Estados Unidos. Em um primeiro momento a gente vê que os filmes americanos são reais. O cinema mostra quase tudo.
Depois de um tempo, dá um certo bode, uma chateação ouvir aquela voz artificial dizendo “sure”, ou “ok”, naquela entonação característica. Quando a gente tenta imitar, eles tratam melhor. Há muitas regras e alguns códigos de comportamento, eles são muito diretos. E são necessariamente gentis:”How are you today?” “Have a good day” “Enjoy the rest of your day!” É o tempo todo assim. Às vezes a gente até acredita que é sincero. De qualquer forma, é confortante. Em Los Angeles a cortesia é mais evidente. Depois, no fim da viagem, dá pra ver que muitos cumprimentos são sinceros, muitas pessoas são legais e eles se esforçam para agradar (será melhor se você tiver um ou mais cartões de crédito).
São Francisco é uma cidade bonita, não é muito grande. Tem umas áreas muito bem definidas. Fisherman’s Wharf tem barcos lindos no mar, hotéis (Sheraton, Marriott, Radisson), muitas lojas de eletrônicos para turistas (tudo meio esquisito), o Museu de cera, um gramado lindo de frente para o mar, uns piers para leões marinhos que não estavam lá na hora, frutas lindas pra gente comprar e comer com chocolate no Pier 39.
A loja de chocolates e sorvetes da Ghirardelli tem o melhor sunday do mundo, mas se você por acaso for em um domingo de sol, pode se preparar para um tempo de espera na fila: demora. Mas vale a pena. Eles não pensam duas vezes antes de entrar em uma fila que vale a pena. Ouvi em LA que lá eles ficam em filas por cupcakes.
Ripley’s Believe it or not! é um pequeno museu que mostra objetos, relatos, excentricidades colecionadas por Robert Ripley, um americano jornalista que viajou para muitos lugares distantes quando viajar não era muito fácil. Se você estiver com crianças, é um bom programa. Tive a sensação, naquele museu, do sonho americano, daquela ideia de que tudo é possível, se a gente acreditar e trabalhar pelo que quer. Não sei se é isso, é difícil fugir dos lugares comuns, nessas horas.
Fomos a ótimos restaurantes, em São Francisco. Um amigo nos indicou um vietnamita, The Slanted Door, muito gostoso (http://www.slanteddoor.com) Fica no Embarcadero (Ferry Building), um lugar bonito, perto do mar. Parece que de dia é mais divertido. Ali já deu pra perceber que o serviço, nos restaurantes, é muito gentil e prestativo. Eles são atenciosos.
As pessoas que trabalham, aquelas com quem a gente fala, são amáveis. É que a gratificação pode chegar a 20%, então elas se esforçam pra gente consumir e retribuir o bom atendimento.
São Francisco tem mar e muitas ladeiras. Em um dos dias almoçamos em um restaurante famoso, The Cheesecake Factory, no 8º andar da Macy’s, em Union Square (http://www.thecheesecakefactory.com). Uma moça brasileira trabalha lá e conversamos, foi legal. A comida é gostosa e as tortas, muito melhores. Cheescake de banana, de Browne, todas engordativas. Sentamos no terraço, foi muito bom.
Almoçamos também no Scoma’s (http:// http://www.scomas.com), que fica no Fisherman’s Wharf. O restaurante é tradicional e os pratos com frutos do mar são bons.
Fizemos um City Tour. Em um City Tour a gente tem uma ideia geral da cidade, passa pelos principais pontos. E assim vimos a Golden Gate pela primeira vez. Passamos por Haight Street, que tem um passado hippie muito forte, todo Janis, Grateful Dad, paz e amor. Hoje eles vendem camisetas manchadas, roupas usadas. Mas há lojas de vinil, lá. Voltamos outro dia e comprei 3 discos: trilha sonora de Bound for Glory, Jim Croce e Ry Cooder. Há centenas de discos super legais na loja. Foi a única loja de discos que vi nos Estados Unidos. Essa e uma que ficava na mesma calçada, de disco de vinil, também.
Ainda no City Tour passamos por uma praça onde ficam casas em estilo vitoriano, muito famosas, aparecem em várias fotografias da cidade (http://www.sanfranshuttletours.com/alamo_square.htm). Uma dessas casas foi cenário para aquele filme engraçado, estrelado por Robin Williams: Uma babá quase perfeita (http://www.movie-locations.com/movies/m/mrsdoubtfire.html). Os guias de viagem contam essas coisas, mas a gente só presta atenção lá, ou quando volta.
Tentamos ir ao famoso parque Muir Woods, mas só chegamos até Muir Beach. Muir Woods estava cheio, não encontramos lugar para estacionar o carro. É como ir ao Ibirapuera em um domingo de sol: não é fácil. Aí paramos na Columbus Avenue, almoçamos no Café Zoetrope, do Coppola, com endereço na Kearny St, pertinho da Columbus. Lá foram escritos os roteiros de filmes muito importantes. Foi emocionante almoçar ali, onde, disseram, foi criada a Ceasar Salad, que é muito boa, por sinal, assim como o tiramisu.
Califórnia em julho
26 de julho de 2011Novidades em São Paulo
7 de junho de 2011http://visiteedith.com: Edith, selo editorial. Quatro livros foram lançados no b_arco, sábado, dia 4. Marcelino Freire está coordenando tudo isso. Os livros são bem acabados, muito bonitos: Esses dias pedem silêncio (Jorge Antônio Ribeiro), A mulher que queria ser Micheliny Verunshk (Wilson Freire), Hotel Trombose (Felipe Valério) e André Sala vai para Casa do Chapéu (André Sala).
www.nucleocontemporaneo.com.br: gravadora e produtora de música. Benjamim Taubkin, grande pianista, dirige. Na Casa do núcleo (Centro Cultural de Música do Núcleo Contemporâneo), assisti Léa Freire (semana Léa Freire) em muitas variações. Com Vento e Madeira e com o Quinteto. Teco Cardoso toca nos dois quintetos e Mônica Salmaso canta com Vento e Madeira. Aliás, no cd do grupo há pouco lançado (é de outro selo, Maritaca), ela canta, inclusive aquela música linda do Nelson Cavaquinho e Amâncio Cardoso: Luz Negra.
