Archive for the ‘literatura’ Category

Novidades em São Paulo

7 de junho de 2011

http://visiteedith.com: Edith, selo editorial. Quatro livros foram lançados no  b_arco, sábado, dia 4. Marcelino Freire está coordenando tudo isso. Os livros são bem acabados, muito bonitos: Esses dias pedem silêncio (Jorge Antônio Ribeiro), A mulher que queria ser Micheliny Verunshk (Wilson Freire), Hotel Trombose (Felipe Valério) e André Sala vai para Casa do Chapéu (André Sala).

www.nucleocontemporaneo.com.br: gravadora e produtora de música. Benjamim Taubkin, grande pianista, dirige. Na Casa do núcleo (Centro Cultural de Música do Núcleo Contemporâneo), assisti Léa Freire (semana Léa Freire) em muitas variações. Com Vento e Madeira e com o Quinteto. Teco Cardoso toca nos dois quintetos e Mônica Salmaso canta com Vento e Madeira. Aliás, no cd do grupo há pouco lançado (é de outro selo, Maritaca), ela canta, inclusive aquela música linda do Nelson Cavaquinho e Amâncio Cardoso: Luz Negra.

Daniel Kehlmann, Michel Laub e tirashi no Sushi Guen

17 de abril de 2011

Estava achando chato Fama, de Daniel Kehlmann. Parei, li Longe da Água, de Michel Laub (Companhia das Letras, 2004) e resolvi dar outra chance ao livro (Fama, D. Kehlmann).

O romance  lida com a possibilidade de transformação e de alteridade. Todo mundo pensa em ser outra pessoa, em mudar de personalidade, de corpo, de mente, de amigos, de família. O tema é super atual; na biologia, na psicologia, na psicanálise, estuda-se o tanto que o cérebro e sua química são importantes para a formação da consciência  (livro não fala em química, eu é que fiz a associação).

A literatura reflete sobre a separação entre corpo e mente, entre tempo e espaço, todo o tempo. O  escritor nada mais faz do que entrar em mundos diversos e leva o leitor com ele, para o mundo imaginário de cada um (não necessariamente o mesmo).

Gosto do Sushi Guen da  Brigadeiro Luis Antonio na hora do almoço. Sento no balcão, como um tirashi, leio um livro. O livro do dia era Longe da Água. Fiquei totalmente envolvida com o texto e com o tom da escritura, leve, mas denso. Duvidei um pouco do jeito como terminou, destoou um pouco da naturalidade do caminho inicial. Poderia ter terminado antes, ou terminado de outro jeito. Mesmo assim, o livro é muito bom.

Lendo pela metade

11 de abril de 2011

Sou fã da literatura alemã, de Thomas Mann a Ingo Schulze e Günter Grass, Peter Handke, e tudo o mais. E não conhecia Daniel Kehlmann, comprei por acaso Fama: um romance em  nove histórias, publicado pela Companhia das Letras recentemente. O livro é fino, 159 páginas. Estou impressionada com o estilo seco que mostra as cenas com realismo e permitindo, ao mesmo tempo, a fantasia. As nove histórias se entrelaçam, parece, mas só li as três primeiras: quero terminar logo. Li na orelha do livro que Daniel Kehlmann nasceu em 75 e a Companhia das Letras já publicou, dele, A medida do mundo, que vou comprar amanhã. Há uns vídeos dele na internet, ele tem energia, fala com força. Aliás, falando em vídeos de escritores falando sobre literatura, etc, vale ver os de Alan Pauls na internet. Ele não é só handsome, mas sério, compenetrado, analítico. Procurando na internet, encontrei entrevista dele em um programa jornalístico alemão, onde está link, também, para Günter Grass. Quem quiser ouvir alemão e espanhol em mesmo espaço e tempo, dito e traduzido, é só acessar: http://video.zeit.de/video/627200367001.

Bom, parei de escrever e voltei aqui, logo confessando que  deixei  o livro do Kehlmann. Comecei super bem intencionada, mas em uma das histórias, sobre a senhora  doente que  segue para a Suíça para morrer, fiquei confusa e quis parar. Tem uma técnica interessante na história, o escritor e narrador acaba tendo uma voz como responsável pelos acontecimentos, ele aparece do fundo do palco, abre a cortina e fala com a personagem; ela fala com ele, é o criador, afinal. Isso é divertido. Mas aí o rumo da trama muda e tudo fica um pouco desinteressante e eu parei de ler. Não gosto de parar de ler livros na metade, mas se não aguento continuar eu paro, eu leio porque gosto e não por obrigação. Li os três livros do Stieg Larsson da série Millennium, mas no terceiro pulei um monte de páginas e fui para o final. Fiquei sem paciência e quis ver como terminava. Achei que valeu, gostei muito dos livros, mas o terceiro é um pouco enrolado. Mas sobre o Kehlmann, sou uma leitora que se entedia com facilidade, não se influencie, o escritor é muito bom e o livro só tem 159 páginas.

 

 

Dois blogs e um livro

17 de março de 2011

Acompanho alguns blogs porque me interesso pelas vozes narrativas.

Lembro agora de dois: Calmantes com Champagne (http://www.screamyell.com.br/blog) e o blog da Companhia das Letras (http://www.blogdacia.com.br).

Sobre o blog da Companhia:  É claro que a editora é legal, seus livros são bonitos e cuidadosamente impressos.

Os autores que publicam lá são reconhecidamente bons; a editora publica novos autores, também.

As capas são coloridas, os livros da Lygia Fagundes Telles, por exemplo, têm capas artisticamente preparadas.

Agora a editora publicou entrevistas com escritores da  Paris Review (As entrevistas da Paris Review, vol. 1).

Cada livro tem uma capa diferente. Comprei um em que a cor  rosa choque predomina. Tenho livros com as entrevistas  editados há anos. Até agora não consegui entender se as entrevistas publicadas são exatamente as mesmas, vou comparar direito as edições essa semana,  acho que algumas são.

