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Jardim Alheio na Martins Fontes: Ricardo Lísias

23 de abril de 2013

Jardim Alheio é um grupo de crítica literária formado na Casa das Rosas, em São Paulo. Conheci no facebook e resolvi conferir um de seus encontros no auditório da Livraria Martins Fontes na Avenida Paulista.

O ciclo entre 22 de abril a 13 de maio é dedicado ao escritor  Ricardo Lísias.

O plano é o seguinte: no primeiro encontro, o escritor fala de sua formação, de seus textos, conta sua história. No seguinte, a equipe de Jardim Alheio fala sobre o escritor, sobre sua escrita.

Na outra semana, textos críticos são produzidos pelos participantes do ciclo e mostrados ao escritor. No último encontro, ele estará outra vez no auditório, falando sobre as críticas. Imagino que, nesse dia, todos estarão bem familiarizados com a literatura de Ricardo Lísias e ele falará de uma maneira diferente, também. Falará para pessoas que terão não apenas lido, mas escrito sobre seus livros.

A ideia do ciclo de críticas é ótima. Pena que não participei do ciclo sobre Frederico Barbosa.

Ricardo Lísias é um escritor que fala muito bem, com sinceridade e simpatia, sobre sua criação. Ele chega perto do ouvinte, estabelece  comunicação. Perguntado sobre seus autores preferidos, respondeu Machado, Joyce, Kafka, Graciliano, Guimarães Rosa. Ele lê muito.

Não tem medo de ler ou ouvir críticas: espera que as últimas palavras sejam sempre as penúltimas, nenhuma opinião é definitiva. Disse que comentar um livro sem ter lido é um absurdo (e é, mesmo).

Gosta de escrever textos mais curtos enquanto escreve os longos. Escreve, ou produz, ou produz e escreve, tudo junto, um jornal literário, Silva.

Espero estar nos próximos encontros, principalmente no último.

Quero ouvir o escritor falar outra vez.

Romance policial (1) Cadernos de Agatha Christie

22 de abril de 2013

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Hoje começo uma série de posts sobre romances policiais. Eles me interessam. Tenho lido bastante sobre. Gosto até mais de ler sobre os romances policiais do que ler os romances policiais. No fundo, todo romance tem estrutura parecida com a do romance policial. Só que ele é mais fácil de ser compreendido: o crime é o que precisa ser desvendado. O crime, aqui, é um fato preciso e determinado no tempo. Isso dá segurança ao leitor, que não tem trabalho de tentar entender o que o autor quer dizer. Mas e se, no romance policial, surge o inesperado? Outra indagação além da autoria do crime cometido? Deve ser possível fazer isso. Acho que Roberto Bolaño, em “Os detetives selvagens”, fez isso. Mas depois falo de Bolaño. Outro dia. Hoje falo de Agatha Christie. Lia muito. Tenho aqui comigo “Os diários secretos de Agatha Christie”, de John Curran (Leya, 2010). Esse livro é muito estranho. É estranho porque o autor comenta o tempo todo e é difícil separar o que ela escreveu do que ele escreve. Ela mesma não tinha muito método para as anotações.
Algumas curiosidades: 1)-Há 73 Cadernos de Agatha Christie conhecidos; 2)- Os Cadernos são numerados de arbitrariamente. A filha de Agatha Christie determinou numeração antes dela morrer, mas isso não foi feito de maneira cronológica; 3)- As anotações eram lembretes; 4)- Ela queria ser lembrada como boa autora de histórias policiais (respondeu isso em uma entrevista).
Também achei curioso: “Parte do prazer de estudar os cadernos está no fato de não se saber o que vai ser encontrado ao virar a página. A trama do último romance de Poirot pode ser interrompida por um poema escrito para o aniversário de Rosalind; uma página em que se lê, de forma otimista, “Coisas a fazer”, está espremida entre um romance de Miss Marple e uma peça teatral inconclusa” (p.63).
Alguns escritores fazem anotações minuciosas antes de escrever o livro. Outros, não. Parece que, para os escritores de romances policiais, as anotações prévias são muito importantes. Há um raciocínio a ser observado, a história não pode ser aleatória. O autor precisa conhecer o fim? Será que ele mesmo precisa saber quem praticou o crime desde o começo? Mas e a graça de escrever?

Leitura digital

30 de março de 2013

machado2Em “A turma de 42”, Luiz Antônio Giron, no Mente aberta, blogue da Revista Época, conta que, em 2013, obras de Robert Musil, Bruni Schulz, Roberto Arlt e Stefan Zweig entraram em domínio público, significando isso que podem  ser publicadas sem correspondente pagamento de direitos autorais (http://colunas.revistaepoca.globo.com/menteaberta/2013/02/15/a-turma-de-1942).