Em Porto Alegre no feriado de 21 de abril
1 de maio de 2011Em visita a Porto Alegre, fui à Churrascaria Na Brasa, ao Restaurante Bah, ao cinema (duas vezes) e à Fundação Iberê Camargo. Lá estavam o edifício (obra de arte arquitetônica de Álvaro Siza), trabalhos do próprio Iberê – taciturnos e maravilhosos – e a belíssima exposição de Regina Silveira, “Mil e um dias e outros enigmas”. Estava o Rio Guaíba, também. No sábado estourou aquele temporal que virou notícia. Em São Paulo os vendavais ainda surpreendem, mas o de Porto Alegre foi muito forte. Deu para ver a nuvem que explodiria parada sobre o rio, esperando.
Tango e sarau na Virada Cultural
17 de abril de 2011Este ano a Virada Cultural, pra mim, foi bem tranquila: sábado e domingo no Museu da Casa Brasileira. Sábado à noite, tango, três conjuntos: Café Tango, Jogando Tango e De Puro Guapos. Noite fresca, casa cheia, mas não lotada, casais dançavam tango em um tablado no jardim. Uma delícia, o jantar. Voltei hoje de manhã para assistir o sarau modernista. Sentei em uma cadeira lateral sozinha, às vezes olhando o palco, às vezes olhando o jardim, às vezes só ouvindo a música. Os estudos de Villa Lobos ao violão estavam lindos. Pensei que a leitura dos modernistas me cansaria, mas não. Textos lidos eram curtos e a leitora tinha uma voz de amável intensidade.
Daniel Kehlmann, Michel Laub e tirashi no Sushi Guen
17 de abril de 2011Estava achando chato Fama, de Daniel Kehlmann. Parei, li Longe da Água, de Michel Laub (Companhia das Letras, 2004) e resolvi dar outra chance ao livro (Fama, D. Kehlmann).
O romance lida com a possibilidade de transformação e de alteridade. Todo mundo pensa em ser outra pessoa, em mudar de personalidade, de corpo, de mente, de amigos, de família. O tema é super atual; na biologia, na psicologia, na psicanálise, estuda-se o tanto que o cérebro e sua química são importantes para a formação da consciência (livro não fala em química, eu é que fiz a associação).
A literatura reflete sobre a separação entre corpo e mente, entre tempo e espaço, todo o tempo. O escritor nada mais faz do que entrar em mundos diversos e leva o leitor com ele, para o mundo imaginário de cada um (não necessariamente o mesmo).
Gosto do Sushi Guen da Brigadeiro Luis Antonio na hora do almoço. Sento no balcão, como um tirashi, leio um livro. O livro do dia era Longe da Água. Fiquei totalmente envolvida com o texto e com o tom da escritura, leve, mas denso. Duvidei um pouco do jeito como terminou, destoou um pouco da naturalidade do caminho inicial. Poderia ter terminado antes, ou terminado de outro jeito. Mesmo assim, o livro é muito bom.
Lendo pela metade
11 de abril de 2011Sou fã da literatura alemã, de Thomas Mann a Ingo Schulze e Günter Grass, Peter Handke, e tudo o mais. E não conhecia Daniel Kehlmann, comprei por acaso Fama: um romance em nove histórias, publicado pela Companhia das Letras recentemente. O livro é fino, 159 páginas. Estou impressionada com o estilo seco que mostra as cenas com realismo e permitindo, ao mesmo tempo, a fantasia. As nove histórias se entrelaçam, parece, mas só li as três primeiras: quero terminar logo. Li na orelha do livro que Daniel Kehlmann nasceu em 75 e a Companhia das Letras já publicou, dele, A medida do mundo, que vou comprar amanhã. Há uns vídeos dele na internet, ele tem energia, fala com força. Aliás, falando em vídeos de escritores falando sobre literatura, etc, vale ver os de Alan Pauls na internet. Ele não é só handsome, mas sério, compenetrado, analítico. Procurando na internet, encontrei entrevista dele em um programa jornalístico alemão, onde está link, também, para Günter Grass. Quem quiser ouvir alemão e espanhol em mesmo espaço e tempo, dito e traduzido, é só acessar: http://video.zeit.de/video/627200367001.
Bom, parei de escrever e voltei aqui, logo confessando que deixei o livro do Kehlmann. Comecei super bem intencionada, mas em uma das histórias, sobre a senhora doente que segue para a Suíça para morrer, fiquei confusa e quis parar. Tem uma técnica interessante na história, o escritor e narrador acaba tendo uma voz como responsável pelos acontecimentos, ele aparece do fundo do palco, abre a cortina e fala com a personagem; ela fala com ele, é o criador, afinal. Isso é divertido. Mas aí o rumo da trama muda e tudo fica um pouco desinteressante e eu parei de ler. Não gosto de parar de ler livros na metade, mas se não aguento continuar eu paro, eu leio porque gosto e não por obrigação. Li os três livros do Stieg Larsson da série Millennium, mas no terceiro pulei um monte de páginas e fui para o final. Fiquei sem paciência e quis ver como terminava. Achei que valeu, gostei muito dos livros, mas o terceiro é um pouco enrolado. Mas sobre o Kehlmann, sou uma leitora que se entedia com facilidade, não se influencie, o escritor é muito bom e o livro só tem 159 páginas.