Mas voltando ao blog, o melhor dele são os textos do Luis Schwarcz. Acho tão sinceros, gostei de ler sobre a festa de inauguração da editora, sobre os sentimentos dele em relação ao pai, aos livros, aos amigos, essas coisas que todo mundo tem e parecem tão íntimas e talvez não precisassem ser reveladas, mas são, com elegância.

Li entrevista que ele (Luis Schwarcz) deu à revista Bravo, disse que já escreveu romance recusado pelos profissionais da editora (http://bravonline.abril.com.br/conteudo/literatura/sou-editor-severo-demais-comigo-618074.shtml).

Aí a gente pensa, mas se ele é o dono da editora, por que não publica e pronto?

Outro blog que eu acompanho é o do Marcelo Costa, editor do Scream & Yell.  Sempre achei o texto dele poético, mas compreendi isso melhor ao ler, no post de 14 de março,  que ele tem umas 3.000 páginas  datilografadas de poesia. Escreve sobre música, cinema, literatura, com profundidade, sem ser chato.

É difícil não ser chato, hoje em dia. O leitor ficou muito impaciente, a internet fez com que a gente consiga fazer um monte de coisas ao mesmo tempo e fazer as coisas vagarosamente dá um certo tédio. Escrever na internet é um exercício e tanto.

2011

19 de janeiro de 2011

Ano novo

Olhando a internet na página uol, vi chamada para os crimes da década. Qual a graça de recapitular os crimes da década? Chamar atenção daqueles caras que adoram os aspectos sórdidos da convivência. Só pode ser.
Hoje já vi retrospectiva melhor: os cds brasileiros da década. Los Hermanos, Mallu Magalhães, Nando Reis, e outros. Ouço muita música, mas do século passado: Bowie, Dylan, Arnaldo Antunes (50 anos, ele vai fazer), Secos e Molhados (comprei na banca de jornal), Egberto, Keith Jarrett. Qual a graça de lembrar os cds da época? Promover os cds, formar um retrato do gosto musical de um povo em um dado lugar e em certa época. Quem gosta do quê? As pessoas gostam do que gostam ou do que são induzidas a gostar? Quem induz quem a quê?
Agora na internet tinha outra retrospectiva: piores acidentes naturais da década.
No filme José e Pilar, um dizer de Saramago ficou na memória, ele disse mais ou menos que, em termos de comunidade, estamos péssimos. Não usou essas palavras, mas eu entendi assim o que ele disse.
Saramago me pareceu muito cético, ou lúcido. Sou pessimista, só que tenho irritante ingenuidade. Crio falsas esperanças de que as pessoas são boas e tenho a ilusão de nosso mundo está progredindo.
Aí resolvi começar a ler o Evangelho segundo Jesus Cristo, que eu guardo em um lugar nobre da estante sem ter lido, e estou encantada. Em espanhol diria, “me encanta el libro”. Saramago pode não ter acreditado em Deus, mas o texto dele é poderoso. Como a história de Cristo é triste…ficar pregado na cruz do jeito que ele ficou…(não cheguei nessa parte, mas já adianto minha aflição com essa parte da história que com certeza virá). A ressurreição dele não me surpreende tanto, a crucificação é que me espanta. Mas era uma forma de punição corriqueira, muito usada na época. Cristo foi julgado, condenado segundo regras jurídicas estabelecidas.
No fim, vamos todo para debaixo da terra e os cremados ficarão guardados em urnas ou voarão pelos ares, não sei o que é pior. Se ressuscitaremos ou não, já não posso dizer.
Vi uma série sobre a vida no dvd e fiquei impressionada com o esqueleto de um pinguim afundando no mar depois de trucidado por um animal gigante, não me lembro se uma baleia assassina ou um outro peixe grande.
Não sou muito de retrospectivas, vivo um dia a cada dia e a vida inteira e não classifico muito os acontecimentos, embora sinta necessidade, depois dos 40, de fazer listas e formar conjuntos.
Estou na praia agora, é dia 31 de janeiro, os fogos estão pipocando, assobiam antes de explodir e os cachorros têm medo. Por que as pessoas soltam fogos no fim do ano?
Pra terminar essa crônica de ano novo, quero contar que estou revendo Reds com Warren Beatty e Diane Keaton. O filme obteve um Oscar em 81. É de 81, mas entra na minha retrospectiva da última década. Algumas tomadas, alguns diálogos, ficaram um pouco datados. Não gosto das partes em que as pessoas do período (começo do século XX), mais velhas, narram impressões sobre o que aconteceu, elas estão enrugadas, fica esquisito. Documentário americano é um pouco assim, eles colocam pessoas narrando ou contando histórias anos depois. Pesquisando, vi que Warren Beatty começou as entrevistas em 1970. As entrevistas são consideradas ponto alto do filme. Não gosto, prefiro entrar no romance. Tirando isso, o filme é bom também porque tem como personagem Eugene O’Neill (Jack Nicholson), além de Louise e Jack, sempre tentando escrever da melhor forma. Ele dizia a ela que o texto precisa tirar o fôlego do leitor.
John Reed é um dos personagens que eu admiro. Eu queria escrever como ele escrevia, com vida. O texto dele é esperto e colorido. Ele acredita naquele texto dele.
Minha proposta para 2011 é acreditar no meu texto e ouvir um disco por dia, todo dia, porque a música desperta a alma. Existe a alma? Tive uma dúvida, agora, mas é claro que existe.