Andando muito pela internet, vejo como é importante encontrar textos que podem ser lidos, baixados,  sem medo de ferir direitos. Estão lá para serem lidos, conhecidos, comentados, desfrutados, e só.

Agora tenho, em  leitor digital, a obra completa de Machado de Assis. Baixei em segundos e paguei valor praticamente simbólico. Leio Machado de Assis em minhas edições impressas, digitais e em blogues na internet. É muito legal colocar o nome de Machado no google e, aleatoriamente, encontrar um conto pra ler,  qualquer conto, a qualquer momento. Tenho uma dúvida sobre um conto de Machado e resolvo no mesmo instante.

A forma de ler interfere na interpretação do texto. Ler Uns braços na internet e ler Uns braços em casa, no sofá, em livro, são experiências totalmente diferentes. Comparo Uns braços com a Missa do galo na tela do computador e penso que D. Severina e  D. Conceição são sutilmente parecidas e diferentes. Como estou na internet, vou de um conto ao outro e penso que Machado nunca, mas nunca mesmo (será?) imaginou ser lido desse jeito tão volátil,  inconstante e ao mesmo permanente que é o jeito digital.

O texto vira imagem, compreendo visualmente o que ele diz. Um texto dialoga com outro e não mais, apenas, com o único leitor. A comunicação é ampliada. A nova leitura participa da escrita de tal forma que é como se cada leitor reescrevesse o  texto. Na interpretação, o leitor é, também, autor. Pode lê-lo como quiser e não precisa, nem mesmo, seguir sua sequência. Lê ao mesmo tempo o fim e o começo e para quando acha melhor. Não que um livro não possa ser lido do fim para o começo. Pode, mas a leitura assim é meio fora dos padrões. Na internet, dificilmente se lê algo inteiro do começo ao fim. O normal é flanar, combinar diferentes informações.

Julio Cortázar, em O jogo da Amarelinha, já fez isso. Escreveu capítulos que podem ser lidos em outra ordem, não na sequência em que publicados. Dois livros diferentes em um livro: um progride com o virar das páginas e outro em ordem diversa. Nunca li o segundo livro. O primeiro me surpreendeu do começo ao fim. Ainda é o livro que me deu vontade de escrever de verdade.