Dois blogs e um livro
17 de março de 2011Acompanho alguns blogs porque me interesso pelas vozes narrativas.
Lembro agora de dois: Calmantes com Champagne (http://www.screamyell.com.br/blog) e o blog da Companhia das Letras (http://www.blogdacia.com.br).
Sobre o blog da Companhia: É claro que a editora é legal, seus livros são bonitos e cuidadosamente impressos.
Os autores que publicam lá são reconhecidamente bons; a editora publica novos autores, também.
As capas são coloridas, os livros da Lygia Fagundes Telles, por exemplo, têm capas artisticamente preparadas.
Agora a editora publicou entrevistas com escritores da Paris Review (As entrevistas da Paris Review, vol. 1).
Cada livro tem uma capa diferente. Comprei um em que a cor rosa choque predomina. Tenho livros com as entrevistas editados há anos. Até agora não consegui entender se as entrevistas publicadas são exatamente as mesmas, vou comparar direito as edições essa semana, acho que algumas são.
Mas voltando ao blog, o melhor dele são os textos do Luis Schwarcz. Acho tão sinceros, gostei de ler sobre a festa de inauguração da editora, sobre os sentimentos dele em relação ao pai, aos livros, aos amigos, essas coisas que todo mundo tem e parecem tão íntimas e talvez não precisassem ser reveladas, mas são, com elegância.
Li entrevista que ele (Luis Schwarcz) deu à revista Bravo, disse que já escreveu romance recusado pelos profissionais da editora (http://bravonline.abril.com.br/conteudo/literatura/sou-editor-severo-demais-comigo-618074.shtml).
Aí a gente pensa, mas se ele é o dono da editora, por que não publica e pronto?
Outro blog que eu acompanho é o do Marcelo Costa, editor do Scream & Yell. Sempre achei o texto dele poético, mas compreendi isso melhor ao ler, no post de 14 de março, que ele tem umas 3.000 páginas datilografadas de poesia. Escreve sobre música, cinema, literatura, com profundidade, sem ser chato.
É difícil não ser chato, hoje em dia. O leitor ficou muito impaciente, a internet fez com que a gente consiga fazer um monte de coisas ao mesmo tempo e fazer as coisas vagarosamente dá um certo tédio. Escrever na internet é um exercício e tanto.
Entre dicionários e discos de vinil
9 de março de 2011Por que gosto de dicionários sem nem os leio tanto? É porque conseguem falar de diversos assuntos e ainda assim ter o mesmo nome de dicionário. Eles são simples, embora possam tratar de temas complicadíssimos. Dão a impressão de que tudo se resume a definições curtas e não precisamos prestar atenção em enredos, roteiros, análises. É só seguir a ordem alfabética e pronto.
Hoje, por coincidência, tirei da estante Dicionário de mulheres do Brasil, da Jorge Zahar Editor (Schuma Schumaher e Érico Vital Brasil). Fazia tempo que eu não olhava este livro. Abrindo assim aleatoriamente na letra C vejo o nome de Carolina Martuscelli Bori, nascida em 1924, apresentada como cientista, professora de psicologia da USP. Nunca tinha ouvido falar dela, e agora a conheci, ao lado de Carolina Nabuco, escritora, filha mais velha de Joaquim Nabuco.
Virando ainda as páginas, encontro Elisa Branco, definida como ativista política, nascida em Barretos. Foi presa em setembro de 1950 porque abriu uma faixa com dizeres “Nossos filhos não irão para a Coreia” em desfile no vale do Anhangabaú. Foi condenada a 4 anos e 5 meses de prisão, mas foi absolvida pelo Supremo Tribunal Federal em 1951, depois de campanhas em seu favor.
Depois o Dicionário fala de Isabel, índia escrava do século XVI, de Lourença Correia, condenada pela inquisição por bigamia no século XVIII, de Madalena Pimentel, apresentada como delatora no século XVI. Ela teria dito a inquisidor, visitador da Santa Inquisição, que certa pessoa comia carne às sextas-feiras, o que seria indício de prática judaizante. Fiquei impressionada com essa delação. Que incrível a pessoa passar da inquisição a um dicionário como delatora. Mas dicionários são assim mesmo, explicam de tudo, sem juízo de valor.
Mais coincidência ainda, hoje, olhando discos antigos de vinil, encontrei um chamado Women in jazz: swingtime to modern. E li, na capa, sobre certa preocupação com o fato de as mulheres não terem merecido desde logo toda a atenção da indústria de entretenimento. Os textos sobre jazz são sempre românticos, bem escritos, nostálgicos já no início.
Revi New York, New York no sábado de carnaval. A evolução da personagem de Liza Minelli no decorrer do filme mostra tudo sobre o esforço feminino para o exercício do talento. Um pouco over o final, mas…New York, New York.
Na Patagônia
20 de janeiro de 2011Agora alguns dias se passaram e 2011 começou. Estou na Patagônia, Argentina, em uma cidade chamada El Chalten. Se você não for esportista radical, não passe a noite aqui. Mesmo as caminhadas mais fáceis acontecem no vento. Não sei se é assim sempre, ou se os guias não nos deram atenção, mas ficamos perdidos no meio do nada. Fizemos um passeio de barco até o Glaciar Vedma e ainda não vimos o Perito Moreno, que está em El Calafate. Valeu, o Vedma é poderoso. Mas as outras horas no quarto do hotel são desoladoras. Aqui não tem celular e a internet é muito lenta.
O pior é que li na internet que um alpinista brasileiro importante morreu ao descer o Fitz Roy, pico relevante. E ninguém fala nada, não se comenta o episódio. Para eles é um episódio, eles sabem que o lugar é difícil e quem se aventura conhece o risco. E o corpo dele não foi recuperado porque não podem arriscar mais vidas no salvamento, parece. E, provavelmente, ou certamente, ele morreu. Estou aqui onde aconteceu essa tragédia e é como se nada tivesse acontecido. O vento leva tudo.
