dito demais. Nas cartas penso que isso não acontecia, a pessoa escrevia o que queria, as introduções e despedidas eram demoradas e às vezes solenes, mesmo entre amigos. Depois se colocava a carta em um envelope e pronto, não se pensava se alguém um dia leria ou não, esse não era um problema.

É sempre é gostoso ler as cartas de quem a gente gosta, principalmente quando já morreu. Parece que a gente ouve a voz da pessoa. Sensação que não tive com as cartas de Mário de Andrade, porque não o conheci. Eu me sinto invadindo uma conversa ao ler as cartas de pessoas que não conheço. Aquela intimidade não é para mim. Mas, e isso é estranho, tenho muitos livros com correspondências.

Eu me pergunto, aí, se Mário de Andrade aprovaria a leitura de sua correspondência por estranhos. Acho que, como escritor, sim, até porque a correspondência está sempre associada ao modernismo, movimento de importância cultural e política. Talvez esse fosse um bom assunto para uma carta a Mário.

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Voltando da exposição, durante a semana, li e reli cartas entre Mário e Drummond (engraçado chamar o primeiro pelo nome e o segundo pelo sobrenome, mas me pareceu melhor assim) que estão no livro Carlos & Mário, com organização e notas de Silviano Santiago (Bem-Te-Vi, 1988). As despedidas são sempre carinhosas, de um e de outro. “E este abraço enorme para você” (Mário), “Mas esta carta já vai comprida, e por isso te abraço com fraternal amizade e te peço não se esquecer nunca do Carlos”, “E esta minha amizade toda pra você” (Mário).

P.S. Essa matéria de O Estado de São Paulo fala da exposição com objetividade: http://migre.me/rBsCp

Agora em e-book, Nove tiros em Chef Lidu

13 de agosto de 2015

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Agora está o Chef Lidu nas páginas da Amazon, Apple, Saraiva, Kobo, Google. Baixei de todos, comprei meu livro, adoro ver a capa vermelha e branca no celular e no computador, em qualquer lugar, na nuvem.Trabalhamos duro para chegar a esse ponto, editora Circuito, e-galáxia, eu.

Gosto muito de Nove tiros em Chef Lidu. É claro que gosto de Viagem sentimental ao Japão, o primeiro romance. Mas é que o Chef Lidu, tendo sido o segundo, foi e é comparado ao primeiro, e há quem prefira o primeiro, que foi uma novidade e uma surpresa, poucos sabiam que eu levava tão a sério a literatura. E o livro provoca, mesmo, um encantamento.

Considero Nove tiros em Chef Lidu um passo a mais na minha escrita, um passo preocupado com os diversos aspectos da narrativa e com o humor na forma de narrar, que eu gosto de ouvir nos outros e que o personagem, Elvis, tem de sobra. Gosto da ingenuidade do escrivão de polícia de primeira viagem que precisa relatar a verdade no processo e não sabe bem qual.

A versão digital, pela e-galáxia, completa a impressa, tão bem editada pela editora Circuito.

Joan Miró, François Truffaut, quatro livros e a neve

14 de julho de 2015

Aconteceu uma coisa importante, eu vi a neve. Em Bariloche, na Argentina.

Achei tão linda quanto o mar.

E estou lendo quatro livros: El vientre de la ballena, de Javier Cercas, Stoner, de John Williams, Senhor Proust, de Céleste Albaret, A ponte, de David Renmick. Os dois primeiros, ficção. O penúltimo, relato de uma senhora que trabalhou para Proust muitos anos, cuidando dele, acompanhando a construção de sua literatura sem se envolver diretamente com o texto. É um livro comovente que mostra pessoa maravilhosa que ele foi. Estou lendo a biografia de Barack Obama, também, A ponte. Mas parei no meio e não sei se continuo porque quis saber como ele se tornou quem é e essa parte já passou, pelo menos na fase inicial. Talvez eu retome logo, ainda não guardei o livro.

Não achava certo ler tantos livros ao mesmo tempo; acreditava que quem lia vários não lia nenhum. Mas hoje acho que, para mim, é o jeito possível de ler. Eu me canso e mudo. Depois volto. A internet e o celular fragmentaram o conhecimento, a fantasia e a informação e acabei me adaptando.

Stoner é bacana. Perdi na Argentina o livro publicado pela Rádio Londres, que tem uma capa muito boa, por sinal, e aí comprei a versão digital, em inglês. Estou gostando mais do livro em inglês. A narrativa fica mais natural, até por que Stoner é professor de literatura inglesa. Quero saber quando conhecerei melhor o personagem e essa hora não chega. Não chega porque ninguém conhece ninguém profundamente, não há certezas possíveis e o livro pega, para mim, por causa dessa nebulosidade assumida do narrador. Stoner não chega a ser ambíguo, mas é reservado. Estou curiosa para entender como enfrenta a timidez. Não sei se o narrador distante e íntimo ao mesmo tempo permitirá que eu adivinhe.

Hoje fui ao MIS ver a exposição sobre Truffaut.

Cena do filme Um só pecado, de François Truffaut

Cena do filme Um só pecado, de François Truffaut

Muito cheia de imagens em movimento. A exposição é montada de um jeito que quem vê precisa se movimentar, também, como se fosse parte de um filme, o filme sobre a exposição. Há textos explicativos de tudo, mas grudamos nas imagens. Simpatizo demais com Antoine Doinel, personagem que amadurece no transcorrer de várias películas, começando por Os incompreendidos. Houve uma época em que eu era muito ligada em Truffaut. Hoje essa ligação foi renovada.

E também quero falar sobre a exposição de Miró no Tomie Ohtake. Pela primeira vez gostei de Miró sem qualquer ressalva, acho que antes eu não compreendia muito bem sua aparente simplicidade. Não só os trabalhos são maravilhosos, como os filmes mostrados na exposição, principalmente as entrevistas.

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Como eu tinha visto uma enorme escultura de Miró em Chicago, prestei bastante atenção no que ele fala sobre esculturas.

Miró

As esculturas expostas no Tomie Ohtake também são autênticas no sentido de que expressam tudo com absoluta clareza. São primitivas, puras. Antes delas, não havia nada.

Gostei dessa, que tem nome de personagem (Personnage):

personagem

A carta de Glória

4 de junho de 2015

Este conto está publicado, com pouquíssimas variações, no fanzine “50 anos daquele 64”, do Coletivo Literário Martelinho de Ouro (em e-book nas plataformas digitais)

Glória, de intensa beleza.

Filha única. Criada com mamão com açúcar, farinha láctea e em colégio de freiras. Balé. Sempre gostou de português, literatura e história.

Em 75, completando 20 anos, estudante de direito, participava de grupos de leitura e estudos, todos secretos. Lia textos censurados. Rasga Coração, de Oduvaldo Vianna Filho.

Os pais desconfiaram. Aquilo não ia dar certo. As pessoas que expressavam opiniões contrárias ao regime estavam sendo presas. Disseram e avisaram mil vezes.

A mãe implorou: sai disso.

Mas não se pode nem ler?

O pai era professor de matemática. A justiça dele era a dos números, representada pelo sinal de igual. Glória logo percebeu que, na vida, nada era igual. O pai sabia contar e os resultados de qualquer operação eram sempre negativos. Até mesmo pra ele, um homem triste.

Glória lia porque o mundo era quente e seco ao redor. Ela queria ar.

Não se conformou quando Zero, de Ignácio de Loyola Brandão, foi censurado. Em 76, proibiram até Romeu e Julieta, do grupo do teatro Bolshoi, na TV. Proibiram Shakespeare.

Como alguém pode proibir Shakespeare?

Mataram Wladimir Herzog e ela foi ao ato ecumênico na Praça da Sé. Não conseguiu entrar na catedral. Ficou fora, mas cantou Caminhando e cantando, de Vandré.

