Eça de Queirós por Carlos Reis na Livraria Cultura: “minha língua, minha pátria”

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A Livraria Cultura do Shopping Iguatemi é um dos espaços urbanos mais bonitos que eu conheço. E no meio do salão amplo e colorido há possibilidades de encontros públicos perfeitamente integrados ao silêncio de quem só passeia folheando livros. As pessoas sentam-se nas cadeiras ou nas escadas, falam, e tudo bem.

Ontem fui ao primeiro dia do ciclo “minha língua, minha pátria”, em que o professor Carlos Reis, da Universidade de Coimbra, conversou com a jornalista Simone Duarte, do Jornal Público, sobre Eça de Queirós. A conversa não foi só sobre o Eça. Foi muito além. Falou-se de Machado de Assis, de Eça de Queirós e Machado de Assis, das cartas que trocaram, de Flaubert, do tema do adultério na literatura na segunda metade do século XIX, de como as edições críticas são importantes para a atualização das obras literárias, de romantismo, naturalismo, de influências literárias. A palavra depois foi aberta ao público e as perguntas enriqueceram o diálogo.

Fiquei pensando ali em como a literatura é importante, em como cria movimentos. O professor Carlos Reis sabe tudo sobre Eça de Queirós e a impressão que ele me passou é a de que o conhecimento é infinito e ele ainda se surpreende e continuará renovando sempre não só o que ele sabe, mas a própria literatura de Eça.

Tenho especial afeição por Eça de Queirós porque minha mãe dizia que, para escrever bem, com clareza, deveríamos copiar Eça e Machado de Assis. Ela não pensava na escrita de ficção, no plágio, nada disso, porque minha mãe tinha horror a artifícios e enganos de qualquer espécie. Ela pensava no exercício da clareza.

E antigamente um dos castigos usados nas escolas não era a escrita repetida de frases feitas? As crianças passavam o recreio copiando, à mão, algum brocardo. E, sem castigo e nem nada, minha mãe gostaria que copiássemos obras inteiras. Às vezes, quando fico com saudades, compro um caderno novo e penso em iniciar uma cópia. Mas aí não consigo: começo a escrever outras coisas, como esse texto, por exemplo.

Outro evento da infância me aproxima de Eça de Queirós: uma vez tirei 10 em uma prova sobre A cidade e as serras. A professora amou a análise que fiz. Essa nota 10 de que tirei há mais de 30 anos determinou minha ida à Livraria Cultura ontem.

Assistir à fala de Carlos Reis poderia ter me levado a uma compreensão mais amadurecida da literatura de Eça de Queirós, pois um professor da Universidade de Coimbra deveria passar impressões austeras e menos emotivas do autor português.

Mas não foi isso que aconteceu.

Carlos Reis está muito ligado a Eça de Queirós, falou dele como de um amigo, uma pessoa muito próxima, e foi isso que me fez comprar os livros dele -de Carlos Reis – e uma edição linda de Os Maias, da Zahar, que estava exposta na Livraria Cultura (tenho outras edições de Os Maias, mas aquela me pareceu mais atual).

Agora tenho dois livros de Carlos Reis: Introdução à leitura d’Os Maias (Almedina) e Eça de Queirós (Edições 70). Já olhei Introdução à leitura d’Os Maias e vi que é um livro e tanto. Contextualiza Eça de Queirós no espaço, no tempo, no mundo. O livro tem um quadro sinóptico de 1845 até 1900, onde são comparados, no tempo, lançamentos de literatura portuguesa, fatos culturais e históricos de Portugal e da história universal.

Sabe-se, por exemplo, que o romance Os Maias foi publicado em 1888, ano em que ocorre abolição da escravatura no Brasil. Interessante que, no quadro, a abolição da escravatura em Portugal também está anotada, em 1869. E, em 1867, já havia sido abolida pena de morte em Portugal e esse fato importante também está no quadro. Em 1885, Zola publica Germinal, Victor Hugo morre e Pasteur inventa a vacina contra a raiva. É possível estabelecer muitas conexões a partir do quadro sinóptico. Há, ainda, no livro, análises de estilo muito úteis para quem escreve ficção.

A certa altura do livro, Carlos Reis fala de isocronia, relacionando o termo ao aparecimento de cenas dialogadas em Os Maias, cenas com tempo coincidente ao da história, abrandamento da velocidade narrativa. Carlos Reis explica: “deste modo, o discurso narrativo dos Maias privilegia, nestas zonas da história, um ritmo narrativo do tipo isocrónico mediante o qual o tempo do discurso tente a respeitar a duração do tempo da história” (p. 142). Gostei de ler essa parte porque meu texto de ficção é, em muitos momentos, isocrónico (agora eu sei), e, às vezes, pergunto-me onde parar, como fazer a transição para outro tipo de narrativa. Tenho tentado escrever de uma maneira mais consciente, procurado ter controle maior sobre a narrativa.

Resumindo, as duas horas que passei ouvindo Carlos Reis na Livraria Cultura multiplicam-se em muitas horas de reflexão e estudo  e abrem caminhos diferentes na minha literatura (escritura e leitura).

Hoje estarão, em “minha língua, minha pátria”,  Gonçalo Tavares e Samuel Titã Jr. (IMS). Não quero perder. Talvez o salto de Eça de Queirós para Gonçalo Tavares não seja tão largo.

Com certeza há aproximações possíveis.

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