E agora cheguei em São Paulo. Demorei, mas cheguei em casa. Vi Perito Moreno, El Calafate, Buenos Aires outra vez, tudo isso. Em 11 dias estive em 5 ou 6 cidades da Argentina, fui ao fim do mundo, ao Canal de Beagle, vi pinguins, leões, elefantes, lobos, todos marinhos, animais desconhecidos para mim (guanacos) e coelhos, até. Vi gelo, muito gelo.
Ficou a impressão de que não dá pra chegar muito perto de nada porque a natureza engole a gente. Gelo e bicho; pouca gente, mas do mundo todo. Se tivesse ido ao Rio de Janeiro, mais perto, teria passado maus momentos. Em São Paulo mesmo uma enchente poderia ter me surpreendido. Mas aqui estou, procurando o livro sobre Darwin e a viagem no Beagle. Preciso desse livro.
Nós navegamos no Canal de Beagle, em Ushuaia; mas Ushuaia merece uma narrativa singular, ficou bem destacada na nossa viagem.
Voltando à Patagônia – esse é nome é tão esquisito -, a viagem no momento em que acontece é um pouco cansativa, porque a gente anda, anda (de van, ônibus ou avião) e vê as paisagens por algumas horas e depois anda outra vez…É tão longe tudo que não dá pra conviver direito com as pessoas ou com as paisagens, é só ir, comer e ver, ir, comer e ver. E beber vinho.
Viagens são intervalos nos nossos cenários e vivemos por um tempo possibilidades de uma nova vida, de uma vida diferente, em outro contexto. É bom que as viagens provoquem mudanças, mas isso nem sempre acontece, pois algumas vezes ficamos impermeáveis às transformações. Tenho a sorte de ficar perplexa, de não me envolver muito e de me assustar. Aí, depois, estudo para compreender. Compro livros em viagens e livros depois das viagens, sobre as viagens. Antes, não. Gosto de chegar no lugar sabendo muito pouco, o essencial.
Visitamos um museu de dinossauros em uma cidade chamada Trelew, perto do aeroporto em Trelew, perto de Puerto Madryn, cidade onde se hospeda quando se quer visitar a Peninsula Valdés (aliás, um hotel muito bom em Puerto Madryn é o Território; moderno, com chão de cimento queimado, colunas de concreto, tem uma decoração que acolhe e ao mesmo tempo é sóbria, principalmente na sala de estar). No Museu Paleontológico Egidio Feruglio há esqueletos originais de dinossauros e outros achados de antes de tudo.
Essa região tem forte influência galesa, por isso os nomes das cidades são diferentes do espanhol, não se sabe nem pronunciar. Mas Trelew é Trelew mesmo, o w tem som de u e não se pronuncia, lá, com acento inglês. É bom lembrar que o galês é bem diferente do inglês, também. E nessa região, principalmente em uma cidade pequena chamada Gaiman, há inúmeras casas de chá. Uma delas teria sido visitada por Lady Dy em 1995, mas não fomos lá. Fomos a uma outra, onde comemos pães com queijo e manteiga e bolos diversos. Devo ser sincera e dizer que os bolos não estavam muito bons. Embora os guias de viagem enalteçam as casas de chá, elas bucólicas e voltadas para turistas. A gente se sente meio enganado quando sai de lá, sem razão, porque o que é prometido é servido. Mas, mesmo assim, a fantasia do chá não se concretiza.
Vimos pinturas rupestres em El Calafate (Punta Walichu). Ficam perto do Lago Argentino, o 3º maior lago da América Latina, verde esmeralda. Mas não são tão nítidas como as que vi na Chapada Diamantina, e algumas rochas receberam inscrições entre 1940 e 1950, foram rabiscadas. E o curioso é que algumas pinturas são reproduções de outras mais inacessíveis, de outros lugares. Optaram pelas reproduções exatas para que os visitantes possam ter uma idéia de tudo. Não tirei fotografias das reproduções, só das originais.
Ainda falta falar sobre o Glaciar Perito Moreno (nem falei dos pingüins e dos elefantes marinhos, meus preferidos). De El Calafate, vai-se até ele de carro ou ônibus, em excursão programada, talvez. Fomos com um grupo da agência All Patagonia. O guia era um apaixonado pelo glaciar e já o tinha visto à noite, de manhã cedo, em vários momentos e de várias formas.
Chega-se até o Glaciar e há ali uma enorme lanchonete, um tipo de restaurante popular onde as filas andam rápido e os visitantes falam diversas línguas. As pessoas são do mundo inteiro. Embora, àquela altura, já se tenha tido um vislumbre da geleira na estrada, caminhar até perto dela pelas escadarias de metal e madeira é necessário.
E aí a gente vê que aquele gelo todo deve ter vindo de outro lugar, não da terra. Pode ser uma amostra do mundo extraterrestre. É uma miragem, um grande quadro emoldurado, não sei. Mas dá um pouco de medo, a qualquer momento aquilo tudo pode derreter e se transformar em um tsunami? E depois a gente entra no ônibus e quem quiser faz um passeio de barco até mais perto dele. Eu já tinha feito o passeio até perto do Glaciar Vedma. É frio, parece que um iceberg vai surgir como um submarino (é assim que eles surgem, disseram, como um submarino).
É impressionante e precisa ser visto pelo menos uma vez na vida, assim como se deve ver o mar.
Encontrei na internet este artigo interessante sobre Perito Moreno (a pessoa, não o Glaciar):
http://www.usp.br/ran/ojs/index.php/angelusnovus/article/viewFile/13/pdf_5
2011
19 de janeiro de 2011Ano novo
Olhando a internet na página uol, vi chamada para os crimes da década. Qual a graça de recapitular os crimes da década? Chamar atenção daqueles caras que adoram os aspectos sórdidos da convivência. Só pode ser.