Chegando em casa, encontrou a mãe chorando. Aquilo tinha que terminar. Por que ela não viajava um pouco? Podia ir à França.

Brasil, ame-o ou deixe-o? Tinha dúvidas.

Gostava de ouvir O que será que será (nas três versões).

À noite, no quarto, lia textos que circulavam, manifestos mimeografados.

De manhã, ia para a faculdade. Os professores de direito não falavam sobre ditadura. No máximo, discursavam sobre as várias acepções da palavra liberdade, como se liberdade fosse um conceito abstrato. A liberdade era um conceito real, físico, ela achava.

Ia largar a faculdade. Queria ser atriz. Só não tinha voz.

Redigia manifestos, mas não distribuía. Tinha vergonha. Escrevia que a abertura lenta, gradual e segura, anunciada pelo presidente, era uma mentira. Parecia ser uma mentira.

Enquanto isso, em casa, a mãe assistia à novela Anjo Mau e o pai corrigia equações. Eles quase não conversavam e só tinham uma opinião em comum: a de que Glória devia ir para a Europa.

Foi em 76, em uma manhã de outubro, uma manhã qualquer, que Glória saiu cedo com a pasta que carregava todos os dias, uma pasta marrom. Naquele dia, a pasta tinha um documento diferente: uma carta escrita pelo irmão de uma vizinha do prédio. Ele estava preso e tinha sido torturado por um mês, quase todos os dias. Passou a carta à família por um companheiro solto. A vizinha achou que podia dar uma cópia da carta à Glória. Achou que ela estudava direito e faria alguma coisa com aquela carta. Pela primeira vez alguém lhe deu uma função assim importante.

Leu o texto manuscrito. Nunca tinha lido um relato tão detalhado do sofrimento. Embora lesse muito, não sabia que a dor podia ser expressa em palavras. Nunca tinha lido nada assim. O corpo de Glória sentiu açoites e perfurações, o corpo parou de respirar por alguns momentos. Ainda não sabia o que fazer com a carta porque afinal não estava tão envolvida na luta contra a repressão. Não conhecia caminhos e pessoas que pudessem levar a carta adiante. Ela só participava de grupos de estudos. E de leitura.

Aquela carta não era um panfleto, um documento, um poema, uma análise, um refrão, um conto.
Era um depoimento, um testemunho, um S.O.S., um pedido de providências, um grito, uma explosão.

Pensava nisso ao sair de casa: no que fazer com a bomba.

Pegou o ônibus e sentou-se na primeira fila. Um homem grande chegou perto e ficou de pé ao lado dela, embora houvesse lugares vazios no ônibus. Ela achou que já o tinha visto antes. Tocando a campainha da vizinha? Amigo do pai da vizinha? O dia em que ela desceu de escadas porque o elevador estava quebrado ele subia? Impressão. Era um estranho. Mas o estranho prestou atenção na pasta que estava no seu colo. Ela agarrou a pasta com força, os dedos de Glória apertaram aquela pasta marrom. O homem de barba olhava a pasta. Ele usava óculos escuros. Vestia uma camisa comum, um pouco aberta, ela olhou para cima e viu os pelos pretos do peito dele aparecendo, saltando. Ela começou a transpirar, sentiu a blusa molhar na região das axilas. Pensou nessa palavra, axilas, e riu do pensamento idiota. Axilas. Aí ela lembrou dos relatórios e das descrições de tortura que tinha lido. Aquele homem ao lado dela não tinha encostado um dedo no seu ombro e ela imaginava choques elétricos em seu corpo, em partes que ela não conseguia nominar em pensamento.

Glória pressentiu que aquele homem era da repressão. Ou ela estava perseguida, ou ele suspeitava da pasta, ou os dedos apertados e o suor delatavam seu medo, alguma coisa estava deslocada, ali. Fora do compasso. Ou não.

A saída foi fazer cálculos. Quando estava muito nervosa, recorria aos cálculos. Faltavam 15 minutos para chegar à faculdade e em 12 minutos o ônibus estaria no Viaduto do Chá e ela precisava de 1 minuto para chegar à porta do ônibus quando ele parasse no sinal fechado e não daria tempo, o homem desceria atrás dela. Que cálculo o pai faria naquele momento? Como a matemática a salvaria daquele terror e quando ela poderia assistir Romeu e Julieta na TV?

Glória nem pensou em rezar porque não acreditava em Deus. Mas recorreu aos números e zero era uma saída possível, na maioria das vezes. Zero e nada. Zero como o livro censurado de Loyola. Zero e vazio e ausência e silêncio e medo.

Glória ficou ali, zerada. O ponto da faculdade chegou e ela não desceu. Quando as coisas estavam complicadas, o melhor era não fazer nada. Parou de pensar e de ver e de sentir e os dedos relaxaram de tal maneira que a pasta marrom caiu no chão. Ela olhou e nem pensou em pegar, ia deixar a pasta ali. Aí o homem, ainda parado, – ele não desistia – abaixou-se, pegou a pasta e disse:

-É sua?

Quase disse não. Seria pior. Ele ficaria com a pasta e leria a carta. Confirmou e pegou a pasta marrom. Agradeceu com a cabeça. Ele deve ter sentido o cheiro do medo. Mas, quando o ônibus parou, ele desceu. O homem deu uma oportunidade a Glória.

Ela ficou ali ainda um tempo, sentada, respirando, comemorando a sorte, agradecendo os cálculos. Desceu no ponto seguinte, atravessou a rua e pegou o ônibus da volta. Iria para a faculdade de qualquer jeito.

Chegando à faculdade, Glória viu o homem barbudo, de pé. Gelou e, em vez de virar de costas, disfarçar, correr, continuou, firme. Não fez mais cálculos. A equação tinha terminado. Entrou na faculdade, passou pelo homem, segurando a pasta contra o peito. Esperava uma segunda chance.

E ouviu aquela voz:

-Senhorita, queira me acompanhar, por favor.

Capa de Some Girls, dos Rolling Stones, em Chicago: perucas Valmor

13 de maio de 2015

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Uma das exposições mais interessantes que vi em Chicago agora em abril foi de gráficos da marca de cosméticos e produtos de beleza Valmor. Está no Chicago Cultural Center.

Em Chicago, a memória de invenções, marcas, nomes de pessoas que fizeram a América, criaram meios de propagar e vender bens para milhares de pessoas, está muito presente.

O museu da cidade, por exemplo, mostra a lata redonda da aveia Quaker, o chiclete, a venda à distância, a pílula anticoncepcional, como projetos desenvolvidos na cidade, ainda que parcialmente. Isso sem contar na arquitetura e nos arranha-céus. Fui a dois e os edifícios são mesmo muito altos.

Mas essa exposição da arte no design da marca Valmor atribui a inspiração para a capa do disco dos Rolling Stones Some Girls aos desenhos para perucas Valmor.
Aqui está a fotografia do texto:

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A exposição chama a atenção não apenas pela originalidade dos gráficos, mas pela influência da arte da marca Valmor na cultura pop.

Se o criador da capa do vinil dos Stones se inspirou nas perucas Valmor para as ilustrações, Some Girls retribuiu à arte Valmor o reconhecimento.

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Eu mesma coloquei meu rosto no espaço em branco para a fotografia.

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Eça de Queirós por Carlos Reis na Livraria Cultura: “minha língua, minha pátria”

11 de abril de 2015

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A Livraria Cultura do Shopping Iguatemi é um dos espaços urbanos mais bonitos que eu conheço. E no meio do salão amplo e colorido há possibilidades de encontros públicos perfeitamente integrados ao silêncio de quem só passeia folheando livros. As pessoas sentam-se nas cadeiras ou nas escadas, falam, e tudo bem.