Falando outras línguas, pensando em português

22 de maio de 2010

Quando se aprende uma língua, chega-se perto da gramática da própria língua e das infinitas possibilidades do escrever. Olhar para o modo de falar do outro, do estrangeiro, faz com que se pense a própria articulação de ideias de um outro jeito. Hoje estudo espanhol, mas já estudei inglês e alemão e, de todas as línguas, a alemã é a mais sistematizada e previsível, embora a qualquer momento possa desequilibrar-se. E a língua portuguesa?
Uso a língua portuguesa para lembrar dos navios no mar de Santos, apitando enquanto esperavam hora de entrar no porto. Imaginava o que havia nos navios e supunha que transportavam coisas importantes. Admirava-os por isso, por estarem perto do sol que dormia no mar.
Uso a língua portuguesa para me lembrar dos tempos em que comprava discos de vinil na Musical Box, em Higienópolis, perto da Faap. Comprava um ou dois por semana e lá comprei Smiths, A flock of seaguls, Lou Reed e muitos outros. Eles entendiam de música ali e eram tão sérios, quase nunca sorriam. Mas e a música? Na Deputado Lacerda Franco tinha o Edgard, comprei alguns discos lá, vinham em um plástico bem grosso, uma senhora ficava sentada perto da porta e nós escolhíamos. Comprei Luiz Melodia ali. Uso a língua portuguesa para me lembrar da música que ouvi e ouço.
Estou lendo Claudio Willer, poeta, mas em prosa. O livro é “Volta” (Iluminuras). Ele conta coisas, ali, e fala do mar. O mar. Gosto desse poeta, ele é tão sério em sua poesia, usa a língua portuguesa para que eu quase chore qundo ele fala do Guarujá e da praia de Pernambuco, onde já estive muitas vezes e para onde não sei se voltarei.
Como podemos ir sempre a um lugar e depois não ir mais? O lugar deixa de nos pertencer com a nossa ausência. E fico pensando se um dia minha casa não será mais minha, e se a Avenida Paulista chegará a ser um lugar distante. Gosto de lá porque é e não é, está e não está, a avenida é mutante, escorregadia, flutuante, impaciente. Quando ando na avenida Paulista, estou e não estou, existo e não existo, meu pensamento voa a ponto de eu cumprimentar as pessoas com tchau e não com oi. Fico aérea, confusa, sou aérea e confusa.
Uso a língua portuguesa para aprender as outras e desejo muito, ao falar outras línguas, ser também outra pessoa e, ao mesmo tempo, pensar melhor em português.

Literatura na internet

9 de maio de 2010

Estou aqui com “A questão dos livros”, de Robert Darnton, Companhia das Letras, 2010, traduzido por Daniel Pellizzari. Antes de comentar o livro, faço referência ao tradutor, que aparece no twitter como @cabrapreta, com mais de 1300 seguidores (ele não segue ninguém). Não sei dizer em que medida o estilo do tradutor interfere no estido do escritor traduzido, mas o livro me pareceu bem escrito, em um primeiro olhar.
O assunto é a digitalização dos livros. A grande indagação que surge quando se leva a sério a digitalização de escritos é aquela referente às possibilidades de acesso aos arquivos.
No caderno Sabático do Estado de São Paulo de de 13 de março, publicou-se entrevista de Umberto Eco por Ubiratan Brasil, sob o título: “Eletrônicos duram 10 anos, livros, 5 séculos”. No mesmo Sabático, Lúcia Guimarães escreveu “Biblioteca de NY, Refúgio na crise”. Ela conta que o espaço de cultura em Manhattan recebeu 40 milhões de visitas em 2009 ( NY tem 8 milhões de habitantes).
Lúcia entrevistou Paul Le Clerc, “um dos personagens centrais da transformação digital de arquivos na passagem dos séculos”, sobre a digitalização do acervo, e o texto termina com a seguinte fala: “Há cinco mil anos não inventam lugar melhor do que a biblioteca para democratizar o acesso ao conhecimento”.
Robert Darnton vai mais longe. Nos ensaios que compõem o livro, enfrenta a instabilidade da informação, fala muito sobre o google, sobre o Google Book Search, sobre direitos autorais, sobre e-book, sobre internet. Ele é diretor da Biblioteca da Universidade Harvard.
Ao mesmo tempo em que folheio o livro penso que uma das mais antigas e tradicionais bibliotecas do Brasil, a da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, está em apuros. Seus livros foram transportados em caixas para outro prédio, considerou-se que estavam guardados de maneira inadequada e, proposta ação pelo Ministério Público Federal, o Poder Judiciário determinou retorno das edições ao prédio histórico (O Estado de São Paulo, 7 de maio – http://bit.ly/cBq5A5 ).
Pois é. Os tempos mudam, as faculdades querem se modernizar, ter mais alunos, os livros ocupam espaço, alguns ficam fechados por anos e anos sem um leitor sequer, passam a incomodar. Antigamente era um luxo ter uma biblioteca grande, organizada. Será que chegaremos a queimar livros, como em Fahrenheit 451?