Hoje já vi retrospectiva melhor: os cds brasileiros da década. Los Hermanos, Mallu Magalhães, Nando Reis, e outros. Ouço muita música, mas do século passado: Bowie, Dylan, Arnaldo Antunes (50 anos, ele vai fazer), Secos e Molhados (comprei na banca de jornal), Egberto, Keith Jarrett. Qual a graça de lembrar os cds da época? Promover os cds, formar um retrato do gosto musical de um povo em um dado lugar e em certa época. Quem gosta do quê? As pessoas gostam do que gostam ou do que são induzidas a gostar? Quem induz quem a quê?
Agora na internet tinha outra retrospectiva: piores acidentes naturais da década.
No filme José e Pilar, um dizer de Saramago ficou na memória, ele disse mais ou menos que, em termos de comunidade, estamos péssimos. Não usou essas palavras, mas eu entendi assim o que ele disse.
Saramago me pareceu muito cético, ou lúcido. Sou pessimista, só que tenho irritante ingenuidade. Crio falsas esperanças de que as pessoas são boas e tenho a ilusão de nosso mundo está progredindo.
Aí resolvi começar a ler o Evangelho segundo Jesus Cristo, que eu guardo em um lugar nobre da estante sem ter lido, e estou encantada. Em espanhol diria, “me encanta el libro”. Saramago pode não ter acreditado em Deus, mas o texto dele é poderoso. Como a história de Cristo é triste…ficar pregado na cruz do jeito que ele ficou…(não cheguei nessa parte, mas já adianto minha aflição com essa parte da história que com certeza virá). A ressurreição dele não me surpreende tanto, a crucificação é que me espanta. Mas era uma forma de punição corriqueira, muito usada na época. Cristo foi julgado, condenado segundo regras jurídicas estabelecidas.
No fim, vamos todo para debaixo da terra e os cremados ficarão guardados em urnas ou voarão pelos ares, não sei o que é pior. Se ressuscitaremos ou não, já não posso dizer.
Vi uma série sobre a vida no dvd e fiquei impressionada com o esqueleto de um pinguim afundando no mar depois de trucidado por um animal gigante, não me lembro se uma baleia assassina ou um outro peixe grande.
Não sou muito de retrospectivas, vivo um dia a cada dia e a vida inteira e não classifico muito os acontecimentos, embora sinta necessidade, depois dos 40, de fazer listas e formar conjuntos.
Estou na praia agora, é dia 31 de janeiro, os fogos estão pipocando, assobiam antes de explodir e os cachorros têm medo. Por que as pessoas soltam fogos no fim do ano?
Pra terminar essa crônica de ano novo, quero contar que estou revendo Reds com Warren Beatty e Diane Keaton. O filme obteve um Oscar em 81. É de 81, mas entra na minha retrospectiva da última década. Algumas tomadas, alguns diálogos, ficaram um pouco datados. Não gosto das partes em que as pessoas do período (começo do século XX), mais velhas, narram impressões sobre o que aconteceu, elas estão enrugadas, fica esquisito. Documentário americano é um pouco assim, eles colocam pessoas narrando ou contando histórias anos depois. Pesquisando, vi que Warren Beatty começou as entrevistas em 1970. As entrevistas são consideradas ponto alto do filme. Não gosto, prefiro entrar no romance. Tirando isso, o filme é bom também porque tem como personagem Eugene O’Neill (Jack Nicholson), além de Louise e Jack, sempre tentando escrever da melhor forma. Ele dizia a ela que o texto precisa tirar o fôlego do leitor.
John Reed é um dos personagens que eu admiro. Eu queria escrever como ele escrevia, com vida. O texto dele é esperto e colorido. Ele acredita naquele texto dele.
Minha proposta para 2011 é acreditar no meu texto e ouvir um disco por dia, todo dia, porque a música desperta a alma. Existe a alma? Tive uma dúvida, agora, mas é claro que existe.
Buenos Aires
3 de agosto de 2010Passei quatro dias em Buenos Aires em julho. O sol estava tão gostoso, esquentou o frio que fazia no inverno. Tive sorte porque é bom andar com sol, e andar foi muito do que fiz na cidade. Fiquei no Art Hotel, na Recoleta, na Azcuenaga. O hotel é pequeno, bem decorado, e alguns quartos têm balcão. O café da manhã é meio natureba, tem pão integral, frutas, ovos, tomates, queijos, avocado…Adorei comer avocados. O hotel não é caro e valeu ficar lá. Não indicarei lugares para compras porque não costumo comprar em viagens, perco a vontade, é esquisito. Gosto de comprar livros e discos, mas nada de roupas e artesanatos locais, uma ou outra lembrança e pronto. Jantei em um restaurante diferente, o Club del Progreso, muito pitoresco porque vimos um porco assado ser cortado inteiro com um prato em uma demonstração muito divertida de sua maciez. Há um caderno para os visitantes assinarem e vi que Ricardo Darin esteve ali. No Museu da Evita estão alguns de seus lindos vestidos e me espantei de ver como os sapatos tinham sido usados. Um moço culto e inteligente explicava muito sobre Evita a estrangeiros de língua inglesa e fiquei prestando atenção à sua empolgação ao falar de uma pessoa tão carismática e essencial à história da Argentina. E fui ao estádio de futebol do Boca Juniors, La Bombonera. Parecia um programa sem graça, mas no fim a guia que dava as explicações era muito engraçada e ri bastante, ela tinha jeito para aquele trabalho, incrível. E a estátua do Maradona que está é bem legal- eu gosto do Maradona, gostaria de tê-lo visto desfilar na 9 de julho, mas não foi dessa vez. Fui também à “Colección de Arte Amalia Lacroze de Fortabat”, em Puerto Madero. O edifício é maravilhoso, o espaço muito lindo, mas fiquei um pouco irritada com um dos seguranças que andava pela sala fazendo barulho e me desconcentrando. Parece bobagem, mas achei chato isso. Fui ao tango, à Esquina Homero Manzi. É um lugar turístico, mas não tão caro e o tango apresentado é muito rico, interessante, bem dançado. Jantei lá também, a comida é normal, nada de especial, mas também não é ruim e o programa foi ótimo no conjunto. Achei a feira em San Telmo um pouco chata. Estava cheia, as pessoas que expunham não eram simpáticas, não tive vontade de comprar nada. Um restaurante bom é El Palacio de la Papa Frita. O pudim de pão é uma delícia. Foi só o começo, volto lá qualquer hora, os argentinos são bem legais.