Ontem fui ao primeiro dia do ciclo “minha língua, minha pátria”, em que o professor Carlos Reis, da Universidade de Coimbra, conversou com a jornalista Simone Duarte, do Jornal Público, sobre Eça de Queirós. A conversa não foi só sobre o Eça. Foi muito além. Falou-se de Machado de Assis, de Eça de Queirós e Machado de Assis, das cartas que trocaram, de Flaubert, do tema do adultério na literatura na segunda metade do século XIX, de como as edições críticas são importantes para a atualização das obras literárias, de romantismo, naturalismo, de influências literárias. A palavra depois foi aberta ao público e as perguntas enriqueceram o diálogo.

Fiquei pensando ali em como a literatura é importante, em como cria movimentos. O professor Carlos Reis sabe tudo sobre Eça de Queirós e a impressão que ele me passou é a de que o conhecimento é infinito e ele ainda se surpreende e continuará renovando sempre não só o que ele sabe, mas a própria literatura de Eça.

Tenho especial afeição por Eça de Queirós porque minha mãe dizia que, para escrever bem, com clareza, deveríamos copiar Eça e Machado de Assis. Ela não pensava na escrita de ficção, no plágio, nada disso, porque minha mãe tinha horror a artifícios e enganos de qualquer espécie. Ela pensava no exercício da clareza.

E antigamente um dos castigos usados nas escolas não era a escrita repetida de frases feitas? As crianças passavam o recreio copiando, à mão, algum brocardo. E, sem castigo e nem nada, minha mãe gostaria que copiássemos obras inteiras. Às vezes, quando fico com saudades, compro um caderno novo e penso em iniciar uma cópia. Mas aí não consigo: começo a escrever outras coisas, como esse texto, por exemplo.

Outro evento da infância me aproxima de Eça de Queirós: uma vez tirei 10 em uma prova sobre A cidade e as serras. A professora amou a análise que fiz. Essa nota 10 de que tirei há mais de 30 anos determinou minha ida à Livraria Cultura ontem.

Assistir à fala de Carlos Reis poderia ter me levado a uma compreensão mais amadurecida da literatura de Eça de Queirós, pois um professor da Universidade de Coimbra deveria passar impressões austeras e menos emotivas do autor português.

Mas não foi isso que aconteceu.

Carlos Reis está muito ligado a Eça de Queirós, falou dele como de um amigo, uma pessoa muito próxima, e foi isso que me fez comprar os livros dele -de Carlos Reis – e uma edição linda de Os Maias, da Zahar, que estava exposta na Livraria Cultura (tenho outras edições de Os Maias, mas aquela me pareceu mais atual).

Agora tenho dois livros de Carlos Reis: Introdução à leitura d’Os Maias (Almedina) e Eça de Queirós (Edições 70). Já olhei Introdução à leitura d’Os Maias e vi que é um livro e tanto. Contextualiza Eça de Queirós no espaço, no tempo, no mundo. O livro tem um quadro sinóptico de 1845 até 1900, onde são comparados, no tempo, lançamentos de literatura portuguesa, fatos culturais e históricos de Portugal e da história universal.

Sabe-se, por exemplo, que o romance Os Maias foi publicado em 1888, ano em que ocorre abolição da escravatura no Brasil. Interessante que, no quadro, a abolição da escravatura em Portugal também está anotada, em 1869. E, em 1867, já havia sido abolida pena de morte em Portugal e esse fato importante também está no quadro. Em 1885, Zola publica Germinal, Victor Hugo morre e Pasteur inventa a vacina contra a raiva. É possível estabelecer muitas conexões a partir do quadro sinóptico. Há, ainda, no livro, análises de estilo muito úteis para quem escreve ficção.

A certa altura do livro, Carlos Reis fala de isocronia, relacionando o termo ao aparecimento de cenas dialogadas em Os Maias, cenas com tempo coincidente ao da história, abrandamento da velocidade narrativa. Carlos Reis explica: “deste modo, o discurso narrativo dos Maias privilegia, nestas zonas da história, um ritmo narrativo do tipo isocrónico mediante o qual o tempo do discurso tente a respeitar a duração do tempo da história” (p. 142). Gostei de ler essa parte porque meu texto de ficção é, em muitos momentos, isocrónico (agora eu sei), e, às vezes, pergunto-me onde parar, como fazer a transição para outro tipo de narrativa. Tenho tentado escrever de uma maneira mais consciente, procurado ter controle maior sobre a narrativa.

Resumindo, as duas horas que passei ouvindo Carlos Reis na Livraria Cultura multiplicam-se em muitas horas de reflexão e estudo  e abrem caminhos diferentes na minha literatura (escritura e leitura).

Hoje estarão, em “minha língua, minha pátria”,  Gonçalo Tavares e Samuel Titã Jr. (IMS). Não quero perder. Talvez o salto de Eça de Queirós para Gonçalo Tavares não seja tão largo.

Com certeza há aproximações possíveis.

Novo Documento 24_1

Escrita no cárcere

29 de março de 2015

Em 24 de março, participei de um ciclo de debates sobre direitos humanos no Sesc. A programação está aqui: http://migre.me/pdQpx.

Escrevi um breve texto para guiar minha apresentação e compartilho aqui para quem se interessar na síntese que fiz.

Pensei em diversas maneiras de começar a conversa sobre as narrativas na prisão.

Cheguei à conclusão de que seria honesto, de minha parte, contar como e quais narrativas me influenciaram e o que despertaram em mim desde que comecei a gostar de ler. Meu ponto de vista é o de leitora que se mobilizou, desde sempre, por narrativas sobre o sofrimento causado pela  violência do estado – física ou psicológica.

A leitura possibilita viver a vida do outro e as narrativas do cárcere que tenho lido desde adolescente me fazem sofrer junto. Esse sofrimento contagia e mobiliza.

Então eu me lembro de ter lido a literatura decorrente do sofrimento nos campos de concentração e em diversos tipos de prisão e, em minha memória, ficaram “A 25ª hora”, “O que é isso companheiro?”, “O queijo e os vermes”, “Recordações da Casa dos Mortos”,  “Feliz ano velho”, “Reminiscências do sol quadrado”, “Memórias do cárcere”, “É isto um homem?”. Na poesia, fico com “Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meireles.

Depois me lembro de “O processo”, de Kafka. Aí estou em outro contexto, o da violência psicológica, e não há violência psicológica maior do que a ameaça de um processo ou de uma pena sem que se saiba a razão.

Eu ousaria um pouco e poderia incluir, inclusive, na lista “O diário de Anne Frank”, porque ela viveu em um cárcere, de certa forma, e seu diário é, até hoje, poderoso, no sentido de que inspira desejo de liberdade.

Se eu pudesse concluir que esses relatos têm uma função, diria que é a de inspirar horror à violência do estado e vontade de liberdade. Foi o que aconteceu comigo.

Eu estou colocando juntos livros que talvez não precisassem estar juntos. Estou unindo relatos a partir de minhas próprias impressões e não de teorias literárias, até por que não tenho autoridade para isso. Minha autoridade, aqui, é a de leitora e escritora e, quando falo em escrita, na minha, penso na jurídica e na ficcional.

Pensei, em primeiro lugar, em um autor brasileiro para iniciar essa minha narrativa e esse autor é Graciliano Ramos porque ele escreveu uma obra muito extensa que é “Memórias do cárcere”, que hoje é, além de romance, importante documento. Lendo” Memórias do cárcere”, e confrontando o romance com outras leituras, percebo que há pontos em comum e o primeiro deles é a não preocupação com a cronologia e exatidão. Nenhuma delas se pretende reportagem. Elas se apresentam a partir de reminiscências, pontos de luz sobre fatos. A exceção, talvez, seja “O que é isso, companheiro?”, mas, mesmo tendo sido escrito por jornalista, o  relato é bastante subjetivo e tem estilo próprio e inspirador.