Soul Kitchen e o peso do corpo

17 de abril de 2010

Ontem assisti Soul Kitchen, de Fatih Akin. Filmes alemães estão além do nosso tempo. Quando são da Alemanha e Turquia, ainda mais além. Depois de assistir um, acho os filmes americanos muito doces, piegas, qualquer deles, mesmo os mais violentos. A violência americana é açucarada na tela. Não sei se é isso mesmo, mas é como eu sinto, hoje. Mas Soul Kitchen é delicado, de certa forma, e nada violento. Trata incidentalmente daquilo que comemos, slow food, fast food? Fala de música, lealdade, amizade, irmandade, empreendimentos, força de vontade, família, amor, sexo, bebida, Hamburgo, prisão, vício, não nessa ordem.
O filme faz rir, mas é pesado, também. Circunstâncias determinam o curso da vida independentemente da vontade. E na Europa tudo é muito velho, as circunstâncias determinam demais. No entanto, espaços surgem e pode ser possível empreender.
E, antes de ir ao cinema, li texto de Luiz Felipe Pondé na Folha (12/4/10), sobre estar ou ser triste, depressão, Virginia Woolf, Mrs Dalloway, o deserto, o peso de acordar e ser aquilo que se é. Fiquei um pouco tocada porque, embora a gente já saiba que a angústia existe mesmo, sempre dá aflição vê-la constatada por escrito como uma sensação irremediável. E o peso da existência pode doer. Assisti outro filme no DVD, Ensinando a viver, com John Cusack e Joan Cusack. Ele adota um menino que acredita ter vindo de Marte e anda com pesos na cintura para não voar, para ficar preso. O filme é um pouco piegas, mas me identifiquei.
Também tenho medo de me desapegar e, por isso, às vezes, como tanto, para ficar mais pesada, para criar atrito (não estou acima do peso, ou gorda, falando claramente). Outro dia li que as fotografias de comida na internet fazem sucesso, tem gente que fotografa tudo o que come. Incrível. Não tenho a menor vontade de fotografar comida. Mas até gosto de ver algumas fotos, acho interessante observar como as pessoas decoram o prato e combinam os alimentos.
Como ainda estou lendo Doutor Pasavento, do Vila-Matas (leio devagar), não consigo deixar de relacionar tudo isso com a vontade de desaparecer. O personagem/escritor desvia rumo em uma viagem, deixa para trás o nome e tudo o mais, com exceção de poucos livros e poucas roupas. O desaparecimento do escritor é necessário para a escrita do romance e para que as personagens apareçam. O desaparecimento é o escrever do romance, de qualquer romance. Estou achando que é isso, é assim que eu compreendo o que leio. O desaparecimento é a grande viagem de todo escritor. Esforço-me para deslizar desaparecendo na escrita, mas ainda não atingi aquela insustentável leveza.
Em Soul Kitchen o herói tem um problema sério da coluna e fica meio que paralisado, pesado, arrastado. Depois ele melhora, mas precisa de ajuda, de ajuda esotérica, física, violenta e amorosa. Não é fácil ficar leve.

Leituras dispersas

7 de abril de 2010

Leio vários livros ao mesmo tempo. A falta de método atrapalha a compreensão total dos textos e das histórias e a memória perde encadeamentos necessários para uma eventual narrativa.
Se eu fosse contar a alguém o que me lembro de Doutor Pasavento, de Enrique Vila-Matas, diria que é a história de um escritor que tenta se esvaziar de si mesmo para encontrar um personagem possível. No enredo ele desaparece, mas eu compreendi que vai murchando, esvaziando, enquanto viaja.
E ainda parei no meio de Cidade Pequena, de Lawrence Block. Um escritor é suspeito de assassinato e aproveita essa situação para promover seu livro. Será isso? Deixei o livro de lado faz um tempo e olho de vez em quando com vontade de recuperar a escrita natural de Lawrence Block, mas acabo lendo outras coisas.
Li um livro sobre a construção virtual da memória, encontrei no aeroporto. Esqueci o nome. O autor diz que podemos passar todas as nossas experiências para meios digitais e, se soubermos arquivá-las com método, serão encontradas quando precisarmos. Achei interessante, mas deve ser chato ter essa preocupação o tempo inteiro. Outro dia deletei mensagens do celular e depois fiquei meio triste, e se eu quiser escrever minha autobiografia, as mensagens não seriam úteis? Aí pensei, mas por que eu iria escrever minha autobiografia? E aí pensei, mesmo as pessoas cujas personalidades não têm repercussão podem escrever sua autobiografia. Memórias são sempre memórias. É, mas é melhor lembrar de tudo de um jeito esfumaçado, sem apontar datas em linhas do tempo.
E ontem à noite li Drummond, A falta que ama, li e reli Elegia transitiva. “Onde habitas agora, onde saber tuas joias errantes?”.

Amazônia, Alemanha, Ingo Schulze

8 de dezembro de 2009

Vi Ingo Schulze no Instituto Goethe semana passada em São Paulo. Lançou Vidas novas, Cosacnaify. O livro é consistente, tem  capa dura, ficou  lindo. O autor falou, o tradutor Marcelo Backes falou, as pessoas fizeram perguntas.

Adoro as histórias passadas na Alemanha oriental, na DDR.  Filmes como Adeus Lenin, A vida dos outros, Um amor além do muro, são muito legais. Vi outros sobre pessoas separadas pelo muro na Alemanha,  lembro-me de cenas e imagens, mas não dos nomes.  Minha memória falha tanto. As imagens ficam, e não são suficientes. Gostaria de lembrar nomes de diretores, atores, filmes, anos de filmagens, essas coisas. Mas não dá, não lembro.

Ingo Schulze ainda está claro na minha memória, foi semana passada. E eu fotografei, comprei livros que ele autografou, prestei atenção em tudo o que foi dito.

O romance Vidas novas é epistolar, um Briefromanz. Ingo disse que construiu o livro tendo como parâmetro a estrutura da memória. Cartas são reunidas e organizadas por Ingo Schulze, que não é, necessariamente, o Ingo Schulze que nos falava e que leu, em voz alta, trechos do romance. E o tradutor Marcelo Backes interferiu no livro porque acrescentou a ele notas explicativas de pessoa que foi ao lugar onde a história se passou, tornou-se testemunha e até mesmo personagem, um personagem de rodapé. É um tradutor interferente. Claro que o autor concordou com as interferências. Foi generoso ao aceitar a inserção das notas pelo tradutor brasileiro. Senti no ar, enquanto  ouvia os dois falarem, que havia uma curiosidade recíproca, uma atenção respeitosa. É difícil escrever. É difícil traduzir.

Não entendo muito de tradução, mas ouvi ali que as intervenções de Marcelo Backes foram consideradas inovadoras no meio literário.