Falando outras línguas, pensando em português
22 de maio de 2010Quando se aprende uma língua, chega-se perto da gramática da própria língua e das infinitas possibilidades do escrever. Olhar para o modo de falar do outro, do estrangeiro, faz com que se pense a própria articulação de ideias de um outro jeito. Hoje estudo espanhol, mas já estudei inglês e alemão e, de todas as línguas, a alemã é a mais sistematizada e previsível, embora a qualquer momento possa desequilibrar-se. E a língua portuguesa?
Uso a língua portuguesa para lembrar dos navios no mar de Santos, apitando enquanto esperavam hora de entrar no porto. Imaginava o que havia nos navios e supunha que transportavam coisas importantes. Admirava-os por isso, por estarem perto do sol que dormia no mar.
Uso a língua portuguesa para me lembrar dos tempos em que comprava discos de vinil na Musical Box, em Higienópolis, perto da Faap. Comprava um ou dois por semana e lá comprei Smiths, A flock of seaguls, Lou Reed e muitos outros. Eles entendiam de música ali e eram tão sérios, quase nunca sorriam. Mas e a música? Na Deputado Lacerda Franco tinha o Edgard, comprei alguns discos lá, vinham em um plástico bem grosso, uma senhora ficava sentada perto da porta e nós escolhíamos. Comprei Luiz Melodia ali. Uso a língua portuguesa para me lembrar da música que ouvi e ouço.
Estou lendo Claudio Willer, poeta, mas em prosa. O livro é “Volta” (Iluminuras). Ele conta coisas, ali, e fala do mar. O mar. Gosto desse poeta, ele é tão sério em sua poesia, usa a língua portuguesa para que eu quase chore qundo ele fala do Guarujá e da praia de Pernambuco, onde já estive muitas vezes e para onde não sei se voltarei.
Como podemos ir sempre a um lugar e depois não ir mais? O lugar deixa de nos pertencer com a nossa ausência. E fico pensando se um dia minha casa não será mais minha, e se a Avenida Paulista chegará a ser um lugar distante. Gosto de lá porque é e não é, está e não está, a avenida é mutante, escorregadia, flutuante, impaciente. Quando ando na avenida Paulista, estou e não estou, existo e não existo, meu pensamento voa a ponto de eu cumprimentar as pessoas com tchau e não com oi. Fico aérea, confusa, sou aérea e confusa.
Uso a língua portuguesa para aprender as outras e desejo muito, ao falar outras línguas, ser também outra pessoa e, ao mesmo tempo, pensar melhor em português.
Literatura na internet
9 de maio de 2010Estou aqui com “A questão dos livros”, de Robert Darnton, Companhia das Letras, 2010, traduzido por Daniel Pellizzari. Antes de comentar o livro, faço referência ao tradutor, que aparece no twitter como @cabrapreta, com mais de 1300 seguidores (ele não segue ninguém). Não sei dizer em que medida o estilo do tradutor interfere no estido do escritor traduzido, mas o livro me pareceu bem escrito, em um primeiro olhar.
O assunto é a digitalização dos livros. A grande indagação que surge quando se leva a sério a digitalização de escritos é aquela referente às possibilidades de acesso aos arquivos.
No caderno Sabático do Estado de São Paulo de de 13 de março, publicou-se entrevista de Umberto Eco por Ubiratan Brasil, sob o título: “Eletrônicos duram 10 anos, livros, 5 séculos”. No mesmo Sabático, Lúcia Guimarães escreveu “Biblioteca de NY, Refúgio na crise”. Ela conta que o espaço de cultura em Manhattan recebeu 40 milhões de visitas em 2009 ( NY tem 8 milhões de habitantes).
Lúcia entrevistou Paul Le Clerc, “um dos personagens centrais da transformação digital de arquivos na passagem dos séculos”, sobre a digitalização do acervo, e o texto termina com a seguinte fala: “Há cinco mil anos não inventam lugar melhor do que a biblioteca para democratizar o acesso ao conhecimento”.
Robert Darnton vai mais longe. Nos ensaios que compõem o livro, enfrenta a instabilidade da informação, fala muito sobre o google, sobre o Google Book Search, sobre direitos autorais, sobre e-book, sobre internet. Ele é diretor da Biblioteca da Universidade Harvard.
Ao mesmo tempo em que folheio o livro penso que uma das mais antigas e tradicionais bibliotecas do Brasil, a da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, está em apuros. Seus livros foram transportados em caixas para outro prédio, considerou-se que estavam guardados de maneira inadequada e, proposta ação pelo Ministério Público Federal, o Poder Judiciário determinou retorno das edições ao prédio histórico (O Estado de São Paulo, 7 de maio – http://bit.ly/cBq5A5 ).
Pois é. Os tempos mudam, as faculdades querem se modernizar, ter mais alunos, os livros ocupam espaço, alguns ficam fechados por anos e anos sem um leitor sequer, passam a incomodar. Antigamente era um luxo ter uma biblioteca grande, organizada. Será que chegaremos a queimar livros, como em Fahrenheit 451?