“Memórias do cárcere” foi publicado em 1953, depois da morte de Graciliano Ramos. Ele não escreveu o livro na prisão. Na prisão, escreveu notas, extraviadas, perdidas. Isso ele diz logo no início do livro.

Depois de Graciliano Ramos, penso em  Primo Levi e “É isto um homem?” Curiosa sobre a escrita como libertação, encontrei um livro bastante interessante de Lucíola Freitas de Macedo: “Primo Levi, a escrita do trauma” (Rio de Janeiro, Subversos, 2014). Ela diz:

           “A testemunha reconstruirá a verdade com base na sua experiência e a partir de parâmetros absolutamente distintos do historiador. Na reconstrução da verdade levada a cabo no testemunho, as recordações tendem ao apagamento. Elas se modificam e incorporam elementos estranhos, o que remete ao seu caráter lacunar, ao não deixarem-se capturar inteiramente pela representação. Poucas recordações resistem. Quais? Indaga-se Levi, já no primeiro capítulo, “A memória da ofensa”. O que resistiria  à lenta degradação, ao ofuscamento dos contornos, à repressão e ao recalque? O que seria aquilo que permanece entre a memória e o esquecimento, e que somente é dado a ler nas entrelinhas do texto?” (p. 86).

E ela tem outras falas que iluminam os textos todos, entre elas:

           “A reminiscência é distinta da rememoração. A rememoração está ligada à constituição de cadeias de saber, na medida em que o inconsciente supõe um saber e por isso pode ser rememorado e interpretado. A reminiscência, por sua vez, é evanescente, fugidia e parece localizar-se melhor no âmbito do que resiste ao sentido e às cadeias de saber, não se prestando à rememoração. Irrompe como um flash, para desaparecer no mesmo instante” (p. 260).

É exatamente nesse contexto que está o livro de Mário Lago, “Reminiscências do sol quadrado” (Cosac& Naify, 2001). Mário Lago foi preso logo em 64, depois do golpe.  Ele começa assim:

“Xamego-síntese para quem tiver preguiça de ler o resto, que é detalhe só

Me invadiram a casa toda

(e eram mais de dez)

me viraram tudo nela

(e eram mais de dez)

me cercaram o edifício

(e eram mais de dez)

me impediram o elevador

(e eram mais de dez)

me esvaziaram a calçada

(e eram mais de dez)

me pensando em dar tiro.

Eram mais de dez, eram mais de dez,

eram mais de dez. De dez.”

Mário Lago prossegue no poema com um ritmo que dá vontade de escrever, de ler mais. É tão marcada a poesia dele. E depois, ele começa o livro em prosa: “Foi na noite de 2 de abril de 64 que me invadiram a casa, doze metralhadoras aumentando o vulto dos homens que participaram da operação, bombas de gás lacrimogêneo sacolajendo na cintura como balangandãs ou contas de rosário, já que tudo se agigantara à entrada de tanta gente” (p. 11).

Ele transformou a experiência de horror que é ser preso em um poema que gruda na memória.

Flávio Tavares escreveu um livro sobre o período em que ficou preso, que hoje é clássico, “Memórias do esquecimento” (Globo, 1999). Ele começa o livro com uma citação de Tristão de Athayde, ou Alceu Amoroso Lima, “O passado não é aquilo que passa, é aquilo que fica do que passou”.  O relato dele é bem forte. Mas termina com um anexo, “Poemas do cárcere” (p. 273/276). Vou escrever só a primeira estrofe:

“Hoje sou o que penso

que teria sido

se houvesse vivido o que pensei ser,

não o que fui.

Hoje não estou preso

nem derrotado, nem sozinho.

Na minha parede não há grades

e não há paredes no meu mundo.

Hoje sou o que penso ser,

não o que sou”.

Em comum em todas essas narrativas estão a poesia e a maneira difusa e fragmentária de narrar.

Volto agora a Graciliano Ramos sem preocupação cronológica entre autores e tipos de prisão ou ditadura, mas procurando, apenas, o encadeamento do raciocínio. Ele escreveu muito na prisão. Mas as notas que fez, como as chamava todo o tempo, foram perdidas. Ele mesmo diz, diversas vezes, que as notas que fez foram extraviadas. Escreveu o livro quase dez anos depois. E essa distância fez de seu livro mais um romance que um relato objetivo ou documento.

Por que a expressão artística está tão perto das narrativas no cárcere? Os autores não são historiadores, não escrevem biografias e nem mesmo autobiografias. Seria arrogância demais eu me perguntar se os autores escrevem para se libertar do sofrimento, cada escritor tem seu motivo pessoal para escrever que não precisa ser revelado. A mobilização que a escrita causa, o impulso de ação, é efeito e não deliberação do autor. Embora possa ser um objetivo, mas o escritor não precisa se explicar, nunca.

Imagino que se o autor  não  utilizar, na escrita, a forma literária, não consegue escrever. Acredito que  as narrativas no cárcere, sobre o cárcere, são evidentemente humanistas e, sendo humanistas, são expressões subjetivas e, por isso, literárias e artísticas. No caso da escrita, forma-se literatura. E é por isso que  humor e ironia estão em muitas narrativas (Há um livro bacana sobre isso: “Humor é coisa séria”, de Abrão Slavutzky, Arquipélago editorial, Porto Alegre, 2014).

É difícil contar a violência crua. Quando ela é contada, o leitor talvez não assimile: é muito cruel.  O humor provoca o deslocamento, transforma aquele que sofreu em terceiro, narrador, aquele que, distante, pode olhar para si mesmo como o outro. É claro que nem sempre é assim. Mas, muitas vezes, é. Charles Chaplin fez isso muito bem, transformou miséria em comédia e, na comédia, levou os expectadores a pensarem na miséria.

Mas não era aqui que eu queria chegar. Queria concluir que a escrita na prisão reproduz pensamentos de todos os que estão presos e não tiveram voz. Quando um escritor preso fala, e esse discurso atravessa as grades – como aconteceu com Jocenir em “Diário de um detento”, e com o próprio Graciliano Ramos em “Memórias do cárcere” -, a voz dele é a voz de todos que estiveram lá. É uma escrita que traz várias escritas. Experiências e histórias do coletivo são contadas, é uma escrita poderosa e multiplicadora e, por isso, tem uma missão, ainda que não intencional: fomentar desejo de liberdade.

O filme que Nelson Pereira dos Santos fez a partir de “Memórias do cárcere”, de Graciliano Ramos, com Carlos Vereza como ator, tem várias cenas que mostram como os companheiros de prisão ajudaram Graciliano a escrever, ou dando papel, ou escondendo textos, ou querendo aparecer na história. Quando ele saiu, contaria a história de todos e não só dele. O livro foi publicado muito tempo depois, a partir de reminiscências. A memória que fica.

Foi inevitável lembrar de uma estrofe de um poema de Drummond, Resíduo:

“E de tudo fica um pouco

Oh abre os vidros de loção

e abafa

o insuportável mau cheiro da memória.”

(Resíduo, em “A rosa do povo”)

Coletivo Literário Martelinho de Ouro e João Carrascoza na Livraria da Vila

11 de março de 2015

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Ontem, na conversa do Coletivo Literário Martelinho de Ouro com João Carrascoza, na Livraria da Vila da Lorena, em São Paulo, ele disse, falando de grupos e encontros, que faz parte da Geração 90.

Aí me lembrei, tenho até o livro, “Geração 90, manuscritos de computador”, publicado pela Boitempo Editorial em 2001. Nelson de Oliveira é organizador (escrevi aqui sobre esse livro em Macunaíma, de Luiz Bras). Abro o livro e os contos de João Carrascoza estão lá: Travessia e Duas tardes.