Fiz ainda associações naquela noite. Lembrei-me do Jogo da amarelinha, de Julio Cortázar, um romance que o leitor ajuda a estruturar, ordenando capítulos de diversas maneiras. Lembrei-me também do romance A volta para casa, de Bernard Schlink, que escreveu O Leitor, também. E A volta para casa também fala de um homem que deixou um passado na Alemanha, escreveu histórias e estórias, e desapareceu, assim como o escritor das cartas de Ingo Schulze, Türmer, Enrico Türmer. E         recordei-me, ainda, de um conto de Paul Auster, Cidade de vidro, publicado em A trilogia de Nova York. No conto, Paul Auster é um personagem escritor, ele mesmo, talvez –  ou não -, assim como Ingo Schulze é o organizador das cartas de Enrico Türmer.

Os grandes escritores têm um repertório parecido, pois percebem os grandes conflitos.  O duplo é um tema que aparece sempre nas narrativas porque vivemos às voltas com a projeção do nosso eu em diversas situações, reais e imaginárias. O desaparecimento das pessoas é também um assunto e tanto (tem a ver com o duplo, também). Quem não tem vontade de evaporar e aparecer em outro contexto? Não  falo em morrer, mas em sumir, mudar, trocar de identidade. Essa é uma fantasia.

Estou por aqui tendo essas ideias e nem comecei a ler Vidas novas. A língua alemã se permite traduzir, mas não se deixa invadir. A tradução de Marcelo Backes pode ter acrescido um outro olhar à história, mas só. Parece que há um convite para que o leitor também participe do enredo. Mas gosto de ser uma leitora conformada e compreender o que é contado sem muitas pretensões. Entro no texto em forma e conteúdo e é isso o que vou fazer daqui a pouco. Espero me surpreender.

Ah, li no jornal que Ingo Schulze vai escreve sobre a Amazônia. Os europeus ficam muito encantados com a nossa selva, sempre ficaram. Senti um pouco de ciúmes ao ler sobre essa vontade, essa inspiração. Gostaria que a Amazônia ficasse intocada.

Balada Literária em São Paulo

21 de novembro de 2009

Fui duas vezes à Livraria na Vila, na Balada Literária. Marcelino Freire está muito bem recebendo as pessoas. É discreto, faz os comunicados necessários, as perguntas pertinentes quando vem um vazio e, melhor que tudo, deixa os convidados falarem.

Estive em duas mesas. Uma delas foi presidida por Ivana Arruda Leite e a outra por Xico Sá. Na primeira eram convidados Marcelo Coelho, Heloísa Buarque de Hollanda e Noemi Jaffe. Na segunda, Reinaldo Moraes, Matthews Shirts e Mário Prata.

Ivana lembrou-se de ter dado seu primeiro livro para Marcelo Coelho ler e criticar e ficou esperando a crítica e veio uma sobre Marcelo Mirisola.    Foi engraçado ela ter contado isso na lata. Naomi disse que é rígida demais com ela mesma ao escrever ficção e Heloísa disse que gostaria de ter estudado arquitetura e que pensa sempre no plano do espaço.            Marcelo Coelho falou dos grupos (não foi bem essa a palavra, mas o sentido era esse), do pessoal que escreve, das pessoas convidadas a viajar e palestrar aqui e ali e que desse movimento também se vive, independentemente dos livros vendidos. A grande pergunta da tarde foi: teremos ainda um grande escritor que transgrida formas e conteúdos?       Há espaço para alguém como Guimarães Rosa?

A conversa entre Xico Sá, Mário Prata, Matthew Shirts e Reinaldo Moraes foi divertida demais. Como eles sempre foram muito amigos, havia uma intimidade, uma familiaridade, que passou para quem estava assistindo.      A plateia tinha fãs, pessoas que levaram livros antigos para autógrafos, que sabiam tudo o que eles tinham escrito, que acompanharam a escritura de  Os anjos de Badaró  na internet.

Mário Prata sabe ser engraçado,  contar histórias com as pausas e os silêncios que premeditam a risada. Fazia tempo que eu não ria assistindo alguma coisa. E foi legal eles (Reinaldo Moraes e Mário Prata) contarem como escreviam tramas de novelas, mostrando como a escritura pode ser livre e como as tramas da imaginação tornam-se quase reais, porque uma novela,  agora digo eu, é quase real. Não assisto novela faz muito tempo, mas vejo que quem assiste vive aqueles dramas todos como se fossem seus. E às vezes são, mesmo. E Mário Prata e  Matthew Shirts falaram das crônicas que escreveram, do tempo em que acompanharam a copa do mundo nos Estados unidos. E eles falaram sobre a formação do escritor, sobre como, nos Estados Unidos, os cursos de escrita são valorizados, sobre os conhecimentos gerais importantes para quem escreve, discutindo tudo isso em clima de prós e contras: o escritor deve ser formado e bem informado, mas o livro não pode ser chato.

E gostei quando a mocinha, na platéia, estudante de jornalismo que prepara trabalho sobre a crônica, perguntou se a crônica vale tanto para o livro como para o jornal.

A resposta foi mais ou menos assim: a crônica é para o jornal, é um escrito que capta um momento, um sopro que ninguém viu. Mas pode ser publicada, e o livro pode até vender, desde que as crônicas sejam disfarçadas.

Ficção e folhetins e imprensa e internet

15 de setembro de 2009

Estou lendo muitos livros ao mesmo tempo, mas o principal é Justine (Quarteto de Alexandria, Lawrence Durrell). Há outros circundantes, como os policiais de Lawrence Block e os livros de ideias, histórias, relatos, ensaios, reflexões. Gosto sempre de escrever sobre eles porque não me emocionam, mas me instigam, me fazem trocar ideias de lugar. Já disse isso. Poderia escrever sobre Justine e sua personalidade volátil, sobre Justine e sua insegurança adolescente, sobre Justine e o feitiço, sobre Alexandria e magia, sobre o escritor que realiza a história que escreve.

Escritores  gostam de ser, eles mesmos, os personagens da narrativa no contexto da própria escrita. O narrador é o personagem. Será isso? A história dentro da história? Proust e o desejo de escrever de seu narrador encontram-se com meu desejo de escrever que some enquanto se realiza, como o chocolate derretendo na boca. A angústia de tentar escrever algo completo é imensa.