How does it feel?
1 de maio de 2010Sou fã do Bob Dylan e não podia deixar de ter “Like a rolling Stone: Bob Dylan na encruzilhada”, de Greil Marcus (São Paulo, Companhia das Letras, 2010). Tenho até dois exemplares, comprei o segundo pra dar de presente, numa eventualidade.
A música está logo no começo do livro: Once upon a time you dressed so fine…E a tradução está ao lado, de Eduardo Bueno. Ele traduziu a primeira frase por Era uma vez uma garota bem- vestida. Estranhei a tradução, a palavra garota não ficou bem porque quando Bob Dylan canta, parece que está falando com a gente, com você, e a inserção de uma terceira pessoa na letra tira toda a graça. Não adianta, a música fica bem em inglês, mesmo que não dê pra entender tudo.
O livro é um pouco confuso, escrito na primeira pessoa, mas muito sério e preocupado em analisar a música em seu contexto eminentemente americano. Não vai dar pra ler tudo. É incrível como os livros sobre Bob Dylan podem ser herméticos. Este nem é tanto, já vi piores – ou melhores. Só que tive a impressão de que quem lê não chega a lugar nenhum, as inúmeras informações não deixam o autor contar uma boa história da canção, se é que ela existe (a história). Bom mesmo é ouvir a música.
Pet Fashion Week e poodles gigantes
30 de abril de 2010Sábado fui à Pet Fashion Week, no Sheraton, em São Paulo. Nunca tinha ido a uma Fashion Week e começar por uma pet me pareceu buena idea. Queria ver cães fofos, bem vestidos, cheirosos. E consegui. Vi até um concurso de tosa de poodles gigantes. Eram quatro, dois brancos e dois pretos. Fincaram as quatro patas sobre uma mesa e os groomers cortavam, raspavam, davam formas extravagantes aos pelos fofos e longos. Achei que o branco decorado com símbolos de cartas do baralho venceria. Estava muito original. Os juízes o examinaram com bastante atenção. Mas dias depois vi na internet que o poodle tosado de maneira mais lisa, simples, vencera. Fiquei um pouco surpresa, mas pensei que o critério talvez fosse a elegância e não a extravagância. Foi um bom resultado, embora inesperado (http://www.petfashionweeksp.com/index.php/concurso-de-tosa).
Três livros e suas ideias infinitas
29 de abril de 2010Arrumando livros espalhados pela casa, encontro alguns bem interessantes e escondidos:
1)- Preso por trocadilho: a imprensa de narrativa irreverente paulistana de 1900 a 1911, de Paula Ester Janovitch (São Paulo, Alameda, 2006). O livro fala de publicações bem humoradas que se multiplicaram em São Paulo no final do século XIX. Os desenhos que ilustravam as revistas, os pequenos jornais, eram engraçados, caricatos. Havia O Pirralho, A Ronda, Cabrião, A Farpa, O Micróbio. A imprensa aperfeiçoava-se por meio de periódicos ágeis, irônicos, críticos. Pesquisando imagens, descobri esse blog legal. que fala bastante de Angelo Agostini e o Cabrião: http://patadoguaxinim.blogspot.com/2009_10_01_archive.html;
2)- As dez maiores descobertas da medicina, de Meyer Friedman e Gerald W. Friedland (São Paulo, Companhia das Letras, 2006). Drauzio Varella apresentou e fez revisão técnica do texto. Lembro aqui algumas descobertas: Circulação do sangue, bactérias, anestesia cirúrgica,antibióticos, o DNA. Os capítulos explicam detalhadamente os caminhos para as descobertas e, no fim, o autor diz: “Seria fascinante saber quais serão as próximas dez maiores descobertas…”;
3)- O cão sem plumas, de João Cabral de Melo Neto (Rio de Janeiro, Objetiva -Alfaguara-2007). Leio ao acaso a primeira estrofe de A bailarina: “A bailarina feita de borracha e pássaro dança no pavimento anterior do sonho”. O poema tem quatro estrofes com quatro versos cada. O livro inclui Paisagem do Capibaribe, estruturado em parágrafos. É lindo. Gostaria de saber de cor. “O que vive incomoda de vida o silêncio, o sono, o corpo que sonhou cortar-se roupas de nuvens”.
Soul Kitchen e o peso do corpo
17 de abril de 2010Ontem assisti Soul Kitchen, de Fatih Akin. Filmes alemães estão além do nosso tempo. Quando são da Alemanha e Turquia, ainda mais além. Depois de assistir um, acho os filmes americanos muito doces, piegas, qualquer deles, mesmo os mais violentos. A violência americana é açucarada na tela. Não sei se é isso mesmo, mas é como eu sinto, hoje. Mas Soul Kitchen é delicado, de certa forma, e nada violento. Trata incidentalmente daquilo que comemos, slow food, fast food? Fala de música, lealdade, amizade, irmandade, empreendimentos, força de vontade, família, amor, sexo, bebida, Hamburgo, prisão, vício, não nessa ordem.
O filme faz rir, mas é pesado, também. Circunstâncias determinam o curso da vida independentemente da vontade. E na Europa tudo é muito velho, as circunstâncias determinam demais. No entanto, espaços surgem e pode ser possível empreender.
E, antes de ir ao cinema, li texto de Luiz Felipe Pondé na Folha (12/4/10), sobre estar ou ser triste, depressão, Virginia Woolf, Mrs Dalloway, o deserto, o peso de acordar e ser aquilo que se é. Fiquei um pouco tocada porque, embora a gente já saiba que a angústia existe mesmo, sempre dá aflição vê-la constatada por escrito como uma sensação irremediável. E o peso da existência pode doer. Assisti outro filme no DVD, Ensinando a viver, com John Cusack e Joan Cusack. Ele adota um menino que acredita ter vindo de Marte e anda com pesos na cintura para não voar, para ficar preso. O filme é um pouco piegas, mas me identifiquei.