Gosto de olhar essas publicações que mostram ideias comuns, reúnem pessoas, tendências, escritos. Depois o tempo passa e os contos ficam lá, para serem lidos com outros olhos mais tarde, como eu faço agora, 14 anos depois. Os contos permanecem atuais porque 14 anos é pouco tempo na literatura.

Penso nas nossas publicações do Martelinho de Ouro, em “Achados e perdidos”, “Serendpt”, “50 anos daquele 64”, nos contos que escrevemos, nas conversas todas, é bom ter uma roda de escritura e de leitura como a gente tem.

Estou escrevendo este texto para deixar um registro, sob meu ponto de vista, da conversa de ontem. Algumas frases ficaram: literatura não é cópia das coisas. É reconstrução de mundos possíveis, evocação das coisas perdidas, temos vínculos de afetos com nossos amigos escritores, temos autores que nos inspiram e com quem nos digladiamos, também. João falou isso e mais, mas guardei essas frases.

Perguntaram-nos se consideramos nossa literatura feminina, se ela tem características femininas. Já pensamos nessa pergunta tantas vezes e a resposta foi que não faz diferença, ou não tem importância, ou é feminina mesmo, ou nem é, o que importa é o que se diz. Regina fala bem sobre  esse tema  porque muitos de seus personagens são masculinos e bastante convincentes.

É uma coincidência o coletivo ser formado por mulheres. Mas agora somos nós e pronto: Regina, Fatima, Lucimar, Teresinha, Gabriela, Paula, Concha, Flávia, Cris, Deborah, Sílvia, Izilda, Eliana.

Cada uma  leu um parágrafo pequeno de um conto da outra, do livro Serendpt, e esse foi um bom momento da tarde. Eu li, da Regina, esses parágrafos do conto Luís Antonio Raimundo, de Serendpt, p. 196: “Resolvi ir andando pra qualquer lugar. Que tivesse telefone, ou vendesse cerveja. Confesso, Rosalinda, que a essas alturas eu torcia pela segunda opção. Feito cupim alado, confundido na noite, minhas asas me arrastaram em direção a um clarão. Parecia perto, mas a cada lombada a luz dava impressão de andar mais pra frente. Cheguei a mudar o rumo, atrás dos reflexos que brincavam de espelho com a minha vista cansada de buscar foco no vazio”.

Perguntada sobre processo de escrita (Graziela, Palavraria Coletivo Literário, também escritora, perguntou), sobre como escrevo, respondi que, em meus dois romances, primeiro encontrei o personagem. Aí  ele me leva ao final da história em um contexto que me mobiliza. Em “Viagem sentimental ao Japão” (Apicuri), Anette está no mundo das viagens, e em “Nove tiros em Chef Lidu” (Circuito), Elvis está nos mundos da investigação criminal e da gastronomia.  Esses personagens têm personalidade forte,  conduzem a história, mesmo que, às vezes, o enredo lhes pregue algumas peças (isso acontece). Gosto de escrever narrativas mais longas.

João perguntou sobre como encontramos editoras e a resposta foi, de minha parte: perseverança e força de vontade. As editoras podem publicar os livros que  quiserem e simplesmente não há como convencê-las se elas não acham o livro bom ou vendável e isso não pode ser criticado. Há um mercado. Mas, por outro lado, como também já ouvi, há algo que se chama the long tail, e me parece que isso quer dizer que há sempre um lugar para quem insiste.

Valorizo cada conexão pela escrita. É muito bom encontrar leitores e, sejam um ou cem mil, como diz um livro de Pirandello, ligações são estabelecidas em um plano diferente, ainda não sei definir bem qual. E vivo melhor.

Sobre Birdman, Raymond Carver e o sentido da ficção

9 de fevereiro de 2015

Birdman, filme de Alejandro González Iñárritu,  incomoda. Quando terminou, fiquei com uma sensação estranha, de que tinha gostado, mas não tinha, ao mesmo tempo.

Não saí  feliz do cinema e podem dizer que não é esse o objetivo do cinema, o de deixar feliz, mas gosto de sair leve do cinema. E saí pesada, com um nó.

Li um texto na Carta Capital (http://goo.gl/Iqk2Sj) de Matheus Pichonelli, em que fala que Birdman é o drama de todos nós. Meu, certamente, é.

Vou transcrever aqui uma parte do texto: “Nessa interseção, Iñarritu mostra que os caminhos do sucesso e do prestigio são só aparentemente distintos ou anuláveis. Thomson quer se ver livre da máscara que lhe deu a fama. Quer provar que não é, ou não foi, apenas um rostinho bonito (e coberto) a serviço da indústria do entretenimento. Pena, no entanto, para se dissociar da velha imagem e encontrar a própria identidade. Seu personagem na franquia de super-heróis, afinal, era amado. E era amado porque levava o público a uma fantasia perfeita montada sobre maniqueísmos e efeitos especiais. Mas a arte não é entretenimento, insiste o personagem-ator. Arte é questionamento. É provocação. É precisão. É atuação na medida exata, portanto. Daí a obsessão em levar à Broadway uma peça adaptada a partir de um texto de Raymond Carver, dramaturgo que, anos antes, incentivou o protagonista a se transformar em ator – graças a um elogio escrito a mão em um guardanapo de papel. É o primeiro de três papeis literais, vulneráveis e simbólicos, do filme”.

O filme fala de literatura (Raymond Carver é um escritor referência para a literatura  contemporânea),  teatro/ representação (quem é o ator no palco, ele mesmo ou o outro?),  crítica (toda crítica parte de rótulos já definidos?), popularidade, internet, maturidade, juventude, envelhecimento. Quando termino de escrever  um texto de ficção, me assusto e pergunto, como fui escrever isso? Que sentido tem essa história? Qual a verossimilhança? É necessária a verossimilhança? No filme, o ator  (interpretado por Michael Keaton) foi famoso ao representar  Birdman, o homem pássaro que voava, herói que encantava as pessoas. Os homens não voam e que sentido tinha Birdman? Tinha todo o sentido e continuou a ter no decorrer dos anos, sentido não superado pelo novo personagem por ele interpretado na peça escrita por Raymond Carver, “What do we talk when we talk about love”.

Fiquei pensando no que levou Iñárritu a escolher Raymond Carver para a peça ensaiada no filme. Vemos só umas duas cenas dessa peça, no máximo três, sempre as mesmas, representadas em momentos diferentes. Por isso o filme incomoda, porque ele não termina (para mim). Saio e preciso ler Carver para compreender totalmente.

E encontro, no livro publicado pela Companhia das Letras, “68 contos de Raymond Carver”, o título que antecede uma série de contos, “Do que estamos falando quando falamos de amor”. E há um conto com esse nome e abro o livro na página 369 e ali estão os personagens da peça representada  no filme. Ali está a cozinha que aparece no filme.

Agora preciso ver o filme de novo para ver se os personagens são, de fato, os mesmos. Preciso ver de novo para prestar atenção em alguns diálogos que na hora não tiveram importância mas que agora podem fazer sentido. O filme criou uma peça que recriou um conto e preciso ver tudo de novo. Tudo se transforma.

E me pergunto qual o sentido da  ficção que escrevo e a resposta agora me parece óbvia: nenhum. O que vale é o esforço, a coragem de publicar essa ficção. Tem um momento em que o personagem diz que a peça pode ser ruim, mas o diretor se expõe e é o que importa.

Acho que esse é o sentido do filme, para mim. Mesmo que meu texto seja engraçado ou irônico ou sarcástico (dependendo do ponto de vista) demais, ou ingênuo, ou corajoso, é o texto que escrevo. O ideal, penso, é que seja lido por pessoas que não conheço e não me conhecem, para que seja lido no seu contexto próprio e específico, sem rótulos pessoais.

A realidade nunca está na ficção. O texto de ficção, o romance, quando finalmente surge,  já triturou tudo.