Entrevistas com escritores

13 de março de 2013

Conversas entre escritores (Arte & Letra Editora, Curitiba, 2009), reúne 21 entrevistas publicadas na revista Believer. Escritores entrevistam escritores.
Sobre a conversa entre Sean Wisley e Haruki Murakami- O entrevistado é Murakami, mas é bom saber um pouco sobre Sean Wisley e fiz breve pesquisa no Google, porque nunca tinha ouvido falar dele. Descobri que escreveu um livro, Oh the glory of it all, que fala sobre sua família de certa importância em São Francisco. Parece que o livro é divertido. Segundo a Wikipedia, ele nasceu em 1970 e escreveu outro livro com Matt Weiland, chamado State by state: a panoramic view of America.
Haruki Murakami é escritor japonês que faz o maior sucesso, é muito contemporâneo. Já li, dele, Minha querida Sputnik, Do que eu falo quando falo de corrida e estou lendo, agora, Norwegian Wood. Seus personagens são jovens e todos assustados, perplexos. Vivem meio que no ar, tentando encontrar equilíbrio. Resumindo: 1)- Opiniões do escritor são diferentes das opiniões pessoais do autor sobre política ou qualquer outro assunto: é preciso ter cuidado ao emiti-las; 2)- Mulheres são condutoras de suas narrativas; 3)- A música é importante para ele; 4)- Gosta de procurar lojas de discos usados; 5)- Ele teve um bar de jazz por muito tempo; 6)- Humor é caminho para seriedade.
Recentemente, Murakami publicou, no Brasil, 1Q84. Ainda não li, mas está aqui perto e logo começo.
Murakami não diz muito, como era de se esperar. Ele é do tipo que vive nas histórias e, provavelmente, quando é ele mesmo, não gosta de falar com estranhos. Ele mesmo esclarece, no começo da entrevista, que não costuma responder às perguntas da mídia. E diz: “É assustador pensar que de muitas maneiras nós enxergamos o mundo através da mídia e nos comunicamos usando o vocabulário da mídia” (p. 160).
Sobre conversa entre Jonathan Lethem e Paul Auster- Também não conheço o primeiro. A entrevista aconteceu em 2004. No preâmbulo, lembra-se que Paul Auster foi poeta ( A Companhia das Letras acaba de lançar livro com seus poemas). A prosa de Paul Auster é instigante e envolvente porque ele escreve sobre o ato de escrever, sobre individualidade e sobre os diversos papéis representados no contexto social, não se esquecendo da importância da fantasia e do fantástico em tudo isso.
Jonathan Lethem é romancista americano e a Wikepedia traz inúmeras informações sobre ele. Seu texto mistura ficção científica e histórias com detetives. Gostaria de desenvolver esses gêneros na minha ficção, para mim o mundo não passa de um enorme ponto de interrogação sobre acontecimentos relativamente fantásticos e, às vezes, fantasmagóricos. Talvez haja monstros por toda parte e é preciso detectá-los antes que ataquem. Mas Paul Auster conta o seguinte: 1)- Tem um escritório perto de casa; 2)- Cuida de burocracias, como pagar contas, por exemplo; 3)- Gosta de trabalhar todos os dias; 4)- Escreveu roteiro de O Mistério de Lulu para Wim Wenders, que no fim não dirigiu o filme. Paul Auster assumiu o trabalho; 5)- O que mais me interessou, na entrevista, foi: “Ao longo dos anos, tenho me interessado intensamente pela artificialidade dos livros. Quero dizer, afinal de contas, quem está brincando com quem, Sabemos que, ao abrir um livro de ficção, estamos lendo algo que é imaginário. E sempre tive interesse em explorar esse fato, usá-lo, torná-lo parte da obra. Não de uma forma seca, acadêmica, ou metaficcional, mas simplesmente como uma parte orgânica da palavra escrita Quando eu era criança, pegava um romance escrito na terceira pessoa e perguntava a mim mesmo:”Quem está falando? Quem estou ouvindo aqui? Quem está contando esta história?” Posso ver um nome na capa, que diz Ernest Hemingway ou Tolstoi, mas é de fato Tolstoi ou Hemingway que estão falando?” (p. 32).
Aqui ele toca em um ponto que para mim é essencial: quem fala na ficção? Qual a diferença entre o escritor e o narrador? Como fazer com que o narrador seja completamente outro?
Pensando nisso, por coincidência, agora há pouco, li uma entrevista do escritor Luiz Bras no blogue Estudos Lusófonos: http://etudeslusophonesparis4.blogspot.fr/2013/03/luiz-bras-entra-em-cena.html.
Autor do ótimo Sozinho no deserto extremo (Prumo, 2012), Luiz Bras é um dos escritores mais destacados da literatura brasileira contemporânea. Lendo a entrevista, só posso concluir que a questão de quem fala talvez não deva ser respondida. O essencial, talvez, seja descobrir e concretizar, no texto, a voz imaginária de uma identidade que é inominável, como disse, um dia Beckett, e não sei nem se nesse preciso contexto. De qualquer forma, o escritor é quem melhor se explica: “Luiz Bras sempre morou no terceiro planeta do sistema solar. Com os gatos aprendeu a acreditar em telepatia e universos paralelos”.
No fim, percebo que Haruki Murakami, Paul Auster e Luiz Bras, em tempos e lugares diferentes, falaram a mesma coisa. Pelo menos foi como ouvi; e outras leituras são, certamente, possíveis.

Notas breves sobre Piglia, Bach, Joyce, Dimos Goudaroulis e Antonio Torres

28 de fevereiro de 2013

1)- Formas breves é um livro de Ricardo Piglia em que ele reflete sobre literatura em textos curtos. Breves. Acabo de reler, do livro,  “Os sujeitos trágicos (literatura e psicanálise)”.

Piglia conta um caso: Joyce visitou Jung na Suíça e mostrou  escritos de sua filha Lucia, que teria morrido psicótica. Ele mostrou a Jung textos dela, comparando-os aos seus, especialmente a Finnegans Wake. Jung teria dito:”Mas onde você nada, ela se afoga” (p. 55,56).

Coincidentemente, li, na página da Revista Cult na internet, entrevista que Fábio Durão deu ali, por ocasião de um curso agora em fevereiro, no Espaço Cult.