Mudando para alguma coisa mais concreta, digo que gosto muito de ler estudos sobre jornalismo e relatos de jornalistas. Os relatos de correspondentes estrangeiros me encantam, como se diria em espanhol. Leio desde John Reed na Rússia até Michael Herr no Vietnã, até Lourival Sant’Anna no Afeganistão, e mais. E também passo pelo jornalismo em folhetins. Encontrei um livro interessante guardado na estante: “Imprensa e ficção no século XIX: Edgar Allan Poe e a narrativa de Arthur Gordon Pym” (Unesp, 1996). É sobre o romance publicado em folhetim. É um texto acadêmico, então um pouco hermético. Porém, o autor preocupa-se em sintetizar as ideias expostas, facilitando a leitura de quem quer conhecer sem necessariamente estudar. E enumera técnicas de construção da narrativa ficcional nos folhetins. E ressalto as mais interessantes: 1)- Títulos atraentes; 2)- Inícios de histórias sensacionalistas; 3)- Muitos diálogos; 4)- Intriga (tensão e distensão); 5)- Acaso; 6)- Herói e heroína  simplificados; 6)- Vilões satânicos; 7)- Finais inconsistentes (p. 44, 45).

A narrativa de Arthur Gordon Pym, de Poe, foi publicada em 1837. As duas primeiras partes foram publicadas na revista Southern Literary Messenger (janeiro e fevereiro de 1837). Depois Poe terminou a história e a publicou em livro. José Alcides Ribeiro analisa o texto de Poe em detalhes, dissecando personagens e suas ações.  E depois expõe  reflexões conclusivas (Capítulo 5, Parte 2). Arthur G. Pym é o autor fictício do romance. Mas há três autores. O outro narrador é anônimo e o terceiro é o próprio Edgar Allan Poe. Criam-se, assim, diversas possibilidades de leitura. Poe escreve para a imprensa periódica e a específica maneira de publicar influencia a criação literária.

Atualizando a discussão, reflito eu que a publicação na internet, a fluidez na leitura de textos em diferentes meios (livros, jornais, revistas, blogs, sítios específicos), a comunicação rápida e volátil de ideias, contribuem para uma produção escrita curta, cifrada,  que muitas vezes só pode ser bem compreendida e digerida por quem também participa e compartilha dos mesmos processos de comunicação. Mas sempre haverá clássicos, aqueles que ultrapassam os limites e as regras estabelecidas pela comunidade.

Modernismo: o fascínio da heresia, de Peter Gay

29 de agosto de 2009

Gosto de ler ficção, mas gosto também de ler ensaios, estudos, descrições, textos que não me emocionam explicitamente. A ficção me toma muita energia e, quando estou cansada, simplesmente não consigo começar um livro e me envolver na história. Aí leio partes de discursos sobre variados assuntos, mas geralmente sobre a própria literatura, ou sobre arte, ou sobre como escrever, ou…sei lá. Pode ser qualquer coisa, mesmo textos sobre informática e gramática.

Livros de não ficção  lembram-me o tempo em que eu estudava, em que estava ligada à Universidade (não faz tanto tempo), em que lia, anotava e transformava idéias em novas idéias em combinações que eu acreditava inovadoras. Hoje em dia não me preocupo com isso porque sei que para ir além do que eu fui é preciso ser muito dedicado e  concentrado na técnica humanista e eu não sou assim. Fui até onde era possível, até onde minha honestidade intelectual permitia. Um passo a mais e eu estaria no campo da hipocrisia. Decidi enfrentar a vontade de escrever ficção. E é o que faço, embora nunca tenha publicado. Acho que vou publicar um dia, talvez, se eu quiser muito. Por enquanto me exercito. E leio.

E é mais fácil escrever sobre os livros de não ficção porque os romances despertam sentimentos difíceis de serem explicados. Então, quando quero escrever sobre o que leio, volto-me para as reflexões mais objetivas.

A Companhia das Letras publicou Modernismo: o fascínio da heresia, neste ano de 2009. No prefácio, Peter Gay diz: “Este é um estudo sobre o modernismo, seu nascimento, crescimento e declínio”.  Não vou tentar explicar aqui o que é o fenômeno cultural do modernismo, o livro tem mais de quinhentas páginas.  Se bem que o livro não trata propriamente do modernismo, mas dos modernistas, dos diversos artistas que quebraram padrões, na música, na literatura, na arquitetura, na pintura. Esses artistas não tinham ideologia em comum, afinidades políticas.

Vou ressaltar aqui alguns pontos que eu considerei  curiosos, neste livro que não li inteiro, adianto, um pouco sem jeito, mas com sinceridade. Não tenho pretensão de criticar o livro, ou de escrever uma resenha séria. Quero só expor alguns apontamentos para organizar as ideias.

Charles Baudelaire (1821-1867) foi um dos primeiríssimos modernistas. Objeto e sujeito estão unidos, para ele. As flores do mal fizeram-no responder a um processo: os poemas eram lascivos. E eram formalmente estruturados, também. A forma era importante. Flaubert também foi processado pela ousadia erótica de Madame Bovary, na mesma época.

O modernismo ultrapassa os anos. Peter Gay chega ao arquiteto Frank Gehry e o Museu Guggenheim em Bilbao (1997), esculturado para reluzir, impressionar.  E no meio do caminho estão Garcia Marques, Le Corbusier, Frank Lloyd Wright, Kandinski, Stravínski, T.S.Eliot, Kafka, Virginia Woolf, Proust, Joyce. Encontra-se, nas fotografias, serigrafia de Andy Warhol que mostra Marilyn Monroe mais Marilyn Monroe do que nunca: bela e fake.