“Nove tiros em Chef Lidu”

25 de janeiro de 2015

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“Nove tiros em Chef Lidu” ficou pronto (Editora Circuito, RJ).

Recebi o livro essa semana. A capa ficou muito bacana, cor branca, sangue vermelho, temperos verdes (capa de Rafael Bucker).

A história fala de interrogações, aprendizado, admiração, fome, vontade. E verdade?

E o texto é engraçado, eu mesma rio quando abro o livro aleatoriamente em uma página qualquer. Eu me surpreendo com o humor do livro. Elvis é um personagem bem legal. Dr. Magreza também. E Elisa. E Monalisa.

João Carrascoza escreveu um texto muito bacana para orelha: fiquei honrada.

Renato Rezende, poeta, escritor,  está à frente da edição.

Tomara que as pessoas gostem.

Contos prediletos de Mário de Andrade

19 de janeiro de 2015

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Coincidiu de Mário de Andrade ser homenageado da Flip em 2015. Eu ando com ele na cabeça, reunindo textos e livros e escritos para estudar melhor. E encontrei aqui na minha estante um livro organizado pelo Luiz Ruffato, “Mário de Andrade, seus contos preferidos” (Tinta Negra, 2011).

Ruffato encontrou os contos listados na Revista Acadêmica. São eles: Pedro Barqueiro, de Afonso Arinos, Meu sósia, de Gastão Cruls, Plebiscito, de Artur Azevedo, Oscarina, de Marques Rebelo, O enfermeiro, de Machado de Assis, O alienista, de Machado de assis, Quero-quero, de Roque Callage, Galinha cega, de João Alphonsus, Gaetaninho, de Antônio Alcântara Machado, Chô pan!, de Monteiro Lobato, O bebê de tarlatana rosa, de João do Rio, O enterro de seu Ernesto, de Rodrigo Melo Franco de Andrade, (Não me lembro o nome do conto), de Darcy Azambuja, (Não me lembro o nome do conto), de Valdomiro Silveira, A nova Califórnia, de Lima Barreto, O 1º conto de Tropas e boiadas, de Carvalho Ramos, Boi velho, de Simões Lopes Neto, Baianinha, de Ribeiro Couto, Aquele conto dos dois irmãos na Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo, Bazar Colosso, de Prudente de Morais, neto, Ritinha, de Léo Vaz, A mulher que pecou, de Menotti del Picchia, (Vaga para o conto desconhecido”).

Engraçado que essa lista aparece assim, mesmo, Mário de Andrade  não se lembrava dos nomes de dois contos, deixou um lugar para o conto desconhecido, mencionou outros genericamente. Ruffato teve trabalho para encontrar os contos.

O resultado é um livro muito bacana que mostra textos  de uma época e, também, o descompromisso de Mário de Andrade com o rigor das especificações, dos nomes. Ele deveria ter listado dez contos e listou 23. Esqueceu nomes de contos. Hoje em dia a gente acha que precisa indicar tudo com exatidão, lembra de um autor e se arrepende por não ter lembrado de outro. Li alguns contos e gostei demais de Meu sósia, de Gastão Cruls, um autor do qual nunca tinha ouvido falar.

A edição traz o fac-símile da Revista Acadêmica publicada em agosto de 1938. Veem-se os contos preferidos de Mário de Andrade e outras listas com indicações de Graciliano Ramos, Sergio Buarque de Holanda, Manuel Bandeira, entre outros, inclusive Gastão Cruls, autor de meu conto preferido da lista de Mário de Andrade.

Entre os escritores que indicaram seus contos na Revista Acadêmica há só uma escritora, Adalgisa Nery.

 

Três leituras de 2014

22 de dezembro de 2014

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Vou falar agora de três  livros que li em 2014:

1)- “Memórias sentimentais de João Miramar”, de Oswald de Andrade (Globo). Não tinha lido ainda e adorei, principalmente por ter sido escrito em tópicos numerados.

E há uma introdução de Haroldo de Campos, sob o título Miramar na mira,  que é bem legal. Ele fala da estética do fragmentário, que Mallarmé explicaria como “destruição da frase em fragmentos”, descontinuidade em lugar da ligação” (p. 30).

Não vou sintetizar aqui a introdução ao livro de Oswald porque seria cansativo demais, mas posso dizer que li o livro antes de ter lido a introdução e tive o sentimento de que as Memórias sentimentais ainda  são futuristas. Li um texto que poderei ler em dez ou vinte anos e ainda assim será inspirador.

Os parágrafos numerados são curtos e misturam cidades, palavras em outras línguas, ideias, estilos, pessoas. Está próximo de Joyce, como diz a introdução, e é mais sintético, por outro lado, o que é muito bom.

Textos curtos e que dizem muito são valorosos nos tempos de hoje, embora a edição de  livros longos, como “Graça infinita” de David Foster Wallace, recém publicado pela Companhia das Letras, por exemplo, possam mostrar o contrário.

2)- “Amarração”, de Renato Rezende (Circuito).  Não conhecia os romances de Renato Rezende,  super  poeta, também. Ele é editor da Circuito, que publicará  meu romance policial “Nove tiros em Chef  Lidu” em 2015.

A Circuito publicou livro de Luiz Bras, “Pequena coleção de grandes horrores”, e foi assim que conheci.

Li em 2014, de Renato Rezende,  “Amarração”, “Aureola” e “Caroço”, romances que fazem parte da trilogia da fantasia. Em “Amarração”, o personagem conta trajetos, pensamentos,  relacionamentos amorosos,  expõe indagações de quem sabe que vive no risco, porque a vida é sempre um risco, mesmo quando não se faz nada. Mas acontecem coisas no livro, os encontros são variados e diferentes.

O espaço do livro é o Rio de Janeiro (a Índia está, também) e o mar volta e meia aparece, como aqui: “O mar estupendo, o mar que será o mesmo no milênio que virá; o mar indiferente e repositório de nossas lágrimas todas, mar do Arpoador às seis da tarde de um dia de verão, entre sacos e copos plásticos e eternos palitos de sorvete” (p.49).

(Eu também gosto do mar, sem ele eu não seria eu. Moro em São Paulo, mas vou sempre a Ubatuba, onde o mar é lindo, e nasci em Santos, onde o mar é diferente, denso, com muitos navios, e igualmente lindo. Gosto dos mares de Santos e de Ubatuba, que conheço melhor e posso chamar de meus).

E a narrativa fala do corpo como limite da existência, também, e isso é bem legal no livro.

3)- “David Copperfield”, de Charles Dickens (Cosac Naify). O livro é imenso, a edição da Cosac tem 1243 páginas (sem contar os textos críticos), é integral. A tradução de José Rubens Siqueira está muito boa, mantém o estilo de Dickens.

Li com total encantamento. A ironia da narrativa, a perspicácia do personagem, mesmo criança, diante das dificuldades da vida, me deram vontade de escrever cada vez mais. O narrador está na história, mas consegue ser um observador de si mesmo,  é muito interessante a maneira como David alcança o distanciamento para contar mantendo, ao mesmo tempo,  a subjetividade. Eu leio sempre pensando na escrita. Um livro, para mim, é bom  quando me faz querer escrever. Ler e escrever são quase que uma coisa só, fazem parte de um mesmo processo. Não que eu não mergulhe na história. Fico totalmente entretida. E com vontade de escrever.

Dickens caracteriza ambientes e personagens com naturalidade, cheguei a vê-los, a conhecê-los. Vi Londres, também, descrita com poucas palavras e frases, a partir das quais visualizei a cidade com quase exatidão.

O livro pode ser examinado sob vários aspectos, mas me chamou atenção a maneira como a amizade surge, a amizade que enriquece as pessoas, e a amizade que enfeitiça, também. A edição da Cosac está super bem cuidada e acrescida de textos críticos, entre os quais um de Virginia Woolf, assim como de cronologia. É uma edição importante. Os clássicos tornam-se contemporâneos quando publicados com atualidade. A edição da Cosac tornou o livro  instigante, achei.