Ele diz, sobre o fluxo de consciência como modo narrativo: “A importância foi um salto admirável na verossimilhança psicológica. Os personagens passam a se parecer muito mais com você ou comigo. Mas, no Ulysses, o Joyce faz algo surpreendente: ele não se contenta com essa conquista narrativa, que expande o horizonte do representável na literatura, mas no decorrer do livro a desmancha. A partir de certo ponto (e é difícil precisar exatamente onde) aquilo que queria ser o veículo da antropormorfização, a representação acurada do funcionamento da mente, surge como um mecanismo narrativo. Cria-se, assim, uma interessante tensão entre homem e máquina, orgânico e inorgânico” (HTTP://revistacult.uol.com.br/home/2013/02/metamorfose-literaria/ ).

2)- Cheguei a aprender um pouco de piano. Toquei sete músicas simples, todas esquecidas. Mas guardei o esforço e a alegria de      tocá-las.   Depois desisti. Achei que tinha alcançado meu limite. O que me deixava aflita era tocar as notas do piano até o final da música, não sabia se eu ia conseguir completar a sequência nos tempos certos. Muitas vezes parava e  começava de novo. Muitas vezes. A música era imprevisível; como falar em público.Lembrei  disso agora.

Como falar em público: queda livre. Aprendi a seguir a partitura: paraquedas.

3)-Outro dia ouvi Dimos  Goudaroulis na Casa do Núcleo. Violoncelo. Ele tocava e explicava. Falou muito da música como discurso. Bach. Ouço o CD dele, 6 suites a violoncello solo. No texto do encarte ele diz claramente que a música de Bach é uma música falada, que obedece às leis da retórica, como  um discurso. O ouvinte participa do fazer a música. Dimos Goudaroulis  toca fielmente o manuscrito de Anna Magdalena Bach. Foi maravilhoso ouvi-lo na Casa do Núcleo, assim como a música do CD surpreende a cada tempo.

4)- Acabo de assistir a este filme, divulgado no facebook por Antonio Torres, ele mesmo entrevistado por Marcelo Moutinho: http://www.youtube.com/watch?v=gO49pJ31-YU.

Essa terra, que li há muitos anos e ainda releio, me impressionou e impressiona muito, de um jeito que só O jogo da amarelinha, de Cortázar, tinha feito.

Só depois li Grande Sertão: Veredas  e aí fiquei com uma ideia segura da literatura que cola em mim. Li  todos com deslumbramento (embora  os estilos sejam completamente diferentes).

Li  Essa terra sem indicação ou referências;  passei na livraria, vi,  comprei o livro, e li. Tudo o que o escritor  conta na entrevista é sincero, absolutamente profundo e ao mesmo tempo simples,  delicado. A influência da música, do jazz, no ritmo de seu texto, está declarada na entrevista. Tempos, espaços, pontos.

Como a música é importante.

Sobre oficinas de escrita criativa

16 de fevereiro de 2013

livros

Escrevia diários, desabafos, cartas, inícios de contos, reflexões. Modo de organizar ideias.

De uns dez anos pra cá, exercito o impulso de escrever ficção. Imagino cenas.

E procuro meus leitores. Amigos e parentes são leitores exigentes. Leem a pessoa e não o texto, ou a pessoa + o texto. Às vezes são generosos. Interpretam o escrito a partir do nosso contexto pessoal. Quando um amigo gosta do que a gente escreve é maravilhoso. Pode acontecer que não, e ninguém tem culpa disso. Pode acontecer que o texto precise ser melhorado, mesmo, e daí?

Quando o texto ganha o próprio espaço, quando  se liberta do autor, aparece a literatura.

Acabei encontrando uma professora que passou a ler  meus escritos de uma maneira mais profissional, com  distanciamento: Malu Zoega. Foi uma fase legal, em que me afastei de mim e pude inventar. Lemos autores brasileiros com atenção de escritor e não só para desfrutar. Porque uma coisa é  ler por puro prazer e outra é ler decifrando.

Aí criei coragem e me inscrevi em uma oficina de escrita criativa. Procurando leitores desconhecidos. Escolhi o b_arco (barco.art.br), com  Marcelino Freire (autor de , “Balé ralé”, “Amar é crime”, “Contos negreiros”, “Angu de sangue”).  Marcelino capta, exatamente, o que está nos textos que lemos para o grupo em voz alta – e o que não está, também. Não basta escrever. Precisamos  ler os próprios escritos com atitude,  como se fôssemos o outro, para os outros.

Quem lê alto? (outro dia encontrei um programa de computador que é leitor automático, robótico. A gente ilumina o texto e ele lê, com voz feminina ou masculina, dá pra escolher. Meio esquisito, sempre esqueço de pegar o CD do programa).

