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Aprile, de Nanni Moretti

3 de abril de 2017

 

 

Acho que já falei aqui que sou fã do Nanni Moretti e de todos os seus filmes. Recentemente, revi Aprile, de 1998.

Em Aprile, Nanni Moretti é Nanni Moretti (acho que quase sempre Nanni Moretti é Nanni Moretti, mas  acredito muito na ficção de seus filmes). Ele está em crise e não sabe se fará um documentário sobre a história da Itália ou um musical sobre uma confeitaria e essa dúvida é muito séria, compreendo perfeitamente o drama dele.

Ele não sabe se filma as eleições entre esquerda e direita, se filma sobre refugiados da Albânia, se filma a  luta por autonomia da Padânia (eu nem conhecia essa questão), se filma o musical.

No meio tempo, ele coleciona e classifica recortes de jornal e revistas, o que evidencia um processo criativo muito interessante nessa linha que ele escolheu de fazer de si mesmo um personagem. O nascimento do filho acontece e transforma totalmente a vida dele. Totalmente, não. O filho faz com que ele seja mais autêntico, talvez, e leve a sério seus gostos e preferências. Ao perceber que viveu bastante, Moretti tem coragem de usar sua capa de lã.

E, é claro, faz o musical, sem se desfazer, também, de certa forma, do documentário.

Nanni Moretti reúne realidade e ficção, ele discute, o tempo todo, o artista no meio em que vive, como cria, como pode entender o mundo e ser ele mesmo, ao mesmo tempo. Eu me identifico muito com ele, até por que usa muito uma das minhas cores preferidas: vermelho. Usa um suéter vermelho e usa vermelho nos letreiros, acho que ele gosta dessa cor.

 

Hoje eu gostaria de escrever como Dashiell Hammett

12 de fevereiro de 2017

Organizando filmes, descobri preferência, em minha coleção, pelo cinema itaiano. De Roma cidade aberta até Aprile. Caro Diário, do Nanni Moretti, tem uma cena em que ele vai de moto até o lugar onde Pasolini morreu. A música é do álbum Köln Concert, do Keith Jarrett. Sem economia de tempo ou de espaço. A gente acompanha a moto, vendo o mar.

Ontem assisti  One from the heart, do Coppola. Gostei bem mais do que me lembro de ter gostado. Não é só a trilha sonora. Os atores, os diálogos e o cenário, encantam do começo ao fim. Melhor do que La la land? Mais espontâneo, talvez.

Separei os filmes que quero rever: Buena Vista Social Clube, Pina, Alice nas cidades. Assisti Hammett domingo. O personagem é o escritor Dashiel Hammett. É como se ele tivesse escrito a história que ele vive. Escreveu, provavelmente. Mas é ficção. O filme é do Wim Wenders e li depois na internet que foi filmado duas vezes. Só vimos a segunda. A primeira, com cenas externas, não foi aceita pelo estúdio e não existe mais. Dashiell Hammett marca uma fase dos romances policiais em que a história é contada ao mesmo tempo em que acontece. Sandra Lúcia Reimão, em O que é romance policial, da Brasiliense, explica que, na fase da série negra, que sucede o romance de enigma, a ação é importante e as paixões, os sentimentos, também. O detetive se envolve na trama e não há reflexões psicológicas. Sam Spade, o investidor de Dashiell Hammett, é falível, não é um super decifrador de pistas e sinais como são Holmes e Dupin. O mundo do crime reproduz a sociedade capitalista. O filme de Wim Wenders é muito fiel à série negra do romance policial. Hammett é o escritor que investiga de maneira atrapalhada, perde os originais que passa o filme procurando.

Estou começando um novo romance. Ainda em processo, pesquisando, me organizando mentalmente. Tenho um personagem, o nome dele é Tito (por enquanto). Nasceu na Alemanha, em Berlim oriental. Veio para o Brasil depois da queda do muro e, aqui, ficou rico, envolveu-se em encrencas que ainda desconheço, foi preso, libertado e voltou para Berlim. Aqui era casado com uma moça que ainda não tem nome, ela narra a história. Depois que ele saiu da cadeia, se separaram. Estou mais ou menos neste ponto, 8 páginas. Ainda não perdi meus originais e hoje, com o computador, é difícil isso acontecer porque tem muito espaço na nuvem para salvarmos nossos arquivos. É verdade que pode acabar a luz ou acontecer uma coisa forte que elimine nossa energia e destrua os dados armazenados em locais esquisitos. Por isso é bom imprimir de tempos em tempos. Hammett viu páginas datilografadas boiando, espalhadas, perdidas. Essa imagem das páginas espalhadas é incrível.

Eu me pergunto se preciso escrever um romance policial e me pergunto se o livro que escrevo é policial. Quero que tenha suspense. Como já li em Modiano, uma vez, não lembro onde, o melhor de escrever o livro é esse devaneio.

Já quis escrever como Simenon e como Chandler (ainda quero escrever como Chandler). Mas, hoje, quero escrever como Hammett.