Em 2015 quero ler muitas biografias. Listo algumas: Neil Young, Stephen King, Raymond Chandler, Chagall, Tolstoi, Patricia Highsmith.

 

“O que amar quer dizer”, de Mathieu Lindon (Cosac Naify)

29 de novembro de 2014

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O livro  é sobre Michel Foucault, sobre o pai de Mathieu,  editor  (Jérôme Lindon), e sobre uma geração, ou duas gerações, porque Foucault era muito mais velho.  Todos  então fomos surpreendidas pela AIDS, que mudou tudo.

Essa proximidade entre Lindon e Foucault aconteceu em vida, mas tive a impressão de que, depois da morte de Foucault, a amizade continuou. Depois que as pessoas morrem, elas continuam  falando com a gente.

Não estou me referindo aqui a qualquer contato do outro mundo, mas à comunicação que acontece a partir de lembranças e prognósticos dessas lembranças.

É mais ou menos como a cena em que David Copperfield procura sua tia e o que o move é a lembrança de um relato que sua mãe fez sobre o último encontro que tiveram, e que ela vislumbrou, em um gesto, certo carinho. Essa impressão de carinho deu  a David energia para procurar a tia, que o rejeitara, quando ele nasceu, porque desejava uma sobrinha mulher.

O livro de Mathieu é também sobre o que não se diz, ou se diz sem dizer, e a fala só se completa depois, muito depois, até depois da morte, se é que ela vem. Acho que não é “o que amar quer dizer”, mas como e quando dizer o tanto que se ama.

Mathieu Lindon diz para nós o que estaria dizendo a Foucault e ao pai. Na verdade, fala para eles.

Não vou contar o que é dito para não estragar a surpresa de quem lê, porque a narrativa se transforma ao longo do texto e há suspense, a gente quer chegar ao fim.

Curiosa, procurei Mathieu Lindon no site do Liberation. Vou ler sempre suas crônicas e reler o livro daqui a um tempo para compreender outras falas que não percebi, nunca se percebe tudo, ou alguns textos só se revelam quando lidos uma outra vez.

David Copperfield e Serendpt na Balada Literária

20 de novembro de 2014

São Paulo com a Balada Literária realizada por Marcelino Freire e eu agora lendo e pensando em David Copperfield, um amigo de sempre que eu conhecia só de ouvir falar, ainda não tinha lido, pelo menos não me lembro de ter lido, talvez.

Tudo está só começando (a Balada) e amanhã vou à Livraria da Vila na Fradique assistir a uma ou mais mesas, quero ver o Evandro Affonso Ferreira ( o último romance é Os piores dias de minha vida foram todos, da Record ). Até li a biografia do Plínio Marcos para entender melhor Plínio Marcos, que eu não conheço muito bem (Bendito Maldito, de Oswaldo Mendes, da Leya). Marcelino Freire une, na Balada,  literatura e teatro, faz homenagens a Zé Celso e ao Teatro Oficina, cria oportunidades para o canto e a fala.
A programação da Balada está aqui: http:/www.baladaliteraria.com.br.
E eu lendo David Copperfield, uma parte em inglês e outra em português.  A edição da Cosac é linda, mas o livro muito pesado, então baixei no Kindle e leio digital, levo o leitor pra lá e pra cá. Teve uma parte muito triste, antes dele ir para o colégio interno, essa parte eu li em inglês, ainda bem. Se tivesse lido em português teria ficado muito mais revoltada. É muito triste quando os pais mudam com os filhos, e a mãe de David, Clara, mudou muito depois do casamento. Ela virou outra pessoa. Ainda bem que li em inglês, consegui um distanciamento. Aí cheguei em casa e fui atrás do livro em português pra ver se eu tinha entendido bem aquela tristeza toda. E eu tinha entendido. Mais triste do que eu pensava.

Hoje, no fim da tarde, fui ao lançamento do romance do Luiz Bras, Distrito Federal, publicado pela Patuá. Ficou  muito bonito. Capa dura, ilustrações de Teo Adorno, estou com a maior vontade de ler. Você pode ler mais sobre o livro aqui:  http://luizbras.wordpress.com.

Aliás, o Luiz fala na Casa das Rosas domingo, dia 23, junto com Claudio Willer, Ricardo Lísias e Marcelo Tápia. (http://www.casadasrosas.org.br/agenda/simpoesia-2014-o-escritor-como-professor-).

Mas a Balada Literária termina dia 23 e domingo será lançado nosso Serendpt (Livrus). Participo do Coletivo Literário Martelinho de Ouro (tá no facebook.com) e acabamos de publicar o segundo livro de contos (o primeiro é Achados e perdidos (RDG), agora em formato digital, e-galáxia).

Tenho três contos em Serendpt, “Lagarto”, “O escritório” e “Gordurinhas excedentes”. Os contos foram escritos durante Laboratório coordenado pelo Ronaldo Bressane no B_arco. Gosto desses contos, acho que são perspicazes e divertidos. Levei para o Martelinho e minhas companheiras também gostaram. Nosso livro ficou coerente e bonito. A organização é de Regina Junqueira e o projeto gráfico e a capa são de Cida Junqueira.

Voltando a David Copperfield, por que Dickens é tão importante?

Sady González em Bogotá: reportagem lírica e realista

19 de outubro de 2014

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Em Bogotá, em uma daquelas surpresas que as viagens proporcionam, vi as fotografias de Sady González (1913-1979), repórter fotográfico colombiano. A exposição (curadoria Guillermo González e Margarita Carrillo)  está na Biblioteca Luis Ángel Arango (http://www.banrepcultural.org/sady-gonzalez/), que fica bem em frente ao Museo Botero, no centro da cidade.

Sady Gonzalez e sua mulher Esperanza Uribe fundaram a Foto Sady, primeira empresa de jornalismo gráfico independente de Colômbia. No livro da exposição (Foto Sady: Recuerdos de la realidad) está que, quando se fala de Sady,  fala-se de Esperanza, também, pois trabalhavam juntos. Ela anotava informações atrás de cada fotografia e sabia revelar os filmes.

Muitas das imagens mostram ternura, mas, outras, muita violência. As fotografias feitas na época do Bogotazo, período verdadeira guerra instalada na cidade  depois de assassinado o líder político Jorge Eliécer Gaitán (1948), revelam tensão e terror em sua forma mais crua, sem retoques.

Embora  essas sejam as imagens mais expressivas em termos de reportagem, não foram as que mais me encantaram. Gostei das tiradas nos anos 30, em que Sady foi contratado para fotografar pessoas para cédulas de identidade que haviam se tornado obrigatórias. Ficava por longos períodos nos lugares e retratava grupos, rotinas, deixando para o futuro imagens transcendentes.

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Tive a impressão de que as pessoas, ao olharem para a câmera, falavam comigo,  anos depois.

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Romance policial (3)

24 de setembro de 2014

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Há vários tipos de romance policial. Raymond Chandler, Agatha Christie, Patricia Highsmith, Patricia Cornwell, Simenon, são autores completamente diferentes um do outro. A  identidade entre eles é a interrogação em torno de um crime. Lawrence Block, Tony Bellotto, Raphael Montes, cada um tem um jeito de mostrar quem matou quem. E esse estilo de contar mostra  a concepção de mundo do escritor e de seu tempo.

Luiz Bras escreveu no Guia da Folha um artigo legal na Folha sobre literatura policial, publicado em seu blog: “Crimes que compensam” (http://luizbras.wordpress.com/category/resenha/).