Acho que já fiz três módulos da oficina de Marcelino e, no último, tive o maior prazer de ter aulas, também, com Luiz Bras, cuja literatura é instigante e contemporânea. Luiz não só escreve ficção (publicou, entre outros, “Sozinho no deserto extremo”) como escreve sobre a ficção (http://rascunho.gazetadopovo.com.br/tipoautor/colunista).  Escreve muito,  sabe muito.

Fiz, também, um módulo na Oficina de Escrita Criativa, em um andar bem alto do Edifício Itália, em jornalismo literário, com o jornalista Ivan Marsiglia. Lemos e conversamos sobre  Hunter Thompson, Matinas Suzuki, Truman Capote, Gay Talese, Norman Mailer, Christian Cruz e sobre  textos do próprio Ivan, super jornalista- escritor. Escrevi o Perfil de Dylan, publicado aqui, durante o curso.

Vi que dá pra escrever sobre realidade de um jeito pessoal; aprendi a brincar com a escrita na primeira pessoa, a pular para a terceira sem perder a coerência. No livro “A luta”, de Norman Mailer (Cosac Naify), ele às vezes se coloca na história como um terceiro. Refere-se a ele mesmo como Norman. É divertido.

Agora, no início do ano, fiz outro curso no b_arco: “Autobiografia, fabulação e humor”, com Newton Cannito e Eduardo Benaim.  Já sabia, mas tinha só a intuição, não a técnica, que ficção se escreve a partir da própria vida transformada, virada do avesso. É legal fazer os outros darem risada. Onde está escrito que ler é o melhor remédio?

É claro que quem escreve, escreve, e não precisa fazer oficina para escrever. Cada escritor é um escritor, não adianta. E cada leitor é um leitor, escreve mentalmente a história que lê. Imaginação é assim.

Mas, ouvindo o profissional que coordena a oficina, ouvindo o outro, dá pra perceber que há semelhantes no mundo, e fica mais fácil encontrar a persistência necessária para que o texto siga seu caminho até o ponto final. Efeitos do diálogo.

Às vezes a gente se complica nos grupos; nem sempre os ouvintes gostam do nosso texto, nem sempre compreendem, nem sempre nos fazemos entender. Mas, pelo menos,  estamos em um espaço  de discussão interessada. É bom estar em um grupo. Mas é bom silenciar, também. Dependendo do tempo. E da chuva.

Novo Blog

10 de setembro de 2011

Este blog estava em outro endereço wordpress. Não sei o que aconteceu que, num impulso,  eliminei o blog antigo e fiz  upload dos arquivos para este aqui.

Depois ficou tudo estagnado por um tempo. Aí pensei que era uma pena deixar os textos abandonados. Pensei em criar ainda outro blog, chamado Literalia, um nome que mistura literatura com marginalia. Marginalia são anotações que ficam fora do texto principal, nas margens.

Só que gosto do nome Lolita e gosto de Nabokov. Não consegui me desvencilhar deles. Então ficou assim.

Neste espaço organizo minhas ideias, registro impressões que se perderiam ou ficariam em cadernos guardados em armários.

Entre dicionários e discos de vinil

9 de março de 2011

Por que gosto de dicionários sem nem os leio tanto? É porque conseguem falar de diversos assuntos e ainda assim ter o mesmo nome de dicionário. Eles são simples, embora possam tratar de temas complicadíssimos. Dão a impressão de que tudo se resume a definições curtas e não precisamos prestar atenção em enredos, roteiros, análises. É só seguir a ordem alfabética e pronto.

Hoje, por coincidência, tirei da estante Dicionário de mulheres do Brasil, da Jorge Zahar Editor (Schuma Schumaher e Érico Vital Brasil). Fazia tempo que eu não olhava este livro. Abrindo assim aleatoriamente na letra C vejo o nome de Carolina Martuscelli Bori, nascida em 1924, apresentada como cientista, professora de psicologia da USP. Nunca tinha ouvido falar dela, e agora a conheci, ao lado de Carolina Nabuco, escritora, filha mais velha de Joaquim Nabuco.

Virando ainda as páginas, encontro Elisa Branco, definida como ativista política, nascida em Barretos. Foi presa em setembro de 1950 porque abriu uma faixa com dizeres “Nossos filhos não irão para a Coreia” em desfile no vale do Anhangabaú. Foi condenada a 4 anos e 5 meses de prisão, mas foi absolvida pelo Supremo Tribunal Federal em 1951, depois de campanhas em seu favor.