Também tenho medo de me desapegar e, por isso, às vezes, como tanto, para ficar mais pesada, para criar atrito (não estou acima do peso, ou gorda, falando claramente). Outro dia li que as fotografias de comida na internet fazem sucesso, tem gente que fotografa tudo o que come. Incrível. Não tenho a menor vontade de fotografar comida. Mas até gosto de ver algumas fotos, acho interessante observar como as pessoas decoram o prato e combinam os alimentos.
Como ainda estou lendo Doutor Pasavento, do Vila-Matas (leio devagar), não consigo deixar de relacionar tudo isso com a vontade de desaparecer. O personagem/escritor desvia rumo em uma viagem, deixa para trás o nome e tudo o mais, com exceção de poucos livros e poucas roupas. O desaparecimento do escritor é necessário para a escrita do romance e para que as personagens apareçam. O desaparecimento é o escrever do romance, de qualquer romance. Estou achando que é isso, é assim que eu compreendo o que leio. O desaparecimento é a grande viagem de todo escritor. Esforço-me para deslizar desaparecendo na escrita, mas ainda não atingi aquela insustentável leveza.
Em Soul Kitchen o herói tem um problema sério da coluna e fica meio que paralisado, pesado, arrastado. Depois ele melhora, mas precisa de ajuda, de ajuda esotérica, física, violenta e amorosa. Não é fácil ficar leve.
Imagens dispersas
11 de abril de 2010Assisti Julie & Julia ontem, no DVD. O filme tem momentos muito bons e Meryl Streep vale em qualquer ocasião. Se eu pudesse ser outra pessoa, se se pudesse escolher, seria Meryl Streep. Acho que Meryl melhorou com a idade. Ficou mais leve, mais alegre. Deve ser uma pessoa calorosa, gostosa de ficar perto.
A atriz que interpreta Julie, Amy Adams, interpretou Amelia Earhart em Uma noite no Museu 2. É tão cativante, quando assistia ao filme queria que a fita fosse para o presente só para vê-la atuar, cozinhando, escrevendo e conversando com Julia Child. Mas depois que o filme terminou voltei para o passado e fui ao youtube e vi a própria Julia Child e dei mais valor ainda à interpretação de Meryl Streep.
As imagens dessas atrizes me lembram outras atrizes, como por exemplo Vivian Leigh em A ponte de Waterloo, que assisti recentemente, e em E o vento levou…E Penelope Cruz. E Jane Fonda em Julia.
Voltando a Julie & Julia, fiquei pensando, se eu dialogasse com um personagem do passado, transportando para o presente alguma experiência, atualizando idéias ou pensamentos, renovando a persona, faria isso com Marilyn Monroe e com Roberto Bolaño. Os dois não se parecem em nada, mas adoraria conversar com Bolaño e ser um pouquinho Marilyn Monroe, pelo menos quando ela cantava para os soldados na Coreia. E de Bolaño nem gosto tanto do que ele escreve, acho muito longo, mas deve ter sido uma pessoa muito interessante. Aqueles óculos dele, aquele jeito sério de falar…Gostar de verdade gosto mesmo de Cortázar. Mas eu jamais poderia me imaginar sendo Julio Cortázar. Seria muita pretensão.
A ponte de Waterloo é um filme que só vale por Vivian Leigh e sua dança deslizante. O personagem interpretado por Robert Taylor é muito bobo, não fala nada de interessante o filme inteiro, tem uma inocência insuportável para a época. Na guerra a inocência é imperdoável.
Essas imagens que tenho dos outros e de mim mesma misturam-se na memória e na internet. Se quero ver alguém, vou ao youtube imediatamente e vejo. Vi até Regina Duarte na novela Selva de Pedra, de 77, dizendo para um Francisco Cuoco/Cristiano estupefato ao ver sua falecida mulher Simone em uma festa: Meu nome é Rosana Reis. Acho que eu queria ser Janete Clair.
http://bit.ly/c12vpq
Leituras dispersas
7 de abril de 2010Leio vários livros ao mesmo tempo. A falta de método atrapalha a compreensão total dos textos e das histórias e a memória perde encadeamentos necessários para uma eventual narrativa.
Se eu fosse contar a alguém o que me lembro de Doutor Pasavento, de Enrique Vila-Matas, diria que é a história de um escritor que tenta se esvaziar de si mesmo para encontrar um personagem possível. No enredo ele desaparece, mas eu compreendi que vai murchando, esvaziando, enquanto viaja.
E ainda parei no meio de Cidade Pequena, de Lawrence Block. Um escritor é suspeito de assassinato e aproveita essa situação para promover seu livro. Será isso? Deixei o livro de lado faz um tempo e olho de vez em quando com vontade de recuperar a escrita natural de Lawrence Block, mas acabo lendo outras coisas.
Li um livro sobre a construção virtual da memória, encontrei no aeroporto. Esqueci o nome. O autor diz que podemos passar todas as nossas experiências para meios digitais e, se soubermos arquivá-las com método, serão encontradas quando precisarmos. Achei interessante, mas deve ser chato ter essa preocupação o tempo inteiro. Outro dia deletei mensagens do celular e depois fiquei meio triste, e se eu quiser escrever minha autobiografia, as mensagens não seriam úteis? Aí pensei, mas por que eu iria escrever minha autobiografia? E aí pensei, mesmo as pessoas cujas personalidades não têm repercussão podem escrever sua autobiografia. Memórias são sempre memórias. É, mas é melhor lembrar de tudo de um jeito esfumaçado, sem apontar datas em linhas do tempo.
E ontem à noite li Drummond, A falta que ama, li e reli Elegia transitiva. “Onde habitas agora, onde saber tuas joias errantes?”.