Para mim, no romance policial,  o detetive, é o mais importante. Não tenho interesse no crime. O romance policial começa pelo fim da história: alguém morreu. E o detetive se volta para o passado. Ele precisa ser simpático, senão o leitor não acompanha a volta no tempo.  Kay Scarpetta,   Marlowe,  Poirot,  Maigret, outros tantos, são pessoas com as quais se pode identificar. O curioso é saber como eles fazem as perguntas, como pensam, como se relacionam com as pessoas, como encontram tempo e espaço para perguntar. O curioso é ver que erros cometem – e cometem vários, nenhum deles é perfeito. Um dos detetives de Lawrence Block, por exemplo, é ladrão: Bernard Rhodenbarr. Mas ele tem uma livraria, e por isso está desculpado.

Encontrei na internet (banco de teses da USP) trabalho acadêmico  de Raquel Vieira Parrine Sant’Ana: “Contradições do detetive: a literatura policial como problema para a teoria literária em obras de Machado de Assis, Jorge Luis Borges e Roberto Bolaño”.

Ela discorre com clareza sobre as interrogações possíveis do romance, compara Machado de Assis a Borges e Bolaño e diz, no fim, que o detetive nunca volta para casa, nunca está satisfeito com seu trabalho: ele continua a buscar o segredo, ainda que de outros crimes.

“Os detetives selvagens”, de Roberto Bolaño, é um policial mais amplo e mais complexo. Bolaño se arrisca mais,  não segue fórmulas, não preenche vazios. Li uma entrevista (livro digital especificado na fotografia que segue, Kobo) em que ele revela a vontade de ter sido um detetive (de homicídios), teria preferido esse ao ofício de escritor. E em outro trecho  diz, então comentando 2666, que ser um escritor é tão perigoso quanto ser um detetive: “Being a writer in this world is as dangerous as being a detective, walking through a graveyard, looking at ghosts” (li em inglês).

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Andei lendo bastante sobre o romance policial. Escrevi um, “Nove tiros em Chef Lidu”, que será publicado em breve pela Editora Circuito. A vítima, Chef  Lidu, era chefe de cozinha de um restaurante francês. Mas ele estava de dieta e com vontade de diversificar o cardápio. Foi baleado no meio dessa mudança de vida.

O narrador é o Elvis, escrivão de polícia novo, que acompanha o Dr. Magreza na investigação. A inocência do narrador contrasta com a experiência do detetive e a combinação entre os dois resultou em uma história divertida de escrever.

Em meio a pudins de coco e sopa de tomates, Chef Lidu encontrou um desafeto que atirou para matar.

Logo o livro vai sair. Aviso vocês.

Jorge Edwards na Flip

3 de agosto de 2014

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A Flip este ano convidou o escritor chileno Jorge Edwards para uma das mesas. A Cosac Naify publicou no Brasil, agora em 2014, seu “A origem do mundo”, lançado em 1996 (El origen del mundo).
Conheci a literatura de Jorge Edwards no Chile, quando visitei as casas de Pablo Neruda (La Chascona e La Sebastiana); lá vi seus livros e comprei dois: “Adiós, poeta…”e “El Anfitrión”.

Eu me afeiçoei à figura de Jorge Edwards, amigo de Pablo Neruda.

“Adiós, poeta…” é um livro meio autobiográfico que gira em torno de Pablo Neruda e escritores latino-americanos. Fala de estilos literários, de Cortázar, Paris, diplomacia, Cuba, comunismo, intelectuais e esquerda. Edwards fala muito de política, sobre experiências compreendidas no contexto de quem viveu intensamente a transição das democracias para as ditaduras na América Latina.

Pablo Neruda é um autor da minha formação literária. Embora seus poemas sejam bonitos, foi “Confesso que Vivi” que me pegou.

Há outro autor chileno (nascido na Argentina) de quem gosto mais. Gosto tanto que pouco falo nele: Ariel Dorfman. Adoro “Uma vida em trânsito” e “O longo adeus a Pinochet”. Aliás, o título do último lembra “O longo Adeus”, de Raymond Chandler, outro autor preferido.

Voltando a Jorge Edwards, Neruda conta, em “Confesso que vivi”, que o chamou para trabalhar na embaixada em Paris, depois que ele, Edwards, teve problemas trabalhando em Havana. Neruda refere-se a Edwards como seu melhor companheiro e funcionário no período, politicamente impecável.

Não fui à Flip e não ouvi Jorge Edwards. O romance agora lançado pela Cosac Naify em 2014 deve ter sido comentado no painel, mas também não li.

A vinda do autor ao Brasil me levou às lembranças que tenho de Pablo Neruda e de suas casas maravilhosas no Chile, levou-me a Ariel Dorfman. E levou-me aos livros do próprio Edwards.

Em “El Anfitrión”, o narrador é um chileno exilado em Berlim depois de 1973. Vive na Alemanha oriental, mas conhece um homem que o conduz a uma aventura na parte ocidental, aventura fantástica e inquietante. A história lida com os fantasmas do Chile, outra vez.

Ao escrever este texto, fiquei curiosa para saber quais os sentimentos de Ariel Dorfman por Pablo Neruda. Pesquisando na internet, descobri esse artigo recente (12 de julho) publicado em O Estado de São Paulo, escrito pelo próprio Ariel Dorfman: “Vozes de lá e de cá”. Vale a pena ler. Ele admirava muito Pablo Neruda.
http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,vozes-de-la-e-de-ca,1527320.

Voltando a Jorge Edwards e sua viagem em “El Anfitrión”, notei que é interessante ler o livro muito tempo depois de escrito e com distanciamento.

A reflexão não se dá só em torno de exílio e de um mundo dividido entre ocidente e oriente, mas em torno das fronteiras e limites entre culturas, nações, realidade e ficção, e, sobretudo, em torno da individualidade irônica no meio de tudo isso.

O gol solitário

18 de julho de 2014

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Rio de Janeiro, Paris, Londres, Nova York, Roma, são cidades acostumadas a receber estrangeiros. São Paulo não é turística. Mas há lugares lindos e interessantes por aqui: parques, museus, restaurantes, centros de cultura. Quem passa ou fica, gosta. A metrópole, sem alarde, tem boa vontade com as visitas. Aos poucos, incorpora o outro.

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O Mundial de junho, em 2014, alterou rotinas. No Metrô, as estações eram anunciadas também em inglês. Na Avenida Paulista, uma figura ficta do Neymar, de papelão, talvez, aparecia de pé, perto da banca de jornal, em tamanho real, fazendo propaganda de sorvete.

Um dia, passando, na hora do almoço, vi pessoas sambando na frente de um quiosque chamado “Brasil beyond football”.

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Tinha muita energia no ar. Só que o futebol não deu conta. Alguns jogos e todo mundo murchou. Na partida contra o Chile, a vitória foi difícil: nos pênaltis. Na seguinte, contra a Colômbia, Neymar foi brutalmente ferido: sucumbimos. Sem ele e sem o capitão do time, Thiago Silva (cartão amarelo), perdemos de sete a um para a Alemanha. Aí caímos de vez na real.

A Alemanha ganhou o Campeonato no jogo contra a Argentina. Os alemães vitoriosos dançaram como ensinado pelos índios da Aldeia Pataxó de Coroa Vermelha. Fizeram bonito, foram respeitosos com o Brasil. Mas, chegando ao Portão de Brandemburgo, em Berlim, alguns deles dançaram a vitória de uma maneira já não tão elegante, principalmente no momento em que se curvavam quando gritavam gaúchos, que é como chamam os argentinos. Os índios que os ensinaram na Bahia não gostariam de ver que eles sabiam uma outra dança.

Mas de tudo fica um pouco, diz Drummond no poema. E nisso, um gol foi salvo.

Quando, na nossa partida contra a Alemanha, em um dos últimos minutos do segundo tempo, tudo estava e continuou perdido, Oscar fez um gol solitário.

Esse gol, o último gol do jogo, é meio amargo.

No entanto, é o gol que fica.