Depois o Dicionário fala de Isabel, índia escrava do século XVI, de Lourença Correia, condenada pela inquisição por bigamia no século XVIII, de Madalena Pimentel, apresentada como delatora no século XVI. Ela teria dito a inquisidor, visitador da Santa Inquisição, que certa pessoa comia carne às sextas-feiras, o que seria indício de prática judaizante. Fiquei impressionada com essa delação. Que incrível a pessoa passar da inquisição a um dicionário como delatora. Mas dicionários são assim mesmo, explicam de tudo, sem juízo de valor.

Mais coincidência ainda, hoje, olhando discos antigos de vinil,  encontrei um chamado Women in jazz: swingtime to modern. E li, na capa, sobre certa preocupação com o fato de as mulheres não terem merecido desde logo toda a atenção da indústria de entretenimento. Os textos sobre jazz são sempre românticos, bem escritos, nostálgicos já no início.

 Revi New York, New York no sábado de carnaval. A evolução da personagem de Liza Minelli no decorrer do filme mostra tudo sobre o esforço feminino para o exercício do talento.  Um pouco over o final, mas…New York, New York.

Na Patagônia

20 de janeiro de 2011

Agora alguns dias se passaram e 2011 começou. Estou na Patagônia, Argentina, em uma cidade chamada El Chalten. Se você não for esportista radical, não passe a noite aqui. Mesmo as caminhadas mais fáceis acontecem no vento. Não sei se é assim sempre, ou se os guias não nos deram atenção, mas ficamos perdidos no meio do nada. Fizemos um passeio de barco até o Glaciar Vedma e ainda não vimos o Perito Moreno, que está em El Calafate. Valeu, o Vedma é poderoso. Mas as outras horas no quarto do hotel são desoladoras. Aqui não tem celular e a internet é muito lenta.
O pior é que li na internet que um alpinista brasileiro importante morreu ao descer o Fitz Roy, pico relevante. E ninguém fala nada, não se comenta o episódio. Para eles é um episódio, eles sabem que o lugar é difícil e quem se aventura conhece o risco. E o corpo dele não foi recuperado porque não podem arriscar mais vidas no salvamento, parece. E, provavelmente, ou certamente, ele morreu. Estou aqui onde aconteceu essa tragédia e é como se nada tivesse acontecido. O vento leva tudo.
E agora cheguei em São Paulo. Demorei, mas cheguei em casa. Vi Perito Moreno, El Calafate, Buenos Aires outra vez, tudo isso. Em 11 dias estive em 5 ou 6 cidades da Argentina, fui ao fim do mundo, ao Canal de Beagle, vi pinguins, leões, elefantes, lobos, todos marinhos, animais desconhecidos para mim (guanacos) e coelhos, até. Vi gelo, muito gelo.
Ficou a impressão de que não dá pra chegar muito perto de nada porque a natureza engole a gente. Gelo e bicho; pouca gente, mas do mundo todo. Se tivesse ido ao Rio de Janeiro, mais perto, teria passado maus momentos. Em São Paulo mesmo uma enchente poderia ter me surpreendido. Mas aqui estou, procurando o livro sobre Darwin e a viagem no Beagle. Preciso desse livro.
Nós navegamos no Canal de Beagle, em Ushuaia; mas Ushuaia merece uma narrativa singular, ficou bem destacada na nossa viagem.
Voltando à Patagônia – esse é nome é tão esquisito -, a viagem no momento em que acontece é um pouco cansativa, porque a gente anda, anda (de van, ônibus ou avião) e vê as paisagens por algumas horas e depois anda outra vez…É tão longe tudo que não dá pra conviver direito com as pessoas ou com as paisagens, é só ir, comer e ver, ir, comer e ver. E beber vinho.