O que todos esses artistas, e outros tantos, têm em comum? Não sei dizer bem, mas acho que exploram  autenticidade que se expõe com muita liberdade. Preocupam-se com o modo de mostrar, sendo ele, também, e principalmente, o moderno. Há no livro uma fotografia de “O balanço”, de Renoir. O sol passa entre as folhas das árvores e ilumina a moça, a criança, os rapazes. Estamos em um parque encantado e quase que sentimos a conversa dos personagens. É tudo tão luminoso. E é tudo tão aparentemente falso, também. O modernismo permite que o falso seja, ele mesmo, personagem da arte e do mundo. Falso não é o termo exato. Representação vai melhor.

The Great Gatsby- F.Scott Fitzgerald

17 de agosto de 2009

I know it is risky to write about The Great Gatsby. But I liked the novel very much and want to write about in English, the language it has been written.

I think that F. Scott Fitzgerald was  motivated when he wrote the novel. He found the rigtht characters and discouvered intelligent ways to link their lives. The narrator is smart and tells the story of Gatsby without leaving his own point of view apart. We get acquainted with his feelings about the relationship between Gatsby and Daisy and we know that, although he wants them to be together, he knows that their love is true, but almost impossible. The relationship between Daisy and her husband is real and able to survive. He saves her from being accused of a very bad act and she accepts his lie. It is better to stay with someone who  keeps you safe than with someone you love. What is love, anyway?

The narrator is a romantic man. And the great Gatsby is the man who believed in the green ligth, in the future that escapes. No problem: “to-morrow we will run faster, stretch out our arms farther…”

A montanha de moluscos de Leonardo da Vinci, de Stephen Jay Gould

10 de agosto de 2009

Este livro, publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2003,  é constituído por ensaios sobre história natural. O livro fica na estante atrás do computador e eu olho pra ele sempre que quero encontrar alguma coisa diferente nessa prateleira que guarda assuntos diversos que estimulam o meu pensamento.

Gosto dos naturalistas, pesquisadores pacientes e minuciosos. Gostaria de ter método para as análises e observações científicas, mas sou generalista e tenho compulsão pela síntese. Aprendi a fazer resumos na escola e sempre tenho a tentação de falar muito em pouca escrita. Às vezes dá certo e às vezes não.

Na introdução, o autor explica: “Na maioria dos casos, não descrevo observações inéditas, mas, antes, tento colocar informações pouco familiares (ou mesmo bem conhecidas) num contexto novo, justapondo-as a outros assuntos com os quais antes elas não eram relacionadas – sempre com o objetivo de iluminar uma questão geral sobre a prática da ciência, a estrutura da natureza ou a construção do conhecimento” (p. 19).

O exercício de  deslocar as informações de seu contexto habitual e misturá-las em raciocínios destinados a descobertas diversas é difícil, mas valioso. Pensamos em compartimentos e os limites são obstáculos a ideias novas.

O ensaio sobre a arte nas cavernas (Contra a parede, p. 197) analisa cronologia das pinturas encontradas, apontando dificuldades nas datações. E ele fala do deslumbramento ao ver pinturas feitas por homens que viveram há 30.000 anos atrás, pessoas como nós, ele diz. E continua: “Em outras palavras, não é o caso de pensarmos no Paleolítico como um período de antigo primitivismo, mas como um momento de vigorosa juventude para a nossa espécie (ao passo que hoje em dia representamos provavelmente a sua respeitável velhice)” (p. 217).

Essa admiração pelo começo senti quando vi pinturas rupestres na Serra das Paridas, na Chapada Diamantina (já relatei esse encontro neste espaço). Os desenhos de mulheres parindo me emocionaram (insiro fotografia ao terminar o post). E as figuras ainda não foram datadas, não sei em que fase estão os estudos.

Há muitos outros textos no livro, que misturam arte, biologia, literatura. Jay Gould fala de Darwin, Da Vinci, evolução, história e, em síntese, fala sobre a humanidade.

Livros que nunca li

28 de julho de 2009

Os livros que não li são quase tão importantes quanto os livros que li. Há livros que quero ler logo, outros que sei que não lerei, mas que admiro de longe.  Um livro que quero ler e não tenho coragem é Ulysses, de Joyce. Não tenho coragem porque acho que é um pouco hermético e vou acabar não terminando. Quem sabe um dia…Outro que quero ler, está ao meu lado, já iniciei algumas vezes, é  O quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell. Posso começar hoje mesmo. Pastoral americana, de Philip Roth, é outro que está para ser iniciado há tempos. Já comprei duas vezes, sem querer, de tanto que quero ler. Seu rosto amanhã, de Javier Marías, tem uma das primeiras páginas mais lindas que já li. Parei nela e sonho em recomeçar. Um autor que não consigo ler é Rubem Fonseca. Sei que é excelente, mas não fico envolvida. Adoro policiais, no entanto, especialmente Chandler e Simenon.  Gosto de Patricia Cornwell. E não consigo ler Rubem Fonseca, embora tenha todos os  livros que escreveu.

A Fazenda Africana

28 de julho de 2009

Terminei de ler A fazenda africana, de Karen Blixen, em edição da Cosac Naify de capa dura (2005). Gostei tanto que demorei lendo, pra não acabar. Mas a última página chegou. Não leio outra vez porque não gosto de reler livros. Ainda não gosto. Parece que quando as pessoas ficam mais velhas começam a reler. Duvido que eu faça isso. Um livro lido é quase que uma página virada, reler é como voltar pra casa pra ver se o fogão ficou ligado ou pra pegar uma chave esquecida. Poderia comentar muitas passagens, especialmente aquelas em que a autora fala das pessoas de cultura diferente da dela com quem conviveu, ou as passagens em que o tempo é o personagem, o tempo lento em que muita coisa acontece, em que os relacionamentos se desenvolvem, as pessoas se conhecem. Silencio, no entanto, guardando a emoção da leitura pra mim. Os capítulos mais bonitos do livro são aqueles em que ela fala de Denys, de seus momentos juntos e sua morte. As passagens são curtas, delicadas e muito intensas. O livro me fez ter vontade de aprender a fazer tudo mais devagar, se for possível. Talvez um bom exercício fosse ler o livro outra vez.