Viagens são intervalos nos nossos cenários e vivemos por um tempo possibilidades de uma nova vida, de uma vida diferente, em outro contexto. É bom que as viagens provoquem mudanças, mas isso nem sempre acontece, pois algumas vezes ficamos impermeáveis às transformações. Tenho a sorte de ficar perplexa, de não me envolver muito e de me assustar. Aí, depois, estudo para compreender. Compro livros em viagens e livros depois das viagens, sobre as viagens. Antes, não. Gosto de chegar no lugar sabendo muito pouco, o essencial.
Visitamos um museu de dinossauros em uma cidade chamada Trelew, perto do aeroporto em Trelew, perto de Puerto Madryn, cidade onde se hospeda quando se quer visitar a Peninsula Valdés (aliás, um hotel muito bom em Puerto Madryn é o Território; moderno, com chão de cimento queimado, colunas de concreto, tem uma decoração que acolhe e ao mesmo tempo é sóbria, principalmente na sala de estar). No Museu Paleontológico Egidio Feruglio há esqueletos originais de dinossauros e outros achados de antes de tudo.
Essa região tem forte influência galesa, por isso os nomes das cidades são diferentes do espanhol, não se sabe nem pronunciar. Mas Trelew é Trelew mesmo, o w tem som de u e não se pronuncia, lá, com acento inglês. É bom lembrar que o galês é bem diferente do inglês, também. E nessa região, principalmente em uma cidade pequena chamada Gaiman, há inúmeras casas de chá. Uma delas teria sido visitada por Lady Dy em 1995, mas não fomos lá. Fomos a uma outra, onde comemos pães com queijo e manteiga e bolos diversos. Devo ser sincera e dizer que os bolos não estavam muito bons. Embora os guias de viagem enalteçam as casas de chá, elas bucólicas e voltadas para turistas. A gente se sente meio enganado quando sai de lá, sem razão, porque o que é prometido é servido. Mas, mesmo assim, a fantasia do chá não se concretiza.
Vimos pinturas rupestres em El Calafate (Punta Walichu). Ficam perto do Lago Argentino, o 3º maior lago da América Latina, verde esmeralda. Mas não são tão nítidas como as que vi na Chapada Diamantina, e algumas rochas receberam inscrições entre 1940 e 1950, foram rabiscadas. E o curioso é que algumas pinturas são reproduções de outras mais inacessíveis, de outros lugares. Optaram pelas reproduções exatas para que os visitantes possam ter uma idéia de tudo. Não tirei fotografias das reproduções, só das originais.
Ainda falta falar sobre o Glaciar Perito Moreno (nem falei dos pingüins e dos elefantes marinhos, meus preferidos). De El Calafate, vai-se até ele de carro ou ônibus, em excursão programada, talvez. Fomos com um grupo da agência All Patagonia. O guia era um apaixonado pelo glaciar e já o tinha visto à noite, de manhã cedo, em vários momentos e de várias formas.
Chega-se até o Glaciar e há ali uma enorme lanchonete, um tipo de restaurante popular onde as filas andam rápido e os visitantes falam diversas línguas. As pessoas são do mundo inteiro. Embora, àquela altura, já se tenha tido um vislumbre da geleira na estrada, caminhar até perto dela pelas escadarias de metal e madeira é necessário.
E aí a gente vê que aquele gelo todo deve ter vindo de outro lugar, não da terra. Pode ser uma amostra do mundo extraterrestre. É uma miragem, um grande quadro emoldurado, não sei. Mas dá um pouco de medo, a qualquer momento aquilo tudo pode derreter e se transformar em um tsunami? E depois a gente entra no ônibus e quem quiser faz um passeio de barco até mais perto dele. Eu já tinha feito o passeio até perto do Glaciar Vedma. É frio, parece que um iceberg vai surgir como um submarino (é assim que eles surgem, disseram, como um submarino).
É impressionante e precisa ser visto pelo menos uma vez na vida, assim como se deve ver o mar.
Encontrei na internet este artigo interessante sobre Perito Moreno (a pessoa, não o Glaciar):
http://www.usp.br/ran/ojs/index.php/angelusnovus/article/viewFile/13/pdf_5