Amós Oz

16 de julho de 2009

Houve uma época em que eu lia muito Amós Oz. É um escritor que me desconcerta, me sensibiliza tanto quanto Kenzaburo Oe. Mas faz tempo que não o leio e, tendo resolvido falar sobre meus livros, achei que deveria enfrentar o relato de Pantera no porão (Panter bamartef), de que tanto gostei há alguns anos. Li o livro e preciso consultá-lo outra vez para comentá-lo, porque aspectos objetivos da história me escapam. A sensação que o escrito me causou permanece íntegra, no entanto. Senti uma afinidade enorme com o narrador, Prófi, que teve uma conexão forte com um militar britânico em Jerusalém, antes da criação de Israel. Uma conexão forte pode ser aquela em que duas pessoas trocam conhecimentos, impressões e experiências em contexto de sinceridade. O relacionamento entre os dois não era bem compreendido na época em que se lutava para que a Grã-Bretanha deixasse Israel e o país ficasse independente e reconhecido perante a comunidade internacional. E Prófi foi chamado de traidor. E explicou que nunca sequer disse seu nome ao inglês: ”A única coisa que fiz foi ler a Bíblia com ele em hebraico e lhe ensinar algumas palavras modernas que não estão na Bíblia, e em troca ele me ajudou a aprender os rudimentos do inglês” (Companhia das Letras, 1999, p. 35). E então o livro trata da influência que o coletivo exerce sobre as pessoas, principalmente em épocas de silêncios e opressões. E o livro trata da linguagem, dos conceitos, e de livros. E trata da amizade e dos costumes rotineiros que todos nós temos, decorrentes do temperamento que nos leva, irremediavelmente, a ser aquilo que já poderia ter sido previsto, ou que era esperado. E pensei que o livro suscita as perguntas: O que faz com que um escritor torne-se, realmente, um escritor? O que o impulsiona a contar a história? Amós Oz enfrentaria o assunto da criação da história depois, em Rimas da vida e da morte, também publicado pela Companhia das Letras.

Roland Barthes

13 de julho de 2009

A preparação do romance I e II, publicado pela Martins Fontes em 2005, reproduz cursos e seminários de Roland Barthes no Collège de France entre 1978 e 1980. A tradução é de Leyla Perrone-Moisés. O texto cativa porque informal, na linguagem oral, da aula, ou ainda na linguagem das notas preparatórias de uma aula. Barthes fala primeiro do querer escrever. Proust e Em busca do tempo perdido falam do desejo  de escrever. Refletindo sobre como se passa das notas ao romance propriamente dito, Barthes introduz, nas conversas, o haicai. O haicai é ato mínimo de enunciação e encanta ao não permitir análise alguma do que diz. Há um desejo de haicai. Entre um haicai e a narrativa existe uma forma intermediária:  a cena. E ele trata das formas breves, da frase, das anotações, para chegar ao romance, que mistura a verdade das anotações ao falso do imaginário. Para conseguir escrever um romance é preciso conseguir mentir, misturar o verdadeiro com o falso. O volume II disseca o ato de escrever e o ato de ler, indagando se é possível, enquanto se escreve, ler, também. Ler o livro de Roland Barthes é mergulhar na escrita (por meio de falas em aulas), procurando desvendar os mistérios da compulsão por escrever, a localização do assunto, o modo como ele  toma conta do escritos. Barthes usa Proust durante quase todo o tempo e o livro, nesta edição, termina com anotações para seminário sobre “Proust e a fotografia”, em que são analisadas fotografis de pessoas que inspiraram os personagens de Em busca do tempo perdido.

Italo Calvino

12 de julho de 2009

Hoje escrevo sobre  Assunto encerrado-Discursos sobre literatura e sociedade, de Italo Calvino (Companhia das Letras, 2009). Está dividido em capítulos que podem ser lidos separadamente.

Sintetizo, de Calvino, o escrito Para quem se escreve? (A prateleira hipotética). O texto foi publicado na Rinascita nº 46 de 24 de novembro de 1967. Ele responde às perguntas “para quem se escreve um romance?” e “para quem se escreve uma poesia?”. E seguem as respostas: “Escrevemos romances para um leitor que finalmente terá compreendido que já não deve  ler romances”. Ele diz que, embora se espere que os romances estejam adequados a uma determinada concepção de mundo, e possam ser colocados entre outros análogos em prateleiras, sua verdadeira função é despertar novas indagações, destruindo constatações.  Não é possível pressupor que o leitor seja menos culto que o escritor e deva ser ensinado, porque o paternalismo acentua desníveis culturais. Calvino diz ainda que a literatura tem peso político modesto e que a própria obra é território de luta e está em constante movimento.

Bom, posso sintetizar outro escrito de Calvino, do mesmo livro. Em 1967, ele proferiu conferência intitulada Cibernética e fantasmas (nota sobre a narrativa como processo combinatório).  O texto é muito interessante porque enfrenta a descontinuidade do discurso e do sujeito que o formula. Hoje, narrar não é só contar uma história, mas dizer que se conta uma história, transformando-se, o narrador, no próprio objeto do discurso, assumindo personalidades diferentes. A linguagem é desmontada. Surge o eu que escreve e o eu que está escrito. E Calvino afirma que o momento da vida literária é a leitura. O autor desaparece e a obra, julgada e comentada, vive e sobrevive. A máquina poderia, então, tendo aprendido as combinações possíveis, substituir o homem na escrita. A literatura é jogo combinatório. Só que a máquina poderia combinar e trocar elementos em um jogo, mas o impacto dessas trocas só repercute no homem e na sociedade, fantasmas ocultos na escrita. E a literatura pode confirmar ou questionar. Cabe ao leitor compreendê-la, independentemente da intenção do autor.