Pet Fashion Week e poodles gigantes

30 de abril de 2010

Sábado fui à Pet Fashion Week, no Sheraton, em São Paulo. Nunca tinha ido a uma Fashion Week e começar por uma pet me pareceu buena idea. Queria ver cães fofos, bem vestidos, cheirosos. E consegui. Vi até um concurso de tosa de poodles gigantes. Eram quatro, dois brancos e dois pretos. Fincaram as quatro patas sobre uma mesa e os groomers cortavam, raspavam, davam formas extravagantes aos pelos fofos e longos. Achei que o branco decorado com símbolos de cartas do baralho venceria. Estava muito original. Os juízes o examinaram com bastante atenção. Mas dias depois vi na internet que o poodle tosado de maneira mais lisa, simples, vencera. Fiquei um pouco surpresa, mas pensei que o critério talvez fosse a elegância e não a extravagância. Foi um bom resultado, embora inesperado (http://www.petfashionweeksp.com/index.php/concurso-de-tosa).

Imagens dispersas

11 de abril de 2010

Assisti Julie & Julia ontem, no DVD. O filme tem momentos muito bons e Meryl Streep vale em qualquer ocasião. Se eu pudesse ser outra pessoa, se se pudesse escolher, seria Meryl Streep. Acho que Meryl melhorou com a idade. Ficou mais leve, mais alegre. Deve ser uma pessoa calorosa, gostosa de ficar perto.
A atriz que interpreta Julie, Amy Adams, interpretou Amelia Earhart em Uma noite no Museu 2. É tão cativante, quando assistia ao filme queria que a fita fosse para o presente só para vê-la atuar, cozinhando, escrevendo e conversando com Julia Child. Mas depois que o filme terminou voltei para o passado e fui ao youtube e vi a própria Julia Child e dei mais valor ainda à interpretação de Meryl Streep.
As imagens dessas atrizes me lembram outras atrizes, como por exemplo Vivian Leigh em A ponte de Waterloo, que assisti recentemente, e em E o vento levou…E Penelope Cruz. E Jane Fonda em Julia.
Voltando a Julie & Julia, fiquei pensando, se eu dialogasse com um personagem do passado, transportando para o presente alguma experiência, atualizando idéias ou pensamentos, renovando a persona, faria isso com Marilyn Monroe e com Roberto Bolaño. Os dois não se parecem em nada, mas adoraria conversar com Bolaño e ser um pouquinho Marilyn Monroe, pelo menos quando ela cantava para os soldados na Coreia. E de Bolaño nem gosto tanto do que ele escreve, acho muito longo, mas deve ter sido uma pessoa muito interessante. Aqueles óculos dele, aquele jeito sério de falar…Gostar de verdade gosto mesmo de Cortázar. Mas eu jamais poderia me imaginar sendo Julio Cortázar. Seria muita pretensão.
A ponte de Waterloo é um filme que só vale por Vivian Leigh e sua dança deslizante. O personagem interpretado por Robert Taylor é muito bobo, não fala nada de interessante o filme inteiro, tem uma inocência insuportável para a época. Na guerra a inocência é imperdoável.
Essas imagens que tenho dos outros e de mim mesma misturam-se na memória e na internet. Se quero ver alguém, vou ao youtube imediatamente e vejo. Vi até Regina Duarte na novela Selva de Pedra, de 77, dizendo para um Francisco Cuoco/Cristiano estupefato ao ver sua falecida mulher Simone em uma festa: Meu nome é Rosana Reis. Acho que eu queria ser Janete Clair.
http://bit.ly/c12vpq

Ubatuba

21 de setembro de 2009

Ubatuba é uma cidade que fica no litoral norte de São Paulo. A cidade tem um centro movimentado, lojas, bancos, um comércio mais ou menos animado. Há um centrinho com sorveterias, um aquário muito frequentado, um ponto do Projeto Tamar, pizzarias, pousadas, restaurantes. E, no mais, mata atlântica e praias.

Há praias de muitos tipos: areias fofas, areias duras, tombo, ondas, mar bravo, mar manso. Há algumas cachoeiras. Faz alguns anos que vou para Ubatuba e não conheço muitos lugares de lá. Ubatuba é quase que infinita. Tem comunidades remanescentes de quilombo, tem comunidade indígena. É simples e sofisticada, é clara e misteriosa, é escura, às vezes, por causa de nuvens e chuva. Mas quando há sol, há o sol.

Às vezes a cidade me deixa melancólica. Ela faz com que eu entre dentro de mim e encare uma tristezinha de frente. É assim, não tem jeito. Eu poderia até desistir de ir pra lá. Mas ainda nem comecei a conhecer Ubatuba. Faltam tantas trilhas, tantos mares, tantas vistas, tantos morros…Como vou parar de ir se ainda nem comecei? E se eu ficar um pouco chateada, o que é que tem? Quando está sol e entro no mar com água no joelho e vejo meus pés e os minúsculos peixes em volta, penso que nenhum lugar, no mundo, se compara a uma praia em Ubatuba.

Os moradores de Ubatuba andam muito de bicicleta. Outro dia fiquei sabendo que as bicicletas, lá, são especiais: o breque fica na roda. Antigamente as bicicletas monark tinham o breque na roda. Há um restaurante lá que eu adoro, o Papagalli. É caro, mas muito gostoso, com mesas voltadas para o calçadão, de frente para a praia.

Ubatuba não tem muito charme, é uma cidade de praias autêntica, um pouco seca, bruta, até. Pessoas diferentes umas das outras vão pra lá e as pessoas que moram lá são todas muito determinadas a viverem lá, ainda que a opção signifique aceitar o fato de que a vida, em si, é um pouco monótona, mesmo, mas sentir o tempo passar devagar pode ser bom. Talvez um dia eu more em Ubatuba.

Eu sempre acho que o nosso olhar traz os lugares pra dentro da gente, como um prolongamento, uma extensão variável. Estar em Ubatuba é ser um pouco aquele vazio.